terça-feira, 3 de novembro de 2026

Shobhan Saxena: Lula da Silva - o Pelé da política brasileira

Com um sorriso no rosto, Flávio Bolsonaro olhou para a câmera e chamou o presidente Lula da Silva de “nove dedos” durante o debate televisionado, apenas dois dias antes de os brasileiros irem às urnas para o segundo turno da eleição presidencial. Foi uma tentativa cínica de explorar uma antiga cicatriz — e um boato — contra o líder do Partido dos Trabalhadores. Lula reagiu duramente, lembrando ao público como havia perdido um dedo da mão esquerda enquanto trabalhava em uma fábrica. “Se tem alguém que perdeu um dedo aos 17 anos, fui eu, trabalhando à noite porque precisava trabalhar”, disse Lula, olhando diretamente para as câmeras. Com o rosto vermelho, Flávio não sabia para onde olhar. Em 25 de outubro, Lula fez história ao se tornar o primeiro presidente brasileiro a terminar em segundo lugar no primeiro turno de uma eleição, realizado em 4 de outubro, e conquistar a Presidência na votação decisiva.

Desde que Lula ingressou na política, há mais de três décadas, seus adversários espalham o boato de que ele teria cortado deliberadamente o próprio dedo para despertar simpatia e receber uma indenização. Mas aqueles que conhecem sua trajetória sabem das dificuldades que o moldaram. Nascido em 27 de outubro de 1945, em um rincão empoeirado do Brasil, Lula cresceu em meio à fome e à privação no estado de Pernambuco.

Sua família migrou para São Paulo em busca de uma vida melhor, juntando-se a milhares de pessoas que deixaram uma região marcada pela pobreza e pela falta de perspectivas. Criado pela mãe, Dona Lindu, cuja força e capacidade de resistência deixaram nele uma marca permanente, Lula concluiu apenas o ensino primário antes de começar a trabalhar, ainda adolescente. Sua mãe morreu aos 64 anos, em 1980, quando Lula estava preso durante uma greve de trabalhadores. “Eu acredito em um país mais justo porque um dia minha mãe me ensinou que, mesmo numa casa simples, ninguém pode desistir”, afirmou Lula no Dia das Mães deste ano, contendo as lágrimas ao recordar Dona Lindu.

A trajetória de Lula — de uma região castigada pela seca no interior do Brasil ao cinturão industrial de São Paulo — ganhou vida no filme Lula, o Filho do Brasil, de 2010, dirigido por Fábio Barreto. Ao acompanhar sua história, o longa-metragem mostrou como a formação política de Lula começou no chão de fábrica da região industrial paulista, conhecida por suas enormes instalações fabris. Em meio ao barulho das máquinas e à luta cotidiana contra a pobreza, Lula passou de aprendiz a metalúrgico e líder sindical, tornando-se a voz dos trabalhadores que já não estavam dispostos a aceitar baixos salários e exclusão política. “No final dos anos 1970, quando a ditadura militar brasileira tentava conter a dissidência, Lula surgiu como uma das figuras mais proeminentes do movimento sindical. Sua liderança o colocou em confronto direto com o regime e, em 1980, ele foi preso por seu papel nas greves”, afirmou Barreto certa vez, em entrevista.

<><> A fundação

A luta dos trabalhadores levou a um acontecimento que mudaria para sempre o destino do Brasil. Em 10 de fevereiro de 1980, mais de 600 pessoas, entre sindicalistas, intelectuais, lideranças religiosas e ativistas dos direitos humanos, reuniram-se no campus de uma escola católica em São Paulo para anunciar a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Enquanto a carta de princípios do novo partido era discutida, Lula, um dos principais articuladores da criação do PT, sentou-se entre os participantes, e não à mesa principal, reforçando a ideia de que o partido deveria crescer a partir da participação coletiva. Com um manifesto que defendia a construção de um movimento de massas pela emancipação dos trabalhadores e por uma democracia com participação popular, o PT tornou-se a plataforma a partir da qual Lula lançou sua carreira política e, finalmente, chegou à Presidência da República.

Desde aquele dia, em 1980, a trajetória política de Lula tornou-se inseparável da história do Partido dos Trabalhadores. Suas sucessivas campanhas presidenciais, no final dos anos 1980 e ao longo da década de 1990, após o fim da ditadura militar, transformaram-no de líder sindical em figura política nacional e fizeram do PT uma das principais forças políticas do Brasil. Em seu livro de 2020, Lula and His Politics of Cunning: From Metalworker to President of Brazil (Lula e sua política da astúcia: de metalúrgico a presidente do Brasil), o acadêmico estadunidense John D. French examinou como a industrialização e as aspirações dos trabalhadores por uma vida melhor moldaram os instintos políticos de Lula. French, que passou anos estudando o movimento sindical brasileiro, argumenta que a repressão ensinou às lideranças trabalhistas a arte da negociação, a capacidade de adaptação e a astúcia. O pesquisador compara Lula a Pelé, o lendário jogador de futebol brasileiro, chamando-o de “Pelé da política”: um mestre em seu ofício, capaz de interpretar situações, antecipar os movimentos dos adversários e encontrar caminhos em circunstâncias difíceis.

