sexta-feira, 1 de setembro de 2023

'Óleo de vape não sai do meu pulmão': o jovem internado após fumar cigarro eletrônico

Fumante desde os 18 anos, o resgatista de fauna Gabriel Nogueira Souza trocou o cigarro comum pelo eletrônico, também conhecido como vaporizador ou vape, no ano passado.

Na época, o rapaz de 23 anos precisou ficar em um hospital acompanhando sua mulher, que passaria por uma cirurgia na coluna.

"Como no hospital não podia fumar, passei a usar o cigarro eletrônico para sustentar o vício. Ele não era detectável pelo sensor de fumaça e não deixava um cheiro ruim no local", conta.

Foram três meses usando o vape, conta Gabriel, tempo suficiente para ele sofrer graves consequências.

"Um dia, do nada, acordei tossindo sangue, com muita dor no corpo a ponto de não conseguir levantar da cama. Pensava que ia morrer de tanta dor na região das costelas."

Gabriel conta que foi imediatamente para o hospital, onde ficou internado por um mês.

Com a saturação baixa e falta de ar, ele fez exames como tomografia e raio-x. O diagnóstico foi de vidro fosco no pulmão, broncopneumonia e enfisema pulmonar.

O vidro fosco por si só não é uma doença. É uma alteração que aparece no pulmão e pode indicar vários problemas.

Essa alteração recebe esse nome porque ela causa uma mancha no pulmão e, no exame, a imagem assemelha-se a um vidro embaçado.

Já a broncopneumonia é uma inflamação das estruturas internas do pulmão, os brônquios e os alvéolos.

Por fim, o enfisema pulmonar é uma irritação crônica onde os alvéolos pulmonares são destruídos e acabam perdendo a sua função, fazendo com que o paciente tenha muita dificuldade para respirar.

O tratamento de Gabriel foi feito com antibiótico injetável e, segundo ele, foram quase 30 dias até que começasse a apresentar melhoras.

"Os médicos explicaram que não foi o cigarro comum que causou os danos. Nos exames, ficou constatado que dentro dos brônquios tinha óleo contido nos cigarros eletrônicos", relata Gabriel.

"O problema é irreversível, porque esse óleo não tem como sair do meu pulmão."

•        Riscos à saúde

Com embalagem tecnológica atraente e a suposta promessa de ser menos prejudicial à saúde, o cigarro eletrônico, que oficialmente recebe o nome de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF), se popularizou principalmente entre os jovens, assim como Gabriel.

Enquanto o cigarro tradicional funciona por meio da combustão de alcatrão, nicotina e um composto de mais de 40 substâncias químicas, os eletrônicos são aparelhos que funcionam por uma bateria e diferentes mecanismos que produzem um vapor que é inalado pelo usuário.

Sua composição varia segundo o fabricante. Eles também têm nicotina e outras substâncias líquidas como glicerol, glicerina vegetal, propilenoglicol e flavorizantes, responsáveis por dar sabor.

"Todas essas substâncias podem causar danos à saúde, como irritação nas vias aéreas, nos broncos, bronquite, inflamação e alteração na função pulmonar", explicou à BBC News Brasil o pneumologista André Nathan, do Hospital Sírio-Libanês.

Além dos problemas ao sistema respiratório, estudos científicos apontam que o vapor inalado pode comprometer o sistema cardiovascular e aumentar o risco de câncer de pulmão e em outros órgãos.

"Ele causa estresse oxidativo, que é um estresse celular aumentando o marcador inflamatório e causando disfunção do endotélio, que são as células que recobrem internamente os vasos sanguíneos", acrescenta o pneumologista.

"Isso pode, por exemplo, causar uma trombose e aumenta o risco da pessoa um infarto ou um AVC (Acidente Vascular Cerebral).”

Um estudo científico feito na Universidade Columbia e publicado no periódico científico Substance Use and Misuse apontou que fumar cigarros eletrônicos aumenta o risco de consumir maconha ou álcool em excesso em até 20 vezes.

A pesquisa avaliou dados de mais de 50 mil jovens entre 13 e 18 anos que participaram da enquete Monitoring the Future, aplicada pelo Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estados Unidos.

As perguntas abordavam o consumo de nicotina, tanto em cigarros convencionais quanto eletrônicos, maconha e álcool.

Enquanto aqueles jovens que fumavam cigarros comuns tinham cerca de oito vezes mais risco de usar maconha, o vape mais do que dobrou esse risco.

O hábito de fumar cigarro eletrônico também multiplicou por cinco a probabilidade de um episódio de abuso de álcool no mesmo período.

"Por um tempo se falou sobre o uso do cigarro eletrônico para diminuir o vício ao tabaco, que seria uma contenção de dano, mas infelizmente isso não acontece porque a concentração de nicotina nele é maior e não te faz abandonar o vício e até propicia que você fique pulando de um vício para outro", enfatiza Nathan.

