Enquanto
Brasil discute fim da escala 6x1, Argentina vai na contramão do mundo com
reforma que retira direitos
Enquanto
o Brasil discute a possibilidade
de acabar com a escala 6x1 — em linha com a pressão que tem
feito diversos países do mundo adotarem jornadas mais curtas em busca de maior
equilíbrio entre trabalho e vida pessoal —, a Argentina caminha
na direção oposta.
Em meio
a altas taxas de informalidade e crescimento no desemprego, o país aprovou em
fevereiro uma reforma que promete "modernizar" as relações
trabalhistas, gerar investimentos e ajudar a recuperar a economia, como defende
o governo de
Javier Milei.
Do
outro lado, trabalhadores e sindicatos protestam nas ruas contra as mudanças,
que consideram um retrocesso e uma ameaça aos direitos e bem-estar dos
argentinos, enquanto especialistas apontam que, embora seja bem-vinda uma
atualização das normas que regem o mercado de trabalho, os efeitos positivos
são mais limitados do que projeta a Casa Rosada.
A Lei
de Modernização do Trabalho também tem sido contestada na Justiça, sem sucesso.
Após uma ação coletiva apresentada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT),
um tribunal federal ratificou a reforma no início de maio. Mas há outros
processos em tramitação. Até que sejam julgados, a nova lei está em vigor.
Entre
as principais alterações, estão a redefinição do cálculo das indenizações por
demissão sem justa causa, excluindo da base de cálculo do valor a ser pago aos
trabalhadores itens como 13º salário e bônus, a possibilidade de fracionamento
do período de 30 dias de férias e a classificação de motoristas e entregadores
de aplicativos como "trabalhadores independentes" ou autônomos.
Uma das
principais críticas dos sindicatos argentinos é contra a ampliação da lista de
"serviços essenciais", que têm fortes restrições ao direito de greve,
incluindo os setores da educação e alfandegário.
A nova
lei também passou a permitir jornadas de até 12 horas diárias, mas com respeito
ao limite máximo de 48 horas semanais.
Isto é,
pelo novo texto, a jornada de trabalho da Argentina permanece a mesma (8 horas
diárias e 48 horas semanais). O que muda é que empregador e empregado são
autorizados a fazer acordos específicos em determinadas situações.
Mesmo
assim, devem ser respeitados os intervalos mínimos de descanso: pelo menos 12
horas entre cada turno e 35 horas de descanso semanal. O texto também autoriza
o uso do banco de horas para que as horas trabalhadas a mais em um dia possam
ser compensadas com uma jornada mais curta em outro.
Para
Miguel Ángel Maza, professor de Direito do Trabalho da Universidade de Palermo,
não se trata de um aumento da jornada de trabalho, já que o limite máximo por
semana permanece o mesmo, mas sim de uma flexibilização na divisão dos
expedientes ao longo das 48 horas permitidas.
"Não
acredito que essa mudança será muito utilizada pelas empresas, porque não é
conveniente. A exceção talvez sejam grandes fábricas ou montadoras, que,
trabalhando algumas horas extras por dia, possam encurtar a semana e economizar
um dia de energia", diz Maza à BBC News Brasil.
"Mas,
apesar de não se tratar de um aumento da jornada geral de trabalho, a mensagem
que [a reforma] passa é de retrocesso."
A
reforma na Argentina chama atenção especial no Brasil, onde atualmente a Câmara
de Deputados caminha para aprovar o fim da escala de trabalho 6x1 com um
período curto de transição.
Na
segunda-feira (25/5), o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) chegaram a um acordo sobre o texto que será votado. A
proposta de emenda à Constituição (PEC) estabelece a obrigatoriedade de ao
menos dois dias de folga por semana.
Se a
alteração constitucional for promulgada, a nova regra deve entrar em vigor em
até 60 dias.
A
proposta em discussão também prevê uma redução da jornada de 44 horas semanais
para 40 horas, que entraria em vigor em duas etapas. Primeiro, haveria a
redução para 42 horas, também após os 60 dias. O limite de 40 horas seria
alcançado após um ano. A mudança prevê que os trabalhadores beneficiados não
sofrerão redução salarial.
A
expectativa é que o texto avance ainda nesta semana no plenário da Câmara e
siga depois para o Senado.
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Argentina na contramão
Se a
PEC for promulgada, o Brasil entrará para a lista de países que instituíram
reduções na jornada de trabalho na última década, entre eles vários da América
Latina.
