Rodrigo
Ghiringhelli de Azevedo: Os desafios do quarto mandato
A
eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato presidencial
constitui um acontecimento histórico, sobretudo pelas circunstâncias em que
ocorreu. A vitória expressa a reação de setores da sociedade brasileira à
perspectiva de retorno de um projeto político autoritário, fortalecido no
Congresso Nacional e interessado em ampliar sua influência sobre as
instituições de justiça. Ao mesmo tempo, expõe os limites de uma democracia
excessivamente dependente das negociações partidárias e da comunicação
institucional dos governos.
A
frente democrática que venceu a eleição ultrapassou a coalizão partidária
formal. Eis sua principal lição: conter a extrema direita exige não apenas
preservar as instituições, mas renovar os mecanismos de participação e a
capacidade do Estado de responder às demandas sociais.
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A virada eleitoral
Um dos
acontecimentos mais relevantes do segundo turno foi a retomada da mobilização
nas ruas, iniciada pela juventude universitária e ampliada para outros setores
da sociedade. Manifestações estudantis, com participação de entidades como a
UNE, coletivos universitários, movimentos sociais e organizações civis,
alteraram o ambiente político do primeiro turno. A disputa deixou de se
restringir às máquinas eleitorais: a participação direta reapareceu como força
de mobilização democrática.
A
presença de estudantes universitários e secundaristas mostrou a disposição de
novas gerações para defender a democracia e os direitos sociais em um contexto
de desconfiança dos partidos. Mais do que apoio a um candidato, as
manifestações revelaram a percepção de que estava em jogo o sentido da
institucionalidade democrática diante do risco de retorno do autoritarismo
bolsonarista.
A
comparação com 2013 é instrutiva. Naquele momento, o PT e o governo Dilma
Rousseff tiveram dificuldades para dialogar com mobilizações heterogêneas, que
reuniam demandas por serviços públicos, combate à corrupção e participação
política. O distanciamento entre instituições e sociedade abriu espaço para que
parte da insatisfação fosse apropriada pela direita radical. Em 2026, a defesa
explícita da democracia deu outro sentido à mobilização e abriu uma
oportunidade de aproximação entre governo e sociedade.
A
aproximação com essas pautas mostrou que a campanha poderia ir além da defesa
institucional abstrata. O sentido político dessas medidas não se reduz ao seu
efeito eleitoral imediato: elas apontam para o vínculo necessário entre
participação democrática e respostas concretas às demandas cotidianas.
O
governo e a campanha combinaram a crítica ao retorno do bolsonarismo com
iniciativas voltadas às condições de vida e trabalho: o reajuste de 15% do
Bolsa Família, a aprovação do fim da escala 6 por 1, com redução gradual da
jornada para 40 horas sem diminuição salarial, a ampliação do teto anual de
faturamento dos microempreendedores individuais e a defesa da tarifa zero no
transporte coletivo, reivindicação que remete a 2013. A democracia passou a ser
defendida também por sua capacidade de produzir melhorias tangíveis.
Outra
mudança importante ocorreu na comunicação digital. André Janones e as redes
articuladas em torno do chamado Exército do Lula organizaram apoiadores,
influenciadores e produtores de conteúdo, disputando narrativas e reduzindo a
vantagem comunicacional acumulada pelo bolsonarismo.
Isso
não elimina a influência dos algoritmos nem resolve as limitações da esquerda
nas plataformas, mas demonstra a importância de uma atuação digital coordenada
e capaz de alcançar públicos para além dos já convencidos, sem reproduzir os
métodos de desinformação e agressividade que caracterizam o debate digital. A
disputa política democrática deve aprender a circular com velocidade e clareza,
sem abandonar a responsabilidade com a informação pública. Também por isso, a
presença digital precisa ser articulada à organização social e territorial.
A
reorganização da campanha, com Camilo Santana na articulação política, Rafael
Fonteles na comunicação e Rui Costa na agenda, conferiu maior coordenação à
disputa. A principal inflexão, porém, foi estratégica: não bastava apresentar
os resultados sociais e econômicos do governo; era preciso explicitar o risco
de retorno de um projeto associado à militarização da segurança pública, ao
enfraquecimento dos controles institucionais e à hostilidade ao pluralismo.
Com
forte presença parlamentar e pretensões de ampliar sua influência sobre o
Judiciário, o bolsonarismo representava uma ameaça que ultrapassava a
alternância convencional de governos.
Nenhum
desses fatores, isoladamente, explica o resultado. A convergência entre ruas,
redes, reorganização de campanha, resposta a demandas sociais e formação de uma
frente democrática ampliada ajuda a compreender a virada eleitoral. O desafio
agora é impedir que a energia mobilizada volte à passividade após a eleição.
