quarta-feira, 31 de julho de 2024

Como eleição na Venezuela se tornou 'maior teste' para política externa de Lula

O desfecho das eleições venezuelana se tornou "um desafio enorme" e "o maior teste" para a diplomacia do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, afirmam analistas em política externa ouvidos pela BBC News Brasil.

O Conselho Nacional da Venezuela (CNE) divulgou que o presidente Nicolás Maduro venceu as eleições realizadas no domingo (27/7), mas os resultados foram contestados pela oposição, que disse ter havido fraude "grosseira" para modificar os números.

Em sua primeira reação, o governo brasileiro evitou apoiar qualquer um dos lados e disse que aguardaria mais informações sobre os resultados das urnas, já que o CNE divulgou inicialmente apenas dados gerais, sem dar transparências aos números de cada mesa eleitoral, o que permitiria a checagem dos resultados.

Em nota, o Itamaraty defendeu que a divulgação dos dados desagregados por mesa de votação é "passo indispensável para a transparência, credibilidade e legitimidade do resultado do pleito".

A vitória de Maduro foi anunciada pelo presidente do CNE, Elvis Amoroso, na madrugada de segunda-feira. Segundo ele, o presidente foi reeleito por 51,2% dos votos, contra 44,2% do opositor Edmundo González, com 80% das urnas apuradas.

Já María Corina Machado, principal líder da oposição, inabilitada para exercer cargos públicos e apoiadora de González, afirmou que as atas de votação transmitidas das mesas eleitorais ao CNE dão vitória para a oposição.

Lula e seu partido (PT) foram, historicamente, importantes aliados do governo venezuelano, desde que Hugo Chávez chegou ao poder em 1999 e foi sucedido por Maduro, após sua morte em 2013.

No entanto, notam analistas políticos, essa aliança acabou se enfraquecendo, conforme aumentaram os questionamentos sobre o autoritarismo do governo Maduro e o apoio ao governo venezuelano se tornou fator de desgaste interno para Lula e o PT.

O presidente brasileiro inclusive criticou declaração de Maduro de que haveria "banho de sangue, em uma guerra civil fratricida" se ele não vencesse as eleições. E o líder venezuelano reagiu dizendo que o sistema eleitoral brasileiro não seria auditável como o da Venezuela, o que foi repudiado, no Brasil, pelo Tribunal Superior Eleitoral, que desistiu de enviar dois observadores para acompanhar o pleito.

É nesse contexto que o diplomata aposentado Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Londres e Washington, avalia a eleição venezuelana como "o maior teste nesse ano e meio de governo do Lula na política externa".

"Vamos ver se o governo vai atuar com base nos interesses brasileiros ou de acordo com princípios ideológicos", disse ainda à BBC News Brasil.

Sua expectativa é que o governo Maduro não vai divulgar os dados detalhados da votação, deixando o Brasil numa "sinuca de bico".

"Não sei como [a diplomacia e o governo Lula] vão sair dessa. Já arranjaram desculpa, disseram [o governo Maduro] que um hacker entrou lá no sistema eleitoral, então vão dizer que não tem ata", acredita Barbosa.

·        'Itamaraty colocou pressão sobre regime Maduro'

Professor de Política Internacional e Comparativa na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dawisson Belém Lopes também vê o desfecho da eleição venezuelana como um "desafio enorme" para a diplomacia de Lula.

Ele ressalta que a posição divulgada pelo Itamaraty representa uma "ruptura" na tradição brasileira de não interferência em questões domésticas de outros países e "colocou pressão pública sobre o regime de Nicolás Maduro".

Segundo a Constituição Brasileira, as relações internacionais do país são regidas por dez princípios, incluindo a autodeterminação dos povos, a não-intervenção, a prevalência dos direitos humanos e a defesa da paz.

"Essa decisão brasileira de, de uma forma suave, impor condições para o reconhecimento de um governo ou de um processo eleitoral, é bastante atípico", nota Lopes.

"O que acontece, via de regra, é que o Brasil reconhece, qualquer que seja, o governante, entendendo que não cabe ao Brasil atuar na política doméstica de outros países. Então, há sim uma novidade, uma ruptura, até eu diria, de trajetória", acrescentou.

Na visão do professor, essa mudança reflete como a Venezuela "se tornou um fator muito perturbador para a política regional, com implicações para a política doméstica, para a política eleitoral dos países (da região), inclusive o Brasil".

Lopes ressalta que o governo Maduro hoje não é apenas rechaçado por governos de direita na região, mas também sofre críticas de líderes de esquerda, como os presidentes do Chile (Gabriel Boric) e da Colômbia (Gustavo Petro)

"A diplomacia do Brasil tem tentado reintegrar a Venezuela ao conserto regional da América do Sul em vão. Há muitas resistências ao governo de Nicolás Maduro".

"Então, de uma certa maneira, dá para dizer que a aspiração brasileira de reativar a Unasul [União de Nações Sul-Americana] e de restituir o projeto de integração regional sul-americano esbarra no fator Maduro, e tem sido cada vez mais difícil, mesmo para o Brasil, coordenar-se com o governo venezuelano", acrescentou.

Ele lembra ainda que a continuidade do governo Maduro traz riscos de mais instabilidade para a região, na medida em que o presidente venezuelano reivindica a região de Essequibo, hoje território da vizinha Guiana, como sendo da Venezuela.

"Se Maduro, por exemplo, cogitar invadir a Guiana, cenário hipotético, isso pode trazer as potências mundiais para o nosso quintal. Estou falando dos Estados Unidos (críticos do governo Maduro), China e Rússia (aliados do governo Maduro). Certamente é uma perspectiva que não nos interessa. A manutenção dessa paz e segurança regionais é algo que o Brasil preza e o Brasil vai tentar garantir", disse ainda.

Pedido do Brasil não é interferência, diz consultor

Mestre em direito internacional pela USP e consultor em Direitos Humanos, o advogado Victor Del Vecchio está na Venezuela acompanhando o processo eleitoral.

Ele disse à BBC News Brasil que o clima nos últimos dias foi de grande mobilização nas ruas, tanto de apoiadores do governo quanto de eleitores da oposição, sendo difícil apontar um lado favorito na disputa.

"Eu pude viajar por seis estados diferentes, conversei com pessoas de diferentes estratos sociais, matriz político-ideológica, nível de instrução, e, de fato, o país estava muito dividido. Seria impreciso e irreal abraçar qualquer uma das narrativas que tenta dizer que havia uma vantagem esmagadora nas ruas de um lado ou de outro", diz.