O Chile
aprovou em abril de 2023 uma lei que determinou a redução gradual da jornada de
45 horas para 40 horas semanais, sem redução de salário. Em 2024, a jornada foi
para 44 horas. Em abril de 2026, baixou para 42, devendo chegar a 40 em 2028.
Na
Colômbia, a diminuição da jornada de 48 para 42 horas semanais foi promulgada
em julho de 2021 pelo então presidente Iván Duque. A primeira redução foi em
2023, quando caiu para 47. Em julho de 2026, deve chegar às 42 horas.
Em
março, o México também alterou sua legislação para encurtar a jornada de 48
para 40 horas. A mudança começa a ser aplicada, sem redução de salário, em
janeiro de 2027, de forma gradual, até chegar a 40 horas semanais em 2030.
Na
Europa, países como Holanda e Bélgica são frequentemente citados como parte de
uma vanguarda em que jornadas mais curtas e até semanas com apenas quatro dias
de trabalho estão se tornando realidade.
Na
Bélgica, o primeiro país da Europa a legislar sobre o assunto, os trabalhadores
ganharam em fevereiro de 2022 o direito de realizar uma semana de trabalho
completa em quatro dias em vez de cinco, sem perda de salário.
No
entanto, os belgas não têm a opção de trabalhar menos horas por semana. A lei
permite apenas que eles condensem a carga horária semanal, que é de no máximo
38 horas, em menos dias.
A lei
holandesa tem diversas particularidades, mas, de forma geral, os trabalhadores
não podem trabalhar mais de 48 horas por semana em um período de 16 semanas.
Ainda
assim, o país tem a média mais baixa de horas de fato trabalhadas por semana da
Europa: 32,1 horas, segundo dados da Eurostat, agência de estatísticas oficial
da União Europeia (UE).
Já na
França, a jornada de trabalho padrão é fixada legalmente em 35 horas semanais,
uma das menores do mundo.
Mesmo
no Brasil, a redução da jornada de 48 para 44 horas foi realizada há 38 anos,
durante a Constituinte de 1988.
Nesse
sentido, a Argentina parece estar indo na contramão do mundo, aponta a
economista Carla Beni, professora da Fundação Getúlio Vargas.
Segundo
a especialista, especialmente na América Latina, o movimento tem acontecido
impulsionado por governos de diferentes perfis ideológicos.
"É
a Argentina que vai em direção oposta do resto do mundo, enquanto o Brasil
abriu um debate para seguir os mesmos passos do Chile, da Colômbia e do México
e se adequar às diretrizes de bem-estar da Organização Internacional do
Trabalho [OIT]", afirma Beni.
A OIT
recomenda a redução das jornadas para 40 horas semanais e tempo máximo de
trabalho de até 48 horas por semana, desde que mediante pagamento de horas
extras.
Miguel
Maza concorda que a Argentina destoa da tendência global. "O limite de 48
horas semanais [estabelecido pela Argentina] ainda é muito alto para o mundo
moderno", diz.
O
especialista afirma, porém, que as mudanças aprovadas no país em fevereiro
deste ano têm caráter mais simbólico do que prático. "São pequenos
retrocessos no mercado de trabalho, mas não se trata de uma mudança
grave", avalia.
Mas a
mensagem que o governo Milei passa com a aprovação da reforma é mais
importante, diz Maza.
Enquanto
a Casa Rosada sinaliza vontade de mudança e comprometimento com a melhora da
economia para o empresariado, os trabalhadores "enxergam uma lei
retrógrada e que lhes tira direitos", resume.
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Crise econômica, informalidade e rigidez
O
cenário macroeconômico e do mercado de trabalho argentino ajudou o governo de
Javier Milei a conseguir a aprovação da reforma no Congresso, segundo os
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.
A taxa
de desemprego no país subiu para 7,5% no fim do ano passado, o nível mais alto
para um quarto trimestre desde a pandemia de covid-19.
Mas os
níveis recordes de informalidade são apontados como o maior problema do mercado
argentino, com quase metade dos trabalhadores sem direitos garantidos.
Segundo
os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), o
emprego informal atingiu 43% do total de empregos no segundo trimestre de 2025.
Esse
número representa quase 6 milhões de pessoas que não têm seguro saúde, licença
médica, indenização por demissão ou contribuições para a previdência.
