Tortura
de doméstica grávida expõe o racismo e cinismo dos bolsonaristas
“Quase
uma hora essa menina no massacre, e tapa e murro e pisava nos dedos. Tudo que
vocês imaginarem de doidice, era eu e ele fazendo”.
Vocês
devem ter visto ou ouvido as imagens/áudios de Carolina Sthela Ferreira dos
Anjos, empresária do Maranhão que torturou uma jovem de 19 anos, grávida de 5
meses. A moça, Samara, trabalhava como empregada doméstica na casa de Carolina.
“Tapa e
tapa, menina, dei. Gente, eu dei tanto que minha mão tá inchada. Até hoje meu
dedo chega tá roxo”.
Os
áudios da torturadora foram divulgados pela imprensa no dia 5 de maio – o crime
aconteceu em 17 de abril.
Dois
dias depois, o noticiário trazia outra questão importante – e que vocês
provavelmente também acompanharam: uma decisão da Anvisa contra a empresa Ypê.
A agência determinava medidas restritivas relacionadas a produtos como
lava-roupas e desinfetantes (especificamente os do lote com numeração final 1,
fabricados pela Química Amparo). A razão: a presença comprovada da bactéria
Pseudomonas aeruginosa, que leva a infecções sérias – inclusive septicemia – no
citado lote.
Prestei
muita atenção aos movimentos nas redes sociais em relação ao primeiro caso, não
somente por conta do alto grau de violência sofrida pela jovem (além dos chutes
murros e tapas, tanto ela quanto seu bebê foram ameaçados com arma de fogo).
Mas também me impressionou o quanto aquela mulher estava tão à vontade com a
própria crueldade e criminalidade a ponto de enviar áudios para um grupo de
WhatsApp como se estivesse relatando uma verdadeira façanha.
Quem
são as pessoas nesse grupo?
Que
tipo de relatos são compartilhados entre elas?
Certamente,
o apoio que a empresária tinha de “amigos” era uma das razões de sua folga e
sensação de proteção. Além da cor da pele e do status social, ela tinha outra
blindagem: a de agentes do estado pagos com dinheiro público.
“Puxou
a bicha, botou assim, tirou a touca da cabeça dela, pegou no cabelo, botou ela
de joelho, puxou a bicha e botou na boca dela. ‘Eu acho bom tu entregar logo
esse anel, onde é que tá? Tá aqui? Bora brincar de quente ou frio. Tá aqui em
cima, tá aqui embaixo?’ Aí onde ele ia apontando, botava a cabeça dela se
tava.”
Foi o
PM Michael Bruno Lopes quem ajudou a torturar Samara e o bebê, colocando, entre
outras agressões, uma arma na boca da empregada doméstica. Mas Carolina, a
torturadora, teria outro auxílio de luxo da polícia militar maranhense:
“Parou
uma viatura no meio da rua, eles vieram aqui de manhã. Mas veio um policial que
me conhecia. Sorte minha, né? E sorte dela também. Aí eu expliquei para ele o
que tinha acontecido. Aí ele disse: ‘Carol, se não fosse eu, eu teria que te
conduzir para a delegacia, porque ela está cheia de hematomas’. Aí eu disse:
‘era para ter ficado era mais, não era para ter saído viva’”.
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Movimentação dos grupos bolsonaristas
Apesar
de ter ganhado grande atenção midiática, a tortura da emprega doméstica grávida
não causou nem de perto a comoção vista em relação ao caso da Anvisa-Ypê. De
repente, principalmente no final de semana do Dia das Mães, nossas retinas
passaram a ser vandalizadas com imagens de pessoas MAMANDO detergente ou
TOMANDO BANHO usando um deles (o vídeo de uma mulher LAVANDO UM FRANGO com Ypê é antigo, mas
voltou a circular semana passada).
Também
vi simpáticas senhoras indo às compras e voltando orgulhosas com produtos da
marca, fazendo selfies danadinhas no espelho do elevador. Eram quase todos/as
“patriotas”, o que nos últimos anos, no Brasil, virou quase sinônimo de
bolsonarista freestyle.
