sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Alimentos gordurosos e doces: por que dão prazer e ao mesmo tempo fazem mal

Por que consumir um pedaço de chocolate ou uma porção de batata frita é algo tão prazeroso? O que explica essa sensação no corpo e porque é tão díficil reduzir ou até mesmo cortar o consumo desses produtos?

Os mecanismos por trás disso, ressaltam especialistas ouvidos pelo g1, estão associados ao fato de que, cada vez mais, a indústria alimentícia se apropria de diversas técnicas para que os alimentos que consumimos sejam altamente atraentes para nosso paladar. E a maioria desses alimentos são chamados por especialistas de ultraprocessados.

Entenda, abaixo, o que são esses alimentos, por que eles são tão prazerosos e que riscos eles representam para a nossa saúde.

<><> O que são alimentos ultraprocessados?

Na prática, quando falamos de ultraprocessados, estamos nos referindo aqueles alimentos que são altamente manipulados pela indústria com diversos ingredientes adicionados (chamados de aditivos), de origem natural ou artificial, para que prolonguem seu tempo de conservação e pareçam mais atrativos não só ao paladar como ao olfato e visão dos consumidores.

E a lista é imensa, inclui diversos doces, sorvetes, salsichas, sopas de pacotinho, cereais, nuggets, e etc.

“O que distingue os AUP dos simplesmente processados é o fato de que os alimentos processados são alimentos naturais (produzidos pela natureza) acrescidos de pequenas quantidades de sal, gordura ou açúcar, de modo que o produto final ainda tem muitas das características do alimento original”, destaca Carlos Augusto Monteiro, coordenador do departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Publica da USP.

Os alimentos processados são qualquer produto que sofre uma alteração pela indústria. E isso pode ser desde um aquecimento, congelamento até um corte diferente. Legumes em conserva, frutas em calda, queijos e pães são um exemplo de alimentos processados.

Diferentemente dos ultraprocessados, segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira do Ministério da Saúde, documento que reúne orientações para os programas sociais na área, os alimentos minimamente processados (tais como o leite pasteurizado, carnes congeladas, grãos empacotados, etc.) devem ser a base da nossa alimentação.

<><> Mas por que essas comidas são tão prazerosas e viciantes?

Os aditivos presentes nos alimentos ultraprocessados, como o açúcar, o sal, os óleos, as gorduras e outras substâncias do tipo, acionam os receptores de recompensa do nosso cérebro.

Isso acontece porque só o fato de olharmos para esses alimentos, como mostram alguns estudos, o nosso sistema nervoso é estimulado a liberar dopamina, uma substância responsável por esse processo de gratificação.

São esses receptores de dopamina, presentes em todo o nosso cérebro, que nos dizem que tomar mais uma taça de sorvete seria uma boa ideia.

“Os aditivos desencadeiam a sensação de prazer por simularem propriedades sensoriais (sabor, cor, textura, etc.) mas não é só isso. A combinação de proporções determinadas de gordura e açúcar ou gordura e sal provocam também grande sensação de prazer e são manipuladas pela indústria de ultraprocessados para esse fim” explica Monteiro.

Fernanda Rauber, pesquisadora no Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde e no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, acrescenta que as altas concentrações de açúcares e gorduras são a base do potencial recompensador dos alimentos ultraprocessados, pois isso ativa a liberação rápida da dopamina por meio das sensações sensoriais (como a sensação na boca e o sabor doce) e pelo aumento rápido da glicose no sangue.

"A remoção de ingredientes (como a fibra) também aumenta o potencial viciante dos alimentos ultraprocessados, aumentando a rápida ingestão desses alimentos e das substâncias recompensadoras (agentes viciantes)", diz.

Além disso, a gordura e açúcar presentes nesses alimentos também “acalmam” o cérebro, pois as substâncias responsáveis pelo estresse no nosso corpo diminuem de concentração quando ingerimos alimentos ultraprocessados. Pelo menos, por um curto período de tempo. A longo prazo, o corpo percebe o quanto esses alimentos “prazerosos” são prejudiciais.

Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros, por exemplo, publicado em 2021 em uma revista científica internacional, investigou os hábitos alimentos de mais de 1200 trabalhadores de Vitória da Conquista, na Bahia. A pesquisa mostrou então que aqueles que consumiam alimentos ultraprocessados pelo menos uma vez por semana apresentaram níveis de estresse significativamente maior em comparação aos que não consumiam nenhum produto do tipo.

Segundo conta ao g1 o coordenador desse estudo, Matheus Lopes Cortes, mestre em Alimentos, Nutrição e Saúde e doutor em Epidemiologia, embora mais pesquisas sejam necessárias para corroborar a associação causal entre esses dois fatores, o estresse psicológico pode desencadear comportamentos de risco à saúde, como o consumo desses alimentos, que trazem uma sensação prazerosa e reduzem momentaneamente as emoções negativas.

"No entanto, o contrário pode também ser observado, sendo, neste caso, a má alimentação como um fator que desencadeia maiores níveis de estresse, ou seja, o consumo alimentar afetando como as pessoas se sentem", diz o também professor na Universidade Federal da Bahia.

Um fator que explicita isso, pontua Cortes, é que, como corroborado por alguns estudos, pessoas com excesso de peso são mais insatisfeitas com seus corpos do que pessoas com o peso considerado "adequado" pela sociedade.

"Essa diferença é mais significativa nas mulheres", complementa o especialista. "A insatisfação corporal pode aumentar o estresse e os motivos podem se originar de fatores socioculturais, como os ideais corporais atuais, estigmatização ou provocações de outros; das comorbidades somáticas ou das consequências do peso elevado, como mobilidade reduzida e oportunidades restritas de inclusão social".

