América
Latina entra em nova fase de luta contra projetos neoliberais
Quem
acredita que no próximo 7 de junho
será definido apenas o rumo do Peru devido ao processo eleitoral pendente
está equivocado. Na conjuntura atual, a América Latina trava uma dura batalha
em diversos cenários. Um deles é nossa pátria.
O que
acontecer aqui terá incidência em todo o continente, da mesma forma que o que
ocorre em outros países também se reflete no nosso. Não se trata de uma mudança
cosmética, mas de giros significativos cujo propósito final é quebrar a máfia
corrupta que envileceu a vida dos Estados soberanos e busca perpetuar seu
domínio a qualquer preço.
Em
linhas gerais, as forças que se enfrentam nesta histórica contenda são duas: a
oligarquia latino-americana apoiada pelo Império, que se agarra ao domínio
continental como parte de sua estratégia mundial; e os povos que lutam para
encontrar e afirmar um caminho originalmente desenhado pelos libertadores,
consolidado em uma primeira etapa da história por personalidades como José
Martí, Augusto C. Sandino e José Carlos Mariátegui.
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Cuba como símbolo de resistência continental
Cuba é,
certamente, a maior referência dos povos da América nesta confrontação. Não
apenas porque inaugurou a rota de transformação das estruturas produtivas em
busca de uma sociedade melhor nestas terras fecundas, mas também porque resiste
heroicamente à agressividade do Império há mais de seis décadas, oferecendo ao
mundo um exemplo singular de dignidade e coragem.
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Mas
hoje a luta se intensifica em todos os confins do continente. E ela não pode
ser ocultada pelos meios de comunicação a serviço da classe dominante, nem
sufocada pelas forças repressivas de governos empenhados em calar, pela
violência, a voz dos povos.
Curiosamente,
os meios de comunicação a serviço dos poderosos distorcem o que ocorre ou
simplesmente silenciam para evitar despertar o interesse popular, cada vez mais
voltado à construção de uma saída para a crise de um sistema decadente e em
processo de esgotamento.
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Repressão e crise avançam na Argentina e no Equador
Na
Argentina de Javier Milei, são constantes — quase cotidianas — as agressões
policiais contra trabalhadores, estudantes, mulheres e outros segmentos da
população que oferecem resistência aos planos de dominação que um regime de
extrema direita busca impor, atropelando a vontade popular.
Nesse
país, as camarilhas mais reacionárias recorreram historicamente à força para
esmagar o movimento popular. Assim ocorreu desde os golpes de Estado conduzidos
por Lonardi, Aramburu, Onganía e Videla até governos formalmente eleitos que
defenderam os interesses do capital, como Carlos Menem, Mauricio Macri e Javier
Milei.
No
Equador, ocorre hoje algo semelhante sob o governo de Daniel Noboa, que busca
esmagar sobretudo as populações originárias, utilizando métodos da guerra suja
e marginalizando um segmento social vigoroso integrado à Revolução Cidadã
liderada por Rafael Correa.
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Chile e Bolívia vivem disputa sobre o legado neoliberal
Neste
momento, milhões de trabalhadores lutam nas ruas da Bolívia dispostos a
derrubar um regime empenhado em se sustentar pela força das armas e pela
repressão ao povo. A “rosca” aspira repetir
no país do altiplano experiências como as de Hugo Banzer, Gonzalo Sánchez de
Lozada e Jeanine Áñez, que regaram de sangue a terra de Túpac Katari e
Bartolina Sisa.
No
Chile, José Antonio Kast tenta reinventar fórmulas repressivas para
reconstruir, em novas condições, o “modelo” econômico e social herdado de
Augusto Pinochet, fortalecendo os setores dominantes e atacando impiedosamente
trabalhadores e populações vulneráveis, inclusive desmontando conquistas
obtidas em governos progressistas, como os de Michelle Bachelet e Gabriel
Boric.
Nesses
países, o denominador comum é a ampla rejeição popular aos atuais projetos de
dominação e ao neoliberalismo herdado das ditaduras dos anos 1970.
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Esses
projetos se expressam na tentativa de submeter os trabalhadores a regimes
brutais de exploração, ampliar jornadas para até dez ou 12 horas, impor cortes
salariais, eliminar a estabilidade no emprego e destruir organizações sindicais
para dobrar o povo.
Objetivamente,
ainda que tenham enfrentado dificuldades, governos como os de Rafael Correa,
Néstor e Cristina Kirchner ou Evo Morales jamais produziram o colapso social
hoje observado nas ruas de Quito, Buenos Aires ou La Paz. Nessas cidades, os
atuais governos — alinhados ao Império — mostram crescente incapacidade de
governar e recorrem à repressão, à violência e ao medo para sobreviver
politicamente.
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Peru e Colômbia aparecem como novos focos de mudança
Em
contraste, no Peru e na Colômbia crescem e se afirmam forças favoráveis à
mudança social, abrindo novas perspectivas para o desenvolvimento e o
progresso. As eleições que ocorrerão em ambos os países nos próximos dias
assumem, nesse contexto, caráter decisivo dentro de uma confrontação que marca
a história do continente.
