Vinte
e um dias que assombraram o mundo
Foram
as três semanas mais tensas de nossa vida política desde o fim da ditadura. A
virada inédita, improvável, espetacular, que nos garantiu a vitória e se tornou
um marco histórico e uma inspiração para a luta mundial contra o avanço do
fascismo, vai render inúmeros estudos daqui em diante. Este pequeno artigo,
ainda no calor da hora, procura apenas condensar a sensação do que foi este
momento e apontar a enormidade do que teremos pela frente. Mas também propõe
ser o embrião de uma publicação que, parafraseando o título do famoso livro de
John Reed sobre a revolução russa, reúna análises e depoimentos de quem
acompanhou e viveu esse processo, que possam contribuir para enxergar melhor o
que aconteceu e projetar o futuro a partir dessa experiência.
Comecemos,
então, pelo choque.
Se era
irrealista apostar numa vitória no primeiro turno – embora essa ilusão tenha
sido vendida com alguma insistência ao longo da campanha, o que pode ter sido
mais um fator de desmobilização –, chegar em segundo lugar era algo
completamente fora de cogitação. Como seria possível tirar a diferença de 2,2
milhões de votos e conquistar a maioria dos 9 milhões somados pelas outras
quatro candidaturas de extrema-direita, que naturalmente tenderiam a votar no
filho de Bolsonaro? Como arrumar forças para superar a perplexidade, o espanto,
o desalento e o abalo diante daquela surpresa e ir à luta? Ainda mais que, no
day after, o vitorioso provisório já se considerava eleito, falava em mudar a
Constituição e anunciava nomes para o futuro ministério, e a imprensa – que
costumamos chamar de grande imprensa, ou grande mídia, mídia tradicional,
comercial, corporativa ou, gramscianamente, mídia hegemônica, mas que é de fato
apenas porta-voz do capital financeiro, ou do “mercado” – obedientemente
acompanhava o roteiro, dando a vitória do B-01 como fato consumado?
Um
grupo de estudantes da UFF deu a resposta no dia seguinte. “Terminamos a
eleição em estado de desespero, mas não podíamos deixar esse sentimento nos
paralisar”, disse Valentina Cruz, 19 anos, diretora do Centro Acadêmico da
Faculdade de Direito, ao jornalista Bernardo Mello Franco. De lá, já de noite,
sob chuva, os estudantes partiram em passeata pelas ruas de Niterói. No meio
dos jovens, uma senhora caminhava batendo a bengala no chão e acompanhava o
coro que misturava o xingamento tradicional a Bolsonaro (“Ei, Bolsonaro, vai
tomar no …!) com o apelo a quem ainda não estava ali (“Tra-ba-lhador! olha pra
cá! eu tô na rua pro teu filho estudar!”).
Foi a
centelha que incendiou a pradaria. Entre os secundaristas do Rio de Janeiro, um
ato convocado por estudantes do Pedro II lotou a Av. Rio Branco na
quarta-feira, reunindo muitos adolescentes ainda sem direito a voto. Num
contraste absoluto com a apatia da campanha até o primeiro turno, as
manifestações cresceram e inundaram as ruas de várias capitais e de outras
cidades – embora, no início, tenham sido solenemente ignoradas pela tal
“mídia”, que, como em outros inúmeros momentos, ignorava aquilo que os teóricos
acríticos chamam de “valores-notícia”, porque o principal valor-notícia sempre
foi o que determina a voz do dono, ou a dos acionistas –, até culminarem na
exuberância das multidões em Copacabana e na Paulista.
Em
paralelo, o deputado André Janones entrou em cena convocando o seu “exército”,
que rapidamente atingiu 10 milhões de membros, para travar a indispensável
batalha no território virtual, que a extrema-direita sempre dominou, exatamente
porque as regras das plataformas sempre a beneficiaram. Errou apenas num
detalhe, mas um detalhe fundamental, no momento em que apresentou sua proposta
e desdenhou das manifestações de rua como coisa do século passado: ficou mais
do que claro que fazer política, hoje, implica a articulação entre ruas e
redes. As ruas produzem esse efeito de contágio insubstituível do mundo
presencial, onde as pessoas se olham nos olhos, se tocam, se abraçam, se
estimulam mutuamente e sentem no corpo a força do pertencimento a uma causa
comum. “É na luta que a gente se encontra”, já dizia o famoso samba da
Mangueira.
Entre
os atos de massa e as ações na internet, multiplicavam-se formas espontâneas,
autônomas e inventivas de mobilização. Formaram-se núcleos que se
auto-organizaram para produzir panfletos, bater de porta em porta nas
comunidades, conversar com pessoas idosas na fila do banco, atrair gente com
cartazes que perguntavam se já tinham candidato, entrar nos ônibus e vagões de
trens e metrô para fazer discursos ou performances no estilo “teatro
invisível”: tudo isso foi criando uma porosidade que atingiu pessoas até então
inalcançáveis, pela própria dureza da rotina nas grandes cidades.