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Da vitória eleitoral à renovação democrática
A
Constituição de 1988 ampliou direitos, estabeleceu instrumentos de proteção
social e reconheceu espaços de participação. Entretanto, a experiência das
últimas décadas revelou os limites de um sistema no qual a política tende a se
concentrar nas eleições e nas negociações entre partidos. O presidencialismo de
coalizão permitiu formar maiorias e sustentar governos, mas também produziu
distorções: fragmentação partidária, distribuição de cargos, opacidade
orçamentária e crescente peso de interesses corporativos.
Uma
frente ampla democrática não pode limitar-se à reunião de dirigentes durante a
eleição para depois se converter em disputa por ministérios. Sua legitimidade
depende de incluir, na elaboração, implementação e avaliação das políticas,
organizações da sociedade civil, universidades, sindicatos, movimentos
populares, coletivos juvenis e entidades profissionais. Reconhecer os limites
dos partidos não significa desprezar a representação política, mas
complementá-la com formas permanentes de participação e controle público.
A
participação democrática deve ser entendida como parte do processo decisório e
não como adorno da administração. Isso implica prestar contas sobre demandas
acolhidas, justificativas para as rejeitadas e resultados das ações adotadas.
Mecanismos participativos sem capacidade de afetar prioridades orçamentárias e
decisões administrativas tendem a aprofundar, em vez de reduzir, a frustração
com a política.
Conselhos
de políticas públicas, conferências temáticas e orçamentos participativos
oferecem experiências que devem ser recuperadas e atualizadas para uma
sociedade atravessada pelas tecnologias digitais. Consultas deliberativas,
plataformas públicas de participação e instâncias territoriais de
acompanhamento podem aproximar decisões governamentais das necessidades da
população. A participação, contudo, precisa influenciar escolhas reais, e não
apenas legitimar decisões previamente tomadas.
A
renovação democrática exige ainda fortalecer a legitimidade pública do Supremo
Tribunal Federal. O STF desempenhou papel central na contenção de iniciativas
de ruptura institucional e na defesa da ordem constitucional diante do avanço
da extrema direita. Justamente por isso, sua independência e autoridade não
podem depender da identificação com um governo ou campo partidário.
Nas
próximas indicações, a prerrogativa constitucional do presidente, sujeita à
aprovação do Senado, deve ser exercida com compromisso democrático, excelência
jurídica e atenção à diversidade de trajetórias e perspectivas. O diálogo
público com entidades da advocacia, da magistratura, da academia e com
organizações da sociedade civil pode ampliar a transparência e a legitimidade
das escolhas, para além da afinidade pessoal ou política com o presidente, sem
comprometer a autonomia da Corte.
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Um governo de frente ampla exige novas formas de governar
A
frente democrática requer representatividade social, compromisso programático e
capacidade de gestão. Isso inclui lideranças com trajetória de defesa das
instituições, profissionais experientes em políticas públicas e representantes
dos setores mobilizados na campanha, com renovação geracional e maior presença
de mulheres, pessoas negras e outros grupos sub-representados.
Além de
compor uma coalizão, será necessário enfrentar a distância entre formulação e
implementação de políticas. Fragmentação administrativa, sobreposição de
competências, dificuldades de coordenação federativa e burocracias pouco
integradas comprometem a execução mesmo quando existem recursos. Não se trata
de reduzir indiscriminadamente o Estado, mas de torná-lo mais capaz de
planejar, coordenar, executar e avaliar. Políticas sociais, saúde, educação e
segurança pública precisam de metas, responsáveis, indicadores e de
acompanhamento público.
O novo
arranjo governamental precisará articular capacidade política e competência
administrativa, evitando tanto a substituição da política por uma gestão
puramente tecnocrática quanto a ocupação de espaços sem critérios de entrega
pública. O federalismo torna essa tarefa ainda mais exigente: grande parte das
ações decisivas depende de estados e municípios, cujas capacidades
institucionais e recursos são profundamente desiguais.
O
ajuste das contas públicas integra esse esforço. Sustentabilidade fiscal e
direitos sociais não são objetivos antagônicos: a primeira deve contribuir para
a continuidade dos segundos e para preservar a capacidade de investimento. Isso
exige escolhas distributivas transparentes, revisão de gastos ineficientes,
enfrentamento de privilégios e avaliação das despesas sem subordinar
automaticamente a agenda social à austeridade.
É
igualmente indispensável enfrentar as distorções associadas ao chamado
orçamento secreto. A opacidade na distribuição de recursos dificulta o
planejamento público e favorece relações clientelistas entre Executivo e
Parlamento. A negociação parlamentar deve respeitar critérios republicanos,
transparência e rastreabilidade das emendas. O combate à corrupção requer
órgãos de controle fortalecidos e responsabilização de agentes públicos e
privados, com respeito ao devido processo legal e às garantias constitucionais.
Responsabilidade fiscal, integridade administrativa, eficiência e redução das
desigualdades precisam integrar uma mesma agenda.
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Segurança pública – uma prioridade para a democracia
A
segurança pública merece prioridade no próximo governo, tanto por sua
centralidade na vida da população quanto por ter se tornado terreno de expansão
política da extrema direita. Como tenho sustentado em trabalhos recentes, a
dificuldade do campo democrático de apresentar respostas consistentes à
violência é também um problema político.