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Crise boliviana expõe limites sociais e políticos do
receituário neoliberal de Rodrigo Paz
A
escalada de manifestações, bloqueios e choques
com as forças de segurança na Bolívia revela uma crise que excede as demandas
salariais ou setoriais. O que está em jogo é a governabilidade da administração
do presidente de ultradireita Rodrigo Paz Pereira, a viabilidade de
seu programa econômico
neoliberal e
a persistência de fraturas históricas que o país não conseguiu fechar.
A
Bolívia chegou ao domingo 17 de maio com La Paz e El Alto ainda sob pressão.
Depois da operação de desbloqueio executada sábado 16 por policiais e
militares, os bloqueios continuavam nos principais acessos à sede de Governo. A
Defensoria do Povo registrou 47 detidos e pelo menos cinco feridos, enquanto
diferentes meios de comunicação bolivianos e regionais informavam que no
departamento de La Paz persistiam pelo menos 15 pontos de bloqueio durante a
manhã de domingo.
A cena
sintetiza o momento político: um governo cercado por um protesto multisetorial
e um conflito que deixou de ser unicamente reivindicativo para tornar-se uma
dis puta aberta pelo rumo do poder.
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Uma crise que se acelera na Bolívia
O ciclo
de manifestações não nasceu de um único fato, mas de um acúmulo de tensões. No
começo de maio já se registravam greves e marchas da Central Operária Boliviana
(COB), do magistério, de transportistas afetados pela crise de combustíveis e
de organizações indígenas e campesinas que rejeitavam a Lei 1720 sobre
reclassificação de terras.
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Nos
dias seguintes, o conflito se expandiu territorialmente e também em seu
conteúdo político: à exigência de aumento salarial, abastecimento regular de
combustível, reparação de danos provocados por carburantes de má qualidade e
anulação de normas questionadas, somou-se de maneira crescente a demanda de
renúncia presidencial.
Sábado
16, a operação estatal para abrir estradas não conseguiu desarticular a
manifestação; pelo contrário, deixou um saldo de detidos, feridos e bloqueios
reinstalados poucas horas depois.
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Motivação e alcance do protesto social
A atual
onda de mobilização se caracteriza por sua composição heterogênea. Participam
sindicatos operários, federações campesinas, organizações indígenas,
transportistas, professores urbanos e rurais, cooperativistas mineiros e juntas
vicinais. Esta diversidade expressa, ao mesmo tempo, fortaleza e complexidade.
Não se trata de uma manifestação homogênea, e sim de uma convergência de
mal-estares: deterioração da renda real pela inflação, escassez e má qualidade
do combustível, temor de reformas agrárias percebidas como favoráveis ao
agronegócio, repúdio a privatizações ou encerramento de empresas estatais e
desconfiança de um governo que não conseguiu construir interlocução estável com
as organizações populares.
A COB
aparece como articulador central, mas o peso do conflito também reside na
capacidade dos setores campesinos e urbanos de bloquear corredores estratégicos
e transformar demandas fragmentadas em uma impugnação geral da gestão.
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Crise de representação e de governabilidade
Em
termos políticos, a crise exibe três
problemas simultâneos. O primeiro é de representação: o Governo de Paz Pereira
chegou ao poder como alternativa ao longo ciclo do progressista Movimento ao
Socialismo (MAS), mas não logrou consolidar uma base social própria, capaz de
sustentar o custo das reformas.
O
segundo obstáculo é de governabilidade: uma administração minoritária e com
escassa margem de manobra institucional depende de acordos que, até agora,
foram parciais, tardios ou insuficientes.
O
terceiro é de leitura do conflito: o Executivo parece ter interpretado o
protesto como um conjunto de pressões setoriais negociáveis em separado, quando
na realidade transformou-se em uma contestação mais ampla do estilo de governo,
da orientação econômica e do lugar atribuído às organizações sociais no sistema
político boliviano.
A
radicalização da consigna “renuncia” mostra que o conflito já
não se limita a obter concessões pontuais. Quando uma parte significativa da
mobilização conclui que não existe interlocução confiável, o protesto se
desloca da negociação para a disputa por legitimidade. E aí aparece um dos
maiores riscos para o Governo: que cada tentativa de controle da ordem pública,
se não vier acompanhado de uma saída política crível, reforce a percepção de
isolamento presidencial e aprofunde o desgaste da autoridade.
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Neste
quadro, o uso de forças combinadas de Polícia e militares em tarefas de
desbloqueio pode oferecer alívios táticos, mas dificilmente resolve o problema
estratégico.
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Ajuste, escassez e distribuição do custo da crise
O
protesto se alimenta de uma percepção estendida: a crise está sendo paga pelos
setores populares e médios, enquanto os benefícios potenciais da liberalização
econômica concentram-se em atores com maior capacidade de acumulação.