•        Proibição no país

Um levantamento publicado neste ano mostrou que quase um em cada cinco brasileiros de 18 a 24 anos usaram o cigarro eletrônico pelo menos uma vez na vida, mesmo que a comercialização desse produto seja proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A comercialização, importação e propaganda de quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar, o que inclui o cigarro eletrônico, são proibidas conforme a resolução nº 46, de 28 de agosto de 2009 da Anvisa.

Em julho do ano passado, em uma reavaliação da decisão do ponto de vista técnico, a Anvisa aprovou o Relatório de Análise de Impacto Regulatório (AIR) sobre os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF).

O documento mantém a proibição de comercialização e importação de todos os tipos de dispositivos e recomenda aumento nas ações de fiscalização para coibir o comércio ilegal e a realização de campanhas educativas para conscientizar os jovens sobre os riscos do uso desses produtos.

O Brasil faz parte de um grupo de 32 países que vetam o comércio do vape, entre eles Argentina, México e Índia, por exemplo.

“A proibição busca manter o cigarro afastado do acesso da sociedade. O cigarro eletrônico foi uma reinvenção da indústria para atrair o jovem atual, já que o cigarro comum não é tão atrativo para essa geração. Já é comprovado em vários estudos os malefícios desse produto”, diz Paulo Corrêa, pneumologista e coordenador da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

No entanto, na outra ponta dessa discussão estão os representantes da indústria do tabaco e fabricantes de cigarros eletrônicos que defendem a legalização e regulamentação do produto no país.

Isso foi feito em locais como Estados Unidos, Reino Unido, Portugal, Itália, Japão e Canadá, que liberaram a comercialização com maior ou menor grau de restrição.

Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde divulgado em 2021, 79 países já regulamentaram os DEFs e liberaram a venda com supervisão dos órgãos regulamentadores.

"Precisamos analisar que esses produtos facilmente encontrados à venda no Brasil vêm do mercado ilegal, sem comprovação de origem e composição; por isso, fazem mal à saúde", explica Giuseppe Lobo, gerente executivo da Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo).

"A partir do momento que você regulamenta, ele vai ter regras para produção e comercialização e será fiscalizado."

Fabricantes dos dispositivos argumentam que eles oferecem risco reduzido à saúde, em comparação ao cigarro tradicional e por isso deveriam ser liberados como alternativa para uso adulto e proibidos aos adolescentes, assim como acontece com os cigarros comuns e bebidas alcoólicas, que não podem ser vendidos a menores de 18 anos.

"Apesar de proibidos, os vapes são facilmente encontrados, o que mostra que essa medida de proibição não funciona", argumenta Lauro Anhezini Junior, diretor de assuntos científicos e regulatórios da British American Tobacco Brasil, multinacional que vende esse tipo de produto em mais de 40 países.

"Por isso, defendemos a ideia da regulamentação e criação de regras para produção, assim poderá se controlar quais as substâncias poderão estar presentes na composição e a quantidade delas."

Anhenzini Junior argumenta ainda que a saborização desses produtos vendidos clandestinamente no Brasil é um dos fatores que fazem com que os jovens se interessem pelo produto, mas que isso é limitado e controlado em países onde a comercialização é regulamentada.

"Hoje você encontra de sabor tutti-futti, baunilha e outros que remetem à infância. Já lá fora isso não pode. Os sabores comercializados são tabaco, menta e fruta, mas sem ser adocicado para não remeter a uma sobremesa", diz.

"A regulamentação possibilita ainda que se multe de forma pesada quem vender o produto para menores de idade."

Para Corrêa, a liberação da comercialização do produto seria um retrocesso e o país não deve ceder aos apelos da indústria.

"A indústria quer manter o seu mercado ativo. Não podemos correr o risco de outros países, como o Canadá, por exemplo, que liberaram os dispositivos e hoje estão tendo dificuldade de retroceder nas regras", diz.

Jaqueline Scholz, diretora do Ambulatório de Tratamento do Tabagismo do Instituto do Coração (InCor), teme que a regulamentação possa reverter a tendência da redução do número de fumantes no Brasil.

"Vários países aceitaram os argumentos a favor do cigarro eletrônico e liberaram. O que aconteceu nesses lugares foi um aumento da prevalência de fumantes", disse em entrevista recente à BBC News Brasil.

"Nosso país tinha uma taxa de iniciação do tabagismo muito baixa entre adolescentes, mas vemos que essa política está em risco agora. Se não cuidarmos desse problema agora, o uso desses dispositivos tem tudo para virar uma epidemia em breve."

•        Sequelas do vape

Quase dez meses após sair do hospital, Gabriel faz sessões de fisioterapia e um tratamento para se recuperar dos prejuízos causados pelo vape.

Para que sua situação não se agrave ainda mais, Gabriel procura manter uma alimentação saudável e fazer exercícios físicos regularmente para fortalecer os pulmões.

Além disso, está proibido de fumar qualquer tipo de cigarro.

Mas ele conta que mesmo assim ainda enfrenta várias limitações no dia-a-dia por causa de uma falta de ar persistente.

"Tenho falta de ar quando estou dormindo, fazendo com que muitas vezes eu acorde devido à dificuldade de respirar. No mês passado, fiquei dois dias internado devido a esse problema", conta.

