Da
Alemanha ao Chile: o movimento estudantil protagoniza mobilizações no mundo
Analisamos
brevemente as principais mobilizações que hoje atravessam o movimento
estudantil a nível internacional, destacando a relevância da juventude como
ator político para enfrentar ataques e lutar pelos direitos das trabalhadoras e
dos trabalhadores, em defesa da educação pública, contra os ajustes e contra a
guerra.
O
movimento estudantil sempre deu o que falar. Suas mobilizações não contam
apenas com interessantes expressões artísticas e culturais, além de serem fonte
de combatividade e coragem para as gerações mais velhas; ao expressarem em seu
interior as contradições vividas pelos setores populares, seguem sendo,
portanto, uma caixa de ressonância das contradições da sociedade.
Nesse
contexto, chama atenção como, nas últimas semanas, os estudantes e o debate
educacional voltam ao centro das atenções, diante de uma série de ataques de
diversos governos contra seus próprios povos. Assim, tem sido o movimento
estudantil que assumiu a dianteira.
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Alemanha
No
último 8 de maio, ocorreu uma importante jornada de mobilização na Alemanha,
onde mais de 45 mil estudantes, em mais de 150 cidades, foram às ruas para
protestar contra a campanha militarista que o serviço militar impulsiona para a
juventude, promovida pelo governo de Friedrich Merz no início do ano.
Desde
janeiro de 2026, as autoridades enviam questionários de alistamento para quem
completa 18 anos, mandando mais de 200 mil cartas, das quais 72% foram
respondidas, devido à multa de 250 euros para quem não responder. No caso das
mulheres e de outros gêneros, a resposta não é obrigatória, e nesses casos o
percentual cai para 3%.
O
governo de Merz está empenhado em construir o “exército convencional mais forte
da Europa”. Para isso, pretende gastar mais de 200 bilhões de euros anuais em
novas armas e iniciar um processo de recrutamento obrigatório, caso não consiga
convencer a juventude a se alistar voluntariamente.
A essa
mobilização também se somaram trabalhadores dos hospitais públicos Vivantes,
que estão há mais de três semanas em greve exigindo melhorias salariais,
demonstrando que ambas as lutas são apenas dois lados da mesma moeda: a
juventude quer um futuro que não seja a guerra; os trabalhadores da saúde
querem uma vida digna. Ambas as lutas entram em conflito com os interesses da
burguesia e do governo alemão, que ambicionam guerra e morte.
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Brasil
Estudantes
da Universidade de São Paulo estão há mais de 25 dias em greves e manifestações
contra a precarização das condições de estudo e trabalho, e contra as
tentativas de privatização do governador de direita Tarcísio de Freitas.
Neste
fim de semana, um grupo de estudantes que ocupava a reitoria da universidade
foi brutalmente despejado. No entanto, a resposta foi imediata, com uma
importante mobilização nesta segunda-feira entre trabalhadores e estudantes,
coordenada junto às outras duas universidades estaduais, a UNESP e a Unicamp,
culminando em um grande ato unificado por todas as suas reivindicações, no qual
foi ratificada a continuidade da greve.
Não
estão enfrentando apenas os ataques de sua própria reitoria, mas também fazem
parte da resistência contra as forças bolsonaristas que mantêm posições de
poder.
Nossas
companheiras e companheiros da organização Faísca (integrada pelo Movimento
Revolucionário de Trabalhadores e Independentes) vêm intervindo ativamente nas
assembleias e ocupações, propondo um programa de saída integral para que a
crise não seja paga pelos estudantes nem pelos trabalhadores. Suas principais
demandas e propostas são:
Unificar
as lutas: construir uma greve estadual unificada das três universidades (USP,
Unesp, Unicamp) e coordenar com os trabalhadores municipais em greve.
Comandos
de greve a partir da base: exigem que as direções estudantis deixem de
articular o fim das greves e permitam a coordenação com delegados eleitos em
assembleia.