<><> Tão viciantes quanto algumas drogas

Esse processo de absorção dos ultraprocessados no nosso corpo é tão intenso e viciante que alguns pesquisadores chegam a dizer que os efeitos desses alimentos no cérebro são semelhantes ao de algumas drogas, como o cigarro e até mesmo a cocaína, embora isso ainda não seja um consenso para a ciência.

“Eles têm um grande potencial viciante e serão tanto mais viciantes quanto maior for o desenvolvimento tecnológico da indústria”, avalia Carlos Monteiro, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Em outro estudo sobre ultraprocessados, pesquisadores americanos descobriram que comidas ricas em gordura ou carboidratos refinados (açúcar, farinha branca), tais como uma pizza, sorvete ou um cheeseburger, provocam comportamentos associados ao vício como perda do controle do consumo e uma incapacidade de parar ou reduzir a vontade de comer apesar das consequências negativas desse hábito.

"Alimentos ultraprocessados quando administrados a camundongos em laboratórios de pesquisa demonstraram ser tão viciantes ou mais viciantes do que as drogas", explica ao g1 a autora do estudo e neurocientista da Universidade de Princeton, Nicole Avena. "Esses alimentos causam reações semelhantes em nossos cérebros que as drogas, e podemos nos tornar dependentes de suas propriedades e da maneira como nos fazem sentir".

“Os AUP são desenvolvidos em laboratórios de análise sensorial assim como os cigarros são desenvolvidos”, acrescenta Monteiro. “Em ambos os casos, a procura é por combinações de ingredientes que maximizem o prazer do usuário. Isso leva inevitavelmente a que o potencial viciante dos AUP seja imenso”.

Ivan de Araújo, professor titular de Neurociências da Escola de Medicina do Hospital Monte Sinai em Nova York ressalta que drogas como o cigarro e a cocaína viciam através da super estimulação dos sistemas de recompensa cerebrais que evoluíram para motivar o nosso corpo a buscar nutrientes – algo que é fundamental para a vida.

Contudo, aponta o pesquisador, essas alterações cerebrais ao consumirmos alimentos ultraprocessados, especialmente a liberação de dopamina, ocorrem em níveis muitos mais altos após o consumo de drogas.

"Os circuitos envolvidos no uso de drogas têm muito em comum com circuitos de recompensa alimentar, e então é razoável dizer que a compulsão alimentar pode ser qualitativamente comparada à compulsão por drogas", destaca o especialista.

Alimentos ultraprocessados — Foto: Pexels

Apesar disso, Araújo pontua que não temos uma visão completa dos efeitos centrais da ingestão desses alimentos e que outros elementos, além da dopamina, podem desempenhar papeis importantes nesse processo.

"Mas, como está bem estabelecido que o neurotransmissor dopamina é fundamental para percepções de prazer e para a motivação em geral, sua difusão por centros cerebrais certamente é necessária para se observar alterações comportamentais que se assemelham a vícios ou compulsões", explica.

<><> Hiperpalatabilidade e facilidade de consumo

Outro fator importante que explica porque os alimentos doces e gordurosos são tão prazerosos é fato de que eles são hiperpalatáveis.

Isso quer dizer que eles são altamente atraentes para nosso paladar. Monteiro explica que um cozinheiro competente que domina as técnicas de preparação culinária também produz comidas altamente atraentes, mas a diferença fundamental entre ele e a indústria alimentícia é o “arsenal de recursos” à disposição.

“Alem disso, a comida muito gostosa em geral demanda ingredientes mais caros e cozinheiros altamente qualificados, com o que o preço da refeição tende a encarecer o que determina que a maioria das pessoas não vai comer isso todos os dias e em grandes quantidades, como acontece com os ultraprocessados”, salienta o pesquisador.

Conforme explica o mestre em alimentos Matheus Lopes Cortes, essa sensação também está atrelada à ativação do sistema recompensa e liberação de neurotransmissores associados com a sensação de bem-estar, como a dopamina.

"O nosso cérebro se acostuma com essa sensação e sentimos cada vez mais vontade de consumi-los. Exemplos desses alimentos no nosso dia-a-dia são os refrigerantes e outras bebidas açucaradas, como hamburgueres, pizza, salgadinhos, biscoitos recheados, doces, chocolates, etc.".

<><> Chocolate é ultraprocessado? Por que ele é tão viciante?

Se consideramos o chocolate na forma como o produto é vendido em supermercados, ou seja, aquelas barras ou bombons, ele é pode ser classificado com um alimento ultraprocessado, avalia Ivan de Araújo, pois substâncias como açúcares e lipídeos que não são encontrados junto à sua matéria prima original, o cacau, são adicionados durante o processo de manipulação pela indústria.

Outra característica do chocolate, ressalta o pesquisador, é a sua chamada alta densidade calórica: pequenos pedacinhos de um barra, por exemplo, possuem grandes quantidades de caloria, o que facilita a ativação de sistemas recompensa no nosso corpo e, ao mesmo tempo, evita sensações inibidoras do apetite como a chamada distensão gástrica, o aumento do estômago.

"Aliás, tal característica parece ser encontrada em alimentos tipicamente ultraprocessados e pouco nutritivos, como produtos tais quais tortilhas salgadas, que levam ao consumo de grandes quantidades de sódio com pouco preenchimento gástrico", pontua.

<><> Por que reduzir ou cortar alimentos ultraprocessados e prazeros é tão difícil?