"Eu achava que o cigarro eletrônico fazia mal, igual ao cigarro comum, mas ele é infinitas vezes pior. Tenho só 23 anos e fiquei com a minha saúde comprometida devido a ele. Se eu soubesse, nunca teria usado."

 

Fonte: BBC News Brasil

 

CERCO SE FECHA: relembre os escândalos de Ricardo Salles que pode ser preso

Desde que Ricardo Salles (PL-SP) começou a ser investigado essa semana, já se somam quase dez bolsonaristas investigados pela Justiça no governo Lula. Muitos deles cometeram crimes ainda no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) e apenas este ano as acusações e investigações estão avançando.

•        Ricardo Salles (PL-SP)

Na noite da última segunda-feira (28), o ex-ministro do Meio Ambiente no governo Jair Bolsonaro (2019-2022) e atualmente deputado federal, Ricardo Salles tornou-se réu. Isso aconteceu depois que a 4ª Vara Federal Criminal do Pará aceitou a denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal (MPF).

De acordo com o MPF, na época em que era ministro, se envolveu em um "grave esquema de facilitação ao contrabando de produtos florestais”.

Além de Ricardo Salles, outras 21 pessoas, incluindo o ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Eduardo Bim, são acusadas de integrar uma organização criminosa que operava um "grave esquema de facilitação ao contrabando de produtos florestais".

De acordo com a denúncia do MPF, Salles, agora réu por corrupção passiva, associação criminosa, facilitação ao contrabando, advocacia administrativa e obstrução à fiscalização ambiental, permitiu a exploração ilegal de madeira na Amazônia para venda no exterior, após alterar as regras do Ibama. A denúncia relata que o ex-ministro favoreceu os madeireiros ilegais e permitiu "a representação de interesses privados em detrimento do interesse público".

O relatório aponta para emissões de "certidões e ofícios em desacordo com as orientações técnicas da equipe da instituição, com o fito de liberar madeira apreendida nos Estados Unidos".

Ricardo Salles geralmente é bastante assíduo das redes sociais, mas não publica nada desde a noite de segunda, quando declarou que a última publicação foi para atacar a denúncia aceita pelo MPF e qualificá-la como "falácia".

>>> “Falácia”

Tentando fingir normalidade, mas claramente em desespero, Ricardo Salles se pronunciou por meio de suas redes sociais. Ele classifica a denúncia como uma "falácia" e expressa confiança na "imparcialidade do Judiciário".

"Procuradores apresentaram denúncia sobre as madeiras contra mim e os coronéis da PM que trabalhavam comigo (alguma surpresa?!), contrariando até mesmo as conclusões do próprio delegado do caso. Veremos. Tenho certeza de que a seriedade e imparcialidade do Judiciário demonstrarão a falácia ali contida. Avante", declarou Ricardo Salles.

>>>> Relembre os escândalos de Ricardo Salles

•        Pregou o assassinato de sem-terras e pessoas de esquerda

Durante sua campanha para deputado federal em 2018, pelo partido Novo, Ricardo Salles sugeria o assassinato de sem-terras e de pessoas de esquerda de maneira explícita.

Seu “santinho” de campanha prometia “segurança no campo”, em um claro apoio aos latifundiários, usando a imagem de uma munição de revólver como solução.

•        Condenado por fraude ambiental

No final e 2018, o Salles foi condenado em primeira instância por fraude ambiental. A acusação do Ministério Público é que Salles, enquanto secretário do Meio Ambiente de Alckmin, fraudou mapas de um decreto para beneficiar empresas que atuam na várzea do Rio Tietê.

Ainda cabe recurso.

•        Investigado por enriquecimento ilícito

Em julho de 2019, o Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito para investigar suposto enriquecimento ilícito de Salles.

De acordo com o MP, o ex-ministro teve um enriquecimento atípico entre 2012 e 2017. Em 2012, quando foi candidato a vereador pelo PSDB, ele declarou à Justiça Eleitoral R$ 1,4 milhão em bens. Na última eleição, quando foi candidato a deputado federal pelo Novo, declarou R$ 8,8 milhões, um estranho aumento de 335%.

•        Mentiu no currículo

Em artigo de defesa das privatizações publicado na Folha de S. Paulo em 2012, o então desconhecido Ricardo Salles colocou em sua mini-biografia, ao final do texto, que era mestre em direito público pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos. O título, no entanto, não passa de uma mentira.

Ao site de The Intercept Brasil, a universidade desmentiu o ex-ministro. A mentira, no entanto, antes de vir à tona, foi reproduzida na maior parte das entrevistas e aparições públicas que Salles fez desde que o artigo da Folha em que aparece com o título de mestre foi publicado.

Com a repercussão de que havia mentido, Salles se justificou dizendo que a menção à Universidade de Yale em seu currículo teria sido um erro de sua assessoria.

•        Desmontou o Conama

Em maio de 2019, já como ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles promoveu uma verdadeira destruição do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama): cortou 77% dos conselheiros do órgão e o reformulou de acordo com seus interesses.