Também
reivindicam financiamento por meio de impostos sobre os ricos e a
democratização da universidade mediante uma Assembleia Estatuinte livre e
soberana, para acabar com o poder das burocracias dos reitores e passar a um
governo dos três setores (estudantes, docentes e trabalhadores), com maioria
estudantil.
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Argentina
Nesta
terça-feira, 12, a Argentina viveu uma mobilização massiva em todo o país
contra as políticas que atacam o financiamento universitário, que o governo de
Javier Milei leva adiante depois que ele decidiu cortar 5,3 bilhões de pesos
argentinos dos jogos universitários por meio de uma resolução.
A
massividade volta a mostrar a enorme rejeição social a essas políticas de
ajuste. Ao mesmo tempo, mostra como as autoridades universitárias e as
burocracias sindicais — docentes, técnicos e universitárias — utilizam essa
rejeição para respaldar uma estratégia de negociação com o governo que já
fracassou.
A
enorme mobilização contou com a participação de docentes, técnicos, estudantes
e milhares de outras pessoas, demonstrando a grande solidariedade à luta pela
defesa da educação pública e a rejeição que as políticas de Milei despertam na
população.
A
mobilização não se fez sentir apenas em Buenos Aires, capital argentina, mas
também houve manifestações em províncias como Neuquén, Rio Negro, Mendoza,
Jujuy, Córdoba e Tucumán.
O
governo Milei atravessa uma crise política muito grande. Nossa organização irmã
na Argentina, o Partido dos Trabalhadores Socialistas, considera necessário
intensificar a luta para derrotá-lo agora. A Rede Nacional de Agrupações En
Clave Roja (PTS e estudantes independentes) defende uma luta independente das
autoridades, unindo docentes e técnicos numa perspectiva comum, rumo a uma luta
nacional que derrote toda a política do governo. Essa perspectiva implica
também impor à CGT e às direções sindicais o fim da escandalosa trégua que
mantêm.
“É
necessária outra perspectiva: assembleias intersetoriais reais, organização
desde baixo, independência política das autoridades e um plano de luta
consequente até derrotar o ajuste e conquistar salário, orçamento e defesa
integral da universidade pública”, afirmam os companheiros do coletivo de
juventude En Clave Roja.
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Chile
Nesta
quinta-feira, 14, foi a vez do Chile, onde a Assembleia Coordenadora de
Estudantes Secundaristas, junto com diversos Centros Acadêmicos, vêm
impulsionando uma mobilização em todo o país para enfrentar a política de
cortes de Kast na educação e contra a política criminalizadora representada
pelo projeto de lei "Escolas Protegidas”, que busca apenas aumentar a
perseguição contra a juventude e os estudantes organizados.
A
CONFECH, dirigida pelas Juventudes Comunistas e pela Frente Ampla, dividiu
diretamente o movimento ao convocar paralelamente outro dia de mobilização,
enfraquecendo as forças do movimento estudantil. Tudo isso enquanto concentram
sua estratégia na oposição parlamentar, apresentando centenas de emendas à
chamada Lei de Reconstrução Nacional, sem propor nenhuma medida de força séria
para deter esses ataques, enquanto a CUT segue com sua política de “diálogo
social” com os grandes empresários.
É
urgente começar desde já a unir as lutas: estudantes secundaristas e
universitários, em instâncias de coordenação e assembleias para que nenhuma
luta fique isolada. Atualmente, desenvolvem-se dezenas de ocupações em liceus
em Santiago, e em Valparaíso começam a se articular assembleias em diferentes
escolas.
Hoje, o
perigo está na divisão e no desgaste. É preciso fortalecer a ACES como
organização unitária, com base em delegados por escola em nível nacional e
democracia direta. O movimento universitário deve impulsionar comitês de apoio
às ocupações. Exigimos que a CONFECH convoque mobilização nesta quinta-feira,
14 de maio, para enfrentar as medidas de ajuste de Kast e retomar as demandas
históricas do movimento estudantil: Abaixo a educação de mercado! Educação
gratuita universal 100% financiada pelo Estado! Fim ao CAE, basta de enriquecer
os bancos que cobram até três vezes o valor de nossas mensalidades! Pela
autonomia universitária e escolar! Basta de criminalização estudantil! Fora a
polícia das universidades e escolas!