Mudar hábitos alimentares é algo muito difícil para qualquer pessoa, independentemente da dieta a qual ela esteja acostumada, seja ela rica em alimentos ultraprocessados ou não.

Lopes pede para que façamos o seguinte exercício: vá até a geladeira ou a dispensa de sua casa e veja quantos alimentos industrializados diferentes você tem.

"Tenho certeza que a grande maioria das pessoas que fizer o que estou propondo vai se surpreender com a quantidade de alimentos processados e ultraprocessados que possui em casa".

Ele pontua que estes alimentos, infelizmente, fazem parte do nosso dia-a-dia numa frequência cada vez maior, mas que, embora seja díficil se desprender dessa dieta, alguns hábitos podem ajudar quem deseja encarar esse desafio.

"Uma dica que pode ajudar é sempre priorizar alimentos naturais nos lanches entre as principais refeições, evitar comprar esses alimentos hiperpalatáveis nos supermercados e armazená-los em casa (evitando a tentação de tê-los facilmente)", sugere o especialista.

Outro importante fator, ainda segundo o professor, é fazer um esforço para que a alimentação ao longo da semana seja o mais natural possível (por exemplo, consumir fruta em vez do suco de caixinha) e para que o consumo desses alimentos seja uma exceção e não uma regra.

Ele lembra ainda que não nos alimentamos com o pensamento exclusivo em oferecer as condições indispensáveis à vida, mas que comer também é um ato social. Por isso, os pais e as escolas também precisam estar muito atentos a isso, pois, segundo o pesquisador, eles são os principais responsáveis pelos hábitos alimentares das crianças.

 

Fonte: Saúde e Bem Estar

 

Tarifaço de Trump pode reduzir em 70% exportações de uva e manga do Vale do São Francisco

A nova tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre frutas brasileiras exportadas causou apreensão entre produtores do Vale do São Francisco. A medida, que atinge em cheio as exportações de mangas e uvas, pode gerar prejuízos milionários à região, que vive essencialmente do agronegócio.

As embalagens que já deveriam estar cheias seguem vazias. Máquinas paradas e trabalhadores com pouca atividade. Trabalhando há sete anos na mesma fazenda, Jaciene da Silva teme ser demitida.

"Estou um pouco preocupada porque eu dependo, né? Eu fico preocupada porque se a empresa não tem como se manter, então eu vou ter que sair, né?", diz.

As fazendas estão com a produção no ponto certo para exportar. No entanto, com a indefinição, as contratações temporárias ainda não começaram. Só uma propriedade costuma contratar 700 pessoas por safra. Se nada mudar, esse número será bem menor.

O Vale do São Francisco produz 1,25 milhão de toneladas de manga por ano. Destas, 253 mil toneladas são exportadas, gerando US$ 348 milhões. Só para os EUA são 50 mil toneladas. Com a nova tarifa, a previsão é de queda de até 70% no volume exportado.

"A previsão era enviar 48 mil toneladas. Com a tarifa, isso pode cair para 13 mil. A maior parte vai para o mercado americano, que consome a variedade Tommy Atkins. A Europa não absorve esse tipo e o mercado interno não tem capacidade para tanto volume", explica Tássio Lustosa, gerente da Valexport.

O tempo também é inimigo. As mangas levam até 30 dias para chegar aos EUA e precisam estar em ponto específico de maturação.

"Se a gente esperar, a fruta passa do ponto e perde tempo de prateleira. Já está no limite", afirma o agrônomo Emerson Costa.

Em uma fazenda em Petrolina, no Sertão de Pernambuco, a estimativa é de que 700 mil frutas fiquem sem destino externo e precisem ser vendidas no mercado interno. Quem planta uva vive situação parecida. Em 2023, o Vale exportou 13.800 toneladas da fruta para os Estados Unidos. Agora, há risco de superoferta no mercado nacional.

"Redirecionar tudo pressiona os preços aqui dentro. Pode não cobrir nem o custo de produção", alerta Jailson Lira, presidente da COOPEXVALE.

A tendência é que exportadores de uva também atrasem os envios, como já acontece com a manga. "Se a situação continuar, os produtores não vão arriscar exportar no mesmo período do ano passado. Devem analisar semana a semana e enviar volumes menores", afirma João Ricardo Lima, pesquisador da Embrapa.

A Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) defende que frutas sejam retiradas da lista de produtos afetados pela tarifa. Para a associação, exportar para a Europa ou manter as frutas no mercado interno não será viável.

"Pegar essa fruta e mandar para a Europa vai derrubar o preço na Europa, vai ser ruim também. Se deixar no mercado interno, também vai ser ruim. Então, isso nós precisamos resolver à base do diálogo, da prudência, do bom senso, da flexibilidade", afirma Guilherme Coelho, presidente da Abrafrutas.

<><> Exceções da taxa de 50%

Alguns setores brasileiros conseguiram escapar da tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos, enquanto outros foram diretamente atingidos pela medida.

O decreto assinado nesta quarta-feira (30) pelo presidente Donald Trump elevou em 40 pontos percentuais a alíquota sobre produtos brasileiros, mas também trouxe uma lista de 700 exceções que beneficiam segmentos estratégicos como o aeronáutico, o energético e parte do agronegócio.

¨      O risco de manga brasileira 'virar lama' com tarifaço de Trump: 'Estou dando e ninguém quer'

As mangueiras estão cheias na propriedade de Hidherica Torres, em Casa Nova, no lado baiano do Vale do São Francisco.

As frutas que pesam nos galhos já tinham destino certo assim que colhidas nos próximos dias: os Estados Unidos. Tinham.

