terça-feira, 3 de novembro de 2026

César Fonseca: Fenômeno eleitoral, André Janones vira maior desafio à tecnocracia do PT

A sensacional virada de 10 milhões de votos que permitiu ao presidente Lula ganhar de Bolsonaro com 4 milhões de votos à frente, alcançando, espetacularmente, seu quarto mandato, decorreu, essencialmente, do despertar da sociedade para o perigo do triunfo fascista, graças a uma ousada política de comunicação, comandada pelo deputado André Janones(Rede-MG), responsável por arrastar jovens, velhos e trabalhadores em geral, no segundo turno eleitoral.

O sucesso da comunicação revolucionária janonista chamou a atenção do mundo e passou a influenciar candidatos em escala global para impedir o avanço da ultradireita; os exemplos se espalham: na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sanches, acossado pelo fascismo, cogita convidar Janones para ser seu conselheiro.

O mesmo acontece com o candidato de esquerda, Jean-Luc Mélenchon, do movimento França Insubmissa, que disputará eleição presidencial, no próximo ano, atraído pelo exemplo da arrancada revolucionária digital posta em prática pelo parlamentar de Minas Gerais.

Diversos dirigentes de partidos europeus, em luta contra a ultradireita europeia, igualmente, se rendem à estratégia janonista, que tende a virar escola política internacional de luta contra o perigo ultradireitista fascista, que se espraia, mundo afora, no rastro da crise capitalista, aprofundada pelas guerras no Golfo Pérsico, detonadas por Donald Trump, e na Ucrânia, devido à propensão europeia de confrontar a Rússia, por meio da OTAN.

Os resultados desses conflitos estão escancarados, em escala desastrosa: queda da classe média, aumento do custo de vista, inflação mundial, instabilidade capitalista, tremor no mercado de ações, dominado pela especulação, tensão armamentista etc.

Nesse contexto, a ultradireita ganhou fôlego e os fascistas viram, com alegria, o poder lhes sorrir, levando-os a apostar todas as suas fichas no medo da população em face da possibilidade do avanço do empobrecimento social, com a debacle do Estado de Bem Estar Social democrata.

No Brasil, temor semelhante diante da emergência fascista ganhou dimensão extraordinária com a derrota lulista, no primeiro turno, desdenhada pela ingenuidade esquerdista de que a vitória seria possível naquela primeira etapa da disputa presidencial, mesmo frente a evidências adversas.

O monstro ultradireitista, por fim, despertou o país para o perigo ditatorial e levou a população a apoiar frente popular, nascida nas ruas, pelos estudantes, mulheres e trabalhadores, que desembocaram no chamamento, em termos alarmistas, comandado por Janones, em escala gigantesca.

TRUMP EMBARCOU NO BOLSONARISMO FRACASSADO

Dessa mobilização, brotaram os 10 milhões de votos da virada, com vantagem lulista de 4 milhões, distanciando-se do bolsonarismo, que soçobrou espetacularmente.

O fenômeno serviu de alerta global.

Nem o presidente Donald Trump, que se engajara na campanha do senador Flávio Bolsonaro, por intermédio do secretário de Estado, Marco Rúbio, escapou, decidindo, diante da derrota de Flávio, de acompanhar a farsa que ele próprio ajudou a montar, articulando fuga bolsonarista, para justificar frustrada montagem de desculpa de golpe, na esperança de anular as eleições.

A embaixada americana jogou água fria nas articulações de Trump-Rúbio, ao destacar que a vitória lulista foi incontestável, o que sinalizou ao chefe da Casa Branca para recuo de tentativa golpista, para não repercutir, negativamente, para ele, nas eleições parlamentares americanas, a serem realizadas na próxima semana.

Trump jogou Flávio ao mar, para não se dar mal perante seus eleitores/eleitoras, críticos da possibilidade de a Casa Branca continuar apoiando as mentiras bolsonaristas.

