quarta-feira, 27 de maio de 2026

Da Alemanha ao Chile: o movimento estudantil protagoniza mobilizações no mundo

Analisamos brevemente as principais mobilizações que hoje atravessam o movimento estudantil a nível internacional, destacando a relevância da juventude como ator político para enfrentar ataques e lutar pelos direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores, em defesa da educação pública, contra os ajustes e contra a guerra.

O movimento estudantil sempre deu o que falar. Suas mobilizações não contam apenas com interessantes expressões artísticas e culturais, além de serem fonte de combatividade e coragem para as gerações mais velhas; ao expressarem em seu interior as contradições vividas pelos setores populares, seguem sendo, portanto, uma caixa de ressonância das contradições da sociedade.

Nesse contexto, chama atenção como, nas últimas semanas, os estudantes e o debate educacional voltam ao centro das atenções, diante de uma série de ataques de diversos governos contra seus próprios povos. Assim, tem sido o movimento estudantil que assumiu a dianteira.

<><> Alemanha

No último 8 de maio, ocorreu uma importante jornada de mobilização na Alemanha, onde mais de 45 mil estudantes, em mais de 150 cidades, foram às ruas para protestar contra a campanha militarista que o serviço militar impulsiona para a juventude, promovida pelo governo de Friedrich Merz no início do ano.

Desde janeiro de 2026, as autoridades enviam questionários de alistamento para quem completa 18 anos, mandando mais de 200 mil cartas, das quais 72% foram respondidas, devido à multa de 250 euros para quem não responder. No caso das mulheres e de outros gêneros, a resposta não é obrigatória, e nesses casos o percentual cai para 3%.

O governo de Merz está empenhado em construir o “exército convencional mais forte da Europa”. Para isso, pretende gastar mais de 200 bilhões de euros anuais em novas armas e iniciar um processo de recrutamento obrigatório, caso não consiga convencer a juventude a se alistar voluntariamente.

A essa mobilização também se somaram trabalhadores dos hospitais públicos Vivantes, que estão há mais de três semanas em greve exigindo melhorias salariais, demonstrando que ambas as lutas são apenas dois lados da mesma moeda: a juventude quer um futuro que não seja a guerra; os trabalhadores da saúde querem uma vida digna. Ambas as lutas entram em conflito com os interesses da burguesia e do governo alemão, que ambicionam guerra e morte.

<><> Brasil

Estudantes da Universidade de São Paulo estão há mais de 25 dias em greves e manifestações contra a precarização das condições de estudo e trabalho, e contra as tentativas de privatização do governador de direita Tarcísio de Freitas.

Neste fim de semana, um grupo de estudantes que ocupava a reitoria da universidade foi brutalmente despejado. No entanto, a resposta foi imediata, com uma importante mobilização nesta segunda-feira entre trabalhadores e estudantes, coordenada junto às outras duas universidades estaduais, a UNESP e a Unicamp, culminando em um grande ato unificado por todas as suas reivindicações, no qual foi ratificada a continuidade da greve.

Não estão enfrentando apenas os ataques de sua própria reitoria, mas também fazem parte da resistência contra as forças bolsonaristas que mantêm posições de poder.

Nossas companheiras e companheiros da organização Faísca (integrada pelo Movimento Revolucionário de Trabalhadores e Independentes) vêm intervindo ativamente nas assembleias e ocupações, propondo um programa de saída integral para que a crise não seja paga pelos estudantes nem pelos trabalhadores. Suas principais demandas e propostas são:

Unificar as lutas: construir uma greve estadual unificada das três universidades (USP, Unesp, Unicamp) e coordenar com os trabalhadores municipais em greve.

Comandos de greve a partir da base: exigem que as direções estudantis deixem de articular o fim das greves e permitam a coordenação com delegados eleitos em assembleia.