É digno
de nota, ou melhor, de coluna, que esse
estrato social se mobilize tanto por uma marca enquanto silencia sobre um crime
comprovado. Tá, eu sei que não dá para esperar muita coisa de quem ri de
“piada” racista e passou quatro anos pedindo golpe militar (ou, em casos mais
estapafúrdios, rezando para pneu). Mas é sempre interessante desenhar a
hipocrisia que empapa o discurso da autodenominada “gente do bem”. Enumerei
alguns pontos:
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1. Cadê a defesa da família e das crianças?
O
bolsonarismo construiu uma narrativa fortíssima de proteção da família, da
criança, do chamado nascituro. Pois bem: o caso no Maranhão envolve uma mulher
grávida de 5 meses sendo espancada – ou seja, duas vidas em risco. A ausência
de mobilização revela muito como classe e cor de pele interferem na comoção e
no coração patriótico. A família que esse nicho quer realmente proteger passa
longe da melanina e dos trabalhos de menor remuneração. Tudo isso tem relação
com o segundo ponto:
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2. O “bandido” é sempre seletivo
A
retórica bolsonarista frequentemente acusa a esquerda de defender “bandido” e
ignorar a vítima. Mas nesse caso quem praticou o crime foi uma empresária, uma
mulher branca, contra uma jovem negra e um bebê ainda na barriga da mãe. A
vítima é uma trabalhadora doméstica, categoria historicamente precarizada no
Brasil e cujos direitos conquistados explicam parte do ódio de parcelas da
sociedade ao campo da esquerda. O enquadramento de classe do caso é bastante
explícito, e o silêncio da direita sobre ele reforça uma posição política que,
podemos afirmar, é contrária à maioria da população nacional, formada por
pretas/os e mulheres.
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3. A confusão (proposital ou não) sobre quem faz o quê e a defesa burra do
“livre mercado”
Quando
a decisão sobre os produtos Ypê veio a público, a reação bolsonarista foi
imediata: atacar a Anvisa, chamá-la de “petista” e acusá-la de perseguir uma
empresa brasileira a mando do governo Lula. O problema é que a narrativa errou
até no alvo. Para entender por quê, é preciso compreender como funciona a
vigilância sanitária no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária é responsável por criar as normas gerais e
coordenar o sistema em nível federal. Mas quem atua diretamente no chão de
fábrica, realizando fiscalizações em estabelecimentos produtores, são as
vigilâncias sanitárias estaduais e municipais. No caso da Ypê, como a
fiscalização envolveu uma fábrica com produção de alcance nacional localizada
no interior de São Paulo, a ação foi conduzida pela vigilância sanitária do
estado. Não pelo governo federal, não pela Anvisa, e definitivamente não por
Lula.
Mas a
contradição discursiva se aprofunda quando lembramos que o bolsonarismo sempre
se apresentou como defensor do livre mercado e da iniciativa privada, mas um
mercado que funciona depende de vigilância sanitária eficaz, ou estaremos
sempre correndo risco de comprar, por exemplo, molho de tomate cheio de pelo de
rato.
Produtos
contaminados que chegam às prateleiras não são um problema do governo: são um
problema de saúde pública que afeta, em primeiro lugar, os consumidores. Cabe
ainda dizer que o “petismo” da Anvisa é uma acusação que não se sustenta nem
historicamente.
A
agência foi criada em 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso, e atravessou
governos de diferentes matizes ideológicos cumprindo o mesmo papel: regular.
Chamá-la de braço político do PT revela menos sobre a agência e mais sobre a
disposição de transformar qualquer institucionalidade em inimigo quando ela
atrapalha a narrativa do momento.
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Discurso que não se sustenta
Resumindo
os três pontos: o bolsonarismo não sustenta 100 gramas do próprio discurso
quando vê a chance de viralizar e de registrar a própria idiotice nas redes.
Não só: mandou um belo foda-se para a população ao incentivar (Michele
Bolsonaro e Nikolas Ferreira também o
fizeram) que produtos com potencial de causar pneumonia, infecções da pele, do
trato urinário, no estômago e nos ouvidos, além de septicemia (infecção
generalizada, a bactéria entra na corrente sanguínea, pode ser fatal) fossem
usados pelas famílias brasileiras.