Na terça-feira (29/7), Hidherica foi informada pela empresa exportadora que suas mangas não teriam mais saída aos portos americanos.

Como os produtos brasileiros terão uma tarifa extra de 50% para entrar nos EUA a partir de 6 de agosto, a venda, na prática, ficou inviabilizada.

"A gente está correndo tentando ver possibilidade de mandar para o Canadá ou Europa", diz Hidherica.

"Mas estou com medo de a manga ficar jogada no chão e o trator passar por cima. Enfim, virar lama", completa.

Na terça, o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, afirmou em entrevista que alguns produtos não cultivados em solo americano poderiam ter a tarifa de importação zerada — entre os exemplos, ele citou a manga.

Pule Que História! e continue lendo

Já na quarta-feira (30/7), o presidente Donald Trump assinou o decreto que impõe tarifa de 50% ao Brasil, mas com várias exceções, incluindo aeronaves, suco de laranja e petróleo. As frutas, porém, não foram beneficiadas.

Mesmo antes de a tarifa entrar em vigor, o Vale do São Francisco, principal região produtora e exportadora da fruta no país, já sente os efeitos da guerra comercial — e não só entre os produtores que exportam diretamente aos EUA.

Pequenos produtores que abastecem o mercado nacional e outros países já veem suas mangas encalharem e o preço desabar — como a produção que ia aos EUA já está sendo redirecionada, o mercado de manga começa a superlotar do produto.

Com muita oferta, o preço cai - a um nível que às vezes nem paga os custos de produção, disseram produtores à BBC News Brasil.

Os compradores chegaram a oferecer menos de R$ 0,80 pelo quilo da manga do tipo tommy a José Nilton Gonçalves, pequeno produtor de Lagoa Grande, em Pernambuco. No começo do ano, chegou perto do R$ 6. "Desse jeito, não dá nem para tirar a despesa", conta.

Líder da Associação Comunitária dos Agricultores de Malhada Real, em Lagoa Grande, Cristiano Ferreira completa que todos os tipos da fruta já estão sendo afetados, mesmo os que não iriam aos EUA. "Todo mundo já vai sentir, do grande ao pequeno."

Das mangas produzidas no Vale de São Francisco, 92% vão para exportação, segundo o Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina (SPR), que representa o setor.

Em 2024, o Brasil exportou 258 mil toneladas de manga, faturando US$ 349,8 milhões (R$ 1,95 bilhão), segundo dados reunidos pelo Observatório da Manga da Embrapa. Isso faz da manga a fruta brasileira mais vendida no mundo.

O principal destino é a Europa, representando cerca de 80% das vendas ao exterior durante o ano. Cerca de 15% vão para os EUA.

Mas a produção com foco na manga exportada aos EUA é mais cara e concentrada em três meses do ano, justamente a partir de agora.

Os americanos costumam comprar mangas de vários países conforme a sazonalidade da colheita. A janela brasileira é em agosto, setembro e outubro.

Para vender aos EUA, os produtores precisam plantar principalmente a manga do tipo tommy, a preferida dos americanos.

Além disso, precisam passar por uma série de inspeções e certificações exigidas, especialmente sobre a presença da mosca-da-fruta nas plantações, e serem mergulhadas num tanque a 60 graus Celsius para eliminar larvas. Na prática, é mais caro produzir para eles.

"Ou seja, fica difícil o produtor mandar essa fruta para outros mercados. Além disso, o volume nesta época para os EUA é muito grande e já está causando baixa nos preços no mercado interno e em outros países", diz Jailson Lira, presidente do SPR.

A expectativa do Vale do São Francisco em 2025 era exportar 36,8 mil toneladas de manga aos EUA, em 2,5 mil contêineres que saem dos portos de Salvador (BA) e Pecém (CE) até outubro.

O faturamento desse comércio com os EUA seria no patamar do ano passado, de US$ 45,8 milhões (R$ 255 milhões), segundo previsão do SPR.

<><> 'Estou dando manga de graça'

O Vale do São Francisco tem grandes empresas exportadoras de manga, onde as frutas passam pelas etapas sanitárias antes da exportação.

Muitas dessas empresas têm plantações próprias. Mas, em geral, elas acabam comprando a produção inteira de pequenos e médios produtores para suprir a demanda.

Isso faz com que o prejuízo no topo da cadeia (exportadores) venha a se refletir, sem muita demora, na ponta (agricultores).

"Se a manga não tem saída, as grandes empresas vão vender só aquilo que elas já têm, não compram do pequeno e médio", explica o produtor rural Eduardo Nakahara, da Frutecer, uma empresa exportadora mais focada no mercado europeu.

"E com o pessoal que vende para EUA mandando suas mangas para a Europa, todo mundo é afetado", completa.

Mesmo com a preferência dos europeus não sendo a manga tommy, uma vez nos supermercados, o cliente não costuma se apegar ao tipo da fruta vendido, explica Aleska Martins, produtora rural em Petrolina. A que tiver mais em conta acaba entrando no carrinho.

A pernambucana produz manga do tipo keitt, menos doce e menor, e vende para exportação à Europa, sem presença no mercado americano.

Mas os pés nos 60 hectares da família em Petrolina já estão cheios de manga sem saída.

"A gente vendeu a R$ 6 o quilo neste ano, agora estava lutando para vender a 0,80 centavos", diz.

Segundo os produtores, as empresas importadoras da Europa estão cancelando pedidos por já estarem com receio de ter "uma enxurrada de manga vinda do Brasil".

