quarta-feira, 27 de maio de 2026

Luiz Carlos Azenha: Copa 2026 - A seleção que é um grito de Independência

Não é uma seleção, mas um grito de Independência.

O time que vai representar a Argélia na Copa do Mundo de 2026 talvez seja o com maior identidade em relação ao país de origem.

Em 13 de abril de 1958, o Onze da Independência foi criado, em plena guerra civil dos argelinos contra o domínio colonial da França.

A equipe foi formada por atletas que jogavam em clubes franceses, se afastaram e se afiliaram à Frente Nacional de Libertação, a FNL. A fuga espetacular da França, através da Suiça e da Itália, atravessando o mar Mediterrâneo para Tunis, onde estava o governo provisório, foi um grande golpe de propaganda.

Dez jogadores profissionais foram bem sucedidos. Outros dois acabaram presos. A França acionou a FIFA, que atendeu ao pedido de Paris de ‘proibir’ a seleção da FNL. Mesmo assim, a equipe fez cerca de 80 amistosos internacionais e foi extinto em 1962.

O jogo de despedida foi em Belgrado, contra a Iugoslávia: vitória de 5 a 1.

Em 5 de julho de 1962 a Argélia se tornou oficialmente independente, depois de 135 anos de ocupação francesa.

A seleção nacional herdou, então, o manto do time que a antecedeu.

<><> Sucesso precoce

Isso explica o sucesso precoce dos argelinos na Copa do Mundo. A primeira classificação foi para a Copa da Argentina, em 1982 . Na quarta aparição, no Brasil, a Argélia passou para a segunda fase depois de golear a Coreia do Sul e empatar com a Rússia.

No Beira Rio, os argelinos empataram com a futura campeã Alemanha no tempo regulamentar, em 0 a 0. Na prorrogação, os alemães fizeram 2 a 1.

Mas a zebra histórica provocada pelo argelinos foi a vitória sobre a então Alemanha Ocidental, em 1982, na Copa da Espanha, por 2 a 1. O último jogo da fase de grupos entrou para a História quando os alemães derrotaram a Áustria por 1 a 0, resultado na medida para classificar as duas seleções.

Depois do gol alemão, os dois times ficaram tocando a bola de lado.

O escândalo foi tamanho que obrigou a FIFA a mudar o regulamento da Copa e marcar todos os jogos finais de um grupo, na primeira fase, para o mesmo horário.

Em 2026, os argelinos caíram no grupo de Argentina, Jordânia e Áustria.

O forte time argelino não perdeu nenhuma partida nas eliminatórias. Nos amistosos, vem de um empate com o Uruguai.

Mais uma vez, o mundo vai ficar de olho no desempenho do ponta veterano Riyad Karim Mahrez, que ajudou a levar o Leicester a um inédito título da Premier League, passou pelo Manchester e hoje joga na Arábia Saudita.

Nascido na França, Mahrez pediu para ser convocado pela seleção da Argélia, onde obteve cidadania. Ele estreou na Copa do Brasil.

Agora aos 35 anos de idade, o jogador já foi uma grande estrela dos tabloides de fofoca do Reino Unido, depois de se casar com duas celebridades: a atriz Rita Johal e agora a modelo Taylor Ward.

Uma das forças da Argélia está no banco: o técnico Vladimir Petković tem um aproveitamento de quase 70% desde que assumiu o time, com 27 vitórias em 39 jogos.

•        A última Copa antes da guerra: o Mundial de 1938 e o avanço do fascismo.  Por Penelope Nogueira

Copa do Mundo sempre foi um torneio político. O Mundial frequentemente refletiu disputas diplomáticas, interesses econômicos, rivalidades ideológicas e projetos de poder. Ao longo da história, guerras provocaram cancelamentos do torneio, seleções foram boicotadas ou excluídas por conflitos internacionais, e governos utilizaram o futebol como ferramenta de propaganda nacional.

Décadas antes das discussões modernas sobre sanções esportivas, exclusões internacionais e instrumentalização política do esporte, a Copa do Mundo de 1938 já simbolizava essa relação entre futebol e poder. Realizado na França, o torneio aconteceu em um dos períodos mais tensos do século XX, quando a Europa observava a ascensão do fascismo e se aproximava rapidamente da Segunda Guerra Mundial.

<><> Um mundo à beira da guerra

Quando a bola começou a rolar em junho de 1938, o continente europeu já vivia um clima de instabilidade extrema. Adolf Hitler consolidava o poder da Alemanha nazista, Benito Mussolini fortalecia o regime fascista italiano e a Guerra Civil espanhola aprofundava a polarização política no continente.