Entre
os menores de 29 anos, a taxa chega a quase 6 em cada 10, e esse número é ainda
maior entre as mulheres jovens, segundo o Indec.
Os
dados não são isolados, com a insegurança no trabalho aumentando nos últimos 13
anos, com mais trabalhadores em empregos informais, de acordo com dados do
Sistema Integrado de Pensões da Argentina e da Pesquisa Permanente de
Domicílios.
Soma-se
a isso uma crise econômica duradoura e uma longa batalha do governo contra a
alta da inflação (32,4% no acumulado de 12 meses até abril), que reduz o poder
de compra.
Segundo
Miguel Maza, o Executivo argentino conseguiu chegar a um acordo no Legislativo
ao convencer aliados de que essa reforma trará investimentos.
"Para
o governo, é um sucesso político apresentar o projeto à comunidade empresarial,
ao Fundo Monetário Internacional [FMI] e ao governo dos Estados Unidos",
diz.
O
principal argumento de Milei e seus apoiadores é que a reforma tem a capacidade
de gerar mais empregos formais devido aos menores custos para as empresas.
"Esta
lei representa um ponto de virada na história trabalhista argentina",
afirmou a Presidência da República em um comunicado à imprensa após a aprovação
do projeto pelo Senado.
"Após
anos de litígios trabalhistas que beneficiaram apenas alguns, burocracia
excessiva e regulamentações obsoletas diante de profundas mudanças econômicas e
tecnológicas, estamos agora diante de uma profunda transformação que restaura a
previsibilidade, o dinamismo e a liberdade do mercado de trabalho."
Para
muitos setores da sociedade, a reforma representa ainda um debate há muito
esperado na Argentina, um país com longa tradição sindical e amplos direitos
trabalhistas que muitos consideram antiquados.
"Mesmo
em um mundo e uma economia que estavam mudando, tínhamos leis trabalhistas dos
anos 1970 que sofreram só algumas mudanças muito marginais", aponta Marina
Dal Poggetto, diretora da área de Economia da Universidade Austral, em Buenos
Aires, e professora da IAE Business School.
Segundo
a economista, essa rigidez do mercado de trabalho contribuiu para o aumento da
informalidade e do uso do chamado "monotributo", um regime tributário
simplificado para pequenos contribuintes, criado para facilitar a formalização
de autônomos — algo semelhante ao MEI e ao Simples Nacional no Brasil, mas que,
diante da inflação alta, do câmbio e dos controles fiscais, virou uma peça
central para trabalhadores independentes.
O
monotributo gerou boa parte do crescimento do emprego na Argentina nos últimos
anos, diz Dal Poggetto, mas é considerado "um problema fiscal a longo
prazo", porque prevê uma contribuição para a previdência social mais
baixa.
"São
necessários algo como cerca de 26 monotributistas para pagar uma aposentadoria
mínima", diz a economista.
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'Sem melhora na atividade econômica, não há emprego'
Mas, em
meio a acusações cruzadas e opiniões divergentes sobre o assunto, críticos não
veem vantagens na reforma e os mais céticos acreditam que ela deve simplesmente
manter o status quo.
Para
Miguel Ángel Maza, da Universidade de Palermo, a reforma, além de representar
um pequeno retrocesso para o trabalhador, não deve produzir mudanças
suficientes para que os empresários se sintam motivados a investir no país,
ampliar seus negócios ou contratar mais trabalhadores.
Ele
argumenta que, para promover o investimento, é necessário mudar as condições do
mercado e o sistema tributário argentino, que considera "muito
oneroso".
A
reforma inclui benefícios fiscais para incentivar as empresas a ampliarem o
número de funcionários. As empresas que contratarem desempregados,
trabalhadores autônomos ou ex-funcionários públicos receberão descontos nas
contribuições previdenciárias patronais durante os primeiros quatro anos.
Maza
reconhece essas mudanças, mas diz acreditar que o impacto será limitado.
Em
termos de redução do trabalho informal, Marina Dal Poggetto afirma que o
impacto ainda precisa ser estudado. Mas afirma acreditar que a situação do
mercado de trabalho argentino está muito conectada à estagnação no crescimento
e à saúde da economia geral, algo que a reforma não resolve.
Embora
as leis trabalhistas possam ajudar "um pouco mais ou um pouco menos na
margem", se a atividade econômica não crescer, é muito difícil haver
aumento do emprego, diz a especialista.