Antes da eleição, a maioria das pesquisas no país indicavam que o candidato da oposição, Edmundo González Urrutia, liderava a corrida presidencial.

Del Vecchio considera que foi "muito acertada" a decisão do governo Lula de demandar informações mais completas do resultado eleitoral antes de se posicionar.

"Inclusive porque, pelo que tenho conversado com muitos especialistas e observadores internacionais, o sistema de votação venezuelano é muito seguro", afirmou.

"Mas, para que essa segurança se efetive, o processo eleitoral precisa ser completo. Então, o que o Brasil está pedindo é justamente que o processo transcorra até o final com essa confirmação de votos através da entrega de atas (de votação das mesas eleitorais), o que pode confirmar que o resultado divulgado é de fato o resultado obtido nas urnas", acrescentou.

Para Del Vecchio, o pedido do Brasil por dados mais transparentes "não extrapola limites da diplomacia brasileira".

"Esse princípio [de não intervenção] tem limites. E eu acredito que observar a autodeterminação do Estado venezuelano, em alguma medida, também significa fazer esforços para que o país consiga conduzir um pleito eleitoral justo e limpo", argumenta.

"Pensando em outros princípios das nossas relações exteriores, inclusive nas nossas estratégias enquanto liderança regional, o Brasil tem um papel muito importante de balizar boas práticas democráticas na região. Entendo que essas medidas que o país tem tomado vêm nessa linha", reforçou.

·        Quais podem ser os próximos passos do Brasil?

Se não houver a divulgação das atas eleitorais, o governo brasileiro enfrentará um "impasse" sobre reconhecer ou não a eleição de Maduro, prevê Del Vecchio.

Ainda assim, ele acredita que o Brasil pode seguir uma postura pragmática, mantendo as relações com o governo venezuelano, apesar das contestações ao resultado.

"Talvez nunca se chegue a um resultado que o Brasil possa reconhecer plenamente, mas, tacitamente, ele o tenha que fazer em razão de relações diplomáticas, comerciais e até estratégicas em termos de geopolítica com o nosso vizinho venezuelano", analisa.

"E claro, também deve haver um cuidado por parte do Lula de ser pragmático. Em alguma medida, ele precisa reconhecer o governo do Maduro, mas ele também não precisa mostrar grande conivência e amizade com o mandatário", ressalta.

Para Dawisson Belém Lopes, professor da UFMG, a reação do governo brasileiro, caso não sejam divulgados dados confiáveis do resultado eleitoral, dependerá dos desdobramentos internos da Venezuela.

"O que vai acontecer é muito contingente de qual será a reação da sociedade venezuelana. Eu acho que esse é o primeiro e mais importante vetor. O papel do Brasil não pode ser primário nesse processo", afirma.

"Dependendo do grau de conflagração, de conflito social na Venezuela, a resposta pode ser uma ou outra, ou uma terceira", reforça.

Já o embaixador Rubens Barbosa acredita que o governo Lula vai aguardar a reação de outros atores internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Centro Carter, principal organização internacional que acompanhou as eleições na Venezuela.

As duas instituições também pediram que sejam divulgados dados detalhados da apuração eleitoral.

 

¨      Governo Lula diz que dados de cada mesa de votação são necessários para credibilidade do resultado

governo brasileiro disse nesta segunda-feira (29/07) que aguarda a divulgação de dados mais completos sobre a eleição na Venezuela, realizada no domingo (28/7).

O Conselho Nacional da Venezuela (CNE) divulgou que o presidente Nicolás Maduro venceu as eleições, mas os resultados foram contestados pela oposição, que disse ter havido fraude "grosseira" para modificar os números.

Segundo María Corina Machado, principal líder da oposição, González Urrutia teria recebido 6,27 milhões de votos, enquanto Maduro teria tido 2,75 milhões. De acordo com ela, a oposição teria em seu poder 73,2% das atas de votação (algo como o boletim de urna no Brasil).

“Com as atas que nos faltam, mesmo que o CNE tenha dado 100% dos votos a Maduro, não alcançaria o que já temos. A diferença foi tão grande, tão grande, avassaladora, em todos os Estados da Venezuela, em todos os estratos, em todos os setores… Ganhamos", disse Machado.

Já Maduro, na cerimônia em que foi oficialmente proclamado como presidente eleito, acusou os opositores e a "extrema direita" no exterior de tentarem desestabilizar o país.

"Não é a primeira vez que enfrentamos o que enfrentamos hoje. Está sendo feita uma tentativa de impor um golpe de Estado na Venezuela, novamente. De natureza fascista e contrarrevolucionária", disse Maduro, apontando que estariam em curso os "primeiros passos" para desestabilizar o país.

"Os mesmos países que hoje questionam o processo eleitoral venezuelano, a mesma extrema direita fascista... foram os que quiseram tentar impor ao povo da Venezuela, acima da Constituição, um presidente espúrio, usando as instituições do país", disse ele, em alusão à autoproclamação como presidente interino do deputado Juan Guaidó, em 2019.

Segundo o presidente do CNE, Elvis Amoroso, Maduro obteve 51,2% dos votos, contra 44,2% do opositor Edmundo González, com 80% das urnas apuradas.

Em nota do Itamaraty, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que "saúda o caráter pacífico da jornada eleitoral de ontem na Venezuela e acompanha com atenção o processo de apuração".

Em seguida, ressaltou a importância da transparência na divulgação dos dados.

Até o momento, o CNE divulgou apenas dados gerais, sem desagregar os resultados das urnas.

"[O governo brasileiro] Reafirma ainda o princípio fundamental da soberania popular, a ser observado por meio da verificação imparcial dos resultados", diz a nota do Itamaraty.

A nota diz, ainda, que o governo brasileiro "aguarda, nesse contexto, a publicação pelo Conselho Nacional Eleitoral de dados desagregados por mesa de votação, passo indispensável para a transparência, credibilidade e legitimidade do resultado do pleito".

Na noite de segunda-feira, o Itamaraty divulgou uma outra nota, dessa vez alertando brasileiros que moram ou têm viagem marcada para a Venezuela sobre a segurança no país, "em vista dos recentes acontecimentos".

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) brasileiro tinha planos de enviar dois observadores para acompanhar o pleito na Venezuela, mas a Corte desistiu alguns dias antes das eleições após Maduro dizer, sem provas, que as urnas brasileiras não são auditáveis.