Nesse sentido, Trump, também, é grande derrotado pela estratégia de comunicação montada por André Janones, cujo beneficiário maior é Lula, que reconheceu esse tributo eleitoral ao parlamentar mineiro.

JANONES RACHA PT

O sucesso de Janones, porém, parece, cria ciumeiras nas fileiras do PT, que, na campanha eleitoral, não conduziu, mas foi conduzido pelo irresistível processo político de comunicação social, verdadeiramente, revolucionário, expresso na criação do “Exército de Lula”, assim denominado, para dar a dimensão gigantesca ao trabalho do parlamentar das Gerais.

Logo após a vitória, que consagrou Janones, o primeiro a reconhecer o triunfo da comunicação revolucionaria, geradora de levante social, foi o presidente Lula.

O titular do Planalto fez questão de ter Janones ao seu lado, enquanto, na Avenida Paulista, no calor da vitória, levantou a Constituição para prometer governo diferente, sintonizado com as energias das ruas, praças e avenidas, em aclamação por mudanças quantitativas e qualitativas.

A liderança petista, nas horas seguintes, ao coordenar ação dos diretórios partidários, adiantou-se à defesa na política econômica antineoliberal, propugnando alteração naS metas de ajuste fiscal restritivo, a partir de novo cálculo da inflação, como destacou o presidente do partido, Edinho Silva.

NOVO CHOQUE DE IDÉIAS

Também, experimentados quadros do partido, como o ex-deputado José Genoíno, em entrevista à TV 247, nesta sexta-feira, destacou que Lula terá que governar com a pauta do povo, não com a pauta do mercado, dada pelos especuladores da Faria Lima.

O calor político das massas, mobilizadas pela nova comunicação, que deverá sacudir o quarto mandato lulista, põe em cena, como fator substantivo, o protagonismo do personagem relevante da eleição, isto é, o deputado Janones, como braço direito de Lula, para garantir a maiúscula vitória.

Entrou em colapso a política de comunicação social do ministro Sidônio Palmeira, de viés conciliatório/conservador, ultrapassada pelos fatos emergentes extraordinários, dando lugar a forças mais vigorosas e determinadas.

NOVAS EXPECTATIVAS EM NOVA CORRELAÇÃO DE FORÇAS

Líderes e influenciadores do partido mais à esquerda, com grande destaque na militância, como os stalinistas Walter Pomar, ligado ao Foro de São Paulo, e Breno Altman, do site Ópera Mundi, um dos principais jornalistas e ideólogos do pensamento progressista, adotaram posições conflitantes, diante do fenômeno Janones.

Enquanto Altman defendeu, no primeiro momento, indicação de Janones para a Secretaria de Comunicações, a fim de dar sequência ao processo de mobilização social, Pomar se manteve neutro, negando-se, em entrevista ao próprio Breno Altman, a pronunciar o nome de Janones, mantendo-o sob cortina de fumaça.

Ou seja, dentro do próprio PT, Janones não é unanimidade, como parece que é, para o presidente Lula.

Outro grande vitorioso na disputa eleitoral, atual Ministro da Educação, Camilo Santana, eleito senador pelo Ceará, tenta influir na futura política de comunicação, ao defender Chagas Vieira, seu assessor, para a pasta ministerial, candidata a ser a mais importante do futuro governo, ao lado do Ministério da Fazenda, alvo da disputa entre neoliberais ortodoxos e progressistas heterodoxos.

A posição do presidente petista, Edinho Silva, em favor de mudança da meta inflacionária, fixada, atualmente, em 3% ao ano, considerada excessivamente ortodoxa, inviável à retomada desenvolvimentista, clamada pelas urnas, tende a ser fator importante que se sintoniza com a pauta do povo, defendida por José Genoíno, também, entusiasta do trabalho de Janones.

Resta saber qual será a posição do PT, que deverá ser expressa, formalmente, no próximo Congresso do partido, no próximo ano, mas as demandas para já estão no ar.