Naquele mesmo ano, meses antes do Mundial, a Alemanha havia anexado a Áustria no episódio conhecido como Anschluss. A seleção austríaca, considerada uma das mais fortes do mundo na época, desapareceu do torneio após a anexação. Alguns jogadores foram incorporados à equipe alemã, enquanto outros se recusaram a atuar sob o regime nazista.

A Copa, portanto, acontecia em meio ao colapso político da Europa democrática.

<><> O boicote sul-americano

A escolha da França como sede gerou revolta na América do Sul. Havia uma expectativa de alternância entre Europa e América do Sul após os Mundiais de 1930, no Uruguai, e 1934, na Itália. A decisão da FIFA de realizar mais uma edição em território europeu foi vista como favorecimento político e econômico às potências do continente.

Como resposta, Argentina e Uruguai decidiram boicotar a competição. O caso uruguaio carregava um peso simbólico ainda maior: campeão da primeira Copa do Mundo em 1930, o país já havia protestado contra a baixa participação europeia no torneio disputado em Montevidéu.

O boicote esvaziou parte da força sul-americana na competição e aumentou a percepção de que a FIFA era fortemente centralizada nos interesses europeus, uma crítica que atravessaria décadas da história do futebol.

<><> A Copa como propaganda fascista

Nenhum país entendeu tão rapidamente o potencial político do futebol quanto a Itália fascista de Benito Mussolini.

A seleção italiana chegou à França como atual campeã mundial após vencer a Copa de 1934, torneio organizado pelo próprio regime fascista em território italiano. Na época, Mussolini já utilizava o esporte como instrumento de propaganda nacionalista, buscando associar as vitórias esportivas à ideia de superioridade do Estado fascista.

Em 1938, esse projeto político ganhou ainda mais força.

A delegação italiana carregava símbolos do regime e realizava a saudação fascista antes das partidas, gesto que provocava reações hostis do público francês. Em Marselha, antes da partida contra o Brasil, os jogadores italianos chegaram a ser vaiados intensamente ao fazerem a saudação ligada ao fascismo.

Dentro de campo, a Itália venceu novamente. A equipe derrotou Hungria por 4 a 2 na final e conquistou o bicampeonato mundial, algo inédito até então. A vitória consolidou a imagem da seleção italiana como potência do futebol e serviu diretamente aos interesses políticos de Mussolini.

A imprensa italiana alinhada ao regime transformou o título em símbolo da suposta força e eficiência do fascismo. O futebol passava a funcionar como uma extensão da propaganda estatal, reforçando a ideia de unidade nacional e superioridade italiana em um momento de crescente militarização europeia.

O Mundial de 1938 ajudou a consolidar internacionalmente essa estratégia política baseada no esporte, algo que seria repetido posteriormente por diversos governos ao redor do mundo, inclusive pelo Brasil anos depois.

<><> O Brasil de Leônidas da Silva

Apesar do contexto político turbulento, a Copa também marcou a consolidação do futebol brasileiro no cenário internacional.

A seleção brasileira terminou em terceiro lugar, sua melhor campanha até então em Copas do Mundo, e revelou ao mundo um dos grandes nomes da história do esporte: Leônidas da Silva.

Conhecido como “Diamante Negro”, o atacante encantou o torneio com dribles, velocidade e improviso. Artilheiro da competição com sete gols, Leônidas virou símbolo da criatividade do futebol brasileiro e ajudou a popularizar ainda mais o esporte no país.

Foi naquela Copa que surgiu um dos episódios mais emblemáticos da carreira do jogador. Na vitória brasileira por 6 a 5 sobre a Polônia, sob forte chuva e gramado encharcado, Leônidas marcou um gol descalço após perder uma das chuteiras durante a jogada.

A campanha brasileira, no entanto, também ficou marcada por controvérsias. Na semifinal contra a Itália, o técnico Adhemar Pimenta decidiu poupar alguns titulares, incluindo Leônidas, acreditando que o Brasil já estava garantido na final. A estratégia fracassou: os italianos venceram por 2 a 1 e avançaram para a decisão.

<><> A última Copa antes do silêncio

A Copa do Mundo de 1938 acabou entrando para a história como a última edição realizada antes da Segunda Guerra Mundial.

Com o início do conflito em 1939, o futebol internacional praticamente parou. As Copas previstas para 1942 e 1946 foram canceladas, e o torneio só voltou a acontecer em 1950, no Brasil.

Por isso, muitos historiadores enxergam o Mundial da França como uma espécie de “última dança” do futebol antes do colapso provocado pela guerra. Enquanto jogadores brilhavam em campo, a Europa já caminhava para um dos períodos mais violentos da história moderna.

A Copa de 1938 permanece como um dos maiores exemplos de que futebol e política jamais estiveram separados.

 

Fonte: Fórum

 

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