Antes composto por 96 integrantes – entre entidades públicas e ONGs –, o Conama passou a ter 22 conselheiros, e o governo federal passou a ser o protagonista do órgão.

Para entidades e especialistas, trata-se de um desmonte na área de preservação ambiental.

•        Perseguição e demissão do presidente do ICMBio

Em abril de 2019, durante uma reunião com ruralistas, Salles fez ameaças explícitas contra funcionários do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Ele disse que processaria os agentes por não terem ido ao encontro. O problema é que o evento era em um sábado, fora do horário de expediente, e os servidores sequer haviam sido convidados. A ameaça foi filmada.

Com a investida de Salles contra o ICMBio, poucos dias depois, o presidente do órgão, Adalberto Eberhard, pediu demissão do órgão.

•        Gerou a demissão do diretor do Inpe e quebrou o Fundo Amazônia

Diante da divulgação dos dados que mostram que o desmatamento na Amazônia havia crescido 278% em julho de 2019, em comparação ao mesmo período de 2018, Salles, em consonância com o presidente, articulou a demissão do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), Ricardo Galvão. O governo afirmava, à época, que os dados são mentirosos.

A demissão de Galvão e a postura de Salles frente ao Ministério do Meio Ambiente fez com que a Alemanha e a Noruega decidissem suspender o repasse de R$ 288 milhões para o Fundo Amazônia destinados a projetos de preservação ambiental.

•        Tentou processar a Fórum e perdeu

Ainda em junho de 2019, Tribunal de Justiça (TJ) manteve decisão da juíza Daniela Dejuste de Paula, titular da 30ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, em primeira instância, e deu ganho de causa à Revista Fórum em ação judicial movida por Salles.

“Basicamente, ele alegou que esses veículos teriam divulgado matérias inverídicas e difamatórias a respeito dele. Mas, na verdade, são reportagens que tratavam da atuação dele na época em que era secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo, na gestão de Geraldo Alckmin (PSDB)”, explica Gabriel Borges, advogado que representou a Fórum, ao lado de André Rota Sena, ambos do escritório Santo, Borges, Sena Sociedade de Advogados.

•        Recorde de incêndios no Pantanal

Em setembro de 2020, O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) anunciou que o total de focos de incêndio no Pantanal bateu recorde histórico: 14.764 focos. Os dados vêm desde 1998 e se referem ao período do ano até o dia 13 de setembro.

O número é 214% maior do que os 4.699 registrados no mesmo período de 2020, que já tinha sido o mais alto desde 2012. Com Salles no Ministério do Meio Ambiente, os níveis de queimada no bioma batem recordes.

Somente os focos de incêndio de janeiro a setembro de 2020 foram equivalentes ao total dos seis anos anteriores.

•        Recorde de desmatamento na Amazônia

Além das queimadas no Pantanal, em 2020 o desmatamento também bateu recordes na gestão do ex-ministro. A destruição da Floresta Amazônica cresceu 9,5%, voltando a atingir a maior taxa desde 2008.

•        Aproveitar a pandemia para "passar a boiada"

Na fatídica reunião ministerial de 22 de abril de 2020, Ricardo Salles afirmou que era preciso aproveitar a “atenção da imprensa (…) voltada quase exclusivamente pro Covid” e “dar de baciada a simplificação”.

A simplificação de normas a que ele se referiu na reunião, central em sua agenda na pasta, visa facilitar a exploração do ambiente e desmontar os mecanismo de proteção e de preservação. Medidas que atendem demandas de grandes empresas, das quais é próximo.

“Precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, disparou.

•        "Revogaço" de proteção a restingas e manguezais

Em setembro de 2020, Salles revogou resoluções de preservação ambiental na 135ª reunião ordinária do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

Foram revogadas resoluções sobre definições e limites de Áreas de Preservação Permanente (APPs) de reservatórios artificiais e o regime de uso do entorno (302/2002), que estabelece parâmetros, definições e limites de APPs (303/2002), atingindo diretamente áreas de mangues e restingas.

Além disso, foi revogada uma medida que estabelece licenciamento de empreendimentos de irrigação (284/2001) e foi permitido o uso que materiais de embalagens e restos de agrotóxicos possam ser queimados em fornos industriais – contrariando a regra anterior que previa o descarte.

O "revogaço" teve forte repercussão negativa e, em outubro do mesmo ano, a ministra Rosa Weber, do STF, derrubou a decisão.

•        Queda nas multas ambientais

Em janeiro, o orçamento proposto pelo governo para o Ministério do Meio Ambiente e órgãos vinculados foi o mais baixo em 21 anos. A análise foi feita pelo Observatório do Clima, no relatório “Passando a Boiada”, lançado no mesmo mês.

Essa redução no orçamento foi proposta enquanto Salles estava flexibilizando controle da exportação de madeira, loteando cargos nos órgãos ambientais com policiais militares e propondo a extinção do Instituto Chico Mendes.

O relatório Passando a Boiada ainda mostrou que o total de multas aplicadas pelo Ibama em 2020 também foi o menor em duas décadas. Houve queda de 20% na comparação com o ano anterior e de 35% em relação a 2018 (governo Temer).

