MEMÓRIAS DE 64: A greve dos boias-frias de
Guariba que desafiou usineiros e policiais na ditadura militar
“Desceu a ordem do
governador na época, o [Franco] Montoro, para acabar com a greve não importava
como.” Assim relembra Wilson Silva, presidente do Sindicato dos Empregados
Rurais da pacata Guariba, no interior paulista. A greve, no caso, era um feito
histórico: em maio de 1984, cerca de 7 mil trabalhadores do corte de
cana-de-açúcar, os chamados “boias-frias”, cruzaram os braços e se levantaram
contra usineiros em plena ditadura militar.
A resposta do regime
foi a violência. Policiais militares de vários municípios foram enviados à
cidade. A praça da igreja matriz se tornou um campo de guerra: de um lado,
boias-frias desarmados e, do outro, o efetivo da PM com cassetetes, cães e
armas de fogo. Em meio aos espancamentos e tiros, o metalúrgico Amaral Vaz
Melone, de 49 anos, foi morto por um disparo enquanto assistia à greve, em
frente ao estádio municipal.
Apesar da repressão, o
episódio entrou para a história como um exemplo de vitória de trabalhadores nos
anos finais da ditadura. Os grevistas conseguiram ter algumas das suas
reivindicações aceitas, como a entrega de equipamentos de proteção, lugares
adequados para o armazenamento de alimentos e água, além de transporte seguro
aos canaviais.
Hoje, 40 anos após a
greve e 60 desde o golpe que instaurou a ditadura militar, a Agência Pública
foi até Guariba para revisitar os trabalhadores que se insurgiram contra os
usineiros e os policiais enviados pela ditadura.
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Boias-frias “acordaram” e desafiaram
usineiros e polícia militar
O dia a dia dos
cortadores de cana na década de 1980 começava por volta das 4h, como lembra
Davi Alves Roque, de 57 anos. Eles iam de pau de arara até os canaviais, onde
cortavam a cana e colocavam o amontoado em caminhões que transportavam a
colheita até as usinas. “Você acabava sendo escravo, sem saber que é escravo”,
contou.
O trabalho, que já era
desgastante, piorou após uma decisão dos usineiros de mudar a exigência sobre a
quantidade que deveria ser cortada: os empresários aumentaram a regra de corte
de cinco para sete fileiras de cana-de-açúcar, sem nenhum ganho a mais para os
trabalhadores. Além disso, os boias-frias se queixavam da falta de equipamentos
de proteção, condições precárias para armazenar água e comida e a insegurança
dos paus de arara.
A greve teve início em
14 de maio de 1984. A adesão foi de quase 100%, segundo os grevistas ouvidos
pela Pública, uma vez que os manifestantes montaram barricadas para
impedir a ida dos caminhões que transportavam os boias-frias às usinas.
“[Os usineiros] Não
tomavam nenhuma atitude com relação à situação ruim que vivia [o trabalhador
rural] e de repente o povo se levantou. O Brasil acordou e os trabalhadores
acordaram e perceberam que eles tinham força, sim. Foi onde [a categoria]
começou a se organizar”, relembra Wilson Silva, do Sindicato dos Empregados
Rurais de Guariba. “Foi uma greve histórica. Não tinha uma organização própria,
foi muito espontânea, do próprio trabalhador. Criou-se uma comissão de
trabalhadores e formou-se o sindicato, que foi reconhecido já em 1985”,
relatou.
José de Fátima Soares,
de 67 anos, cortou cana dos 8 aos 27 anos. Ele esteve junto aos trabalhadores
que fundaram, em setembro de 1984, o sindicato que estava inoperante desde a
década de 1950. Com sua moto, ele levou a reportagem da Pública até a
praça onde fica sediada a igreja matriz de Guariba, o palco principal do
movimento. Foi lá que as forças policiais reprimiram os grevistas.
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Autor de tiro que matou metalúrgico em meio
à greve segue desconhecido
A morte de Amaral Vaz
Melone, de 49 anos, até hoje não foi elucidada. O tiro que atingiu o rosto do
metalúrgico e o matou ainda no local permanece sem autoria conhecida. A morte
dele se tornou um símbolo da luta dos trabalhadores do campo, mesmo que ele não
integrasse a categoria.
