Shobhan
Saxena: Lula da Silva - o Pelé da política brasileira
Com um
sorriso no rosto, Flávio Bolsonaro olhou para a câmera e chamou o presidente
Lula da Silva de “nove dedos” durante o debate televisionado, apenas dois dias
antes de os brasileiros irem às urnas para o segundo turno da eleição
presidencial. Foi uma tentativa cínica de explorar uma antiga cicatriz — e um
boato — contra o líder do Partido dos Trabalhadores. Lula reagiu duramente,
lembrando ao público como havia perdido um dedo da mão esquerda enquanto
trabalhava em uma fábrica. “Se tem alguém que perdeu um dedo aos 17 anos, fui
eu, trabalhando à noite porque precisava trabalhar”, disse Lula, olhando
diretamente para as câmeras. Com o rosto vermelho, Flávio não sabia para onde
olhar. Em 25 de outubro, Lula fez história ao se tornar o primeiro presidente
brasileiro a terminar em segundo lugar no primeiro turno de uma eleição,
realizado em 4 de outubro, e conquistar a Presidência na votação decisiva.
Desde
que Lula ingressou na política, há mais de três décadas, seus adversários
espalham o boato de que ele teria cortado deliberadamente o próprio dedo para
despertar simpatia e receber uma indenização. Mas aqueles que conhecem sua
trajetória sabem das dificuldades que o moldaram. Nascido em 27 de outubro de
1945, em um rincão empoeirado do Brasil, Lula cresceu em meio à fome e à
privação no estado de Pernambuco.
Sua
família migrou para São Paulo em busca de uma vida melhor, juntando-se a
milhares de pessoas que deixaram uma região marcada pela pobreza e pela falta
de perspectivas. Criado pela mãe, Dona Lindu, cuja força e capacidade de
resistência deixaram nele uma marca permanente, Lula concluiu apenas o ensino
primário antes de começar a trabalhar, ainda adolescente. Sua mãe morreu aos 64
anos, em 1980, quando Lula estava preso durante uma greve de trabalhadores. “Eu
acredito em um país mais justo porque um dia minha mãe me ensinou que, mesmo
numa casa simples, ninguém pode desistir”, afirmou Lula no Dia das Mães deste
ano, contendo as lágrimas ao recordar Dona Lindu.
A
trajetória de Lula — de uma região castigada pela seca no interior do Brasil ao
cinturão industrial de São Paulo — ganhou vida no filme Lula, o Filho do
Brasil, de 2010, dirigido por Fábio Barreto. Ao acompanhar sua história, o
longa-metragem mostrou como a formação política de Lula começou no chão de
fábrica da região industrial paulista, conhecida por suas enormes instalações
fabris. Em meio ao barulho das máquinas e à luta cotidiana contra a pobreza,
Lula passou de aprendiz a metalúrgico e líder sindical, tornando-se a voz dos
trabalhadores que já não estavam dispostos a aceitar baixos salários e exclusão
política. “No final dos anos 1970, quando a ditadura militar brasileira tentava
conter a dissidência, Lula surgiu como uma das figuras mais proeminentes do
movimento sindical. Sua liderança o colocou em confronto direto com o regime e,
em 1980, ele foi preso por seu papel nas greves”, afirmou Barreto certa vez, em
entrevista.
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A fundação
A luta
dos trabalhadores levou a um acontecimento que mudaria para sempre o destino do
Brasil. Em 10 de fevereiro de 1980, mais de 600 pessoas, entre sindicalistas,
intelectuais, lideranças religiosas e ativistas dos direitos humanos,
reuniram-se no campus de uma escola católica em São Paulo para anunciar a
fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Enquanto a carta de princípios do
novo partido era discutida, Lula, um dos principais articuladores da criação do
PT, sentou-se entre os participantes, e não à mesa principal, reforçando a
ideia de que o partido deveria crescer a partir da participação coletiva. Com
um manifesto que defendia a construção de um movimento de massas pela
emancipação dos trabalhadores e por uma democracia com participação popular, o
PT tornou-se a plataforma a partir da qual Lula lançou sua carreira política e,
finalmente, chegou à Presidência da República.
Desde
aquele dia, em 1980, a trajetória política de Lula tornou-se inseparável da
história do Partido dos Trabalhadores. Suas sucessivas campanhas presidenciais,
no final dos anos 1980 e ao longo da década de 1990, após o fim da ditadura
militar, transformaram-no de líder sindical em figura política nacional e
fizeram do PT uma das principais forças políticas do Brasil. Em seu livro de
2020, Lula and His Politics of Cunning: From Metalworker to President of Brazil
(Lula e sua política da astúcia: de metalúrgico a presidente do Brasil), o
acadêmico estadunidense John D. French examinou como a industrialização e as
aspirações dos trabalhadores por uma vida melhor moldaram os instintos
políticos de Lula. French, que passou anos estudando o movimento sindical brasileiro,
argumenta que a repressão ensinou às lideranças trabalhistas a arte da
negociação, a capacidade de adaptação e a astúcia. O pesquisador compara Lula a
Pelé, o lendário jogador de futebol brasileiro, chamando-o de “Pelé da
política”: um mestre em seu ofício, capaz de interpretar situações, antecipar
os movimentos dos adversários e encontrar caminhos em circunstâncias difíceis.