A
Bolívia enfrenta há anos uma pressão estrutural devido à queda do ciclo do gás,
à escassez de divisas e à dependência de importações energéticas. Nessa base, o
Governo de Paz impulsionou medidas de corte neoliberal destinadas a reduzir
subsídios, reordenar contas e abrir espaços para o capital privado.
O
problema não é só o conteúdo destas decisões, mas seu impacto imediato sobre
uma sociedade com baixa tolerância material a novos aumentos de custos. Quando
sobem as tarifas de energia, de derivados de petróleo como a gasolina,
alimentos ou transporte, a deterioração se torna visível na vida cotidiana e se
transforma rapidamente em combustível político.
O
núcleo do desacordo remete ao tipo de inserção econômica que a Bolívia pode
sustentar. Uma abertura acelerada, apoiada em exportações primárias e na
redução do papel do Estado, tropeça em limites históricos: escassa
industrialização, alta informalidade, forte dependência de recursos naturais e
um tecido social que espera do Estado não só regulamentação, como também
proteção, redistribuição e reconhecimento.
Nesse
sentido, a discussão não gira unicamente em torno da eficiência macroeconômica,
mas da distribuição do sacrifício e da pergunta de quem ganha e quem perde no
novo ciclo.
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Persistência de um conflito não resolvido
Para
compreender a intensidade do presente convém olhar a longo prazo. A Bolívia
arrasta uma história de desigualdade regional, hierarquias étnico-raciais,
concentração da terra e disputas recorrentes pelo controle dos recursos
estratégicos. Os grandes ciclos de protesto do início do século — associados à
defesa da água, do gás e da soberania econômica — consolidaram a ideia de que a
mobilização popular não é um ator periférico, mas um componente constitutivo do
poder político.
A
experiência dos governos do MAS, com todas as suas contradições, alterou o
horizonte de expectativas de amplos setores indígenas e populares: não só
demandar direitos, mas disputar a condução estatal.
A crise
de 2019 deixou feridas abertas na memória política boliviana. Desde então, a
disputa pela legitimidade do Estado, o lugar das maiorias populares e o sentido
da democracia continuam atravessando o debate público.
Por
isso, o mal-estar atual não pode ser lido só como reação econômica. Também
expressa o retorno de uma pergunta histórica: se a Bolívia deve ser governada
com uma lógica elitista e tecnocrática ou com uma articulação mais plebeia e
plurinacional do poder. Nesse ponto, o conflito atual reativa uma fratura de
fundo entre dois imaginários de país.
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Recursos, alinhamentos e disputa de modelos
A crise
boliviana também tem uma dimensão geopolítica. A guinada da nova administração
para uma agenda mais próxima dos Estados Unidos e de organismos financeiros
internacionais foi interpretada por setores sociais e políticos como um sinal
de reorientação externa do país.
Em um
contexto regional fragmentado, a Bolívia volta a ser observada por sua
localização estratégica, seus recursos naturais e seu papel nos equilíbrios
sul-americanos. Toda reestruturação do modelo econômico — sobretudo se envolve
privatização de ativos, flexibilização regulatória ou redefinição da política
energética — conecta-se com interesses externos e com o debate sobre soberania.
O ponto
central é que a Bolívia não só discute como sair da crise, mas sob que tutela,
com que alianças e com que grau de autonomia. A memória política do país faz
com que qualquer percepção de ingerência externa ou de subordinação a agendas
financeiras internacionais funcione como um acelerador dos protestos.
Ao
mesmo tempo, uma desestabilização prolongada teria impactos além de suas
fronteiras: sobre corredores comerciais, abastecimento energético regional e a
correlação política na América do Sul.
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Cenários possíveis
No
curto prazo pode-se vislumbrar três cenários. O primeiro é uma desescalada
negociada, possível só se o Governo de ultradireita abandonar a fragmentação do
diálogo, oferecer garantias políticas e fizer gestos concretos quanto às
principais demandas.
O
segundo é um empate instável: continuam os bloqueios, cresce o desgaste
econômico e nenhum dos atores consegue impor-se, com a conseguinte deterioração
da autoridade estatal. E o terceiro é um aprofundamento da crise, em que novas
mortes, mais repressão ou a ampliação da frente mobilizada transformem o atual
conflito em uma crise de governabilidade de maior alcance.
Em
qualquer destes casos, o desenlace dependerá menos da capacidade coercitiva do
Estado do que de sua aptidão para reconstruir legitimidade.
A
explosão social atual não deve ser lida como um episódio isolado nem como uma
simples soma de conflitos gremiais. É a manifestação condensada de uma crise
econômica profunda, de uma fratura política não resolvida e de uma disputa
histórica pelo sentido do Estado na Bolívia.
A
administração de selo neoliberal de Rodrigo Paz enfrenta assim uma prova
decisiva: demonstrar se ainda pode reconduzir o conflito pela via política ou
se, pelo contrário, este ciclo de mobilização terminará marcando o limite de
seu projeto de governo.
Fonte:
Diálogos do Sul Global

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