Na época, a Polícia
Militar do Estado de São Paulo era comandada pelo futuro presidente do Brasil
Michel Temer (MDB), que ocupava o cargo de secretário de Segurança Pública. A
reportagem questionou o ex-presidente sobre as denúncias de violência policial
e a morte de Melone. “Eu nem me recordo nessa altura, confesso a você [sobre as
denúncias apontadas pelos grevistas]”, disse o ex-presidente. “Eu mandaria
apurar. Se houvesse violência, violência indevida, eu mandaria apurar. Não
tenho dúvida disso”, disse.
Com os olhos
marejados, Valdir Melone, 62, filho do metalúrgico assassinado, relembra a
trajetória do pai, nascido na própria Guariba. “É uma sensação de impotência
das coisas, de não conseguir saber o que aconteceu. Foi uma morte em vão nesse
sentido, em vão acabou não sendo [ao se referir ao resultado positivo da
greve], mas pra isso teve que ter uma morte”.
O neto, Marcos Melone,
43, tinha 2 anos quando o avô foi morto. “Até hoje a gente não descobriu quem
foi o autor do tiro. A gente tem algumas especulações, mas não cabe a mim
dizer, nem sequer a minha família sabe realmente quem foi o autor”, desabafou.
A Pública foi
até à delegacia de Guariba, onde foi informada de que os documentos referentes
à investigação policial teriam sido perdidos em uma chuva torrencial que
atingiu o município anos atrás. A equipe de policiais civis não soube dizer quando
foi a perda de material. Procurada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP),
sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), respondeu que o
caso foi arquivado e qualquer informação deve ser apurada com a Justiça.
Além de Melone, outros
três trabalhadores foram atingidos por disparos de arma de fogo, segundo José
de Fátima. “Em 1984, houve tiro. Teve o Isaías, que tomou tiro na perna e no
pé, o Antônio tomou tiro na perna e tem uma moça que tomou um tiro que pegou na
barriga”, disse o ex-líder sindical.
Segundo o
ex-presidente do sindicato, na época, cerca de cem pessoas foram presas, mas os
números exatos eram difíceis de ser obtidos, uma vez que o Brasil ainda vivia
sob o regime militar.
Soares lembra que, na
época, houve também um aumento da cobrança de água pela companhia de
saneamento, que pressionou ainda mais os trabalhadores. Durante a greve, os
trabalhadores tentaram conversar com o gerente da Sabesp, mas, segundo contam,
não foram atendidos, uma vez que ele havia se escondido na delegacia de
Guariba. Revoltados, os grevistas destruíram o escritório da companhia de água
e esgoto, em forma de protesto.
Um supermercado, de
propriedade de Claudio Amorim, líder do PMDB regional, foi saqueado pelos
grevistas. “Ele [dono do supermercado] subiu numa dessas calçadinhas aqui e
desafiou o povo: ‘Olha, se eu sou o comandante, eu meto bala [nos
manifestantes]’”, contou o José de Fátima Soares sobre o motivo do saque.
Apesar da violência
policial e da morte, os grevistas conseguiram o retorno do corte de cana em
cinco ruas, a entrega de equipamentos para proteção, melhores condições para
armazenar comida e água e melhorias no transporte para os canaviais.
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Greve de Guariba inspirou outros movimentos
no estado
A greve dos
canavieiros de Guariba em 1984 foi a primeira organizada pela categoria no
estado, o que inspirou levantes em cidades vizinhas como Barrinhas, Morro
Agudo, Sertãozinho, Jaboticabal, São Joaquim da Barra, Guaraci, Guará e
Bebedouro. Elas também foram palcos de outros protestos organizados por
trabalhadores rurais que exigiam melhores condições de trabalho.
Mesmo em Guariba,
outras manifestações dos trabalhadores rurais eclodiram nos anos seguintes. Uma
delas, em janeiro de 1985, terminou com nova repressão da Polícia Militar de
São Paulo. Policiais do Batalhão de Choque foram enviados a Guariba a mando do então
secretário de Segurança Pública Michel Temer.
“Eu estava num
piquete, no bairro João de Barro, não sei se no segundo ou no terceiro dia da
greve. Estávamos todos lá quando vimos vários caminhões da Tropa de Choque
encostando e avançando em direção ao bairro. Então quem estava na frente
apanhou. Eu estava” contou o padre José Domingos Bragheto, de 74 anos, que na
época integrava a Comissão Pastoral da Terra (CPT).