"Em face de falsas declarações contra as urnas eletrônicas brasileiras, que, ao contrário do que afirmado por autoridades venezuelanas, são auditáveis e seguras, o Tribunal Superior Eleitoral não enviará técnicos para atender convite feito para acompanhar o pleito do próximo domingo", disse o TSE em nota.

<><> Importância do posicionamento brasileiro

O governo venezuelano já foi acusado de cometer fraude eleitoral, e as eleições de 2018 foram consideradas ilegítimas por uma aliança formada por 14 nações latino-americanas mais o Canadá e os Estados Unidos.

Em 2024, no entanto, acordos entre oposição e governo chamados Acordos de Barbados permitiram a realização das eleições.

Segundo especialistas consultados pela BBC News Brasil antes da eleição, o Brasil deve ter papel de destaque na política venezuelana nos próximos meses.

O período entre a divulgação dos resultados e a posse presidencial, em janeiro, vai exigir dos países em torno da Venezuela - e especialmente do Brasil - muito cuidado na mediação entre as partes, afirmou Carolina Silva Pedroso, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O governo Lula já exerceu esse papel de mediador em outras ocasiões, inclusive durante as negociações para os Acordos de Barbados.

"Muitos acreditam que, sem a intervenção do Brasil, em especial a atuação pessoal do presidente Lula, o candidato da oposição Edmundo Gonzalez não estaria concorrendo e a situação seria semelhante à de 2018, quando havia pouco desafio a Maduro", afirma Phil Gunson, analista sênior da organização Crisis Group, que acompanha a situação venezuelana, sobre as negociações para o pacto.

O Brasil de Lula também trabalhou nas conversas entre a Venezuela e a Guiana após a crise pela disputa da região de Essequibo.

Uma reunião entre os chanceleres das duas nações aconteceu em Brasília em janeiro deste ano, com a mediação do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

Para Phil Gunson, agora Brasil e Colômbia terão um papel crucial.

"Na Venezuela, não existem instituições neutras; o Supremo Tribunal e a autoridade eleitoral estão totalmente controlados pelo governo. Portanto, a comunidade internacional tem um papel vital, já que a oposição não tem a quem recorrer internamente para apresentar seu caso", diz Gunson.


Fonte: BBC News Brasil

 

Quem possui e controla o capital global?

Desde a década de 1980, as finanças dos EUA cresceram desproporcionalmente em poder e influência, à medida que os fundos de investimento americanos se tornaram os maiores acionistas das corporações americanas, administrando dezenas de trilhões de dólares em investimentos. Este artigo fornece uma nova análise empírica da ascensão do capitalismo de gestores de ativos nos Estados Unidos.

De fato, ele explora a extensão de sua disseminação global, examinando o Formulário SEC de investidores institucionais dos EUA, juntamente com um extenso conjunto de dados de propriedade corporativa global fornecido pela Orbis. Este artigo conclui que as finanças dos EUA possuem aproximadamente 60% das empresas listadas nos EUA (era apenas 3% em 1945) e 28% do patrimônio de todas as empresas listadas globalmente.

Como maiores acionistas globais e gestores exemplares de ativos nos EUA, as Três Grandes detêm investimentos em 81% das empresas listadas nos EUA e possuem 17% do mercado de ações dos EUA, ao mesmo tempo em que aparecem como acionistas em 20% das empresas listadas em mercados de ações fora dos EUA e que possuem 4% das empresas não americanas mercado de ações.

Este artigo ilustra que a ascensão da era do investimento passivo e da propriedade universal, exemplificada pelas atividades das Três Grandes (BlackRock, Vanguard e State Street), produziu um cenário setorial e geograficamente desigual de fluxos de capital, exacerbando as divisões existentes entre o núcleo e o interior dos mercados financeiros globais. Com a propriedade de empresas listadas cada vez mais concentrada nas mãos de um pequeno número de fundos cada vez mais poderosos, este artigo argumenta que é na propriedade da maior parte do capital global que reside o poder das finanças modernas.

·        Crescimento financeiro

Desde a década de 1980, o setor financeiro americano cresceu desproporcionalmente em termos de lucro, poder e influência. Com as altas taxas de juros vindas após a desregulamentação financeira e a virada monetarista, alguns dos estudos acadêmicos anteriores atribuíram a crescente lucratividade das finanças dos EUA ao aumento da lucratividade dos bancos dos EUA.

Mais recentemente, no entanto, Benjamim Braun sugeriu que o poder estrutural das finanças modernas emana das grandes, ilíquidas e altamente diversificadas participações acionárias de fundos de investimento – e não de empréstimos bancários a empresas não financeiras. Com a propriedade e a gestão do capital superando a intermediação de crédito como a atividade financeira mais lucrativa nos Estados Unidos, o Wall Street Journal proclamou que “os bancos perderam a batalha pelo poder em Wall Street”, pois “lucros, ativos e influência passaram de bancos de investimento como Goldman para gigantes de gestão de dinheiro como a BlackRock e a Vanguard”.

Os intermediários financeiros mais poderosos de hoje não são mais bancos comerciais ou mesmo de investimento, mas as empresas de gestão de ativos que adquiriram quantias de capital historicamente sem precedentes, enquanto o surgimento de instituições financeiras envolvidas em investimentos levou a um entrelaçamento mais profundo entre capital industrial e financeiro.

Diante dessas rápidas transformações financeiras, Auvray propôs que a fase de financeirização pós-2000, caracterizada por baixas taxas de juros, altos pagamentos aos acionistas e centralização da propriedade financeira, precisa ser conceitualmente demarcada da fase anterior de financeirização dos anos 1980-1990, a qual foi amplamente documentada por Krippner.

As finanças contemporâneas parecem não facilitar mais os investimentos produtivos, o que prolonga o período contínuo de estagnação secular. Por isso, alguns argumentam que, apesar disso, as finanças continuam a deter o poder estrutural, embora as bases subjacentes de seu poder tenham mudado fundamentalmente.

Este artigo enfoca um aspecto da fase contemporânea da financeirização – a ascensão do capitalismo de gestão de ativos e sua distribuição geográfica desigual pelo mundo. Argumento que a medida em que o capital em todos os setores econômicos está sendo cada vez mais detido e gerenciado por intermediários financeiros, essa tem sido uma das transformações mais significativas, embora não suficientemente compreendidas, observadas na economia dos EUA nas últimas quatro décadas.

Inicialmente denominado “capitalismo de investidores” e “capitalismo de fundos de pensão”, esse fenômeno foi amplamente impulsionado por fundos de pensão privados ao longo das décadas de 1970 e 1980. Contudo, em meados da década de 1990, os fundos mútuos ultrapassaram os fundos de pensão privados como o maior acionista de corporações dos EUA após uma série de mudanças (des)regulatórias.