Martins está numa corrida contra o tempo porque precisa iniciar o preparo da terra para a próxima colheita. Isso é, podar as árvores, repousar a terra e preparar o terreno.

Para isso, ela tem oferecido as frutas a parceiros comerciais, de empresas de polpas a mercados, que poderiam recolher as mangas.

"Estou dando de graça para quem quiser pegar, para limpar minha planta. E mesmo assim não estou conseguindo", disse na terça-feira. Ela explica que as empresas justificam que o custo para retirar as mangas do pé não será compensado com a venda a preços tão baixos.

Na terra de Adailton de Lima, em Lagoa Grande, o problema é o mesmo. "O mercado está cheio, aí ninguém quer nossa manga. Tá caminhando para amadurecer no pé", diz ele, produtor do tipo palmer, uma das preferidas do mercado brasileiro.

O agrônomo Gilson dos Santos, produtor e consultor do setor de mangas no Vale do São Francisco, explica que o Brasil não é capaz de absorver tanta manga que vai sobrar. E nem a Europa, já que "outros países estão tendo uma boa safra neste ano, como a Espanha, na região de Málaga", diz.

"Isso abriu uma grande especulação no mercado, produtores ficam desesperados e oferecem manga de maneira desesperada com medo de não vender as frutas", conta.

Presidente do sindicato, Jailson Lira faz críticas ao governo federal, que, segundo ele, estaria tentando "medir forças com os EUA", em vez de negociar uma saída ao setor. O presidente do sindicato também diz que não foi apresentado um plano para os produtores.

A BBC News Brasil entrou em contato com os governos de Bahia e Pernambuco, além do governo Federal, mas as gestões não se posicionaram.

O produtor Eduardo Nakahara avalia que, se mantidas, as tarifas terão grande impacto em toda a economia da região do Vale do São Francisco, uma das regiões mais prósperas do sertão nordestino, justamente devido à agricultura irrigada que produz mangas, uvas e outras frutas.

Para ele, o momento seria para o povo brasileiro abraçar a manga como uma fruta nacional.

"Imagina fazer uma campanha para incentivar as pessoas a comprarem manga, fazer tudo de manga. Em vez de pedir um suco de morango no restaurante, pede de manga", diz.

¨      Maior produtor e exportador de açaí, Pará pode ter 300 mil trabalhadores afetados pelo 'tarifaço' de Trump

O açaí produzido no Pará representa cerca de 90% da produção nacional e pode ser diretamente impactado pela nova medida de tarifa anunciada por Donald Trump . O estado é também o maior exportador do fruto no Brasil. Os Estados Unidos são o principal destino internacional do açaí paraense e consomem cerca de 40% do fruto produzido no estado.

Trump assinou na quarta-feira (30) um decreto que oficializa a imposição de uma tarifa extra de 40% sobre produtos brasileiros, totalizando 50%. A medida, inicialmente anunciada para 1º de agosto, começa a valer no dia 6 de agosto.

Apesar disso, o governo americano decidiu deixar quase 700 itens sem a cobrança extra, incluindo castanha-do-Pará.

💰 Mas o açaí ficou de fora desta lista e ainda deve ser taxado em 50%. Especialistas dizem que o fruto importado pode se tornar artigo de luxo no país norte-americano. O aumento da taxação deixa os produtos brasileiros no mercado norte-americano mais caros e reduz significativamente o volume de exportações, atingindo diretamente a cadeia do açaí.

Com a possível redução de exportações, cerca de 300 mil trabalhadores podem ser impactados no estado, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Ainda segundo o Dieese, em 2024, o estado exportou mais de 8 mil toneladas de açaí, com destaque para as produções nos municípios de Igarapé-MiriCametá e Abaetetuba.

O açaí tem ganhado projeção internacional como uma espécie de "superalimento" e outras aplicações comerciais. Mas agora enfrenta um desafio significativo:

"Com a tarifa de 50%, o açaí paraense perderá drasticamente a competitividade no mercado americano. Isso significa que o produto ficará muito mais caro para os consumidores dos EUA, o que pode levar a uma queda acentuada na demanda", afirma Everson Costa, pesquisador do Dieese.

O supervisor técnico do Dieese no Pará afirma que a possível queda nas exportações do açaí pode causar impactos sociais expressivos para os trabalhadores que estão, direta ou indiretamente, envolvidos na cadeia produtiva da fruta no estado.

“O prejuízo afetaria principalmente o elo mais fraco da cadeia, formado por ribeirinhos, quilombolas e pequenos produtores que dependem do açaí como principal fonte de renda”, explica.

De acordo com Everson, a nova tarifa pode aprofundar desigualdades sociais e comprometer a sustentabilidade econômica de comunidades tradicionais da Amazônia, que há décadas atuam na extração e comercialização do fruto.

Denise Acosta, presidente do Sindicato das Indústrias de Frutas e Derivados do Estado do Pará (Sindfrutas), apontou que a decisão dos Estados Unidos representa uma ameaça concreta à sustentabilidade da indústria do açaí no Pará: além de ser responsável por 90% da produção nacional do fruto, o estado abriga um parque industrial especializado na transformação, conservação e exportação do produto, com processos para garantir qualidade, rastreabilidade e valor agregado.

'"Esse setor industrial tem sido fundamental para ampliar o alcance internacional do açaí e consolidar o Brasil como líder mundial na exportação do fruto. No entanto, com a nova taxação, muitas empresas correm o risco de perder competitividade no principal mercado importador, comprometendo contratos, investimentos e empregos", diz.

