quarta-feira, 27 de maio de 2026

América Latina entra em nova fase de luta contra projetos neoliberais

Quem acredita que no próximo 7 de junho será definido apenas o rumo do Peru devido ao processo eleitoral pendente está equivocado. Na conjuntura atual, a América Latina trava uma dura batalha em diversos cenários. Um deles é nossa pátria.

O que acontecer aqui terá incidência em todo o continente, da mesma forma que o que ocorre em outros países também se reflete no nosso. Não se trata de uma mudança cosmética, mas de giros significativos cujo propósito final é quebrar a máfia corrupta que envileceu a vida dos Estados soberanos e busca perpetuar seu domínio a qualquer preço.

Em linhas gerais, as forças que se enfrentam nesta histórica contenda são duas: a oligarquia latino-americana apoiada pelo Império, que se agarra ao domínio continental como parte de sua estratégia mundial; e os povos que lutam para encontrar e afirmar um caminho originalmente desenhado pelos libertadores, consolidado em uma primeira etapa da história por personalidades como José Martí, Augusto C. Sandino e José Carlos Mariátegui.

<><> Cuba como símbolo de resistência continental

Cuba é, certamente, a maior referência dos povos da América nesta confrontação. Não apenas porque inaugurou a rota de transformação das estruturas produtivas em busca de uma sociedade melhor nestas terras fecundas, mas também porque resiste heroicamente à agressividade do Império há mais de seis décadas, oferecendo ao mundo um exemplo singular de dignidade e coragem.

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Mas hoje a luta se intensifica em todos os confins do continente. E ela não pode ser ocultada pelos meios de comunicação a serviço da classe dominante, nem sufocada pelas forças repressivas de governos empenhados em calar, pela violência, a voz dos povos.

Curiosamente, os meios de comunicação a serviço dos poderosos distorcem o que ocorre ou simplesmente silenciam para evitar despertar o interesse popular, cada vez mais voltado à construção de uma saída para a crise de um sistema decadente e em processo de esgotamento.

<><> Repressão e crise avançam na Argentina e no Equador

Na Argentina de Javier Milei, são constantes — quase cotidianas — as agressões policiais contra trabalhadores, estudantes, mulheres e outros segmentos da população que oferecem resistência aos planos de dominação que um regime de extrema direita busca impor, atropelando a vontade popular.

Nesse país, as camarilhas mais reacionárias recorreram historicamente à força para esmagar o movimento popular. Assim ocorreu desde os golpes de Estado conduzidos por Lonardi, Aramburu, Onganía e Videla até governos formalmente eleitos que defenderam os interesses do capital, como Carlos Menem, Mauricio Macri e Javier Milei.

No Equador, ocorre hoje algo semelhante sob o governo de Daniel Noboa, que busca esmagar sobretudo as populações originárias, utilizando métodos da guerra suja e marginalizando um segmento social vigoroso integrado à Revolução Cidadã liderada por Rafael Correa.

<><> Chile e Bolívia vivem disputa sobre o legado neoliberal

Neste momento, milhões de trabalhadores lutam nas ruas da Bolívia dispostos a derrubar um regime empenhado em se sustentar pela força das armas e pela repressão ao povo. A “rosca” aspira repetir no país do altiplano experiências como as de Hugo Banzer, Gonzalo Sánchez de Lozada e Jeanine Áñez, que regaram de sangue a terra de Túpac Katari e Bartolina Sisa.

No Chile, José Antonio Kast tenta reinventar fórmulas repressivas para reconstruir, em novas condições, o “modelo” econômico e social herdado de Augusto Pinochet, fortalecendo os setores dominantes e atacando impiedosamente trabalhadores e populações vulneráveis, inclusive desmontando conquistas obtidas em governos progressistas, como os de Michelle Bachelet e Gabriel Boric.

Nesses países, o denominador comum é a ampla rejeição popular aos atuais projetos de dominação e ao neoliberalismo herdado das ditaduras dos anos 1970.

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Esses projetos se expressam na tentativa de submeter os trabalhadores a regimes brutais de exploração, ampliar jornadas para até dez ou 12 horas, impor cortes salariais, eliminar a estabilidade no emprego e destruir organizações sindicais para dobrar o povo.

Objetivamente, ainda que tenham enfrentado dificuldades, governos como os de Rafael Correa, Néstor e Cristina Kirchner ou Evo Morales jamais produziram o colapso social hoje observado nas ruas de Quito, Buenos Aires ou La Paz. Nessas cidades, os atuais governos — alinhados ao Império — mostram crescente incapacidade de governar e recorrem à repressão, à violência e ao medo para sobreviver politicamente.

<><> Peru e Colômbia aparecem como novos focos de mudança

Em contraste, no Peru e na Colômbia crescem e se afirmam forças favoráveis à mudança social, abrindo novas perspectivas para o desenvolvimento e o progresso. As eleições que ocorrerão em ambos os países nos próximos dias assumem, nesse contexto, caráter decisivo dentro de uma confrontação que marca a história do continente.