Munido
dessas qualidades e apoiado pela classe trabalhadora e pela população mais
pobre do Brasil, Lula assumiu a Presidência em 2003, inaugurando uma era
decisiva para o país e para o PT. Seus dois mandatos (2003-2010) e a
Presidência de Dilma Rousseff (2011-2016) consolidaram a posição do PT no
centro da política nacional. Mas a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, com uma
plataforma antipetista, representou a maior ameaça até então à predominância
política do partido, marcando uma acentuada guinada à direita no Brasil. O
retorno de Lula à Presidência em 2023, depois de sua prisão com base em
acusações sem fundamento e da anulação de suas condenações, demonstrou que o PT
continuava sendo uma força formidável, mesmo em um país profundamente
polarizado.
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Um novo mandato
Revigorado
pela vitória eleitoral de Lula em 2022, o PT recebeu agora um mandato
expressivo nas eleições da semana passada, abrindo um novo capítulo em sua
trajetória. A vitória deu ao partido, cuja base de apoio é hoje muito maior e
mais diversificada do que há 20 anos, a oportunidade de se preparar para o
período posterior ao quarto mandato de Lula. Com a participação de eleitores
mais jovens e uma presença digital mais intensa, o PT pode estar agora às
portas de uma transformação. “Nesta eleição, aprendi muito com os jovens. No
meu quarto mandato, meu governo vai se concentrar ainda mais nas pessoas e em
suas necessidades, e veremos mais lideranças jovens”, afirmou Lula depois de
derrotar Flávio.
Enquanto
seu adversário fugiu para Miami, a trajetória de Lula, dos portões das fábricas
de São Paulo ao Palácio do Planalto, continua. O significado de sua vitória
ultrapassa as fronteiras do país. Para milhões de pessoas em todo o mundo, a
vitória de Lula representa um triunfo da democracia sobre a extrema direita,
conquistado apesar das pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
e da interferência das grandes plataformas de tecnologia. O ex-ministro
brasileiro José Dirceu descreve Lula como um líder verdadeiramente global. “A
trajetória política de Lula e suas vitórias eleitorais representam um marco na
luta pela democracia e contra a fome e a desigualdade, servindo como referência
no enfrentamento da ascensão da extrema direita em diversos países”, afirma.
O
veredicto das urnas brasileiras é claro: o operário das fábricas de São Paulo e
o Partido dos Trabalhadores continuam no centro da política brasileira,
enquanto o bolsonarismo enfrenta um futuro incerto.
• Tetra de Lula, janonismo e o fim da
direita festiva bolsonarista. Por Leonardo Ferreira Kaltner
O ano
de 2026 entra para a história política brasileira como o momento em que começou
a ruir uma determinada forma de fazer política pela extrema direita: a direita
festiva, escrachada e provocadora que encontrou no bolsonarismo sua expressão
mais acabada.
Durante
anos, o bolsonarismo apresentou-se como novidade antissistema. Sua linguagem
combinava agressividade, irreverência, provocação e aquilo que seus defensores
costumavam chamar de “humor ácido” ou “humor negro”. A estratégia consistia em
transformar a ofensa em piada, a discriminação em provocação e a violência
verbal em demonstração de coragem.
Essa
fórmula funcionou durante algum tempo. Mas a política baseada permanentemente
na catarse, na humilhação do adversário e no escárnio possui uma fragilidade
fundamental: a piada pode perder a graça. E, quando perde a graça, resta a
ofensa.
É
justamente aí que se encontra uma das chaves para compreender o colapso
político do bolsonarismo.
Toda
ideologia política carrega contradições. Cabe à liderança política convencer a
sociedade de que possui respostas plausíveis para administrá-las. No Brasil,
uma das contradições fundamentais é conhecida por todos: como controlar as
contas públicas sem abandonar milhões de brasileiros à desigualdade?
A
direita tradicional costuma responder priorizando o controle do gasto público,
muitas vezes aceitando como consequência a manutenção de desigualdades. O campo
progressista, por sua vez, procura utilizar os recursos do Estado para reduzir
essas desigualdades, enfrentando, ao mesmo tempo, os limites fiscais
existentes.
O
bolsonarismo tentou transformar essa discussão complexa em espetáculo político.