Com base na análise de Rudolf Hilferding do capitalismo financeiro no início do século 20, Gerald F. Davis cunhou o termo “novo capitalismo financeiro” para descrever um sistema de propriedade corporativa que começou a surgir na década de 1990 nos Estados Unidos, no qual “um pequeno número de fundos de investimento se encontra com posições substanciais de propriedade em centenas de corporações simultaneamente”.

Em 2014, Andrew Haldane, economista-chefe do Banco da Inglaterra, proclamou que a “era da gestão de ativos pode ter chegado”. Braun, posteriormente, cunhou o termo “capitalismo de gestão de ativos” para descrever esse novo regime de governança corporativa dominado por fundos de índice.

À medida que os gestores de ativos continuaram a ganhar destaque ao longo da década de 2010, os estudiosos da economia política internacional começaram a dedicar sua atenção à crescente influência global dos fundos de índice e às consequências da “reconcentração da propriedade corporativa” para a economia dos EUA.

Ao mesmo tempo, os geógrafos econômicos começaram a examinar as desiguais e variadas geografias da propriedade corporativa, assim como o modo pelo qual os avanços tecnológicos remodelaram a indústria de gestão de ativos. Verificaram que era preciso fazer uma “tentativa mais sistemática de politizar as lógicas contemporâneas de propriedade e os esquemas financeiros extrativistas baseados nelas”.

·        Os donos do capital

Nos Estados Unidos, as mudanças na composição dos proprietários das empresas listadas são impressionantes. O Federal Reserve estima que no final da Segunda Guerra Mundial 95% das ações dos EUA eram detidas diretamente por famílias americanas; contudo, em 2020, esse número caiu para 40% à medida que surgiu um novo conjunto de intermediários financeiros, os quais passaram a fornecer serviços de consultoria de investimentos e gestão de ativos (Figura 1). De acordo com o Federal Reserve, desde 1945, a participação das ações detidas diretamente por empresas financeiras dos EUA cresceu de 3% para 40%.

Como o Federal Reserve classifica as empresas ditas de “private equity” e os fundos de hedge nas categorias “famílias” e “resto do mundo”, Braun estima que a verdadeira parcela de ações corporativas pertencentes às finanças dos EUA provavelmente deve ser pelo menos 12% ou 13% maior do que o relatado. Juntamente com os fundos negociados em bolsa (ETFs), os fundos mútuos respondem por 27% do mercado de ações americano, seguidos por 10% das ações detidas por fundos de pensão privados e fundos de aposentadoria do governo.

Os dados do Federal Reserve oferecem estimativas históricas de longo período sobre os proprietários de ações dos EUA, as quais não estão disponíveis em outros lugares. No entanto, tem várias limitações, incluindo-se a de subestimar as participações de investimento dos fundos mútuos dos EUA, de não fornecer uma divisão setorial de suas participações, de agrupar todos os fundos mútuos que impedem medir a crescente concentração de propriedade e, finalmente, de falta de dados comparativos de outros países. Dadas essas limitações, os pesquisadores têm contado com bancos de dados em nível de empresa para estudar a dinâmica emergente do capitalismo de gestão de ativos nos Estados Unidos e no mundo.

Embora a literatura sobre o capitalismo de gestão de ativos esteja crescendo rapidamente, esse tipo de estudos ainda está em seu nascimento. Existem quatro limitações metodológicas primárias predominantes na literatura que este artigo pretende abordar. Primeiro, como as análises iniciais dos dados de propriedade corporativa foram amplamente espaciais, este artigo visa contribuir para a crescente literatura comparativa sobre financeirização. Segue Torchinsky Landau que examinou os laços de propriedade financeira nacionais e transnacionais e observando como eles variam geograficamente.

Em segundo lugar, embora a maior parte da literatura existente forneça generalizações da dinâmica de propriedade corporativa com base nas análises de amostras relativamente pequenas de empresas (muitas vezes limitadas a índices específicos, como o S&P 500), este artigo examina todas as participações acionárias de investidores institucionais dos EUA entre 1997 e 2020 e todos os dados de propriedade disponíveis para todas as empresas listadas globalmente em 2018.

Em terceiro lugar, embora exista atualmente um número crescente de estudos que examinam os impactos da propriedade financeira em setores específicos, como a agricultura, o imobiliário, os combustíveis fósseis e a indústria mineira, assim como o de saúde, até o momento, ainda faltam estudos que forneçam comparações intersetoriais de propriedade financeira.

Para resolver essa lacuna empírica, usa-se aqui dados em nível de empresa para desenvolver estimativas setoriais para a parcela de capital de propriedade de empresas financeiras dos EUA, incluindo os “três grandes” gestores de ativos – BlackRock, Vanguard e State Street – nos EUA e no exterior. Finalmente, como não foi dada atenção suficiente ao poder nacional e transnacional exercido pelas finanças nas redes globais de propriedade corporativa, este artigo fornece uma investigação sistemática de até que ponto as empresas financeiras possuem capital nacional e globalmente.

Este artigo faz várias contribuições empíricas para a literatura emergente sobre o capitalismo de gestores de ativos. Em primeiro lugar, examinando os registros do Formulário SEC que possui dados dos investidores institucionais dos EUA e dos fundos mútuos dos EUA (fornecidos pelo banco de dados Thomson/Refinitiv), estimo que a parcela de ações dos EUA pertencentes a investidores institucionais dos EUA aumentou de 48% para 59% entre 1997 e 2020. O que inclui todos os ganhos de propriedade atribuíveis ao crescimento das participações acionárias dos fundos de índice dos EUA, cuja respectiva participação acionária aumentou de 2% para 15%.

Durante esse período, as Três Grandes exibiram um crescimento notável, aumentando a participação das empresas listadas nos EUA nas quais detinham investimentos de 56% para 81%, a participação das empresas listadas nos EUA nas quais eram o maior acionista (entre os investidores institucionais dos EUA) de 4% para 40% e sua participação geral no mercado de ações dos EUA de 5% de 17%.

Além de serem proprietários universais permanentes, acho que as Três Grandes não detêm investimentos proporcionais em todos os setores, com suas participações acionárias variando de 14% no setor de informações a 25% no setor imobiliário. Ora, isso destaca como a ascensão das Três Grandes tem sido setorialmente desigual nos Estados Unidos.

