A
inimiga do empresariado: Defensores da escala 6x1 têm medo dessa mulher. Aqui
estão os motivos
Esta
não é mais uma reportagem da série Vaza Flávio. Mas, de certa forma, também
passa pelo senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, e pelo campo
político que ele representa.
Afinal,
em meio ao escândalo revelado por nós sobre suas relações com Daniel Vorcaro,
do Banco Master, o pré-candidato à Presidência resolveu entrar no debate para
atacar a proposta de emenda constitucional, a PEC, do fim da escala 6×1 e
defender uma alternativa baseada na “flexibilização” das jornadas de trabalho.
A
defesa de Flávio Bolsonaro é de um modelo alinhado ao discurso de entidades
empresariais que pressionam o Congresso contra a redução da carga horária,
conforme já reportamos aqui na newsletter Cartas Marcadas.
Esta
semana deve ser decisiva para o futuro da proposta. O relator da PEC, o
deputado federal Leo Prates, do Republicanos da Bahia, promete colocar o tema
em votação na quinta-feira, 28, após semanas de pressão de setores empresariais
para ampliar o período de transição ou arrancar compensações fiscais do
governo.
Nos
bastidores, representantes patronais e líderes da extrema direita tentam
emplacar desde a redução de encargos trabalhistas até uma transição de até dez
anos para implementar a mudança.
A
reação do empresariado não acontece por acaso. Depois de meses em que o debate
foi tratado como inviável ou “populista”, a proposta ganhou força política
real. O governo Lula abraçou a pauta, o presidente da Câmara dos Deputados,
Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, acelerou a tramitação na Câmara e até
parlamentares de direita passaram a perceber o potencial eleitoral do tema.
É nesse
contexto que uma economista da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp,
virou alvo da irritação de lobistas e representantes patronais em Brasília.
Enquanto empresários falam em desemprego e colapso econômico, a professora e
pesquisadora Marilane Teixeira passou a circular no debate público com a
apresentação de estudos que apontam justamente o contrário: a redução da
jornada para 40 horas pode gerar até 610 mil empregos no Brasil.
Nesta
edição, ela explica por que considera que o debate sobre o fim da escala 6×1
deixou de ser apenas econômico — e se tornou, sobretudo, uma disputa política
sobre o futuro do trabalho.
Entre
assessores parlamentares e até jornalistas que cobriram a tramitação da
proposta que prevê o fim da escala 6×1 na Comissão de Constituição e Justiça, a
CCJ, da Câmara dos Deputados, Teixeira é tratada como “terror das entidades
patronais”.
O
apelido tem razão de ser, já que o estudo coordenado pela economista no Centro
de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp confronta o que
defendem os empresários.
Segundo
ela, quando se consideram mecanismos reais — como ganhos de produtividade e
novas contratações —, o resultado do fim da escala 6×1 deve ser positivo, e não
negativo.
A
leitura da economista é de que a redução da jornada não surge como um risco,
mas como resposta a um modelo que já não se sustenta — com adoecimento,
rotatividade e fuga de trabalhadores.
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LEIA A
ENTREVISTA:
• Os estudos publicados por entidades
patronais falam em queda do Produto Interno Bruto, o PIB, com o fim da escala
6×1. O que vocês fizeram para responder a isso?
Marilane
Teixeira – O que nós fizemos foi usar exatamente a mesma metodologia, as mesmas
métricas desses estudos para dizer o seguinte: não, não há necessariamente
queda do PIB.
Muito
pelo contrário — dependendo do impacto sobre o setor, você pode ter ganho de
produtividade e pode ter geração de postos de trabalho. A ideia era justamente
responder aos estudos que estavam circulando, que tratavam da queda do PIB,
para mostrar que o problema não é econômico, o problema é político.
• Qual foi o ponto de partida do modelo de
vocês?
Teixeira
– Nós partimos do pressuposto de que o PIB se mantém inalterado. Porque o fato
de você ter quatro dias de trabalho não significa que as pessoas vão “congelar”
três dias — elas vão continuar se alimentando, saindo, pegando transporte, se
divertindo.
E
também não há redução de salário, porque a proposta é muito clara: é redução de
jornada sem redução de salário. Então, mantendo o PIB constante e reduzindo o
número de horas trabalhadas, o sistema precisa se reorganizar.
• Se o PIB não cai, como a economia
absorve essa redução da jornada?
Teixeira
– Se você mantém o PIB e reduz o número de horas trabalhadas, precisa compensar
o número de horas reduzidas — seja por ganho de produtividade ou por meio da
contratação de pessoas. Nós fizemos um modelo simples que indica justamente
isso: há caminhos diferentes dependendo do setor econômico.
• E como isso se distribui entre os
setores?
Teixeira
– Uma parte dos setores econômicos incorpora essa redução com ganho de
produtividade — são os setores mais intensivos em tecnologia. Setores que,
inclusive, já vêm praticando algum tipo de reorganização da jornada, como o 5
por 2, ainda que mantendo 44 horas semanais. Esses setores são absolutamente
compatíveis com a absorção de uma redução da jornada.