“Depois de levar uma
surra, eu me sentei e, quando a tropa recebeu a ordem de voltar, eu me lembro
que um PM veio em minha direção e falou: ‘Essa foi a minha conta’ e [levei]
mais uma cacetada. Eu não reagi porque não tinha condições”, relembrou Bragheto.
“Eu me lembro que na
época a Conferência de São Vicente de Paula soltou uma nota na imprensa local
repudiando a minha presença no movimento”, contou o padre. “Mostrando
claramente que lado eles estavam”, completou em tom de indignação.
Em janeiro de 1985,
policiais militares invadiram as casas dos moradores do bairro João de Barro,
onde estava concentrada a maior parte dos cortadores de cana, segundo José de
Fátima. “[A Tropa de Choque] Entrou nas casas e bateu em mulher grávida e em uma
criança de um ano e oito meses”, contou o ex-líder sindical.
Quando foi questionado
sobre quem mandou a Tropa Choque para Guariba, Michel Temer ironizou: “Ou seja,
um sujeito perigosíssimo, chamado de secretário de Segurança Pública, mandou
tropa de choque para lá”, mas na sequência completou: “É possível que a Tropa
de Choque tenha ido para lá. Isso não saberia confirmar para você, né? Mas é
possível, é muito provável”.
Apesar das dezenas de
trabalhadores feridos em decorrência dos espancamentos promovidos pelos
militares, os grevistas conseguiram reajustes e igualdade salarial entre
homens, mulheres e adolescentes.
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Usineiros financiaram policiais para
reprimir grevistas
Na segunda onda de
protestos dos cortadores de cana de Guariba, em janeiro de 1985, usineiros
financiaram a estadia de policiais militares vindos de outras regiões do estado
para reprimir a greve, conforme um inquérito militar aberto em março de 1985 e
obtido pela Pública. A denúncia que levou ao inquérito foi feita pelo
deputado peemedebista Waldyr Alceu Trigo (1938-2011), na Assembleia Legislativa
do Estado de São Paulo.
O apoio ocorreu por
meio de uma agência de marketing, que prestava serviços de assessoria de
imprensa às usinas São Martinho, São Geraldo e Santo Antônio, que operavam na
região de Ribeirão Preto, onde está situada a cidade de Guariba. Segundo as
investigações, o coronel da PM Biratan Godoy pediu ajuda financeira para que os
empresários custeassem a estadia, alimentação, transporte e abastecimento de
viaturas oficiais.
De acordo com o
documento, a empresa Imagem Relações Públicas e Publicidade S/C Ltda. pagou 21
milhões de cruzeiros, o equivalente hoje a cerca de R$ 104 mil, de acordo com
os dados básicos de correção do Índice Nacional de Preços ao Consumidor
Amplo (IPCA) do IBGE. O depósito foi feito na conta pessoal do coronel, que, na
época, estava à frente do Comando de Policiamento de Área do Interior 3
(CPAI-3), responsável pelo policiamento de área na região de Ribeirão Preto.
Para justificar os
gastos, o coronel apresentou notas fiscais, emitidas em 31 de janeiro de 1985,
após a greve de Guariba. O valor restante foi devolvido à empresa de
comunicação: 4 milhões de cruzeiros, o equivalente a R$ 21 mil atualmente.
Contudo, o grupo de usineiros, empresários e fazendeiros que contribuíram optou
por não receber o dinheiro. A defesa do coronel Biratan Godoy apontou no
processo que o pagamento remanescente foi investido na compra de equipamentos
para a cavalaria da PM.
O promotor de Justiça,
na época, ponderou que o coronel deveria ter procurado seus superiores, e não
os usineiros. No entanto, a bancada de juízes, composta apenas por militares,
votou pela absolvição do coronel e alegou que “a quantia foi dada, espontaneamente,
pelo simples fato de saberem que a Polícia Militar necessitava e aceitaria
auxílio, até porque tinham interesse para que a greve terminasse e a PM
lograsse êxito em suas operações”.
Questionado pela
reportagem, Michel Temer rebateu as acusações de pagamento. “A PM vivia das
verbas públicas, evidentemente. Imagina se ela vai procurar usineiro para
manter-se a si própria”, disse. “Aliás, para não mentir, muitas e muitas vezes,
os municípios ajudavam a segurança pública, tanto a Polícia Civil como a
Polícia Militar, né? Às vezes, arrumando casas etc. Mas essa de Polícia Militar
ir atrás de usineiro, para o usineiro financiar, eu nunca tive notícia”,
afirmou.