Munido dessas qualidades e apoiado pela classe trabalhadora e pela população mais pobre do Brasil, Lula assumiu a Presidência em 2003, inaugurando uma era decisiva para o país e para o PT. Seus dois mandatos (2003-2010) e a Presidência de Dilma Rousseff (2011-2016) consolidaram a posição do PT no centro da política nacional. Mas a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, com uma plataforma antipetista, representou a maior ameaça até então à predominância política do partido, marcando uma acentuada guinada à direita no Brasil. O retorno de Lula à Presidência em 2023, depois de sua prisão com base em acusações sem fundamento e da anulação de suas condenações, demonstrou que o PT continuava sendo uma força formidável, mesmo em um país profundamente polarizado.

<><> Um novo mandato

Revigorado pela vitória eleitoral de Lula em 2022, o PT recebeu agora um mandato expressivo nas eleições da semana passada, abrindo um novo capítulo em sua trajetória. A vitória deu ao partido, cuja base de apoio é hoje muito maior e mais diversificada do que há 20 anos, a oportunidade de se preparar para o período posterior ao quarto mandato de Lula. Com a participação de eleitores mais jovens e uma presença digital mais intensa, o PT pode estar agora às portas de uma transformação. “Nesta eleição, aprendi muito com os jovens. No meu quarto mandato, meu governo vai se concentrar ainda mais nas pessoas e em suas necessidades, e veremos mais lideranças jovens”, afirmou Lula depois de derrotar Flávio.

Enquanto seu adversário fugiu para Miami, a trajetória de Lula, dos portões das fábricas de São Paulo ao Palácio do Planalto, continua. O significado de sua vitória ultrapassa as fronteiras do país. Para milhões de pessoas em todo o mundo, a vitória de Lula representa um triunfo da democracia sobre a extrema direita, conquistado apesar das pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da interferência das grandes plataformas de tecnologia. O ex-ministro brasileiro José Dirceu descreve Lula como um líder verdadeiramente global. “A trajetória política de Lula e suas vitórias eleitorais representam um marco na luta pela democracia e contra a fome e a desigualdade, servindo como referência no enfrentamento da ascensão da extrema direita em diversos países”, afirma.

O veredicto das urnas brasileiras é claro: o operário das fábricas de São Paulo e o Partido dos Trabalhadores continuam no centro da política brasileira, enquanto o bolsonarismo enfrenta um futuro incerto.

•        Tetra de Lula, janonismo e o fim da direita festiva bolsonarista. Por Leonardo Ferreira Kaltner

O ano de 2026 entra para a história política brasileira como o momento em que começou a ruir uma determinada forma de fazer política pela extrema direita: a direita festiva, escrachada e provocadora que encontrou no bolsonarismo sua expressão mais acabada.

Durante anos, o bolsonarismo apresentou-se como novidade antissistema. Sua linguagem combinava agressividade, irreverência, provocação e aquilo que seus defensores costumavam chamar de “humor ácido” ou “humor negro”. A estratégia consistia em transformar a ofensa em piada, a discriminação em provocação e a violência verbal em demonstração de coragem.

Essa fórmula funcionou durante algum tempo. Mas a política baseada permanentemente na catarse, na humilhação do adversário e no escárnio possui uma fragilidade fundamental: a piada pode perder a graça. E, quando perde a graça, resta a ofensa.

É justamente aí que se encontra uma das chaves para compreender o colapso político do bolsonarismo.

Toda ideologia política carrega contradições. Cabe à liderança política convencer a sociedade de que possui respostas plausíveis para administrá-las. No Brasil, uma das contradições fundamentais é conhecida por todos: como controlar as contas públicas sem abandonar milhões de brasileiros à desigualdade?

A direita tradicional costuma responder priorizando o controle do gasto público, muitas vezes aceitando como consequência a manutenção de desigualdades. O campo progressista, por sua vez, procura utilizar os recursos do Estado para reduzir essas desigualdades, enfrentando, ao mesmo tempo, os limites fiscais existentes.

O bolsonarismo tentou transformar essa discussão complexa em espetáculo político.