Também reivindicam financiamento por meio de impostos sobre os ricos e a democratização da universidade mediante uma Assembleia Estatuinte livre e soberana, para acabar com o poder das burocracias dos reitores e passar a um governo dos três setores (estudantes, docentes e trabalhadores), com maioria estudantil.

<><> Argentina

Nesta terça-feira, 12, a Argentina viveu uma mobilização massiva em todo o país contra as políticas que atacam o financiamento universitário, que o governo de Javier Milei leva adiante depois que ele decidiu cortar 5,3 bilhões de pesos argentinos dos jogos universitários por meio de uma resolução.

A massividade volta a mostrar a enorme rejeição social a essas políticas de ajuste. Ao mesmo tempo, mostra como as autoridades universitárias e as burocracias sindicais — docentes, técnicos e universitárias — utilizam essa rejeição para respaldar uma estratégia de negociação com o governo que já fracassou.

A enorme mobilização contou com a participação de docentes, técnicos, estudantes e milhares de outras pessoas, demonstrando a grande solidariedade à luta pela defesa da educação pública e a rejeição que as políticas de Milei despertam na população.

A mobilização não se fez sentir apenas em Buenos Aires, capital argentina, mas também houve manifestações em províncias como Neuquén, Rio Negro, Mendoza, Jujuy, Córdoba e Tucumán.

O governo Milei atravessa uma crise política muito grande. Nossa organização irmã na Argentina, o Partido dos Trabalhadores Socialistas, considera necessário intensificar a luta para derrotá-lo agora. A Rede Nacional de Agrupações En Clave Roja (PTS e estudantes independentes) defende uma luta independente das autoridades, unindo docentes e técnicos numa perspectiva comum, rumo a uma luta nacional que derrote toda a política do governo. Essa perspectiva implica também impor à CGT e às direções sindicais o fim da escandalosa trégua que mantêm.

“É necessária outra perspectiva: assembleias intersetoriais reais, organização desde baixo, independência política das autoridades e um plano de luta consequente até derrotar o ajuste e conquistar salário, orçamento e defesa integral da universidade pública”, afirmam os companheiros do coletivo de juventude En Clave Roja.

<><> Chile

Nesta quinta-feira, 14, foi a vez do Chile, onde a Assembleia Coordenadora de Estudantes Secundaristas, junto com diversos Centros Acadêmicos, vêm impulsionando uma mobilização em todo o país para enfrentar a política de cortes de Kast na educação e contra a política criminalizadora representada pelo projeto de lei "Escolas Protegidas”, que busca apenas aumentar a perseguição contra a juventude e os estudantes organizados.

A CONFECH, dirigida pelas Juventudes Comunistas e pela Frente Ampla, dividiu diretamente o movimento ao convocar paralelamente outro dia de mobilização, enfraquecendo as forças do movimento estudantil. Tudo isso enquanto concentram sua estratégia na oposição parlamentar, apresentando centenas de emendas à chamada Lei de Reconstrução Nacional, sem propor nenhuma medida de força séria para deter esses ataques, enquanto a CUT segue com sua política de “diálogo social” com os grandes empresários.

É urgente começar desde já a unir as lutas: estudantes secundaristas e universitários, em instâncias de coordenação e assembleias para que nenhuma luta fique isolada. Atualmente, desenvolvem-se dezenas de ocupações em liceus em Santiago, e em Valparaíso começam a se articular assembleias em diferentes escolas.

Hoje, o perigo está na divisão e no desgaste. É preciso fortalecer a ACES como organização unitária, com base em delegados por escola em nível nacional e democracia direta. O movimento universitário deve impulsionar comitês de apoio às ocupações. Exigimos que a CONFECH convoque mobilização nesta quinta-feira, 14 de maio, para enfrentar as medidas de ajuste de Kast e retomar as demandas históricas do movimento estudantil: Abaixo a educação de mercado! Educação gratuita universal 100% financiada pelo Estado! Fim ao CAE, basta de enriquecer os bancos que cobram até três vezes o valor de nossas mensalidades! Pela autonomia universitária e escolar! Basta de criminalização estudantil! Fora a polícia das universidades e escolas!