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Protestos universitários no Peru se espalham e já
conquistam suas primeiras reivindicações
Há mais
de uma semana estourou a crise universitária que, ao longo dos dias, se
aprofundou em diferentes regiões do país e começa a mostrar um elemento cada
vez mais importante: a tendência à coordenação e à unidade entre estudantes,
trabalhadores e setores populares diante da deterioração das condições
educativas, do autoritarismo das autoridades e da mercantilização da
universidade.
A crise
universitária continua se aprofundando em diferentes regiões do país. Às
recentes ocupações e mobilizações em San Marcos, na PUCP, Jaén, Quillabamba e
na Universidade Nacional do Centro do Peru, agora se somam novas ações de luta
na Universidade Nacional do Altiplano (UNA), em Puno, e na Universidade
Nacional de Educação Enrique Guzmán y Valle, “La Cantuta”, onde estudantes
mantêm ocupações e protestos contra autoridades universitárias, precarização e
medidas consideradas antidemocráticas.
De Puno
a Lima, passando por Jaén e La Cantuta, as ocupações universitárias,
mobilizações e ações diretas expressam um questionamento crescente ao modelo
universitário consolidado sob a Lei Universitária 30220, lei que destrói a
autonomia universitária, e às políticas neoliberais que transformaram
progressivamente as universidades em espaços subordinados a critérios
empresariais e burocráticos.
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Universidade de Puno: a ocupação continua e cresce a rejeição às autoridades
universitárias
Na
Universidade Nacional do Altiplano de Puno, estudantes confirmaram que manterão
a ocupação pacífica do campus universitário após as jornadas de resistência
diante da repressão policial, que deixaram ao menos três estudantes feridos.
Os
setores mobilizados exigem explicações sobre a criação de novas escolas
profissionais e denunciam que as autoridades tentam impor reformas acadêmicas
sem consulta real à comunidade universitária. O conflito se desenvolve enquanto
estudantes de Engenharia Civil e Administração rejeitam projetos impulsionados
a partir do Conselho Universitário, que consideram lesivos para seus cursos e
para a própria estrutura acadêmica da universidade.
A
continuidade da ocupação reflete como o conflito já transborda uma simples
disputa administrativa. O que aparece é um questionamento à condução vertical
das autoridades universitárias e a uma lógica institucional em que as decisões
fundamentais são tomadas de costas para os estudantes e trabalhadores.
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Universidade Católica do Peru: a mobilização obriga a reitoria a recuar
Na
Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), depois de duas semanas de
protestos e oito dias de ocupação do edifício Dintilhac, começou a retirada
voluntária de estudantes após a assinatura de um acordo com as autoridades
universitárias.
O pacto
contempla a suspensão do novo sistema de pensões previsto para 2027 e a
instalação de uma mesa de diálogo com representação paritária entre estudantes
e autoridades, cujos acordos deverão ser levados ao Conselho Universitário.
A
Federação de Estudantes da PUCP sustentou que a mobilização permitiu frear
parcialmente a reforma e abrir uma revisão do sistema de escalas, além de obter
maiores garantias diante de possíveis processos disciplinares contra estudantes
mobilizados.
Mas o
conflito deixou algo mais profundo. Os estudantes começaram a questionar
abertamente a lógica empresarial dentro da universidade. “A PUCP não pode se
comportar como uma empresa”, afirmou a FEPUC, exigindo também transparência
sobre as receitas e os recursos econômicos da instituição.
A
experiência demonstra novamente que mesmo concessões parciais só aparecem
quando existe organização e pressão vinda de baixo, não por meio de negociações
isoladas nem confiança passiva nas autoridades universitárias.
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Universidade de Jaén: as rondas urbanas e setores populares apoiam o protesto
estudantil
A
ocupação estudantil na Universidade Nacional de Jaén também somou novos apoios.