Em
governos anteriores, afirma Dal Poggetto, a condução de uma economia
"fechada demais", com controle de capitais e grande desigualdade,
impulsionou a informalidade, mas sem elevar as taxas de desemprego.
"Com
Milei, estamos vendo as taxas de desemprego subirem, ainda que em níveis
relativamente baixos", diz ela.
"Estamos
vendo, por assim dizer, um processo de tentativa de aumentar a produtividade da
economia, enquanto aumenta o desemprego. Mas ainda precisamos ver até que ponto
a flexibilidade da mão de obra atenua esse processo", avalia.
Para
Dal Poggetto, a alta no desemprego tende a levar mais argentinos à
informalidade, especialmente diante da facilidade proporcionada por empresas
como Uber e PedidosYa, um aplicativo de entrega de comida muito usado no país.
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'Este projeto de lei nos faz retroceder 100 anos'
Outro
problema que a reforma busca resolver, segundo o governo, são os altos custos
que as empresas argentinas têm com processos judiciais trabalhistas,
contribuições patronais e pessoais e indenizações em casos de demissão.
Com
esse foco, a reforma transferiu parte das atribuições da Justiça Nacional do
Trabalho para a Justiça comum ou federal.
O
projeto também redefiniu a fórmula para o cálculo da indenização por demissão,
restringindo o que constitui remuneração do empregado. Dessa forma, férias,
bônus e outros itens não incluídos no salário mensal foram excluídos do
cálculo.
A
principal mudança é que a empresa não pagará diretamente para demitir um
funcionário. Empresas grandes terão que pagar mensalmente valor equivalente a
1% dos salários ao novo Fundo de Assistência Laboral (FAL), enquanto empresas
pequenas e médias pagarão 2,5% dos salários. O fundo será responsável por pagar
as indenizações.
Marina
Dal Poggetto reconhece que o país vive um problema nesse setor. "Na
Argentina, com sua alta inflação, os mecanismos de indexação para ações
trabalhistas, especialmente as multas impostas na década de 1990 para tentar
formalizar o mercado de trabalho, acabaram sendo muito dispendiosos",
afirma a economista.
"Muitas
empresas, principalmente as pequenas, tiveram dificuldades para pagar
indenizações ou resolver processos judiciais decorrentes de demissões."
Dal
Poggetto afirma, porém, que ainda é muito cedo para avaliar se as medidas terão
efeito prático. "E, obviamente, qualquer efeito vai estar muito associado
à dinâmica da atividade econômica", pontua.
Miguel
Ángel Maza vê a criação do FAL como um dos pontos da reforma com maior
potencial de beneficiar o empresariado. Mas afirma que, ainda assim, o impacto
será mínimo. "Tenho a impressão de que com esse 1% não se financiará muita
coisa e que não terá sucesso", diz.
Para
Carla Beni, da FGV, a reforma se baseia na ideia de que, com regras
trabalhistas mais flexíveis, o empresário vai poder contratar mais.
"Mas
isso não se comprova na realidade, porque quem faz a contratação é a demanda.
Com uma atividade econômica forte, há mais contratações, independentemente do
custo, inclusive trabalhista", diz Beni.
Críticos
da reforma e sindicatos argentinos argumentam ainda que o FAL torna a demissão
sem custos para a empresa, ao mesmo tempo em que passa a usar recursos que
iriam para a Seguridade Social, prejudicando o sistema de previdência do país.
Há
preocupação também de que a nova lei incentive a demissão de trabalhadores,
porque os empregadores não hesitarão em usar o fundo criado especificamente
para esse fim.
Além
disso, a oposição aponta um esvaziamento da Justiça trabalhista e um
enfraquecimento dos sindicatos, especialmente com as limitações impostas às
greves.
"Longe
de ser uma lei que moderniza, é uma lei que nos faz retroceder e não acrescenta
nenhum novo direito aos trabalhadores. Pelo contrário, o que ela faz é gerar um
processo regressivo em termos de direitos, sem precedentes na Argentina",
disse o líder do bloco de oposição peronista, União pela Pátria, Germán
Martínez, sobre a lei.
"Este
projeto de lei nos faz retroceder 100 anos. Cem anos em direitos individuais,
em direitos coletivos. É uma busca que se centra, essencialmente, na
transferência de recursos econômicos dos trabalhadores para o setor
empregador", afirmou ainda o cossecretário da CGT argentina, Jorge Sola.
Fonte: Por
Julia Braun, da BBC News Brasil em
Londres

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