Luiz
Carlos Azenha: Copa 2026 - A seleção que é um grito de Independência
Não é
uma seleção, mas um grito de Independência.
O time
que vai representar a Argélia na Copa do Mundo de 2026 talvez seja o com maior
identidade em relação ao país de origem.
Em 13
de abril de 1958, o Onze da Independência foi criado, em plena guerra civil dos
argelinos contra o domínio colonial da França.
A
equipe foi formada por atletas que jogavam em clubes franceses, se afastaram e
se afiliaram à Frente Nacional de Libertação, a FNL. A fuga espetacular da
França, através da Suiça e da Itália, atravessando o mar Mediterrâneo para
Tunis, onde estava o governo provisório, foi um grande golpe de propaganda.
Dez
jogadores profissionais foram bem sucedidos. Outros dois acabaram presos. A
França acionou a FIFA, que atendeu ao pedido de Paris de ‘proibir’ a seleção da
FNL. Mesmo assim, a equipe fez cerca de 80 amistosos internacionais e foi
extinto em 1962.
O jogo
de despedida foi em Belgrado, contra a Iugoslávia: vitória de 5 a 1.
Em 5 de
julho de 1962 a Argélia se tornou oficialmente independente, depois de 135 anos
de ocupação francesa.
A
seleção nacional herdou, então, o manto do time que a antecedeu.
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Sucesso precoce
Isso
explica o sucesso precoce dos argelinos na Copa do Mundo. A primeira
classificação foi para a Copa da Argentina, em 1982 . Na quarta aparição, no
Brasil, a Argélia passou para a segunda fase depois de golear a Coreia do Sul e
empatar com a Rússia.
No
Beira Rio, os argelinos empataram com a futura campeã Alemanha no tempo
regulamentar, em 0 a 0. Na prorrogação, os alemães fizeram 2 a 1.
Mas a
zebra histórica provocada pelo argelinos foi a vitória sobre a então Alemanha
Ocidental, em 1982, na Copa da Espanha, por 2 a 1. O último jogo da fase de
grupos entrou para a História quando os alemães derrotaram a Áustria por 1 a 0,
resultado na medida para classificar as duas seleções.
Depois
do gol alemão, os dois times ficaram tocando a bola de lado.
O
escândalo foi tamanho que obrigou a FIFA a mudar o regulamento da Copa e marcar
todos os jogos finais de um grupo, na primeira fase, para o mesmo horário.
Em
2026, os argelinos caíram no grupo de Argentina, Jordânia e Áustria.
O forte
time argelino não perdeu nenhuma partida nas eliminatórias. Nos amistosos, vem
de um empate com o Uruguai.
Mais
uma vez, o mundo vai ficar de olho no desempenho do ponta veterano Riyad Karim
Mahrez, que ajudou a levar o Leicester a um inédito título da Premier League,
passou pelo Manchester e hoje joga na Arábia Saudita.
Nascido
na França, Mahrez pediu para ser convocado pela seleção da Argélia, onde obteve
cidadania. Ele estreou na Copa do Brasil.
Agora
aos 35 anos de idade, o jogador já foi uma grande estrela dos tabloides de
fofoca do Reino Unido, depois de se casar com duas celebridades: a atriz Rita
Johal e agora a modelo Taylor Ward.
Uma das
forças da Argélia está no banco: o técnico Vladimir Petković tem um
aproveitamento de quase 70% desde que assumiu o time, com 27 vitórias em 39
jogos.
• A última Copa antes da guerra: o Mundial
de 1938 e o avanço do fascismo. Por
Penelope Nogueira
Copa do
Mundo sempre foi um torneio político. O Mundial frequentemente refletiu
disputas diplomáticas, interesses econômicos, rivalidades ideológicas e
projetos de poder. Ao longo da história, guerras provocaram cancelamentos do
torneio, seleções foram boicotadas ou excluídas por conflitos internacionais, e
governos utilizaram o futebol como ferramenta de propaganda nacional.
Décadas
antes das discussões modernas sobre sanções esportivas, exclusões
internacionais e instrumentalização política do esporte, a Copa do Mundo de
1938 já simbolizava essa relação entre futebol e poder. Realizado na França, o
torneio aconteceu em um dos períodos mais tensos do século XX, quando a Europa
observava a ascensão do fascismo e se aproximava rapidamente da Segunda Guerra
Mundial.
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Um mundo à beira da guerra
Quando
a bola começou a rolar em junho de 1938, o continente europeu já vivia um clima
de instabilidade extrema. Adolf Hitler consolidava o poder da Alemanha nazista,
Benito Mussolini fortalecia o regime fascista italiano e a Guerra Civil
espanhola aprofundava a polarização política no continente.