¨      Protestos universitários no Peru se espalham e já conquistam suas primeiras reivindicações

Há mais de uma semana estourou a crise universitária que, ao longo dos dias, se aprofundou em diferentes regiões do país e começa a mostrar um elemento cada vez mais importante: a tendência à coordenação e à unidade entre estudantes, trabalhadores e setores populares diante da deterioração das condições educativas, do autoritarismo das autoridades e da mercantilização da universidade.

A crise universitária continua se aprofundando em diferentes regiões do país. Às recentes ocupações e mobilizações em San Marcos, na PUCP, Jaén, Quillabamba e na Universidade Nacional do Centro do Peru, agora se somam novas ações de luta na Universidade Nacional do Altiplano (UNA), em Puno, e na Universidade Nacional de Educação Enrique Guzmán y Valle, “La Cantuta”, onde estudantes mantêm ocupações e protestos contra autoridades universitárias, precarização e medidas consideradas antidemocráticas.

De Puno a Lima, passando por Jaén e La Cantuta, as ocupações universitárias, mobilizações e ações diretas expressam um questionamento crescente ao modelo universitário consolidado sob a Lei Universitária 30220, lei que destrói a autonomia universitária, e às políticas neoliberais que transformaram progressivamente as universidades em espaços subordinados a critérios empresariais e burocráticos.

<><> Universidade de Puno: a ocupação continua e cresce a rejeição às autoridades universitárias

Na Universidade Nacional do Altiplano de Puno, estudantes confirmaram que manterão a ocupação pacífica do campus universitário após as jornadas de resistência diante da repressão policial, que deixaram ao menos três estudantes feridos.

Os setores mobilizados exigem explicações sobre a criação de novas escolas profissionais e denunciam que as autoridades tentam impor reformas acadêmicas sem consulta real à comunidade universitária. O conflito se desenvolve enquanto estudantes de Engenharia Civil e Administração rejeitam projetos impulsionados a partir do Conselho Universitário, que consideram lesivos para seus cursos e para a própria estrutura acadêmica da universidade.

A continuidade da ocupação reflete como o conflito já transborda uma simples disputa administrativa. O que aparece é um questionamento à condução vertical das autoridades universitárias e a uma lógica institucional em que as decisões fundamentais são tomadas de costas para os estudantes e trabalhadores.

<><> Universidade Católica do Peru: a mobilização obriga a reitoria a recuar

Na Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), depois de duas semanas de protestos e oito dias de ocupação do edifício Dintilhac, começou a retirada voluntária de estudantes após a assinatura de um acordo com as autoridades universitárias.

O pacto contempla a suspensão do novo sistema de pensões previsto para 2027 e a instalação de uma mesa de diálogo com representação paritária entre estudantes e autoridades, cujos acordos deverão ser levados ao Conselho Universitário.

A Federação de Estudantes da PUCP sustentou que a mobilização permitiu frear parcialmente a reforma e abrir uma revisão do sistema de escalas, além de obter maiores garantias diante de possíveis processos disciplinares contra estudantes mobilizados.

Mas o conflito deixou algo mais profundo. Os estudantes começaram a questionar abertamente a lógica empresarial dentro da universidade. “A PUCP não pode se comportar como uma empresa”, afirmou a FEPUC, exigindo também transparência sobre as receitas e os recursos econômicos da instituição.

A experiência demonstra novamente que mesmo concessões parciais só aparecem quando existe organização e pressão vinda de baixo, não por meio de negociações isoladas nem confiança passiva nas autoridades universitárias.