Por
outro lado, há uma parcela — justamente aquela mais submetida à escala 6×1,
como comércio, serviços, supermercados, shopping, farmácias — que continua
operando seis ou sete dias por semana. E aí, para esses setores, há impacto do
ponto de vista do emprego.
• Ou seja, nesses setores seria inevitável
contratar mais gente?
Teixeira
– Sim. Para esses setores, esses segmentos, haveria necessidade de compensar
essa redução da jornada contratando pessoas. Porque eles continuam funcionando
todos os dias da semana. Então, você precisa reorganizar a escala, precisa
substituir quem está descansando, e isso implica contratação.
• Quais números vocês encontraram a partir
desse modelo?
Teixeira
– Inicialmente, considerando a proposta original de reduzir a jornada para 36
horas semanais, nós chegamos a uma projeção de que o fim da escala 6x gerará em
torno de 4 milhões a 4,5 milhões de postos de trabalho.
E
também haveria um ganho de produtividade em torno de 4,6% para os setores
intensivos em tecnologia, que seriam desafiados a desenvolver progresso
técnico, inovação, mudança na organização do processo de trabalho e introdução
de tecnologia para obter maior produtividade — algo que historicamente sempre
se observou nas atividades econômicas.
• Esse cenário muda com a proposta atual
de 40 horas, que hoje é a que avança no Congresso?
Teixeira
– Muda. Esse estudo foi feito no contexto do debate de 36 horas, de uma jornada
4 por 3. Depois nós atualizamos para um cenário de 40 horas, que é o que está
avançando agora. E aí o impacto é menor: chegamos a algo em torno de 600 mil a
700 mil postos de trabalho. Porque uma boa parte da classe trabalhadora já está
no regime entre 40 e 44 horas, então a mudança é menos intensa.
• O debate, então, é econômico ou
político?
Teixeira
– A gente chegou a esses dados justamente para mostrar que não é um modelo
econômico que vai dizer o que vai acontecer do ponto de vista da atividade
econômica. Esse debate é político, sobre a centralidade da redução da jornada
de trabalho no contexto econômico que nós estamos vivendo.
• O presidente da Central Brasileira do
Setor de Serviços, a Cebrasse, João Diniz, disse que o trabalhador não é a
parte mais fraca da relação porque “tem poder político para eleger
presidentes”. Como a senhora responde?
Teixeira
– O nosso pressuposto é que as relações entre capital e trabalho são
absolutamente assimétricas. Não há uma condição de igualdade. Porque, se o
trabalhador não se submete, ele é substituído. A própria reforma trabalhista
ampliou os acordos individualizados, fora do sindicato, o que coloca o
trabalhador numa situação ainda mais frágil.
Se ele
não aceita determinadas condições — redução de salário, mudança de contrato,
banco de horas —, é substituído. Então, são relações absolutamente
assimétricas, não tem como comparar. Esse é um argumento falho, inconsistente,
de quem olha o mundo do trabalho como se houvesse igualdade, o que não existe.
• Representantes do setor rural, como
Rodrigo Hugueney do Amaral Melo, da Confederação Nacional de Agricultura,
disseram que a mudança é inviável porque a produção não pode parar. Ele disse,
em audiência pública na CCJ, que “a vaca não sabe o que é feriado”. Isso faz
sentido?
Teixeira
– Se vendeu uma ideia de que, em uma escala 5 por 2, há dois dias que ninguém
trabalha, que sábado e domingo tudo para. Não é isso. Uma coisa é você
estabelecer na legislação a jornada de 40 horas e a escala 5 por 2. Outra coisa
é como você organiza isso dentro de cada setor.
Há
alternativas. Você pode reorganizar escalas, pode ter pessoas trabalhando em
dias diferentes, inclusive fins de semana. Isso já acontece em vários setores
que funcionam sete dias por semana, como comércio, hotelaria e serviços. E, no
caso da agricultura, também pode ser aplicado.
• Outro argumento recorrente, feito por
representantes industriais como Flávio Roscoe, da Federação das Indústrias do
Estado de Minas Gerais, a Fiemg, é que “canetada não gera emprego”. A redução
da jornada é uma política de emprego?
Teixeira
– Não. Gerar emprego é um efeito adicional, importante, mas não é o objetivo
principal. O objetivo é garantir qualidade de vida, bem-estar, permitir que as
pessoas possam se dedicar a outras dimensões da vida.
Tem a
ver com a sustentabilidade da vida, com a qualidade de vida. A gente acha ótimo
que possa gerar emprego e faz esses estudos justamente para se contrapor à
ideia de que não vai gerar. Mas o objetivo principal é melhorar a vida das
pessoas.
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Nas
próximas semanas, empresários, lobistas e setores da extrema direita seguirão
pressionando para desidratar a proposta, ampliar prazos de transição ou
transformar uma discussão sobre qualidade de vida em mera planilha de custos.
Nós seguiremos acompanhando esse movimento de perto.
Como eu
e meus colegas repórteres do Intercept Brasil jamais deixamos de fazer nos
últimos anos, estaremos reportando os bastidores do poder e os interesses que
atravessam a política — inclusive quando isso não rende tanto reconhecimento ou
glamour. Sei que vocês estarão ao nosso lado.
Fonte:
Paulo Motoryn, em The Intercept

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