A
redução recente da violência letal não elimina a expansão do crime organizado,
a diversificação de seus negócios, os crimes digitais, a violência contra
mulheres e a persistência da letalidade policial em parte do país. É preciso
superar a oposição estéril entre o punitivismo autoritário e a visão que reduz
toda intervenção policial à reprodução das desigualdades. A demanda por
proteção é legítima e deve ser atendida com eficiência, respeito aos direitos
fundamentais e controle da atividade policial.
Mais
penas, encarceramento indiscriminado e tolerância ao abuso da força não
substituem investigação e inteligência. Facções controlam territórios e
estabelecimentos prisionais, diversificam financiamento e operam na lavagem de
dinheiro, no comércio ilegal de armas e em mercados ilícitos, inclusive
digitais. Enfrentá-las exige identificar suas redes de comando, interromper
fluxos financeiros, recuperar ativos e reduzir seu poder econômico e
territorial.
A
expansão do crime organizado não se limita aos mercados tradicionalmente
associados ao tráfico de drogas. Redes que atuam em contrabando, combustíveis,
garimpo ilegal e prestação compulsória de serviços em territórios controlados
por grupos armados exigem atuação conjunta de órgãos policiais, fiscais e
reguladores. A repressão eficaz deve alcançar as cadeias econômicas que
sustentam essas organizações, e não se limitar à prisão de operadores
substituíveis nas pontas dos mercados ilícitos.
A
direção federal dessa política deve ser repensada. O próximo governo precisa de
uma liderança de projeção política, autoridade institucional e capacidade de
articulação federativa, apta a coordenar a Polícia Federal e a Polícia
Rodoviária Federal e a construir cooperação com governadores e órgãos
estaduais. Conhecimento técnico é indispensável, mas insuficiente sem liderança
e capacidade de pactuação.
A
criação de um Ministério da Segurança Pública poderá contribuir, desde que
acompanhada de competências claras, recursos e capacidade real de coordenação.
Mais importante do que o organograma é uma política nacional com prioridades
definidas, integração de informações e inteligência, financiamento associado a
resultados e parâmetros nacionais de atuação policial.
O
Ministério da Justiça, por sua vez, deve ser conduzido por figura
representativa do campo jurídico democrático, comprometida com a Constituição,
a independência das instituições e as garantias fundamentais. Justiça e
segurança possuem agendas complementares, mas interlocutores e exigências
políticas distintos. A segurança demanda coordenação com governos e polícias; a
justiça, diálogo com Judiciário, Ministério Público, Defensoria, advocacia e
instituições de proteção de direitos. A distinção de responsabilidades pode
qualificar ambas.
É
imprescindível enfrentar também a crise penitenciária. Não haverá política
consistente contra as facções sem controle efetivo dos estabelecimentos,
redução da superlotação, diferenciação adequada dos regimes de custódia e
reintegração social. A prevenção precisa recuperar centralidade, mediante ações
dirigidas à juventude, à permanência escolar, à violência contra mulheres, à
redução de desigualdades territoriais e à prevenção de homicídios. Experiências
estaduais e municipais mostram a importância de combinar intervenção policial
qualificada, políticas sociais territoriais, evidências e avaliação de
resultados.
A
agenda de segurança também depende de confiança pública. Reduzir a letalidade
policial, qualificar a formação dos agentes, fortalecer controles externos e
internos e aperfeiçoar o uso de dados são exigências de legitimidade e de
eficiência. O direito à segurança não se realiza contra as garantias
constitucionais, mas por meio de instituições capazes de proteger a população,
investigar crimes e responder publicamente por suas decisões.
A
vitória de Lula não significa derrota definitiva do bolsonarismo. A votação
expressiva de Flávio Bolsonaro, sua representação parlamentar, governos
estaduais aliados e redes digitais mostram que persistem as bases sociais e
políticas da extrema direita. O resultado impediu seu retorno imediato ao
governo federal, mas não removeu os fatores que sustentam esse projeto.
O
desafio não será apenas administrar uma coalizão e manter políticas sociais:
será converter uma vitória eleitoral excepcional em um ciclo de aprofundamento
democrático. A mobilização juvenil, a atuação da sociedade civil e a renovação
da comunicação política apontaram caminhos que precisam se transformar em
canais permanentes de participação, instituições responsivas e políticas
efetivas.
Com
restrições fiscais, um Congresso de negociação difícil e expectativas elevadas,
o quarto mandato exigirá escolhas claras. A principal lição de 2026 é que a
democracia brasileira conserva capacidade de mobilização e resistência. Cabe
agora demonstrar que também pode governar melhor, reduzir desigualdades,
garantir segurança e ampliar a participação popular. Para que a extrema direita
seja superada como alternativa de poder, a democracia precisa ser vivida não
apenas como resistência, mas como caminho de transformação social.
Fonte:
A Terra é Redonda

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