Para ela, é preciso considerar que, ao penalizar esse segmento com tributos elevados, cria-se um efeito em cadeia que pode comprometer toda a estrutura produtiva, desde a colheita até a industrialização. O impacto se estende também ao abastecimento do mercado interno, provocando distorções logísticas e comerciais.

<><> Economista avalia impactos diretos

Nélio Bordalo Filho, economista, consultor de empresas e membro do Conselho Regional de Economia dos Estados do Pará e Amapá (CORECON PA/AP), reforça que a tarifa de 50% pelos Estados Unidos vai impactar diretamente o mercado paraense. O estado lidera a produção e exportação do fruto, especialmente na forma processada, como polpas e extratos.

"Com os Estados Unidos, sendo o principal destino das exportações, a medida ameaça reduzir o volume de vendas externas, prejudicando o faturamento das empresas paraenses e afetando toda a cadeia de valor do setor", diz.

Ainda segundo o especialista, o impacto na produção do Pará é negativo, pois a cadeia produtiva do açaí depende fortemente do mercado externo, especialmente dos Estados Unidos. Ele também entende que uma possível redução nas exportações afetaria não só as agroindústrias exportadoras, mas também os produtores ribeirinhos, as cooperativas, os transportadores e os trabalhadores envolvidos na coleta, beneficiamento e comercialização do fruto.

"Isso se traduz em menos postos de trabalho, formais e informais, além de queda na renda das comunidades que dependem diretamente do açaí. Como o setor tem forte capilaridade social e envolve pequenos produtores e extrativistas, o impacto pode agravar a vulnerabilidade econômica em áreas já marcadas por baixos indicadores socioeconômicos", explica.

<><> Possíveis alternativas

Bordalo ainda diz que há como mitigar os efeitos da tarifa. Uma das alternativas seria diversificar os mercados compradores, ampliando as exportações para países da Europa, Ásia e América Latina, onde o consumo de produtos saudáveis e sustentáveis tem crescido.

Outra possibilidade seria o fortalecimento da verticalização da produção, com a criação de derivados mais sofisticados do açaí que agreguem valor e conquistem novos nichos de mercado, inclusive dentro do Brasil.

Ainda segundo Nélio, há a possibilidade de articulação do governo brasileiro com autoridades norte-americanas para tentar negociar algum tipo de flexibilização ou exceção à tarifa especialmente para produtos com certificação ambiental ou provenientes de cadeias produtivas sustentáveis.

 

Fonte: g1/BBC News Brasil

 

Máfia da ajuda em Gaza: o crime que mata antes mesmo de a guerra cessar

No epicentro da fome que atinge a Faixa de Gaza, entre os escombros da guerra e da destruição, sobressai um crime que não é menos cruel do que os bombardeios diários e o cerco contínuo: o saque e o monopólio da ajuda humanitária por máfias e quadrilhas que operam às claras, à vista e ao alcance de todos, sem que haja fiscalização ou punição.

Pôr fim à guerra de extermínio e garantir a retirada total de Israel de cada centímetro de Gaza não é apenas uma exigência nacional ou política: é uma condição fundamental para salvar o que resta de vida neste território devastado. A fome desenfreada e o colapso dos sistemas de saúde, educação e meio ambiente não serão resolvidos com lançamentos aéreos de ajuda ou com seu trânsito por pontos de passagem sujeitos à chantagem e ao saque, mas sim com o fim da ocupação e a garantia de plena soberania do nosso povo sobre sua terra, suas decisões e seus recursos.

As manobras da ocupação e suas mentiras foram rapidamente desmascaradas: alega combater a fome ao mesmo tempo em que reduz a ajuda e supervisiona, direta ou indiretamente, o caos que envolve sua distribuição. A ajuda que entra pelo ponto de passagem de Kerem Shalom frequentemente não chega aos que dela precisam: é saqueada, enquanto as forças de ocupação se mantêm como espectadoras, senão cúmplices, numa tentativa maliciosa de macular a imagem de resistência do povo palestino, apresentando-o como um bando que se digladia por migalhas de comida.

A tragédia, no entanto, não se limita à ocupação. Estende-se também ao interior, onde redes de pessoas influentes controlam a distribuição da ajuda, transformando-a num comércio lucrativo, vendida a preços exorbitantes num momento em que a maioria da população não consegue sequer comprar pão. Enquanto o cidadão é forçado a sacar seu dinheiro com um desconto que pode chegar a 45%, os órgãos responsáveis se mantêm inertes, e até em silêncio, numa atitude que se assemelha à conivência com os saqueadores da guerra.

A manutenção dessa realidade constitui um crime contra a dignidade nacional e um crime humanitário contra os pobres e os famintos. Não se deve aguardar um cessar-fogo para iniciar a responsabilização, pois a fome não espera e a ética não obedece a calendários políticos. Pelo contrário: é preciso começar desde já a perseguir e punir todos os que roubam o pão da boca das crianças e os que transformam a guerra em meio de enriquecimento ilícito.

Nossa luta hoje não é apenas contra a ocupação e seu aparato militar, mas também contra os mercadores do sofrimento e sugadores de sangue. E, se não forem contidos, quaisquer esforços de trégua ou reconstrução serão inúteis, pois a corrupção, a mesma que devorou a ajuda humanitária, devorará também qualquer esforço de trégua ou reconstrução.

A solução não começa com conferências, mas com ações concretas: cessar-fogo imediato, retirada da ocupação da Faixa de Gaza, garantia de que a ajuda seja fornecida por mecanismos transparentes e organizados, e cooperação palestino-egípcia eficaz para dar início a um processo de reconstrução sob supervisão nacional independente, que devolva a confiança e a esperança a Gaza.