•        Cúpula do Clima e "milícia ambiental"

Entidades voltadas para questões climáticas denunciaram, em abril deste ano, que Salles queria criar o que chamam de “milícia ambiental” com o US$ 1 bilhão que pediu aos países ricos para combater o desmatamento na Amazônia.

Em reuniões prévias à Cúpula do Clima com representantes dos Estados Unidos e de financiadores europeus, o ministro defendeua formação de um Força de Segurança Ambiental. Segundo ele, a patrulha armada poderia substituir a ação da Polícia Federal e dos órgãos como o Ibama e ICMBio.

Para entidades, o interesse de Salles era direcionar as ações de combate ao desmatamento de acordo com objetivos políticos.

•        Assédio contra servidor do Ibama

Em maio de 2021, a Associação dos Servidores da Carreira de Especialistas em Meio Ambiente e do Pecma do Distrito Federal (Asibama-DF) denunciou que um servidor do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) foi intimidado e pressionado por um superior e por um assessor de Salles.

Hugo Leonardo Mota Ferreira, analista ambiental do Ibama, foi retirado de sua sala e teve seu computador confiscado. O servidor divulgou um documento, no qual denunciava que o modelo de conciliação de multas, criado há dois anos pelo então ministro, é um fracasso, pois aplicou menos de 2% das autuações ambientais no período.

“O servidor Hugo trabalha na área de sancionamento de multas do Ibama. Nesta quarta-feira (5), ele respondeu a um questionamento do Tribunal de Contas da União (TCU), que havia sido enviado ao Ibama dias atrás, aliás, chegou para o Hugo com o prazo expirado. O documento questionava a eficiência do novo modelo do sancionamento de multas proposto pelo Ministério do Meio Ambiente”, conta Alexandre Bahia Gontijo, presidente da Asibama-DF.

•        Alvo de operação da PF

Ainda em maio, Salles foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal (PF). Entre os crimes supostamente praticados há a prática de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e, especialmente, facilitação de contrabando.

Sob o nome de Operação Akuanduba, cerca de 160 policiais federais cumpriram 35 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e nos estados de São Paulo e Pará. As medidas foram determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A Polícia Federal deu início a investigação em janeiro de 2021 a partir de informações obtidas junto a autoridades estrangeiras que relataram um possível desvio de conduta de servidores públicos brasileiros no processo de exportação de madeira.

•        Alvo de inquérito no STF

No início de junho de 2021, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou abertura de inquérito contra Salles por atrapalhar as investigações da Polícia Federal relativas à Operação Handroanthus. A notícia-crime foi apresentada originalmente pelo delegado Alexandre Saraiva, que foi exonerado do comando da PF do Amazonas após a denúncia.

As acusações foram levantadas por Saraiva em razão da atuação de Salles diante da operação. Segundo o ex-chefe da PF no Amazonas, o ex-ministro fez “críticas ferrenhas à investigação a que nem sequer teve acesso” e defendeu publicamente os madeireiros investigados.

Durante audiência na Câmara dos Deputados, Saraiva afirmou que “o ministro tornou legitima a ação de criminosos” na Amazônia ao comentar sobre a denúncia apresentada contra Salles. O delegado disse que houve um aumento da grilagem no último período.

•        Ignorou reunião do Conselho da Amazônia

Já pressionado pelas denúncias, no final de maio de 2021, o então ministro não compareceu à reunião do Conselho da Amazônia.

O gesto provocou críticas públicas de Mourão, presidente do conselho. Ele reclamou da ausência do “ministério mais importante”, ressaltando que Salles, sequer, mandou um representante, e disse: “Falta de educação”.

O vice-presidente admitiu, naquele dia, que os índices de desmatamento no Brasil “pioraram” nos meses de março e abril e afirmou, ainda, que “a situação também não está boa” em maio.

•        Restringiu acesso a multas ambientais

Deputados do PT protocolaram junto à Justiça Federal, em junho de 2021, uma Ação Popular contra Ricardo Salles e contra o presidente do Ibama, Luis Carlos Hiromi Nagao, por conta da decisão tomada recentemente que tornou restrito o acesso a milhares de processos administrativos e multas por crimes ambientais.

Segundo reportagem de Rubens Valente publicada no portal UOL em 12 de junho, o Ibama, através de uma circular interna, restringiu o acesso a 199 categorias – de um total de 595 -com informações que incluem autuações e fiscalizações ambientais que poderiam estar à disposição da população através do Sistema Eletrônico de Informações (SEI), via internet, do governo federal.

•        Comprou mansão em meio às denúncias

Salles comprou uma casa em uma das regiões mais arborizadas e nobres de São Paulo (SP).

Trata-se de um imóvel de dois andares na rua Honduras, no Jardim América, Zona Oeste da capital paulista, próximo ao Club Athletico Paulistano, frequentado pela elite da cidade. Na região, uma casa como a de Salles custa em torno de R$15 milhões.