As rondas urbanas e até o prefeito provincial José Tapia tiveram que sair em
apoio público à mobilização iniciada pela crise do restaurante universitário.
Os
estudantes mantêm o protesto exigindo a reativação imediata do serviço
alimentar, fundamental para centenas de jovens de baixa renda que dependem do
restaurante para sustentar sua permanência na universidade.
O apoio
de organizações populares e setores da comunidade local mostra como o conflito
universitário começa a se conectar com demandas sociais mais amplas vinculadas
ao abandono estatal e à precarização de direitos básicos.
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San Marcos: denunciam ameaças contra a ocupação e cresce a tensão
Enquanto
isso, em San Marcos, a Federação Universitária de San Marcos denunciou uma
possível tentativa de invasão de grupos de choque ou “capangas” no campus
universitário durante a noite desta última quinta-feira, em meio à ocupação
estudantil que continua dentro da universidade.
Segundo
denunciaram estudantes mobilizados, existia a preocupação de possíveis
tentativas de despejo da ocupação. A FUSM responsabilizou as autoridades
universitárias por qualquer ato de violência que pudesse ocorrer.
As
denúncias aparecem em um contexto marcado pela crescente rejeição à reitora
Jerí Ramón e pela exigência de nulidade do processo eleitoral universitário,
vacância da reitoria e revogação da Lei Universitária 30220, defendida pela
Frente Única Triestamental, uma frente conformada por trabalhadores, estudantes
e organizações sociais.
A isso
se soma uma nova denúncia pública divulgada pela FUSM, na qual se aponta que o
sobrinho do esposo da reitora teria obtido contratos próximos a um milhão de
soles (moeda peruana) com a Universidade de San Marcos, aprofundando as
acusações de redes de favores e corrupção dentro da gestão universitária.
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La Cantuta: ocupação total do campus
Na
Universidade Nacional de Educação Enrique Guzmán y Valle, La Cantuta, o
protesto estudantil escalou para a ocupação total do campus universitário. A
medida, iniciada em torno da residência estudantil, exige que esses espaços
voltem a ser destinados a jovens de baixa renda e estudantes provenientes de
regiões afastadas que dependem da moradia universitária para poder sustentar
seus estudos.
A
radicalização do protesto reflete um descontentamento mais profundo diante da
deterioração das condições materiais dentro da universidade e da condução
burocrática das autoridades. Diferentes setores estudantis se somaram à
ocupação, assinalando que a residência deve recuperar sua função histórica a
serviço dos filhos de trabalhadores e setores populares.
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Rumo a uma coordenação nacional vinda de baixo
Os
recentes protestos mostram que a crise universitária já não pode ser
interpretada como uma soma de conflitos isolados. O que começa a emergir é um
processo mais amplo de questionamento ao regime universitário construído
durante décadas sob critérios neoliberais, burocráticos e antidemocráticos.
Também
começa a aparecer uma tendência importante rumo à coordenação entre federações
e organizações estudantis. A participação conjunta da FEPUC, Federação da
Pontifícia Universidade Católica, e da FUSM, Federação Universitária San
Marcos, o apoio logístico da FEPUC a La Cantuta são mostras de solidariedade e
luta que refletem as primeiras tentativas de articulação nacional entre setores
mobilizados.
A
experiência recente deixa uma conclusão central. Nenhuma transformação real da
universidade virá das autoridades, do Congresso ou das reformas administradas
de cima. As conquistas parciais obtidas até agora foram produto da mobilização,
da ação direta e da organização democrática a partir das bases.
Por
isso, a perspectiva segue sendo fortalecer assembleias estudantis,
coordenadoras universitárias e espaços unitários entre estudantes,
trabalhadores e docentes, capazes não apenas de enfrentar medidas concretas,
mas de disputar o próprio sentido da universidade diante de um modelo
subordinado ao mercado e aos interesses das classes dominantes.
Fonte:
Por Daniel Vargas Downing, em Esquerda Diário

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