Aos
poucos foi-se espalhando a confiança numa virada inédita. O comportamento
arrogante e ofensivo do adversário nos dois debates televisivos foi
competentemente aproveitado nos cortes que circularam pelas redes e, junto com
a disseminação de reportagens de veículos alternativos que expunham esse
candidato em toda a sua sordidez, contribuiu para aumentar-lhe o índice de
rejeição. No entanto, as pesquisas dos principais institutos, ainda que
apontassem a redução da distância entre as duas candidaturas, sempre indicavam
a liderança do adversário. Para piorar, a curva ascendente de Lula, registrada
na penúltima pesquisa do Datafolha, se inverteu na sondagem da véspera da
votação decisiva.
A
tensão durou até o último dia. Quantos – os mais velhos, naturalmente, ou os
mais informados – não se recordaram de outros tempos, em que manifestações
maciças como a das Diretas Já, ou as da reta final da primeira campanha de Lula
à presidência, acabaram derrotadas? O que seria feito de todo aquele esforço,
se não tivesse sido suficiente para evitar o desastre? O que seria de nós, se
sucumbíssemos à catástrofe?
As
perspectivas mais otimistas eram de uma disputa pau a pau, com a alternância na
liderança, ora um, ora outro, até o último minuto. Algo proibitivo para
cardíacos e espíritos sensíveis.
Acabou
que não foi assim. Depois de despontar na frente – antes da interrupção da
divulgação dos resultados, pela decisão tardia de extensão do período de
votação, que afinal teve pouco impacto –, Lula perdeu a dianteira mas logo
depois a recuperou e daí em diante só progrediu, a ponto de ter vencido com uma
diferença bem maior do que o esperado: mais de 4,4 milhões de votos, quase 3,8
pontos percentuais de diferença, e com uma redução de abstenção que resultou no
comparecimento de mais de 3 milhões de pessoas em relação ao primeiro turno.
Foram, em números redondos, 10 milhões de votos conquistados em três semanas.
Ficam
para a história as cenas fartamente compartilhadas de indígenas e ribeirinhos
atravessando os rios de barco, agitando bandeiras vermelhas, saindo de barcas
aos magotes, entrando maciçamente em seções eleitorais do interior do Nordeste
fazendo o L, e velhinhos e velhinhas magrelos, enrugados, encurvados,
conduzidos por seus filhos e netos, mal podendo andar, ou em cadeiras de rodas,
ou apoiando-se em bengalas e andadores, ou carregados nos braços, até mesmo em
macas, nesse esforço derradeiro de defesa de seus direitos e dos direitos de
seus filhos, netos e bisnetos, seu último voto em Lula, muito provavelmente o
último voto de suas vidas.
O
impacto dessas cenas, o ineditismo dessa vitória, a importância monumental
dessa vitória como um dique a barrar o que seria a expansão avassaladora do
fascismo na América Latina, que submeteria o subcontinente sul-americano aos
interesses de Trump e seus comparsas, o significado histórico dessa resistência
como possível ponto de viragem à onda reacionária mundial, tudo isso repercutiu
intensamente pelo mundo e inspirou governos, partidos e movimentos na luta
comum em defesa da democracia. Especialmente aqueles que, como Espanha e
França, em breve enfrentarão eleições e estão ameaçados pela extrema-direita.
Porém,
nem a ressaca da vitória fez esquecer – ao menos para quem tem consciência do
que vem por aí – da dureza que será governar em condições tão adversas, com um
Congresso ainda mais hostil do que o atual. A tal mídia porta-voz do mercado –
esse mercado que levou um susto e fez o dólar disparar e as operações na Bolsa
serem interrompidas pela queda brusca logo no day after, esse mercado tão
precisado de sessões de terapia intensiva, se fosse mesmo um ser com problemas
emocionais e não uma engrenagem movida pela ganância insaciável dos vampiros,
daqueles que “comem tudo e não deixam nada” –, esta mídia, mais uma vez, já
tenta impor a pauta dos derrotados e exigir que Lula mantenha a escorchante
política de juros estratosféricos e a obediência ao “arcabouço fiscal” que
inviabiliza o investimento público e, consequentemente, o cumprimento das
promessas de campanha.
Uma
observação de Hugo Souza, no artigo “Você não sabe o que é passar FOMO…”,
publicado aqui mesmo no Come Ananás, sintetiza bem o quadro:
…uma
semana após o maior show da Terra — a virada histórica da democracia contra o
fascismo no Brasil —, as manchetes dos jornalões são “Bolsa cai 17,5% na semana
da vitória de Lula, no pior resultado desde 2020, e dólar avança 9%”; “Bolsa
tem maior perda semanal desde 2020, e dólar sobe 9% no pós-reeleição de Lula”;
“Fundos perdem R$ 110 bilhões após eleição”.
Apostaram
no fascismo e perderam. Que enterrem seus mortos, que emplaquem sua missa de
sétimo dia nas manchetes dos jornais. Não somos coveiros. Nós somos os meninos
e meninas da UFF, Caetano, os velhinhos saindo como meninos e meninas para
votar. Somos parto, vida, criação. O verdadeiro Brasil.
Precisamos
então insistir: fomos nós que vencemos. Não o mercado.