Nosso povo merece a vida, não as migalhas. Merece ser recompensado por sua resistência, e não punido com a fome duas vezes: uma vez pela ocupação, outra pelos mercadores da guerra.

¨      Quais são os cinco estágios que levam à fome em Gaza?

Quase uma a cada três pessoas na Faixa de Gaza passa dias sem comer, alerta o programa de ajuda alimentar das Nações Unidas.

Nesta quarta-feira (30/7), o ministério de Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, informou que mais sete pessoas morreram de desnutrição nas últimas 24 horas na região. Isso eleva o total de mortes por falta de alimentos desde outubro de 2023 para 154, entre elas 89 crianças.

O presidente americano, Donald Trump, declarou que existe "fome real" em Gaza. Já o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, insiste que não é verdade.

Mesmo negando a existência de fome na Faixa de Gaza, Israel anunciou uma "pausa tática local" nos últimos dias, para permitir a entrada de ajuda humanitária na região.

Mas o chefe de ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher, afirma que são necessárias "imensas quantidades" de comida para combater a fome no território.

Na Cidade de Gaza, uma a cada cinco crianças sofre de desnutrição. E o número de casos aumenta todos os dias, segundo a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos (Unrwa, na sigla em inglês).

A ONU informou que os hospitais vêm admitindo pessoas em estado de severa exaustão, causado pela falta de alimentos, e que outras estão desmaiando nas ruas.

As Nações Unidas ainda não declararam fome no território, mas a Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (CIF) alerta que a Faixa de Gaza enfrenta risco crítico de enfrentar uma catástrofe humanitária causada pela fome.

<><> O que é a fome e quando ela é declarada?

A Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (CIF) é o padrão global empregado para descrever o grau de dificuldade enfrentado pela população para obter alimentos nutritivos e acessíveis.

A fase mais grave — a Fase 5, Fome — indica uma situação que atende aos seguintes critérios:

  • 20% das famílias enfrentam extrema falta de alimentos
  • Pelo menos 30% das crianças sofrem de desnutrição grave
  • Pelo menos dois adultos ou quatro crianças a cada 10 mil pessoas morrem todos os dias, devido diretamente à fome ou à interação entre a desnutrição e doenças

relatório da CIF na Faixa de Gaza, publicado no dia 12 de maio, afirma que toda a população vive atualmente em situação de crise alimentar (Fase 3) e acima.

A previsão é que cerca de 469,5 mil pessoas provavelmente sofrerão insegurança alimentar catastrófica (Fase 5) entre maio e setembro de 2025.

Quando ocorrem estas circunstâncias, a ONU costuma declarar fome no território, às vezes em conjunto com o governo do país e, frequentemente, ao lado de organizações de ajuda internacional ou agências humanitárias.

<><> O que acontece com o corpo de uma pessoa que passa fome?

A fome é causada pela ausência prolongada de comida. Ela faz com que o corpo não receba calorias suficientes para atender suas funções básicas.

Normalmente, o corpo transforma o alimento em glicose. Mas, quando não há comida, ele começa a decompor glicogênio no fígado e nos músculos para liberar glicose para a corrente sanguínea.

Quando estes recursos são esgotados, o corpo se volta para a gordura armazenada e, eventualmente, a massa muscular, para a produção de energia.

A fome pode causar a contração dos pulmões, do estômago e dos órgãos reprodutores, gerando alucinações, depressão e ansiedade.

Algumas pessoas morrem de fome, mas as pessoas que sofrem de desnutrição aguda, muitas vezes, morrem de complicações como infecções no sistema digestivo ou respiratório, devido aos danos causados ao sistema imunológico.

A fome afeta cada pessoa de forma diferente.

"Você não fica gravemente desnutrido de repente", explica a professora Charlotte Wright, pesquisadora sênior honorária de Nutrição Humana da Universidade de Glasgow, no Reino Unido. "Essas crianças podem ter contraído anteriormente sarampo, pneumonia, diarreia ou doenças similares."

"Crianças que, antes, eram saudáveis, mas começaram a passar fome, ainda terão energia para comer e digerir alimentos, quando houver. Outras serão consumidas."

<><> Como a desnutrição afeta crianças e bebês?

A falta de alimentos na infância pode trazer consequências para toda a vida, como falhas de desenvolvimento cognitivo e atrasos do crescimento.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o nanismo como o comprometimento do crescimento e do desenvolvimento das crianças, causado por desnutrição, infecções recorrentes e estímulos psicossociais inadequados.

Muitas vezes, essas crianças são mais baixas que o esperado para sua idade.

As pessoas que sofrem de desnutrição apresentam maior probabilidade de dar à luz crianças desnutridas, segundo a Fundação das Nações Unidas.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) afirma que a má alimentação durante a gravidez pode causar anemia, pré-eclâmpsia, hemorragia e morte das mães, além de natimortos, baixo peso ao nascer, desgaste muscular e atrasos no desenvolvimento das crianças.

As mães desnutridas também podem ter dificuldade para produzir leite nutritivo e em quantidade suficiente para alimentar seus bebês.

O médico Nuradeen Alibaba, da ONG Médicos Sem Fronteiras, afirma que as consequências podem durar para toda a vida. Ele é especializado no tratamento de crianças com desnutrição

"O nanismo é irreversível, ou seja, elas terão baixa estatura mesmo depois do período de desnutrição", explica ele. "Isso as coloca em grande desvantagem."