¨      Crise boliviana expõe limites sociais e políticos do receituário neoliberal de Rodrigo Paz

A escalada de manifestações, bloqueios e choques com as forças de segurança na Bolívia revela uma crise que excede as demandas salariais ou setoriais. O que está em jogo é a governabilidade da administração do presidente de ultradireita Rodrigo Paz Pereira, a viabilidade de seu programa econômico neoliberal e a persistência de fraturas históricas que o país não conseguiu fechar.

A Bolívia chegou ao domingo 17 de maio com La Paz e El Alto ainda sob pressão. Depois da operação de desbloqueio executada sábado 16 por policiais e militares, os bloqueios continuavam nos principais acessos à sede de Governo. A Defensoria do Povo registrou 47 detidos e pelo menos cinco feridos, enquanto diferentes meios de comunicação bolivianos e regionais informavam que no departamento de La Paz persistiam pelo menos 15 pontos de bloqueio durante a manhã de domingo.

A cena sintetiza o momento político: um governo cercado por um protesto multisetorial e um conflito que deixou de ser unicamente reivindicativo para tornar-se uma dis puta aberta pelo rumo do poder.

<><> Uma crise que se acelera na Bolívia 

O ciclo de manifestações não nasceu de um único fato, mas de um acúmulo de tensões. No começo de maio já se registravam greves e marchas da Central Operária Boliviana (COB), do magistério, de transportistas afetados pela crise de combustíveis e de organizações indígenas e campesinas que rejeitavam a Lei 1720 sobre reclassificação de terras.

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Nos dias seguintes, o conflito se expandiu territorialmente e também em seu conteúdo político: à exigência de aumento salarial, abastecimento regular de combustível, reparação de danos provocados por carburantes de má qualidade e anulação de normas questionadas, somou-se de maneira crescente a demanda de renúncia presidencial.

Sábado 16, a operação estatal para abrir estradas não conseguiu desarticular a manifestação; pelo contrário, deixou um saldo de detidos, feridos e bloqueios reinstalados poucas horas depois.

<><> Motivação e alcance do protesto social

A atual onda de mobilização se caracteriza por sua composição heterogênea. Participam sindicatos operários, federações campesinas, organizações indígenas, transportistas, professores urbanos e rurais, cooperativistas mineiros e juntas vicinais. Esta diversidade expressa, ao mesmo tempo, fortaleza e complexidade. Não se trata de uma manifestação homogênea, e sim de uma convergência de mal-estares: deterioração da renda real pela inflação, escassez e má qualidade do combustível, temor de reformas agrárias percebidas como favoráveis ao agronegócio, repúdio a privatizações ou encerramento de empresas estatais e desconfiança de um governo que não conseguiu construir interlocução estável com as organizações populares.

A COB aparece como articulador central, mas o peso do conflito também reside na capacidade dos setores campesinos e urbanos de bloquear corredores estratégicos e transformar demandas fragmentadas em uma impugnação geral da gestão.

<><> Crise de representação e de governabilidade

Em termos políticos, a crise exibe três problemas simultâneos. O primeiro é de representação: o Governo de Paz Pereira chegou ao poder como alternativa ao longo ciclo do progressista Movimento ao Socialismo (MAS), mas não logrou consolidar uma base social própria, capaz de sustentar o custo das reformas.

O segundo obstáculo é de governabilidade: uma administração minoritária e com escassa margem de manobra institucional depende de acordos que, até agora, foram parciais, tardios ou insuficientes.

O terceiro é de leitura do conflito: o Executivo parece ter interpretado o protesto como um conjunto de pressões setoriais negociáveis em separado, quando na realidade transformou-se em uma contestação mais ampla do estilo de governo, da orientação econômica e do lugar atribuído às organizações sociais no sistema político boliviano.

A radicalização da consigna “renuncia” mostra que o conflito já não se limita a obter concessões pontuais. Quando uma parte significativa da mobilização conclui que não existe interlocução confiável, o protesto se desloca da negociação para a disputa por legitimidade. E aí aparece um dos maiores riscos para o Governo: que cada tentativa de controle da ordem pública, se não vier acompanhado de uma saída política crível, reforce a percepção de isolamento presidencial e aprofunde o desgaste da autoridade.

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Neste quadro, o uso de forças combinadas de Polícia e militares em tarefas de desbloqueio pode oferecer alívios táticos, mas dificilmente resolve o problema estratégico.

<><> Ajuste, escassez e distribuição do custo da crise

O protesto se alimenta de uma percepção estendida: a crise está sendo paga pelos setores populares e médios, enquanto os benefícios potenciais da liberalização econômica concentram-se em atores com maior capacidade de acumulação.