·        As gestoras de ativos

Expandindo a análise histórica dos acionistas das empresas listadas nos EUA, este artigo examina a presença do capitalismo de gestão de ativos em outros países. Baseando-se em um extenso conjunto de dados de propriedade corporativa global fornecido pela Orbis, com 262.331 acionistas únicos de 39.029 empresas listadas localizadas em 139 países, desenvolvo estimativas para a participação do patrimônio de diferentes grupos de acionistas em nove regiões do mundo e em 16 setores.

Descobri assim que, em 2018, 55% do patrimônio global pertencia a vários intermediários financeiros (incluindo 27% por fundos mútuos e de pensão), seguidos por 16% de propriedade de empresas não financeiras, 6% do governo e outros 6% de indivíduos e fundações, com os 16% restantes do patrimônio não tendo nenhum acionista identificável.

Embora o capitalismo de gestão de ativos não se limite aos Estados Unidos, sua presença geográfica é altamente variada. Em alguns países (por exemplo, Austrália), é impulsionado pelas participações de investimento de fundos mútuos e de pensões domésticos, enquanto em outros (como o Reino Unido), os maiores acionistas são gestores de ativos dos EUA. Em grande parte por causa da presença dos Três Grandes em países fora dos EUA, os mercados, as participações acionárias dos fundos de investimento dos EUA se espalham muito além das fronteiras dos Estados Unidos, permitindo que eles ocupem o núcleo da rede corporativa global.

A influência incomparável das Três Grandes é demonstrada pelo fato de que elas aparecem como acionistas em 20% das empresas dos países não americanos listadas em bolsa, respondem por 9% dos investimentos transfronteiriços e possuem 4% das ações não americanas. Como os três maiores acionistas do mundo, os Três Grandes também estão entre os 10 maiores acionistas da Europa e do Leste Asiático.

Os investimentos das Três Grandes, no entanto, estão em grande parte ausentes em várias regiões do mundo, incluindo os Estados pós-soviéticos, Oriente Médio, África e Sul e Sudeste Asiático. É preciso destacar a importância dos índices do mercado de ações e provedores de índices para determinar onde o capital dos gestores de ativos é alocado.

Conceitualmente, este artigo tem como objetivo apresentar três argumentos amplos. Em primeiro lugar, dado que mais da metade de todas as empresas listadas globalmente são agora de propriedade direta de empresas financeiras, este artigo propõe que as finanças desempenham um novo papel na economia global como proprietárias de empresas, concedendo aos atores financeiros formas diretas de influência sobre as atividades econômicas dessas empresas.

Em segundo lugar, como o aumento da propriedade financeira nas últimas duas décadas foi impulsionado pela proliferação de fundos de índice, argumenta-se que as Três Grandes passaram a ocupar uma posição de destaque estrutural na rede global de propriedade corporativa. Dado que são os três maiores acionistas do mundo, suas atividades podem servir como um indicador dos desenvolvimentos futuros no cenário global de investimentos.

Em terceiro lugar, embora a estratégia de investimento predominantemente passiva das Três Grandes as torne proprietárias universais, este artigo mostra que as Três Grandes detêm investimentos de tamanhos desproporcionais não apenas em setores econômicos, mas também em regiões do mundo. Esta distribuição desigual dos investimentos sugere que a dispersão do investimento passivo fez com que certos sectores e regiões se tornassem locais privilegiados de investimento através da sua inclusão nos índices bolsistas.

Embora a pesquisa destaque o modo pelo qual os gestores de ativos são geograficamente seletivos enquanto investidores ativos, este artigo enfatiza que o aumento do investimento passivo produziu um cenário distintamente novo e geograficamente desigual dos fluxos globais de capital.

 

Fonte: Por Albina Gibadullina - Departamento de Geografia da British Columbia University com tradução de Eleutério F. S. Prado, em A Terra é Redonda

 

ADARY OLIVEIRA: ‘O RETORNO DA REFINARIA DE MATARIPE PARA A PETROBRAS’

Segundo informações publicadas no site InvestNews a Acelen passou a sofrer pressão por parte da Petrobras para que a refinaria de Mataripe retornasse à estatal desde a mudança do governo. As pressões passavam pela venda de petróleo mais caro e com composição química inadequada, situações que afetam o resultado do negócio. Na verdade, os entendimentos entre a Petrobras e a Acelen tiveram início quando o ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates retornou da Arábia Saudita em setembro de 2023. O anúncio trazia a informação que a devolução da refinaria ocorreria ainda no primeiro semestre de 2024, o que não ocorreu.

O assunto tem despertado a atenção de todos pela importância que tem Mataripe para a economia da Bahia, sendo a segunda maior refinaria do Brasil, responsável por 14% da capacidade de refino brasileira e o maior contribuinte individual de ICMS do Estado. A volta da refinaria para a Petrobras pode ser feita via compra dos ativos fixos ou compra de participação no capital. Neste último caso a estatal deverá ter mais de 50% do capital votante, tornando-se controladora da empresa resultante da negociação. Poderá também ser a operadora da refinaria. Na exploração e produção de petróleo a Petrobras tem se tornado operadora com apenas 30% de participação nos consórcios. A permanência do grupo investidor como sócio da empresa dona da refinaria é um bom negócio por se tornar sócio do governo, com todas as benesses daí decorrentes.

Desde que assumiu o controle dessa refinaria a Acelen tem demonstrado vontade de por aqui ficar. Além do seu bom relacionamento com a comunidade, atendendo a pleitos de governos municipais, instituições locais de pesquisa, sendo patrocinador dos dois principais times de futebol da Bahia e investido em novos projetos. Na recuperação da refinaria, voltando a nível de produção próximo à sua capacidade nominal, investiu R$ 2 bilhões e, segundo técnicos que trabalham na operação da unidade, terá de continuar investindo mais. Mereceu aplausos de todos o anúncio e início de realização de seu Projeto Macaúba no qual pretende investir R$ 12 bilhões para a produção de óleo vegetal. A área de 200 mil hectares, entre Camaçari na Bahia e Montes Claros em Minas Gerais usada para plantio, demandará outra unidade industrial para a produção de diesel verde que se localizará nas proximidades da refinaria. Acrescente-se o projeto de geração de energia solar para suprimento da refinaria, localizada na região de Irecê, do qual vai participar acionariamente investindo nele cerca de R$ 500 milhões. Por tudo que o Mubadala, grupo da Arábia Saudita controlador da Acelen já realizou e está realizando na Bahia deseja-se que ele continue por aqui, recuperando fábricas, usando produtos naturais como matéria prima, substituindo energia elétrica gerada por combustíveis fósseis por energia solar, desenvolvendo novas tecnologias e valorizando a mão de obra local.