 

       Michelle Bolsonaro volta a debochar da Justiça

 

Michelle Bolsonaro e o ex-presidente Jair Bolsonaro optaram por ficar em silêncio nos depoimentos sobre o suposto esquema de venda de presentes oficiais, na manhã desta quinta-feira (31), na sede da Polícia Federal (PF), em Brasília, mas, antes, a ex-primeira-dama usou seu perfil no Instagram para dar seu recado, indo de um extremo ao outro. Por volta das 8h30, começou o dia como regularmente faz, postando um Salmo: “Não fiquem tristes, pois a alegria o Senhor é a sua força” (Neemias 8:10).

Uma hora depois, ela publicou um vídeo em seus stories mostrando seu treino com o personal Anderson Carvalho, que se intitula “coach de muay thai e MMA, além de personal fight”, em seu perfil na rede social. “Das porradas da vida, essas são as melhores”, escreveu Michelle. Anderson republicou o post.

Além dos depoimentos de Michelle e Bolsonaro, estão previstos para hoje os de Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação da Presidência da República e advogado de Jair Bolsonaro, do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, do general Mauro Lourena Cid, pai de Mauro Cid, Frederick Wassef, também advogado do ex-presidente, do tenente Osmar Crivelatti e do coronel Marcelo Câmara, ambos ex-assessores da Presidência da República.

 

Fonte: Fórum

 

BRICS precisa de sua própria moeda? Pepe Escobar explica a estratégia econômica do bloco

A nova era inaugurada com a exímia ampliação estratégica que levou à criação do BRICS 11 envolve a questão decisiva da criação de uma nova estratégia econômica/financeira internacional, explica à Sputnik o analista geopolítico e jornalista veterano Pepe Escobar.

Segundo o analista Pepe Escobar, o economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., antigo diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) que esteve profundamente envolvido com os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) de 2007 a 2015, observou como uma discussão sobre a moeda de reserva entre os cinco membros originais já era demasiado difícil. Com 11, será ainda mais.

Uma moeda deve ser emitida por um governo soberano. O indispensável economista norte-americano Michael Hudson foi direto ao assunto para se concentrar no que o presidente Putin sublinhou na cúpula de Joanesburgo: o que é necessário é um meio de acordo entre os bancos centrais para manter sob controle os desequilíbrios do comércio e do investimento na sua balança de pagamentos.

Isto não implica nenhuma moeda supranacional do BRICS apoiada pelo ouro, explica Pepe.

O professor Hudson observou que "ninguém usa ouro como moeda. Você não vai ao supermercado ou não compra ações e títulos ou mesmo casas com ouro. Você não conseguirá fazer isso com nada parecido com uma moeda do BRICS no futuro".

Então, a possível "moeda do BRICS" no futuro será "apenas uma moeda estreita que apenas os governos podem gastar uns com os outros, e é criada em um computador. Não é nada que você possa guardar no bolso para gastar", explica Hudson.

·         Você não pode pagar pelo seu café com isso

Pepe também cita o consultor sênior do Banco da Inglaterra (banco central do Reino Unido), Michael Kumhof, acrescentando mais alguns elementos à compreensão.

"Uma moeda não precisa ser emitida por um único Estado, em vez disso a sua emissão pode ser delegada por um grupo de Estados a uma instituição comum, veja o BCE [Banco Central Europeu]. E embora seja pouco provável que essa moeda seja utilizada pelas pessoas para comprar um café [embora, quem sabe, com tempo suficiente], poderia ser utilizada pelas empresas para faturação no comércio transfronteiriço."

Kumhof projeta um futuro diferente ao imaginar que 50-100 países aderissem ao BRICS, alguns deles com moedas bastante pequenas e marginais. Segundo o economista, eles talvez pudessem gostar de faturar e liquidar em uma moeda comum forte, em vez de apenas poder escolher entre dólar e, digamos, o yuan considerando toda a complexidade em se tentar substituir a moeda norte-americana pela chinesa.

O que é certo por agora é que no centro do que está por vir estará um papel reforçado para o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco do BRICS, sediado em Xangai e agora presidido pela ex-presidente brasileira Dilma Rousseff, argumenta o analista.

O ministro de Macroeconomia da Comissão Econômica da Eurásia, Sergei Glaziev, tem sido muito crítico em relação ao NBD, explicando como os estatutos bancários estão ligados ao dólar americano e que esta seria a razão pela qual o banco está agora semiparalisado, com medo de sanções secundárias dos EUA.

Isto traz à tona outra questão sublinhada por Kumhof: a ligação BRICS-FMI. Kumhof observa que "parece que o NBD é basicamente um Banco Mundial, embora tenha ouvido muito pouco sobre o Arranjo Contingente de Reservas, que a certa altura foi mencionado como uma espécie de BRICS-FMI embrionário."

·         O que a China realmente quer

Esta análise, que chamou a atenção de Glaziev, investiga a razão pela qual o BRICS não será capaz de se tornar concorrente das moedas de reserva – especialmente o dólar americano e o euro – e lançar imediatamente a desdolarização total de sua economia.

A essência do argumento é que apenas a China "pode reivindicar a criação de uma moeda de reserva", uma vez que "a escala, a profundidade da diversificação e o nível de desenvolvimento da economia chinesa são suficientes para competir com os EUA e a zona euro".