A Bolívia enfrenta há anos uma pressão estrutural devido à queda do ciclo do gás, à escassez de divisas e à dependência de importações energéticas. Nessa base, o Governo de Paz impulsionou medidas de corte neoliberal destinadas a reduzir subsídios, reordenar contas e abrir espaços para o capital privado.

O problema não é só o conteúdo destas decisões, mas seu impacto imediato sobre uma sociedade com baixa tolerância material a novos aumentos de custos. Quando sobem as tarifas de energia, de derivados de petróleo como a gasolina, alimentos ou transporte, a deterioração se torna visível na vida cotidiana e se transforma rapidamente em combustível político.

O núcleo do desacordo remete ao tipo de inserção econômica que a Bolívia pode sustentar. Uma abertura acelerada, apoiada em exportações primárias e na redução do papel do Estado, tropeça em limites históricos: escassa industrialização, alta informalidade, forte dependência de recursos naturais e um tecido social que espera do Estado não só regulamentação, como também proteção, redistribuição e reconhecimento.

Nesse sentido, a discussão não gira unicamente em torno da eficiência macroeconômica, mas da distribuição do sacrifício e da pergunta de quem ganha e quem perde no novo ciclo.

<><> Persistência de um conflito não resolvido

Para compreender a intensidade do presente convém olhar a longo prazo. A Bolívia arrasta uma história de desigualdade regional, hierarquias étnico-raciais, concentração da terra e disputas recorrentes pelo controle dos recursos estratégicos. Os grandes ciclos de protesto do início do século — associados à defesa da água, do gás e da soberania econômica — consolidaram a ideia de que a mobilização popular não é um ator periférico, mas um componente constitutivo do poder político.

A experiência dos governos do MAS, com todas as suas contradições, alterou o horizonte de expectativas de amplos setores indígenas e populares: não só demandar direitos, mas disputar a condução estatal.

A crise de 2019 deixou feridas abertas na memória política boliviana. Desde então, a disputa pela legitimidade do Estado, o lugar das maiorias populares e o sentido da democracia continuam atravessando o debate público.

Por isso, o mal-estar atual não pode ser lido só como reação econômica. Também expressa o retorno de uma pergunta histórica: se a Bolívia deve ser governada com uma lógica elitista e tecnocrática ou com uma articulação mais plebeia e plurinacional do poder. Nesse ponto, o conflito atual reativa uma fratura de fundo entre dois imaginários de país.

<><> Recursos, alinhamentos e disputa de modelos

A crise boliviana também tem uma dimensão geopolítica. A guinada da nova administração para uma agenda mais próxima dos Estados Unidos e de organismos financeiros internacionais foi interpretada por setores sociais e políticos como um sinal de reorientação externa do país.

Em um contexto regional fragmentado, a Bolívia volta a ser observada por sua localização estratégica, seus recursos naturais e seu papel nos equilíbrios sul-americanos. Toda reestruturação do modelo econômico — sobretudo se envolve privatização de ativos, flexibilização regulatória ou redefinição da política energética — conecta-se com interesses externos e com o debate sobre soberania.

O ponto central é que a Bolívia não só discute como sair da crise, mas sob que tutela, com que alianças e com que grau de autonomia. A memória política do país faz com que qualquer percepção de ingerência externa ou de subordinação a agendas financeiras internacionais funcione como um acelerador dos protestos.

Ao mesmo tempo, uma desestabilização prolongada teria impactos além de suas fronteiras: sobre corredores comerciais, abastecimento energético regional e a correlação política na América do Sul.

<><> Cenários possíveis

No curto prazo pode-se vislumbrar três cenários. O primeiro é uma desescalada negociada, possível só se o Governo de ultradireita abandonar a fragmentação do diálogo, oferecer garantias políticas e fizer gestos concretos quanto às principais demandas.

O segundo é um empate instável: continuam os bloqueios, cresce o desgaste econômico e nenhum dos atores consegue impor-se, com a conseguinte deterioração da autoridade estatal. E o terceiro é um aprofundamento da crise, em que novas mortes, mais repressão ou a ampliação da frente mobilizada transformem o atual conflito em uma crise de governabilidade de maior alcance.

Em qualquer destes casos, o desenlace dependerá menos da capacidade coercitiva do Estado do que de sua aptidão para reconstruir legitimidade.

A explosão social atual não deve ser lida como um episódio isolado nem como uma simples soma de conflitos gremiais. É a manifestação condensada de uma crise econômica profunda, de uma fratura política não resolvida e de uma disputa histórica pelo sentido do Estado na Bolívia.

A administração de selo neoliberal de Rodrigo Paz enfrenta assim uma prova decisiva: demonstrar se ainda pode reconduzir o conflito pela via política ou se, pelo contrário, este ciclo de mobilização terminará marcando o limite de seu projeto de governo.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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