Quando Magda Chambriard era Diretora Geral da ANP proferiu palestra na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) quando afirmou que o Governo deveria dar mais atenção à Bahia, onde tudo começou, referindo-se aos negócios de petróleo. Há uma expectativa muito favorável ao trabalho da nova presidente não só se unido à Acelen na recuperação das instalações da refinaria de Mataripe, mas também no fortalecimento do Polo Petroquímico e ampliação dos investimentos em extração e pesquisa de petróleo, em terra e no mar. Espera-se também que ela promova a volta da operação das duas fábricas de fertilizantes nitrogenados de Camaçari, BA, e Laranjeiras, SE, bastando simplesmente que se ajuste o preço da matéria prima, gás natural, ao preço praticado no mercado internacional. A sua fala inicial de que vai voltar a operar a Fafen de Araucária (PR) e dar continuidade à construção da Fafen de Três Lagoas (MT) trouxe redobradas esperanças para a região e em todos esses casos o preço do gás é determinante na viabilização desses projetos.

A Petrobras tem outros problemas que poderia resolver com muita competência na região Nordeste. Além dos desafios da indústria química e petroquímica, que precisam de apoio para continuar existindo, o setor de refino em mãos privadas tem aqui na Bahia uma mini refinaria operando e duas outras de porte médio sendo construídas em Simões Filho e Ilhéus. A refinaria de Mataripe começou a operar em São Francisco do Conde em 1950, três anos antes da Petrobras ser fundada. Voltando a ser controlada pela Petrobras, ou não, ela continuará aqui. O compromisso maior que deve ter o grupo controlador é seguir investindo na atualização e manutenção da usina e diversificar suas aplicações financeiras a exemplo do projeto da Carnaúba e da geração da energia solar. São investimentos de alta rentabilidade e de imenso valor social.

 

•        ‘A VALE E OS INTERESSES DA BAHIA’. POR WALDECK ORNÉLAS

A Bahia vive momento crucial frente a decisões estratégicas quanto a sua infraestrutura e economia. Neste cenário, a implantação da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) integrada ao Porto Sul é uma das variáveis relevantes.

Embora tenha havido a concessão da FIOL I – Ilhéus-Caetité, e autorização para um terminal de uso privado (TUP) a ser implantado em Ilhéus, ambos a cargo da Bahia Mineração (BAMIN), proprietária da mina Pedra de Ferro, em Caetité, volta e meia vêm a público especulações em torno da eventual falta de capacidade financeira da empresa para levar adiante o conjunto do empreendimento.

Mais recentemente, as especulações ganharam cara, quando foi divulgado que autoridades do governo federal estariam pressionando a Cia. Vale do Rio Doce a adquirir a Pedra de Ferro. Mas, só a mina ou toda a solução logística mina-ferrovia-porto?

Preliminarmente, é importante salientar que a Bahia se sente traída pela Vale por, ao logo de 30 anos, sabotar economicamente a sua antiga malha ferroviária, por meio da subsidiária Ferrovia Centro Atlântica (FCA), em função do interesse exclusivo na movimentação de minérios e, mais recentemente, grãos. No caso, é de supor-se que a Vale chegaria para implementar o projeto e não para constituir reserva do mineral, o que seria uma segunda traição à Bahia.

Se a Vale adquirir somente a mina, vai escoar a produção pelo sistema ferro-portuário que já a serve, na região sudeste, principalmente pelo Espírito Santo, agravando ainda mais a crise econômica baiana. Esta solução implicaria em abandonar a FIOL I e o Porto Sul, e utilizar o trecho da atual concessão da FCA, de Licínio de Almeida até Corinto (MG), fazendo sangrar ainda mais a economia baiana.

Do ponto de vista da Bahia, e por várias razões, este desmembramento não pode ocorrer. O trecho Ilhéus-Caetité da FIOL, na borda do Oceano Atlântico, é apenas a última perna de uma ferrovia que deve se estender até o Pacífico, concretizando o sonho da Ferrovia Transulamericana, tendo a integração FICO-FIOL como primeiro passo.

Se é verdade que o governo federal atua para que a Vale adquira a Bamin, é indispensável que condicione a operação à implantação da FIOL I e do Porto Sul. Caso contrário, será um golpe fatal para a Bahia.

Mas há outros movimentos a serem observados. Enquanto a FCA se retira do Estado, paralelamente, a VLI apresentou pedidos de autorização para dois trechos ferroviários greenfield no Oeste baiano: um de Barreiras até a BR-020, em Luís Eduardo Magalhães (para um terminal multimodal?), outro, de Correntina a Arrojolândia, em direção a Mara Rosa (GO).

Registre-se que a VLI é quem está construindo a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (FICO), trecho I, de Mara Rosa a Água Boa (MT), com extensão de 383km, como investimento cruzado, obrigação decorrente da renovação antecipada da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM). Mas a VLI não é concessionária do trecho, a ser licitado.

A VLI também já manifestou interesse, mediante pedido de autorização, para implantar a FICO II, de Água Boa a Lucas do Rio Verde (MT). Lucas do Rio Verde tornou-se o pião da disputa VLI x Rumo pelo domínio do mercado nacional de transporte de grãos, mediante acesso à região centro-norte do Mato Grosso, onde a Rumo busca chegar primeiro, por meio de uma concessão estadual, a partir de Rondonópolis (MT).

Na medida em que a Vale tenha efetivo interesse na concessão de todo o conjunto FICO-FIOL, a ela interessaria adquirir a mina conjuntamente com a concessão da FIOL I e o Porto Sul. Este fato poderia estabelecer uma convergência de interesses econômicos entre a Bahia e a Vale, em torno da implantação do importante Corredor Centro-Leste – que se configura com a integração FICO-FIOL – devendo converter-se, posteriormente, no eixo de ligação ferroviária do Atlântico com o Pacífico, objeto de desejo do Brasil, Peru e China.

Não é de estranhar pois, que uma eventual aquisição da Bamin pela Vale, desde que compromissada com a implantação do conjunto mina-ferrovia-porto, possa efetivamente levar à concretização do projeto, restabelecendo a confiança da Bahia na Vale.