Sua força não estava propriamente na elaboração de uma nova resposta para os problemas brasileiros, mas na capacidade de transformar a política em entretenimento, confronto e provocação. O adversário deveria ser ridicularizado. A controvérsia deveria substituir a discussão. A indignação deveria produzir engajamento.

O problema é que a sociedade também julga o espetáculo.

Quando Flávio Bolsonaro recorreu à expressão “nove dedos” para atacar Lula, pretendia repetir uma velha fórmula de desqualificação política. A estratégia procurava transformar uma característica física do presidente em instrumento de escárnio. Em outro episódio, a tentativa de fazer graça em torno da morte de uma criança de apenas cinco anos, Ana Clara, atingida por uma bala perdida, mostrou os limites dessa política do deboche.

Diante da morte, a piada deixa de ser irreverência.

Torna-se insensibilidade.

E o julgamento do público pode ser implacável.

É nesse cenário que aparece o chamado janonismo. Mais do que uma simples estratégia eleitoral, a mobilização conduzida por André Janones ajudou a produzir uma mudança importante na linguagem política brasileira: a transformação do eleitor comum em protagonista da disputa.

Ao convocar um verdadeiro “exército de Lula”, Janones ajudou a mostrar que o Brasil não pertence a uma elite política que reivindica para si os símbolos nacionais. O verde e o amarelo não são propriedade da direita. A bandeira brasileira não pertence ao bolsonarismo. O patriotismo tampouco pode ser monopolizado por um grupo político.

O Brasil é do povo brasileiro.

E essa talvez tenha sido uma das grandes lições da eleição de 2026.

O quarto mandato presidencial de Lula não pode ser compreendido apenas como resultado de uma disputa entre candidatos. Ele representa também o resultado de uma mudança de percepção da sociedade sobre o próprio fenômeno político.

Lula chegou a 2026 diferente do Lula de outros períodos. Mais experiente, mais paciente e, sobretudo, profundamente conhecedor das contradições brasileiras. Em vez de disputar com a extrema direita no terreno da provocação permanente, o presidente parece ter escolhido outro caminho: o da experiência, da paciência e da capacidade de sobreviver politicamente às crises.

Essa experiência foi decisiva.

Ao longo da campanha, a estratégia de Lula expôs os limites de uma direita que apostou demasiadamente na provocação e pouco na construção de um projeto nacional capaz de dialogar com a maioria dos brasileiros.

O resultado foi o tetra.

Mas talvez o significado mais importante desse quarto triunfo seja outro: a demonstração de que o Brasil não está condenado ao espetáculo permanente da política como entretenimento.

A extrema direita ainda existe e continuará fazendo parte da democracia brasileira. O que parece estar chegando ao fim é uma determinada forma de expressão dessa extrema direita: aquela que mistura humor, ódio, preconceito e humilhação e depois tenta esconder tudo sob o argumento de que “era apenas uma piada”.

Não era.

E os brasileiros perceberam.

Há, nesse processo, uma dívida importante com os jovens da Geração Z. Eles cresceram em um ambiente político profundamente marcado pelas redes sociais e aprenderam, talvez antes de outras gerações, a desconfiar da política transformada em espetáculo. Conheceram o meme, a provocação e a linguagem da internet, mas também perceberam que a vida real é muito mais complexa do que uma postagem viral.

A nova geração pode não rejeitar o humor político. Pelo contrário: ela sabe utilizá-lo muito bem. O que parece rejeitar é a ideia de que o humor possa servir como salvo-conduto para o preconceito, a crueldade e a desumanização do outro.

É possível fazer política com humor sem fazer do adversário um inimigo a ser destruído.

É possível defender a responsabilidade fiscal sem transformar os pobres em culpados pela crise do Estado.

É possível defender políticas sociais sem ignorar os limites das contas públicas.

E é possível ser patriota sem transformar a bandeira brasileira em instrumento de exclusão.

Talvez essa seja a grande novidade que 2026 deixa para o Brasil.

O país não acabou com a direita. Tampouco acabou com a extrema direita. A democracia continuará produzindo disputas, contradições e conflitos.

Mas o Brasil pode estar encerrando o ciclo da direita festiva bolsonarista — aquela que confundiu agressividade com força, escárnio com inteligência e viralização com projeto político.

O tetra de Lula é, portanto, mais do que uma vitória eleitoral.

É também o sinal de que, depois de tantos anos de política transformada em espetáculo, uma parte significativa da sociedade voltou a procurar aquilo que a política deveria oferecer desde o princípio: esperança, responsabilidade e um projeto de país.

E, desta vez, talvez os jovens tenham sido os primeiros a perceber que o Brasil-piada acabou.

 

Fonte: Brasil 247

 

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