O
MUNDO ESTÁ MAIS PRÓXIMO DO COLAPSO: O alerta ignorado do Super El Niño
O
Oceano Pacífico vai aquecer este ano acima do normal. É o que afirma a
Organização Meteorológica Mundial (OMM) das Nações Unidas. Os dados apontam
para o retorno do El Niño, fenômeno que vem se intensificando ano após ano.
O
agravante é que será o mais intenso em 140 anos. Segundo os especialistas da
OMM, o fenômeno tem 90% de chance de estabelecer, a partir do segundo semestre
de 2026, um regime extremo e intenso de calor e chuvas. Será um Super El Niño.
O
fenômeno já é conhecido, mas vem se intensificando com as mudanças climáticas.
Com maior periodicidade e intensidade, cada vez que o oceano Pacífico aquece, o
mundo fica mais próximo do colapso.
O
agravante é que o Brasil insiste em tratar o clima como estatística – até que
ele se transforme em desastre. Assim, o chamado Super El Niño, versão
intensificada do fenômeno El Niño, não é um episódio exótico do Pacífico
distante. É um mecanismo direto de desorganização do território brasileiro.
Quando
as águas do Pacífico aquecem além do normal, o efeito não se limita ao oceano.
Ele reorganiza a atmosfera, desloca chuvas, intensifica secas e empurra o país
para extremos simultâneos: enquanto uma região afunda, outra queima.
O
resultado não é apenas climático. É político.
O
Brasil se torna país dos extremos simultâneos. É um divisor geográfico de
crises potencializadas.
No Sul,
a água sobra – e destrói. Cidades alagam, encostas cedem, infraestruturas
colapsam. O que estamos aprendendo é que, os danos à população, advém não
apenas do excesso de chuva, mas da ausência de planejamento.
Na
Amazônia, falta água – e o que resta vira fogo. Rios secam, a floresta perde
resiliência e as queimadas avançam. O que deveria ser um dos maiores
reguladores climáticos do planeta passa a emitir carbono, agravando o problema
que deveria conter.
No
Nordeste, a seca deixa de ser ciclo e se torna condição permanente. A
insegurança hídrica deixa de ser vulnerabilidade e passa a ser regra.
No
Sudeste, onde está o centro econômico do país, instala-se a ilusão mais
perigosa: a da normalidade. Reservatórios oscilam, a crise hídrica já instalada
se aprofunda, ondas de calor aumentam e a irregularidade climática se
intensifica – mas a resposta continua sendo reativa, nunca estrutural. Enquanto
a SABESP constrói algumas caixas d’água, os ecossistemas naturais de produção
hídrica continuam abandonados.
Os
sinais de colapso trazidos pelo El Niño não são naturais, são potencializados
pelas mudanças climáticas e construídos pela falta de planejamento.
A
narrativa dominante trata o El Niño como um fenômeno inevitável – e é. Mas seus
impactos não são. Segundo o IPCC (2023), eventos climáticos extremos estão se
tornando mais intensos em um planeta aquecido. Isso significa que o “Super El
Niño” de hoje não é o mesmo de décadas atrás: ele atua sobre um sistema já
tensionado.
O
problema é que o Brasil responde a esse cenário com estruturas do passado. A
cada evento extremo, repete-se o roteiro: emergência, resposta tardia,
reconstrução parcial e… esquecimento…
Não há
ruptura com o ciclo climático inevitável. Há apenas administração do colapso,
que se agrava mais e mais. A ilusão da resiliência brasileira é um fato
evidente diante de uma análise criteriosa. O Brasil vem se acostumando a
celebrar reduções marginais – menos desmatamento em um ano, menos impacto em
outro – como se fossem solução. Mas o “Super El Niño” revela o contrário: não
existe resiliência onde não há estrutura.
A
Floresta Amazônica vem se aproximando de um ponto de não retorno. O sistema
hídrico nacional, que depende da umidade gerada pela própria floresta, está
entrando em desequilíbrio. Ou seja: o impacto não é regional. É sistêmico. E
ainda assim, o país insiste em tratar eventos extremos como exceções, quando já
são a nova regra.