Quanto à Bamin, explicou, de forma convincente, que a sua dívida decorre de mútuo com o próprio controlador, mas ainda precisa convencer efetivamente, à sociedade e ao governo federal, de que os seus compromissos públicos estão sendo cumpridos e que a ferrovia e o porto serão entregues no prazo previsto, em 2027. Só assim as especulações sobre a transferência do seu controle acionário poderão ser superadas. Estranha, por exemplo, que ainda não existam financiamentos contratados com o BNDES e o Banco do Nordeste, nem enquadramento no Fundo de Desenvolvimento Regional, gerido pela Sudene. Ou o investimento será todo financiado por contratos de mútuo?

E o que têm a dizer sobre esses importantes projetos os agentes públicos incumbidos da sua fiscalização?

É indispensável que a ANTT e a ANTAQ, agências reguladoras, respectivamente, dos transportes terrestres e aquaviários, venham a público informar se estão acompanhando as atividades de implantação da ferrovia e do porto, se há conformidade com os atos autorizativos, se os cronogramas de implantação estão em dia, se o ritmo das obras está adequado e se a população pode contar com a implantação desses projetos. Não podem é continuar omissas nem silentes.

Apesar de serem órgãos públicos, são os únicos atores que ainda não se manifestaram. A sociedade quer ouvi-los.

 

Fonte: Bahia Econômica

 

Conheça oito fatores que podem causar lapsos de memória e saiba como evitá-los

A maioria das pessoas tem lapsos de memória de vez em quando. Não é difícil encontrar quem comente que saiu para fazer compras no supermercado, por exemplo, e voltou sem vários itens. Ou alguém que diga que não se recorda onde deixou os óculos ou as chaves do carro. Alguém que abra a geladeira, mas não lembre exatamente o que foi buscar. Ou, ainda, quem esteja conversando e, de repente, fique em silêncio alguns segundos porque não se recorda daquela palavra óbvia, que deveria estar na ponta da língua.

Casos assim fazem parte da rotina de qualquer pessoa, mas o aumento da frequência desses lapsos de memória tem feito muita gente pensar que pode ter algum problema grave de saúde envolvido, algo como Alzheimer precoce e até mesmo um tumor.

Na maioria das vezes, os lapsos acontecem por questões comportamentais mesmo, mas há casos que requerem o aconselhamento profissional. A Agência Einstein ouviu especialistas e elencou várias razões que podem causar os lapsos de memória.

1 — Sobrecarga na rotina e estresse

O cérebro tem a função de memória de curto prazo, que é a capacidade de manter todas as informações disponíveis por um curto período de tempo. O processo para transformar essa memória de curto prazo em uma de longo prazo é complexo. Assim, o excesso de informações do nosso dia a dia, associado ao acúmulo de estresse, pode deixar o nosso cérebro sobrecarregado e afetar diretamente a nossa capacidade de memória, que falha em alguns momentos.

“A sobrecarga na rotina e o estresse podem ocasionar lapsos de memória à medida que o nosso corpo produza respostas sistêmicas para esse estresse, inclusive modificações em certas regiões do cérebro responsáveis pela memória. Os processos cognitivos são afetados e dificultam a inserção de detalhes e a integração de novas informações em nossas memórias”, explica o psiquiatra Elton Kanomata, do Hospital Israelita Albert Einstein.

2 – Ansiedade ou depressão

Existem, sem dúvida, casos de lapsos de memória que estão associados a algum problema de saúde, especialmente ansiedade e depressão, que podem afetar a memória de diferentes maneiras. Por exemplo: alguém com ansiedade pode ter dificuldade em se concentrar e processar informações, resultando em lapsos de memória temporários.

Já uma pessoa com depressão pode ter a sua capacidade de retenção de informações no cérebro prejudicadas devido a alterações nos neurotransmissores. “Um exemplo comum é esquecer compromissos ou detalhes importantes do dia a dia devido a essas condições”, explica a neurologista Polyana Piza, do Hospital Israelita Albert Einstein de Goiânia.

O psiquiatra Kanomata diz ainda que os transtornos mentais comumente expressam sintomas cognitivos, entre eles, os prejuízos na memória. “Um dos principais mecanismos que levam a isso se relaciona ao mesmo processo ligado ao estresse em regiões específicas do cérebro, que podem afetar, a longo prazo, o desempenho cognitivo”, alertou.

3 – Noites maldormidas

Não é de hoje que as pessoas dormem mal – estima-se que 30% das pessoas tenham algum distúrbio do sono, como a insônia. Segundo a neurologista Letícia Soster, do Grupo Médico Assistencial do Sono do Hospital Israelita Albert Einstein, as pessoas frequentemente não priorizam a qualidade do sono.

“Muitos vão para cama mais tarde do que precisam. Na cama, olham o celular e outras telas, o que inibe a produção e a liberação de melatonina. As pessoas acabam dormindo vencidas pelo cansaço, e não de forma natural, que seria o corpo relaxar e se preparar para o sono. E elas têm que acordar muito cedo. A consequência é que a maioria está em privação de sono e isso pode causar dificuldade de concentração, de lembrar palavras, de compreender um contexto. É o efeito do cansaço que não foi recuperado”, explica a especialista.

De acordo com a neurologista, problemas com o sono alteram o mecanismo da atenção. “Muitas vezes, quando o nosso cérebro não está descansado o suficiente, ele gasta energia se ocupando em permanecer vígil. A necessidade de o cérebro manter a vigilância suplanta a capacidade de nos mantermos atentos e pode causar problemas de memória”, diz.

Além disso, como estão muito privadas de sono, as pessoas têm episódios de sono muito curtos (chamados microssonos). “É muito comum que as pessoas em privação de sono deem aquela ‘pescadinha’ às vezes, sem perceber. Quando isso acontece, a informação que ela estava adquirindo é parcialmente quebrada. Isso faz com que a pessoa não consiga estar atenta ao que está acontecendo porque ela está preocupada em se manter acordada. Como a informação não foi armazenada pelo cérebro, causa os lapsos de memória”, alerta.

Soster ressalta também que o uso excessivo de telas e mídias sociais deixa o cérebro “destreinado” para armazenar informações. As pessoas usam muitas mídias ao mesmo tempo, que estimulam o prazer imediato. Isso é como destreinar o cérebro a ter uma leitura mais longa e aprofundada. Muito provavelmente, as pessoas com queixas de memória não estão conseguindo se concentrar em uma leitura. É como se o cérebro estivesse sendo treinado a ter raciocínios mais curtos, e não mais densos”, diz.

A especialista reforça que, se nenhum desses fatores comportamentais estiverem presentes quando avaliamos o que causa os lapsos de memória, é importante procurar uma avaliação adequada para ver se não é uma questão mais profunda.