"Muitas vezes, existem também dificuldades permanentes de aprendizado, que podem ficar óbvias apenas quando elas entrarem na escola." E a desnutrição "também suprime o sistema imunológico, o que os deixa muito susceptíveis a infecções", segundo o médico.

"Um ponto importante que muitas pessoas não entendem totalmente é que, para as meninas, existe de fato um nível de desnutrição que pode causar infertilidade. E, se essas mulheres conceberem, a probabilidade de dar à luz bebês com baixo peso ao nascer é muito mais alta.

Outra possível complicação é a osteoporose.

"Ter ossos frágeis em idade avançada pode torná-los mais vulneráveis, pois eles não conseguem carregar adequadamente o peso do corpo. Por isso, até eventos pequenos podem causar fraturas", explica Alibaba.

<><> Como tratar a desnutrição?

"Para combater esta crise, é preciso basicamente tomar duas medidas: levar mais comida para Gaza e também fornecer alimentos terapêuticos de custo mais alto", explica Wright. "Os alimentos precisam ser urgentemente redirecionados para as crianças e suas mães."

"A amamentação é a opção mais segura e higiênica para os bebês, mas é preciso alimentar a mãe para que ela possa alimentar a criança. E aqui está o verdadeiro desafio: garantir que os alimentos realmente cheguem até elas, não para os homens."

"A mensagem fundamental é que as crianças e as mães precisam ser priorizadas e elas não necessitam de muito", orienta o professor.

A repórter de saúde Smitha Mundasad, da BBC News Árabe, também recebeu formação em Medicina. Ela explica que a desnutrição pode causar inúmeros efeitos, principalmente entre as crianças. E que o tratamento nem sempre é fácil.

Em casos graves, quando a pessoa não consegue mais engolir, ela pode precisar de nutrição especialmente formulada em hospitais ou clínicas, além de "tratamentos para infecções e outras possíveis complicações", afirma Mundasad.

"Em alguns casos, alimentar alguém com muita rapidez ou com alimentos errados pode ser perigoso. A resposta, portanto, não é apenas conseguir comida, mas a comida certa, e ter um sistema de assistência médica em funcionamento como apoio."

¨      Com sanções a Israel, Brasil endurece pressão global contra genocídio em Gaza

Em pronunciamento contundente durante conferência das Nações Unidas, realizada nesta terça-feira (29), o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, anunciou que o governo brasileiro aplicará sanções contra Israel, responsabilizando o país pelo genocídio em curso na Faixa de Gaza, destaca reportagem da Telesur.

As medidas incluem a suspensão imediata de exportações brasileiras de equipamentos militares para Israel, o endurecimento da fiscalização de importações oriundas de assentamentos israelenses ilegais na Cisjordânia ocupada e o apoio formal do Brasil à denúncia de genocídio apresentada pela África do Sul à Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia.

“A intervenção do Brasil no caso da Corte Internacional de Justiça movido pela África do Sul sob a Convenção do Genocídio, a investigação e o controle mais rigoroso das importações de assentamentos ilegais e outras terras ocupadas ilegalmente, a contínua negação de exportações de defesa para Israel de acordo com o Tratado de Comércio de Armas, o apoio a uma missão de verificação internacional liderada pela ONU para monitorar o cumprimento do direito internacional e um mecanismo modelado no Comitê Especial contra o Apartheid, e o apoio técnico à Autoridade Palestina em áreas-chave da construção do Estado, conforme necessário”, afirmou Mauro Vieira em seu discurso oficial.

A posição brasileira surge em meio ao agravamento da catástrofe humanitária em Gaza, onde mais de 60 mil palestinos foram mortos desde o início da ofensiva militar israelense em outubro de 2023. O governo brasileiro reforçou seu compromisso com a legalidade internacional, os direitos humanos e a autodeterminação do povo palestino, em conformidade com resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Mauro Vieira também destacou o compromisso do Brasil com a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), cuja atuação tem sido alvo de pressões políticas e cortes de financiamento. Segundo ele, o “apoio contínuo às atividades da UNRWA, incluindo a presidência de sua Comissão Consultiva, garantindo uma distinção fundamental entre críticas legítimas às políticas e práticas estatais que afetam os palestinos e o antissemitismo, seguindo as recomendações dos Relatores Especiais da ONU”, é parte essencial da política brasileira para a região.

O anúncio das sanções marca um endurecimento da diplomacia brasileira em relação a Israel, sobretudo diante da crescente mobilização internacional contra as ações do governo de Benjamin Netanyahu. A decisão do Brasil alinha-se ao crescente coro global que exige responsabilização por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos durante a ofensiva militar em Gaza.

A medida também reforça o papel do Brasil como ator relevante no sistema multilateral e interlocutor legítimo no debate sobre o futuro do Oriente Médio. Desde o início do genocídio, o país tem defendido o cessar-fogo imediato, a proteção da população civil e a retomada de negociações com base na solução de dois Estados.

Em sua fala, Mauro Vieira ressaltou que o Brasil continuará atuando de forma ativa para garantir que o direito internacional prevaleça: “Não há paz sem justiça, e não há justiça sem responsabilização. O sofrimento do povo palestino não pode mais ser ignorado”.

O posicionamento do Brasil repercute em um momento de crescentes tensões diplomáticas globais, em que diversos países têm revisto suas relações com Israel à luz das denúncias de crimes graves em Gaza. A fala de Mauro Vieira na ONU insere o Brasil no centro da pressão internacional por justiça e responsabilização diante de uma das mais graves tragédias humanitárias do século 21.

 

Fonte: Diáligos do Sul Global/BBC News Mundo