Nós
realizamos o sonho impossível do Homem de La Mancha. Vencemos o Império de
Trump, de seus interesses privados e mesquinhos mas também do Kapital, dos
magnatas das big techs que interferiram diretamente na eleição, reduzindo o
alcance de publicações ou impedindo o acesso aos perfis do PT e seus apoiadores
mais ilustres – sempre com a desculpa esfarrapada de “problemas técnicos” que,
curiosamente, só afetavam um lado –, vencemos a mídia que investia nas falsas
equivalências para fingir que nesta eleição não estava em jogo a soberania do
país e o respeito aos direitos fundamentais dos cidadãos, vencemos os prefeitos
que negaram transporte público a eleitores pobres que tendiam a votar em Lula,
vencemos o ministro responsável por conduzir o processo e que, envolvido até o
talo nas denúncias de corrupção do Banco Master, aí incluídas festinhas com
mocinhas nuas na piscina, ainda assim manteve-se no cargo e fez o que pôde para
prejudicar a campanha de Lula, vencemos até mesmo a própria campanha do PT, que
fez a aposta errada na exaltação da trajetória do líder quando se tratava de
combater o risco que a vitória do B-01 representava, vencemos essa campanha
preguiçosa e burocrática, incapaz de empolgar os eleitores e de sequer fornecer
regularmente material de propaganda, nem mesmo depois da catástrofe do primeiro
turno, quando voluntários procuravam desesperadamente adesivos e panfletos nos
comitês eleitorais.
Vencemos
apesar de tudo, e foi um feito notável, ainda mais porque não resultou de uma
Carta aos Brasileiros, que era de fato uma “carta aos empresários”, como na
primeira eleição de Lula: não decorreu de um acordo pelo alto, foi uma energia
que emergiu da base, da mobilização das pessoas, e transbordou nesse vigor,
nessa capacidade de dizer que rejeitamos o horror e vamos lutar contra o horror
no limite das nossas forças.
Foi
esta a maior lição dos estudantes da UFF, na reação que levantou o ânimo de
quem já se considerava derrotado: a convicção de que haveríamos de vencer, essa
fé que nos fortalece nos momentos mais difíceis, e a certeza de que é preciso
lutar sempre, mesmo que a vitória seja improvável, porque mesmo que ela não
venha o fundamental é isto: não capitular.
Nicht
kapitulieren.
Vencemos
e ainda vamos demorar algum tempo a digerir o significado da grandeza deste
feito. Mas sabemos que estamos diante da monstruosidade da reação de derrotados
poderosíssimos. Temos diante de nós, imediatamente, a possibilidade de retorno
das bets, a manobra no STF para tornar letra morta o fim da escala 6×1, mas
principalmente a definição sobre a política econômica.
No seu
discurso após a vitória, Lula disse que esta eleição lhe ensinou muitas lições.
Eu
posso garantir pra vocês que nós vamos mudar o jeito de governar este país.
Quero dizer pra vocês que nós vamos fazer o povo participar mais das nossas
decisões. E quero dizer pra vocês que a comunicação digital vai ganhar um
espaço muito grande no meu governo. Esta eleição foi uma eleição em que a gente
teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas
digitais. E nós vamos ter de regulá-las. Não é possível que a gente não tenha
consciência que o crime no mundo digital tem de ser tratado igual ao crime na
vida real. Nós não podemos ter empresas monstruosas ganhando bilhões e bilhões,
não pagando nenhum imposto para este país, e tentando direcionar o resultado
eleitoral deste país.
Não
custa lembrar que mudar o jeito de governar era a promessa original do PT,
desde sua fundação, há 46 anos. Que se ponha em prática agora, é o que se
espera.
Quanto
à comunicação digital e à regulação das plataformas, não é de hoje que
pesquisadores dessa área insistem nessa necessidade.
Quem
sabe agora vai, não é?
É
preciso insistir nisso: quem venceu fomos nós, foi a força das ruas, de uma
avalanche heterogênea que ia desde a idolatria a Lula a uma rejeição que,
apesar disso, percebeu o risco imenso que seria um novo governo Bolsonaro.
Foram
64 milhões de votos a favor de preservar direitos e garantir uma vida melhor,
que depende da ruptura com a lógica perversa que o mercado insiste em impor.
Para
enfrentar este mercado – que é a expressão do capital internacional –, para
enfrentar os quase 60 milhões que, também heterogeneamente, votaram contra o
governo, só temos a nós mesmos. Por isso é crucial manter a mobilização que nos
animou nesses vinte e um dias que nos deixaram exauridos. Não a mobilização
maciça nas ruas, que isso é impossível, mas a que surgiu espontaneamente
durante essas três semanas de desespero e que precisa consolidar-se como
prática cotidiana de cidadania.
Se o
“Exército de Lula” comandado por Janones foi tão eficaz, seria o caso de
mobilizá-lo para mostrar a importância do que está em jogo na definição da
política econômica, algo que a mídia, aquela de sempre, jamais fará, muito
menos as plataformas.
Quem
sabe por aí teremos alguma chance de fazer frente a esse embate tão desigual
contra os moinhos que nos trituram?
Fonte:
Por Sylvia Debossan Moretzsohn, no Substack

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