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Se indignar pelo que realmente importa
Vale
trazer outro ponto. Para além do bolsonarismo, o caso da tortura de Samara
também mostra outra triste característica nossa: a de desvalorizar
profundamente sofrimentos que deveriam nos mobilizar mais. Nunca esqueci o caso
da mulher venezuelana que pariu as filhas gêmeas na porta da fábrica onde
trabalhava, a BRF, ano passado.
A
trabalhadora entrou em trabalho de parto dentro de um frigorífico em Lucas do
Rio Verde, no Mato Grosso. Era madrugada – ela cumpria jornada das 3h30 às
13h18, com uma hora de intervalo, e recebia R$1.975,60 mensais. O supervisor
não a deixou sair, apesar dos diversos pedidos. Somente às seis da manhã a
mulher, sentindo dores há horas, saiu da fábrica. As filhas gêmeas nasceram na
porta da BRF. Não sobreviveram.
A
multinacional foi condenada a pagar R$ 150 mil por danos morais à mulher. É o
que a Justiça brasileira calculou valer a morte de duas crianças e o sofrimento
de uma mãe, cuja carga horária era de 8 horas e 48 minutos, acrescida de uma
hora de almoço e três pausas de 20 minutos.
Não
havia, pelo que se viu, nenhuma pausa prevista para parir.
O caso
reúne elementos que, isoladamente, já seriam suficientes para acender alertas
sobre as condições de trabalho no setor: uma trabalhadora imigrante, em
situação de vulnerabilidade, com salário inferior a dois mínimos, em jornada
iniciada de madrugada, grávida. Nenhum desses fatores foi suficiente para que a
empresa garantisse condições mínimas de segurança da mulher e das crianças no
momento mais crítico.
Repito:
o bolsonarismo também não se levantou em “defesa das criancinhas”.
Mas,
mais que isso, o caso passou somente como “mais um” no noticiário, sem que a
gente – nós, eu, você e toda sociedade – nos engajássemos ativamente em defesa
dessa mulher que passou por uma experiência de incalculável violência.
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Google trends
Como o
caso da tortura da empregada doméstica e da Ypê aconteceram na mesma semana,
procurei no Google Trends, que mede buscas realizadas na plataforma, a
quantidade de pesquisas sobre os dois casos (especifiquei de 5 a 10 de maio). O
gráfico abaixo diz muito não só sobre o nicho bolsonarista, mas sobre nossa
letárgica naturalização do sofrimento das mulheres que trabalham no chão de fábrica ou limpando
as casas brasileiras – quase 70% delas, negras.
Há um
fio que conecta Samara, a trabalhadora venezuelana da BRF e tantas outras
mulheres que não chegaram nem a virar pauta: além do gênero, quase todas são
negras. Todas estavam em posições de extrema vulnerabilidade econômica. E todas
sofreram violências que com outros sobrenomes,
outros CPFs (ou CNPJ), teriam gerado comoção nacional e cobertura
exaustiva.
A
imprensa tem peso nessa equação. Quando um caso ganha ou não manchete, quando
uma vítima recebe ou não nome e rosto, quando uma condenação de R$ 150 mil pela
morte de duas crianças não vira capa de nada, o recado está dado. Ele informa,
silenciosamente, o que merece luto e o que pode ser esquecido. Constrói uma
hierarquia de sofrimentos que a sociedade depois reproduz no Google Trends, nas
redes, na ausência de engajamento.
A
letargia diante da dor de quem trabalha de madrugada mesmo prestes a parir ou
dentro das casas brasileiras não é falta de informação, mas de identificação. É
o resultado acumulado de um aprendizado longo sobre quais vidas importam e
quais podem ser processadas como estatística.
Se o
bolsonarismo não nos surpreende quando prefere publicizar um lote de produto
contaminado e perigoso socialmente (já vimos isso de certa forma na pandemia)
em vez de defender realmente a vida de mulheres e crianças, cabe também apontar
o dedo para nós mesmas e fazer algumas perguntas: o que é mesmo notícia para a
imprensa? E o que acontece ao nosso redor enquanto passamos o dia distraídas
olhando um lote de obtusos se banhando com detergente?
Fonte:
Por Tatiana Moraes, em The Intercept

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