Naquele
mesmo ano, meses antes do Mundial, a Alemanha havia anexado a Áustria no
episódio conhecido como Anschluss. A seleção austríaca, considerada uma das
mais fortes do mundo na época, desapareceu do torneio após a anexação. Alguns
jogadores foram incorporados à equipe alemã, enquanto outros se recusaram a
atuar sob o regime nazista.
A Copa,
portanto, acontecia em meio ao colapso político da Europa democrática.
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O boicote sul-americano
A
escolha da França como sede gerou revolta na América do Sul. Havia uma
expectativa de alternância entre Europa e América do Sul após os Mundiais de
1930, no Uruguai, e 1934, na Itália. A decisão da FIFA de realizar mais uma
edição em território europeu foi vista como favorecimento político e econômico
às potências do continente.
Como
resposta, Argentina e Uruguai decidiram boicotar a competição. O caso uruguaio
carregava um peso simbólico ainda maior: campeão da primeira Copa do Mundo em
1930, o país já havia protestado contra a baixa participação europeia no
torneio disputado em Montevidéu.
O
boicote esvaziou parte da força sul-americana na competição e aumentou a
percepção de que a FIFA era fortemente centralizada nos interesses europeus,
uma crítica que atravessaria décadas da história do futebol.
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A Copa como propaganda fascista
Nenhum
país entendeu tão rapidamente o potencial político do futebol quanto a Itália
fascista de Benito Mussolini.
A
seleção italiana chegou à França como atual campeã mundial após vencer a Copa
de 1934, torneio organizado pelo próprio regime fascista em território
italiano. Na época, Mussolini já utilizava o esporte como instrumento de
propaganda nacionalista, buscando associar as vitórias esportivas à ideia de
superioridade do Estado fascista.
Em
1938, esse projeto político ganhou ainda mais força.
A
delegação italiana carregava símbolos do regime e realizava a saudação fascista
antes das partidas, gesto que provocava reações hostis do público francês. Em
Marselha, antes da partida contra o Brasil, os jogadores italianos chegaram a
ser vaiados intensamente ao fazerem a saudação ligada ao fascismo.
Dentro
de campo, a Itália venceu novamente. A equipe derrotou Hungria por 4 a 2 na
final e conquistou o bicampeonato mundial, algo inédito até então. A vitória
consolidou a imagem da seleção italiana como potência do futebol e serviu
diretamente aos interesses políticos de Mussolini.
A
imprensa italiana alinhada ao regime transformou o título em símbolo da suposta
força e eficiência do fascismo. O futebol passava a funcionar como uma extensão
da propaganda estatal, reforçando a ideia de unidade nacional e superioridade
italiana em um momento de crescente militarização europeia.
O
Mundial de 1938 ajudou a consolidar internacionalmente essa estratégia política
baseada no esporte, algo que seria repetido posteriormente por diversos
governos ao redor do mundo, inclusive pelo Brasil anos depois.
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O Brasil de Leônidas da Silva
Apesar
do contexto político turbulento, a Copa também marcou a consolidação do futebol
brasileiro no cenário internacional.
A
seleção brasileira terminou em terceiro lugar, sua melhor campanha até então em
Copas do Mundo, e revelou ao mundo um dos grandes nomes da história do esporte:
Leônidas da Silva.
Conhecido
como “Diamante Negro”, o atacante encantou o torneio com dribles, velocidade e
improviso. Artilheiro da competição com sete gols, Leônidas virou símbolo da
criatividade do futebol brasileiro e ajudou a popularizar ainda mais o esporte
no país.
Foi
naquela Copa que surgiu um dos episódios mais emblemáticos da carreira do
jogador. Na vitória brasileira por 6 a 5 sobre a Polônia, sob forte chuva e
gramado encharcado, Leônidas marcou um gol descalço após perder uma das
chuteiras durante a jogada.
A
campanha brasileira, no entanto, também ficou marcada por controvérsias. Na
semifinal contra a Itália, o técnico Adhemar Pimenta decidiu poupar alguns
titulares, incluindo Leônidas, acreditando que o Brasil já estava garantido na
final. A estratégia fracassou: os italianos venceram por 2 a 1 e avançaram para
a decisão.
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A última Copa antes do silêncio
A Copa
do Mundo de 1938 acabou entrando para a história como a última edição realizada
antes da Segunda Guerra Mundial.
Com o
início do conflito em 1939, o futebol internacional praticamente parou. As
Copas previstas para 1942 e 1946 foram canceladas, e o torneio só voltou a
acontecer em 1950, no Brasil.
Por
isso, muitos historiadores enxergam o Mundial da França como uma espécie de
“última dança” do futebol antes do colapso provocado pela guerra. Enquanto
jogadores brilhavam em campo, a Europa já caminhava para um dos períodos mais
violentos da história moderna.
A Copa
de 1938 permanece como um dos maiores exemplos de que futebol e política jamais
estiveram separados.
Fonte:
Fórum

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