O problema, segundo a análise, é que "o estatuto de reserva não pode surgir sob condições de restrições aos fluxos de capitais", avalia Glaziev.

Isto nos leva ao uso restrito do yuan convertível, uma vez que existem "limites para câmbio estrangeiro que variam de acordo com a região e os destinos de investimento"; limites à "repatriação de capital através de dividendos e juros"; "cotas de retirada de capital industrial para indústrias sensíveis"; e "requisitos rígidos para registro de empresas estrangeiras", entre outras questões.

Portanto, a análise se resume, de fato, ao capitalismo bruto, ou seja, "não há concorrentes do dólar e do euro no mercado de capitais internacional e não se espera nenhum deles em um futuro próximo, porque para que o yuan saia das sombras a China deve liberar a política financeira e remover as restrições ao controle de capitais."

Logo, "qualquer colapso da ordem mundial existente no mercado monetário deve ser visto exclusivamente através do enfoque da China".

No entanto, Pepe lembra que a questão é que Pequim não está interessada em que o yuan assuma o papel de moeda de reserva mundial e nem era o plano do BRICS, mesmo antes do BRICS 11.

Segundo o analista, o foco chinês é aumentar primeiro o comércio de yuans e as operações de numerário e de liquidação (cerca de 4,5-5% do volume de negócios global neste mês).

Em uma próxima fase haverá mais financiamento transfronteiriço (como nos empréstimos em yuan) e mais atração de capital internacional em instrumentos financeiros denominados em yuan. Ainda não chegamos lá.

Pepe argumenta que a análise de Glaziev está correta ao identificar as prioridades da China como "expandir a presença do yuan no mercado externo e redefinir a entropia interna através da descentralização e da difusão internacional da oferta monetária do yuan".

·         Não vamos aguentar mais

Para Escobar, a visão de Michael Hudson é muito mais sofisticada e vai muito além da internacionalização do yuan ou da necessidade de uma moeda BRICS. Ele toca no cerne do problema para o Sul Global/Maioria Global.

"Os países do Sul Global têm um cateter econômico na sua corrente sanguínea monetária, drenando os seus excedentes da balança de pagamentos para pagar o fardo pós-colonial — ou talvez devêssemos dizer neocolonial — dos 'atrasados de dependência' dolarizados, impedindo-os de equilibrar seu comércio exterior e investimento."

Difícil será dizer que as forças imperiais, mesmo na sua atual desordem, vão aceitar todas essas mudanças. Ainda assim, o professor Hudson é implacável ao denunciar como o FMI e o Banco Mundial "empurraram a alocação de recursos da produção doméstica de alimentos para a produção agrícola de exportação, e da substituição de importações para a dependência de importações – tudo limitado pela venda e privatizações de infraestruturas básicas aos estrangeiros para imporem preços de monopólio e fuga de capitais em vez de fornecerem serviços básicos a preços subsidiados para tornarem as suas economias mais competitivas, como os EUA e a Europa estavam fazendo com as suas próprias economias".

O analista conclui com o pensamento do professor Hudson, de que a discussão política deve se concentrar na criação do BRICS 11, algo muito mais relevante do que especular sobre uma moeda distante do bloco do Sul Global.

 

Ø  Analistas russos e estrangeiros discutem desfechos da Cúpula do BRICS em mesa redonda da Sputnik

 

O Centro Internacional de Imprensa Multimídia da Sputnik organizou uma mesa redonda de especialistas de Moscou, Rio de Janeiro, Nova Deli e Xangai dedicada aos resultados da 15ª Cúpula do BRICS em Joanesburgo.

O diretor do Instituto de Economia da Academia de Ciências da Rússia e membro do Comitê Nacional de Pesquisa do BRICS, Mikhail Golovnin, e o presidente do Conselho Científico do Comitê Nacional de Pesquisas do BRICS e diretor científico do Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia, Vladimir Davydov, discutiram presencialmente o tema em Moscou, com a participação on-line na discussão do pesquisador sênior do Centro Político do BRICS, Carlos Frederico Coelho, o diretor do Instituto BRICS da Índia em Nova Deli, Binod Singh Ajatshatru, e o professor associado da Escola de Política e Relações Internacionais e vice-diretor do Centro de Estudos Russos da Universidade Pedagógica da China Oriental, Zhang Xin.

O pesquisador sênior brasileiro do Centro Político do BRICS, Carlos Frederico Coelho, destacou a óbvia força econômica e política da associação:

"Os países do BRICS têm enfatizado constantemente a ideia de que querem equilibrar a ordem internacional e o sistema econômico formado após a Segunda Guerra Mundial. É um projeto muito ambicioso, cuja implementação levará muitos, muitos anos. Exigirá ainda uma enorme vontade política. Penso que se pode concluir que esta vontade política existente e que os países do BRICS querem construir um mundo mais multipolar."