<><> Universidade de Jaén: as rondas urbanas e setores populares apoiam o protesto estudantil

A ocupação estudantil na Universidade Nacional de Jaén também somou novos apoios. As rondas urbanas e até o prefeito provincial José Tapia tiveram que sair em apoio público à mobilização iniciada pela crise do restaurante universitário.

Os estudantes mantêm o protesto exigindo a reativação imediata do serviço alimentar, fundamental para centenas de jovens de baixa renda que dependem do restaurante para sustentar sua permanência na universidade.

O apoio de organizações populares e setores da comunidade local mostra como o conflito universitário começa a se conectar com demandas sociais mais amplas vinculadas ao abandono estatal e à precarização de direitos básicos.

<><> San Marcos: denunciam ameaças contra a ocupação e cresce a tensão

Enquanto isso, em San Marcos, a Federação Universitária de San Marcos denunciou uma possível tentativa de invasão de grupos de choque ou “capangas” no campus universitário durante a noite desta última quinta-feira, em meio à ocupação estudantil que continua dentro da universidade.

Segundo denunciaram estudantes mobilizados, existia a preocupação de possíveis tentativas de despejo da ocupação. A FUSM responsabilizou as autoridades universitárias por qualquer ato de violência que pudesse ocorrer.

As denúncias aparecem em um contexto marcado pela crescente rejeição à reitora Jerí Ramón e pela exigência de nulidade do processo eleitoral universitário, vacância da reitoria e revogação da Lei Universitária 30220, defendida pela Frente Única Triestamental, uma frente conformada por trabalhadores, estudantes e organizações sociais.

A isso se soma uma nova denúncia pública divulgada pela FUSM, na qual se aponta que o sobrinho do esposo da reitora teria obtido contratos próximos a um milhão de soles (moeda peruana) com a Universidade de San Marcos, aprofundando as acusações de redes de favores e corrupção dentro da gestão universitária.

<><> La Cantuta: ocupação total do campus

Na Universidade Nacional de Educação Enrique Guzmán y Valle, La Cantuta, o protesto estudantil escalou para a ocupação total do campus universitário. A medida, iniciada em torno da residência estudantil, exige que esses espaços voltem a ser destinados a jovens de baixa renda e estudantes provenientes de regiões afastadas que dependem da moradia universitária para poder sustentar seus estudos.

A radicalização do protesto reflete um descontentamento mais profundo diante da deterioração das condições materiais dentro da universidade e da condução burocrática das autoridades. Diferentes setores estudantis se somaram à ocupação, assinalando que a residência deve recuperar sua função histórica a serviço dos filhos de trabalhadores e setores populares.

<><> Rumo a uma coordenação nacional vinda de baixo

Os recentes protestos mostram que a crise universitária já não pode ser interpretada como uma soma de conflitos isolados. O que começa a emergir é um processo mais amplo de questionamento ao regime universitário construído durante décadas sob critérios neoliberais, burocráticos e antidemocráticos.

Também começa a aparecer uma tendência importante rumo à coordenação entre federações e organizações estudantis. A participação conjunta da FEPUC, Federação da Pontifícia Universidade Católica, e da FUSM, Federação Universitária San Marcos, o apoio logístico da FEPUC a La Cantuta são mostras de solidariedade e luta que refletem as primeiras tentativas de articulação nacional entre setores mobilizados.

A experiência recente deixa uma conclusão central. Nenhuma transformação real da universidade virá das autoridades, do Congresso ou das reformas administradas de cima. As conquistas parciais obtidas até agora foram produto da mobilização, da ação direta e da organização democrática a partir das bases.

Por isso, a perspectiva segue sendo fortalecer assembleias estudantis, coordenadoras universitárias e espaços unitários entre estudantes, trabalhadores e docentes, capazes não apenas de enfrentar medidas concretas, mas de disputar o próprio sentido da universidade diante de um modelo subordinado ao mercado e aos interesses das classes dominantes.

 

Fonte: Por Daniel Vargas Downing, em Esquerda Diário

 

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