Avaliações
da Controladoria Geral da União (CGU) na região do semiárido constataram
fragmentação nas diversas políticas que deveriam estar contendo processos de
desertificação. Da mesma forma manifestou-se o Ministério Público sobre as
queimadas da Amazônia, apontando insuficiência de medidas para a contenção das
queimadas que sufocaram Manaus. Recentemente o STF instou o Ministério do Meio
Ambiente para uma atuação mais eficaz, sob pena de não obter sucesso para
contenção efetiva do desmatamento da Amazônia até 2030.
Quando
o processo de governança é fragmentado, o risco é ampliado. O “Super El Niño”,
este que se avizinha e outros que já ocorreram, expõe uma falha central na
governança ambiental do Brasil: o Brasil
reage ao El Niño, mas não se prepara estruturalmente para ele.
A
fragmentação institucional impede respostas integradas. Política ambiental,
gestão hídrica, planejamento urbano e proteção territorial operam como ilhas
desconectadas.
O
resultado é previsível: enchentes sem prevenção, secas sem adaptação, incêndios
sem controle, territórios vulneráveis sem proteção. Como aponta Johan
Rockström, do Instituto de Resiliência de Estocolmo, ultrapassar limites
ambientais não gera impactos lineares, mas sim instabilidades abruptas. O
Brasil já entrou nesse território – mas ainda age como se estivesse em
equilíbrio.
Exemplo
disso é o planejamento urbano de São Paulo. O Ministério Público do Estado de
São Paulo ajuizou ação contra alterações no zoneamento da cidade, que passaram
a permitir a verticalização ao longo dos corredores de tráfego da capital. Sem
estudos claros e sem informar devidamente a população — em um processo marcado
pela deficiência de informações e de participação social —, a Câmara Municipal
alterou o zoneamento de modo a permitir mais áreas concretadas e uma profusão
de prédios que acabam por constituir verdadeiros cânions urbanos,
impermeabilizando, aquecendo e adensando a cidade. O Poder Executivo anuiu à
proposta.
Enquanto
cidades como Paris e outras metrópoles globais lideram exemplos de adaptação
urbana aos impactos climáticos, a Câmara Municipal de São Paulo simplesmente
ignorou riscos e empurrou a cidade para a insustentabilidade. O Ministro Edson
Fachin, presidente do STF, surpreendentemente suspendeu a liminar obtida por
ação do Ministério Público, alegando insegurança jurídica para os
empreendedores. Ora, desde quando o interesse privado pode prevalecer sobre o
interesse público?
“O
desafio contemporâneo do planejamento urbano não reside apenas em definir
quanto a cidade pode crescer, mas, sobretudo, em demonstrar, com base em
critérios técnicos e ambientais, sob quais limites físicos e infraestruturais
esse crescimento pode ocorrer”, afirma parecer do arquiteto Ivan Maglio, que
subsidiou o pedido de ingresso, como amicus curiae, do PROAM-Instituto
Brasileiro de Proteção Ambiental.
O que o
Super El Niño revela é essa realidade: exemplo mais pungente de como o poder
judiciário ainda ignora riscos ambientais inerentes a impactos urbanísticos.
Porque ainda se acredita que estamos em estado de equilíbrio, que a defesa da
iniciativa privada, sob a justificativa de insegurança jurídica, possa se
sobrepor à segurança de milhões de pessoas.
Mais do
que um fenômeno climático, o Super El Niño é um diagnóstico. Ele revela que o
país não planeja para extremos, que a adaptação climática não é prioridade
real, que a proteção ambiental ainda é tratada como variável política, não
estrutural. E, sobretudo, mostra que o Brasil continua operando sob uma lógica
perigosa: a de que o pior ainda não chegou, e assim o El Niño bate à porta de
um país que apenas age diante dos impactos.
O
evento climático não é um aviso. É um teste em curso. A diferença entre
desastre e resiliência não está na intensidade do fenômeno, mas na capacidade
de antecipação. E essa capacidade não se constrói com discursos, mas com
estrutura, integração e decisão política. Enquanto o Brasil continuar tratando
extremos como episódios isolados, continuará acumulando perdas previsíveis.
Adaptação
climática não se faz com retórica, mas com ação. Como o oceano que aquece, como
a atmosfera que responde e o território que colapsa. Se o Brasil continuar
apenas reagindo irá colher mais e mais impactos, quando já deveria estar
governando aquilo que se demonstra inevitável.
Fonte:
Por Carlos Bocuhy, no Le Monde

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