4 – Início da menopausa

A menopausa é marcada pela última menstruação, que geralmente ocorre entre os 45 e 55 anos. Nessa fase, o corpo da mulher passa a sofrer diversas mudanças hormonais e, entre os sintomas mais clássicos, está, sem dúvida, o fogacho (ondas de calor). Mas eles não são os únicos – os lapsos de memória e a falta de atenção também são sinais que se manifestam mais frequentemente do que se imagina.

A queda nos níveis hormonais se manifesta por meio de diversos sintomas físicos e mentais, incluindo os transtornos cognitivos, com impacto na memória, na linguagem e até na orientação de tempo e espaço. Chamados de “névoa mental”, esses sintomas costumam permanecer por cerca de quatro anos.

“Durante a menopausa, as mudanças hormonais podem afetar a memória em algumas mulheres. Por exemplo, elas podem ficar mais dispersas e sem foco, esquecer as palavras no meio da frase, ter dificuldades para lembrar o que ia dizer ou para concluir o raciocínio, ter dificuldade em lembrar onde colocaram objetos, esquecer compromissos ou ter problemas para se concentrar em tarefas mentais”, diz Piza, neurologista do Einstein.

5 – Alimentação desregulada

Uma alimentação inadequada também pode afetar a memória, uma vez que uma dieta pobre em nutrientes essenciais, como vitaminas do complexo B, ácidos graxos ômega-3 e antioxidantes são importantes para a saúde cerebral. Somando-se a isso, dietas ricas em alimentos processados, gorduras saturadas e açúcares podem levar a um estado crônico de inflamação no corpo, incluindo o cérebro. A inflamação crônica está associada a danos nas células cerebrais e ao comprometimento da função cognitiva, incluindo a memória.

“Os ácidos graxos ômega-3 presentes nos óleos de peixes, compostos polifenólicos (por exemplo, flavonoides de cacau) e compostos antioxidantes (como as vitaminas A, C e E) têm sido associados à melhora da memória. Entretanto, mais do que se focar em um nutriente ou um produto alimentício único, a atenção deve estar direcionada aos alimentos integrais e padrões alimentares. Em situações cotidianas, os indivíduos consomem padrões dietéticos que envolvem interações complexas entre os nutrientes. Assim, não adianta suplementar cápsulas de ômega-3 ou outra vitamina específica e consumir frequentemente frituras e alimentos ultraprocessados”, alerta a nutricionista Serena Del Favero, do Hospital Israelita Albert Einstein.

6 – Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)

De acordo com a neurologista Piza, adultos com TDAH podem experimentar problemas de memória devido à dificuldade em manter o foco e a atenção. Por exemplo, eles podem esquecer compromissos, perder objetos com frequência e ter dificuldade em lembrar detalhes de conversas recentes. Um exemplo seria uma pessoa com TDAH que constantemente precisa fazer anotações para lembrar tarefas simples do cotidiano.

De acordo com o psiquiatra Kanomata, no caso do TDAH, as falhas na memória decorrem do desvio da atenção para onde a pessoa deveria estar focada. “Pessoas com TDAH têm frequentemente dificuldade em manter a atenção ou prestar atenção em detalhes, se distraem com facilidade. Consequentemente, a qualidade de como as informações são registradas na memória é comprometida e, no momento da evocação dessas memórias, se destacam esses lapsos”, explica.

7 – Infecções prévias

Muitas pessoas que foram infectadas pelo coronavírus passaram a relatar falta de concentração, esquecimento e sensação de cansaço mental após a infecção. Segundo Piza, alguns estudos sugerem que a infecção por Covid-19 pode causar problemas cognitivos, incluindo lapsos de memória, conhecidos como “mente nebulosa” e “névoa cerebral”.

“Há casos de pacientes que se recuperaram da Covid-19 e relataram dificuldades em lembrar palavras comuns, nomes de pessoas conhecidas e eventos recentes. Não se sabe ao certo o mecanismo exato fisiopatológico que leva a esses episódios, mas acredita-se que seja algo transitório”, diz.

Kanomata ressalta que qualquer infecção que afete o sistema nervoso central – e não apenas a Covid-19 – pode levar a episódios com lapsos de memória. “Está bem reconhecido na literatura que a infecção por Covid-19 pode manifestar sintomas neuropsiquiátricos, inclusive da memória, podendo persistir após a infecção aguda, sendo chamados comumente de Covid longa. Desses casos, cerca de um terço acaba reportando queixas com relação à memória de curto prazo”, afirma.

8 – Sinais de algo mais grave (tumor, Alzheimer precoce)

De acordo com Piza, lapsos de memória persistentes, especialmente quando acompanhados por outros sintomas preocupantes ou déficits neurológicos associados, podem indicar condições mais sérias que precisam ser avaliadas por um especialista.

“Esquecer o nome de uma pessoa ocasionalmente é normal, mas esquecer nomes de pessoas conhecidas repetidamente ou não reconhecer pessoas próximas pode ser um importante sinal de alerta. Além disso, confusão mental, dificuldade em realizar tarefas simples do dia a dia e mudanças na personalidade são sinais que devem ser avaliados por um médico neurologista”, frisa.

Kanomata reforça que é importante sempre investigar as possíveis causas dos esquecimentos frequentes. “Na consulta, o médico investigará não somente a queixa de esquecimento, como também outros sintomas que possam estar presentes. O conjunto deles pode confluir para outros diagnósticos. Além do atendimento clínico, exames complementares podem ser pedidos pelo médico para auxiliar no processo investigativo”, diz.

•        O que fazer para prevenir?

De acordo com Kanomata, o manejo do estresse pode ajudar muito a reduzir os lapsos de memória. Isso inclui ter hábitos de vida saudáveis, entre eles evitar o consumo de álcool, tabaco e drogas, realizar atividade física regularmente e manter uma alimentação saudável. Além disso, outras estratégias são benéficas, como a meditação e a acupuntura.

“Nos casos em que se perde o equilíbrio entre estresse e saúde, é o momento em que podemos estar diante do comprometimento de nossa saúde mental e a procura por profissionais especializados deve ser indicada”, diz.

Piza destaca também que é importante estabelecer algumas estratégias, como organização do tempo, técnicas de relaxamento e cuidados com a saúde geral. Ela ressalta ser necessário estimular o cérebro com atividades desafiadoras, como aprender um novo idioma, praticar instrumentos musicais ou participar de jogos que envolvam o raciocínio.

 

Fonte: CNN Brasil