Como secretário de
Segurança Pública de São Paulo da época, Michel Temer disse que o procedimento
correto que o coronel deveria ter tomado era procurar seus superiores. “Se um
sujeito teve dificuldade, a coisa é procurar o poder público. Por exemplo, precisa
de mais recursos. E não procurar indivíduos particulares”, afirmou.
Questionada sobre a
doação, a usina São Martinho respondeu que “conta com uma política de doações e
investimento social privado disponível para acesso em seu site. Atualmente, as
doações seguem o previsto nessa política. Em relação aos fatos questionados,
não tem conhecimento do conteúdo do inquérito, tampouco registro das
informações mencionadas referentes a um fato ocorrido há 40 anos”.
Procurada por
telefone, a assessoria de imprensa da Usina Santo Antônio não atendeu as
ligações da Pública e não obtivemos resposta dos questionamentos
feitos por e-mail.
A Pública não
conseguiu contato com a Usina São Geraldo e o espaço segue aberto para
respostas.
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Ex-boias-frias, trabalhadores tentam ganhar
a vida em Guariba
Lucindo da Rocha, de
62 anos, limpava o chão da mercearia no Bairro Alto, em Guariba, quando a
reportagem o abordou. Na tarde anterior, o estabelecimento esteve movimentado:
clientes haviam assistido ao jogo entre São Paulo Futebol Clube e o Ituano,
última partida de classificação para a próxima etapa do Campeonato Paulista de
Futebol, e a classificação do tricolor rendeu comemorações até altas horas do
dia anterior.
Rocha contou que saiu
de Berilo, município de 9 mil habitantes no interior de Minas Gerais, para
trabalhar com corte de cana em Guariba em 1979. Segundo o comerciante, as
condições de sobrevivência eram difíceis na cidade natal, então seguiu os
conselhos do irmão mais velho para trabalhar nos canaviais.
Hoje ele é
proprietário do “Bar do Lucindo”, nome dado à mercearia pintada de verde,
decorada com quadros e bandeiras em homenagem ao seu time de coração: o
Palmeiras. No estabelecimento, o ex-cortador de cana contou sobre as
dificuldades enfrentadas na época. “Era bem sofrido, a gente não tinha nem EPI
[equipamento de proteção individual]”, contou. “Nós íamos de pau de arara, um
caminhão. Rapaz, aquilo era Deus que protegia a gente, porque naquele tempo era
difícil”, acrescentou.
A entrevista foi
interrompida por um cliente, Euclides Ferreira Vaz, de 68 anos, que trabalhou
nos canaviais até 1978. Ele era responsável por carregar o amontoado de cana e
colocá-lo em caminhões que o transportavam até as usinas. “No frio [a usina]
não dava luva. Você ia pegar a cana e gelava a mão. Você acendia foguinho pra
voltar a trabalhar”, disse.
Maria Diva de Melo, de
61 anos, estava sentada em frente ao seu bar. No local, estavam estacionados
dois ônibus usados para transportar trabalhadores rurais atualmente. “A gente
já não tinha hora pra comer. Às vezes perdia até a hora, talvez se ganhasse um
pouquinho mais, né?”, relembrou.
O calor e a falta de
refrigeração faziam com que a comida estragasse, segundo Diva. “A comida azeda
eu tinha que jogar fora, né? Porque não dava nem tempo pra comer. Vontade de
ganhar dinheiro e precisão também, né? E a gente levava era ‘caldeirãozinhos’
de alumínio”, disse ela, que foi boia-fria de 1976 a 1992.
Diva, como é conhecida
em Guariba, começou a cortar cana aos 13 anos, após ter deixado a cidade de
Minas Nova, no interior de Minas Gerais, para trabalhar com a mãe nos canaviais
paulistas. Sem nunca ter ido à escola, ela contou que não teve oportunidade
para estudar, porque o trabalho era uma necessidade. A função era registrada,
mas os ganhos eram diferentes: a remuneração de homens era mais alta do que a
de mulheres e adolescentes, embora exercessem a mesma função.
“Eu cortava umas 5, 6,
7 [toneladas de cana-de-açúcar] e o último que eu cortei, eu cortei 360 metros
de cana uma vez só, também”, contou Diva. A reportagem perguntou quanto isso
rendeu a ela, mas a comerciante não soube responder. Hoje, no bar, ela comercializa
vinhos, cachaças, cervejas e alguns doces.
Fonte: Por Rafael
Custódio, da Agência Pública

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