O especialista destacou que a adesão da Argentina ao grupo BRICS foi de grande importância para o Brasil:

"É claro que para o Brasil é o principal parceiro comercial da América Latina. A Argentina tem enfrentado grandes dificuldades de acesso aos mercados de capitais em dólares nos últimos 25 anos. Do ponto de vista do Brasil, a Argentina é um país muito importante. Poderíamos otimizar nossas relações monetárias e cambiais."

O diretor do Instituto de Economia da Academia de Ciências da Rússia e membro do Comitê Nacional de Pesquisas do BRICS, Mikhail Golovnin, comentando a moeda potencial do BRICS e o desenvolvimento de processos de digitalização, assinalou:

"Todos os países do BRICS estão planejando introduzir chamadas moedas digitais de bancos centrais [CBDC, na sigla em inglês]. Mas já no âmbito destas moedas digitais dos bancos centrais existem projetos de moedas digitais multilaterais, as chamadas multi-CBDC."

O especialista citou como exemplo os projetos mBridge – com a participação da China e dos Emirados Árabes Unidos – e o Dunbar – com a participação da África do Sul. "O problema central não está na moeda, como tal, mas na organização de pagamentos e liquidações, contornando os mecanismos de monopólio controlados pelos principais países desenvolvidos", disse Golovnin.

O presidente do presídio do Conselho Científico do Comitê Nacional de Pesquisas do BRICS e diretor científico do Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia, Vladimir Davydov, caracterizou a última cúpula como um avanço:

"Os últimos anos, em geral, foram períodos de baixa atividade dos países do BRICS no cenário internacional e nas relações bilaterais entre os membros desta associação."

O especialista enfatizou que a representatividade civilizacional dos países do BRICS está aumentando significativamente, e a adesão de novos países muçulmanos, que professam o islamismo sunita e xiita, permitirá, entre outras coisas, aumentar seriamente a base de recursos do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS. Davydov exortou a não ter medo da crescente diversidade da associação:

"Precisamos criar tal situação, e espero que ela seja criada no final, quando o consenso não se torne um obstáculo à resolução de problemas estratégicos."

O diretor do Instituto BRICS da Índia em Nova Deli, Binod Singh Ajatshatru, comentando o aspecto econômico da cooperação no âmbito do BRICS, disse:

"Chegou a hora de fazer pagamentos com base em nossas próprias moedas nacionais, embora em pequenas quantias, mas mesmo assim. Devemos criar um sistema integrado de pagamentos que funcionaria no âmbito do BRICS, unindo China, Índia, Rússia, Brasil e África do Sul."

O especialista opina que os membros do grupo BRICS devem estar preparados para eventuais atos de sabotagem das iniciativas do grupo econômico por parte de estruturas ocidentais.

O professor associado da Escola de Política e Relações Internacionais e vice-diretor do Centro de Estudos Russos da Universidade Pedagógica do Leste da China, Zhang Xin, enfatizou que o BRICS está passando por um período muito importante de desenvolvimento, tornando-se uma organização de relevo internacional e porta-voz do Sul Global:

"A essência do BRICS é que o potencial de unificação e seus fundamentos são muito diferentes de outras organizações internacionais. O BRICS engloba países que não estão unidos por um contexto cultural ou religioso comum. Existem tanto as vantagens como desvantagens nisso, mas é uma organização muito flexível e heterogênea, e tem sua própria agenda diversificada."

 

Ø  Chanceleres do BRICS propõem que Indonésia se junte ao grupo, mas país ainda avalia benefícios

 

A ministra das Relações Exteriores indonésia, Retno Marsudi, declarou que os chanceleres das Relações Exteriores do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) propuseram à Indonésia para se juntar à aliança, cita a agência indonésia ANTARA.

"Desde o início existia a ideia para expandir os membros do BRICS, e todos os ministros das Relações Exteriores do BRICS se dirigiram à Indonésia com uma proposta [...] para se juntar ao BRICS", disse Marsudi no parlamento indonésio na quinta-feira (31).

Contudo, de acordo com as palavras dela, a Indonésia ainda está conduzindo pesquisas para considerar os benefícios da adesão ao BRICS. A ministra acrescentou que seu país também não havia apresentado uma carta de "manifestação de interesse" em ingressar no BRICS.

"Pesquisas internas ainda estão sendo conduzidas para avaliar os benefícios tanto do lado político como econômico", esclareceu a diplomata. No entanto, ela disse que a Indonésia tem "boas relações com todos os países-membros do BRICS".

Na quarta-feira (30), o presidente do parlamento indonésio para os assuntos econômicos, Sayid Abdullah, apelou ao governo para acelerar a adesão da Indonésia à aliança BRICS.

De acordo com o político, a adesão da Indonésia à aliança dos países em desenvolvimento daria ao país uma série de vantagens. Em particular, a Indonésia está interessada em se juntar ao BRICS porque a aliança pode apoiar os esforços do país para desenvolver as transações em moeda local.

Reunidos na semana passada em Johanesburgo, os líderes dos países do BRICS decidiram convidar a Argentina, o Egito, o Irã, a Etiópia, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita para se tornarem membros plenos da organização. O grupo se expandirá formalmente em 1º de janeiro de 2024.

 

Fonte: Sputnik Brasil