Sua
força não estava propriamente na elaboração de uma nova resposta para os
problemas brasileiros, mas na capacidade de transformar a política em
entretenimento, confronto e provocação. O adversário deveria ser
ridicularizado. A controvérsia deveria substituir a discussão. A indignação
deveria produzir engajamento.
O
problema é que a sociedade também julga o espetáculo.
Quando
Flávio Bolsonaro recorreu à expressão “nove dedos” para atacar Lula, pretendia
repetir uma velha fórmula de desqualificação política. A estratégia procurava
transformar uma característica física do presidente em instrumento de escárnio.
Em outro episódio, a tentativa de fazer graça em torno da morte de uma criança
de apenas cinco anos, Ana Clara, atingida por uma bala perdida, mostrou os
limites dessa política do deboche.
Diante
da morte, a piada deixa de ser irreverência.
Torna-se
insensibilidade.
E o
julgamento do público pode ser implacável.
É nesse
cenário que aparece o chamado janonismo. Mais do que uma simples estratégia
eleitoral, a mobilização conduzida por André Janones ajudou a produzir uma
mudança importante na linguagem política brasileira: a transformação do eleitor
comum em protagonista da disputa.
Ao
convocar um verdadeiro “exército de Lula”, Janones ajudou a mostrar que o
Brasil não pertence a uma elite política que reivindica para si os símbolos
nacionais. O verde e o amarelo não são propriedade da direita. A bandeira
brasileira não pertence ao bolsonarismo. O patriotismo tampouco pode ser
monopolizado por um grupo político.
O
Brasil é do povo brasileiro.
E essa
talvez tenha sido uma das grandes lições da eleição de 2026.
O
quarto mandato presidencial de Lula não pode ser compreendido apenas como
resultado de uma disputa entre candidatos. Ele representa também o resultado de
uma mudança de percepção da sociedade sobre o próprio fenômeno político.
Lula
chegou a 2026 diferente do Lula de outros períodos. Mais experiente, mais
paciente e, sobretudo, profundamente conhecedor das contradições brasileiras.
Em vez de disputar com a extrema direita no terreno da provocação permanente, o
presidente parece ter escolhido outro caminho: o da experiência, da paciência e
da capacidade de sobreviver politicamente às crises.
Essa
experiência foi decisiva.
Ao
longo da campanha, a estratégia de Lula expôs os limites de uma direita que
apostou demasiadamente na provocação e pouco na construção de um projeto
nacional capaz de dialogar com a maioria dos brasileiros.
O
resultado foi o tetra.
Mas
talvez o significado mais importante desse quarto triunfo seja outro: a
demonstração de que o Brasil não está condenado ao espetáculo permanente da
política como entretenimento.
A
extrema direita ainda existe e continuará fazendo parte da democracia
brasileira. O que parece estar chegando ao fim é uma determinada forma de
expressão dessa extrema direita: aquela que mistura humor, ódio, preconceito e
humilhação e depois tenta esconder tudo sob o argumento de que “era apenas uma
piada”.
Não
era.
E os
brasileiros perceberam.
Há,
nesse processo, uma dívida importante com os jovens da Geração Z. Eles
cresceram em um ambiente político profundamente marcado pelas redes sociais e
aprenderam, talvez antes de outras gerações, a desconfiar da política
transformada em espetáculo. Conheceram o meme, a provocação e a linguagem da
internet, mas também perceberam que a vida real é muito mais complexa do que
uma postagem viral.
A nova
geração pode não rejeitar o humor político. Pelo contrário: ela sabe utilizá-lo
muito bem. O que parece rejeitar é a ideia de que o humor possa servir como
salvo-conduto para o preconceito, a crueldade e a desumanização do outro.
É
possível fazer política com humor sem fazer do adversário um inimigo a ser
destruído.
É
possível defender a responsabilidade fiscal sem transformar os pobres em
culpados pela crise do Estado.
É
possível defender políticas sociais sem ignorar os limites das contas públicas.
E é
possível ser patriota sem transformar a bandeira brasileira em instrumento de
exclusão.
Talvez
essa seja a grande novidade que 2026 deixa para o Brasil.
O país
não acabou com a direita. Tampouco acabou com a extrema direita. A democracia
continuará produzindo disputas, contradições e conflitos.
Mas o
Brasil pode estar encerrando o ciclo da direita festiva bolsonarista — aquela
que confundiu agressividade com força, escárnio com inteligência e viralização
com projeto político.
O tetra
de Lula é, portanto, mais do que uma vitória eleitoral.
É
também o sinal de que, depois de tantos anos de política transformada em
espetáculo, uma parte significativa da sociedade voltou a procurar aquilo que a
política deveria oferecer desde o princípio: esperança, responsabilidade e um
projeto de país.
E,
desta vez, talvez os jovens tenham sido os primeiros a perceber que o
Brasil-piada acabou.
Fonte:
Brasil 247

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