Um dos nomes forte do partido, deputado José Guimarães, atual ministro da Secretaria de Relações Institucionais, reconhece, no cenário pós-eleitoral em curso, os ventos fortes por mudanças, mas ressalta que o PT deve continuar dando as cartas, mesmo se evidenciando que o partido foi conduzido pela nova correlação de forças que saiu das urnas.

Enfim, estará o Partido dos Trabalhadores aberto às autocríticas, às quais seus adversários reclamam, para aceitar o protagonismo irresistível de Janones, ou vai tentar atraí-lo para a agremiação petista, no caldo da qual tenderia a se diluir no embate das forças no interior da tecnocracia partidária?

Janones aceitaria ou resistiria a tal manobra que o esvaziaria, politicamente?

•        Lula venceu pela mobilização nas ruas e nas redes, diz Marcos Coimbra

A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais representou não apenas uma virada aritmética expressiva nas urnas, mas um triunfo direto do engajamento popular sobre o desalento que dominava o ambiente político. A análise detalhada desse desfecho foi apresentada pelo sociólogo Marcos Coimbra durante o programa Forças do Brasil, transmitido ao vivo pela TV 247 e apresentado pelo jornalista Mário Vitor Santos.

Em diálogo com a bancada, Coimbra dissecou os fatores que culminaram na virada histórica que agregou cerca de 10 milhões de votos adicionais à candidatura petista entre a primeira e a segunda etapa da disputa. Para o especialista, a equação vitoriosa combinou a estatura política e a capacidade de renovação de Lula com uma mobilização espontânea que partiu das periferias, dos jovens e de movimentos organizados em todo o território nacional.

<><> A força da mobilização: ruas, redes e sociedade viva

Ao analisar as causas determinantes do resultado, Coimbra pontuou que toda eleição presidencial envolve uma combinação de fatores absolutos e relativos. Do lado relativo, o sociólogo destacou a fragilidade política e moral do projeto adversário encabeçado pela extrema-direita. Do lado absoluto, ressaltou a dimensão histórica de Lula como liderança global e sua habilidade de “consertar o avião em pleno voo” — adaptando tom, discurso e postura à urgência do momento.

Contudo, o ponto de inflexão mais marcante ocorreu fora dos gabinetes eleitorais. Segundo Coimbra, o susto do primeiro turno forçou o campo progressista e a sociedade civil a um despertar coletivo:

“Foi um movimento extraordinário de pessoas dizendo que não aceitariam aquele retrocesso. O sentimento de votar em Lula não nasceu na manhã do domingo; ele existia, estava sendo gestado na sociedade e se manifestou com intensidade inegável.”

Essa reação ganhou tração decisiva a partir do engajamento juvenil — exemplificado pela articulação de estudantes universitários, coletivos periféricos e influenciadores em redes digitais — que substituiu a passividade pela ação direta de convencimento, voto a voto, nas ruas e nas plataformas digitais.

<><> As pesquisas sob xeque: a necessidade de autocrítica metodológica

Um dos eixos centrais da conversa foi a discrepância entre as projeções divulgadas pelos institutos de pesquisa ao longo do segundo turno e o resultado sacramentado pela Justiça Eleitoral. Coimbra enfatizou que a avalanche de levantamentos apontando desvantagem para a campanha de Lula gerou uma atmosfera artificial de desânimo na opinião pública informada.

O sociólogo advertiu para o risco democrático de a pesquisa deixar de cumprir seu papel descritivo para atuar como indutora de comportamento:

•        O efeito desmobilizador: Quanto mais o eleitor consumia noticiário pautado por oscilações diárias e margens desfavoráveis, maior era a sensação de derrota inevitável.

•        A profecia que quase se cumpriu: Coimbra alertou que um ambiente de pessimismo sistemático poderia ter sufocado a ida às urnas caso a militância e o eleitor comum tivessem se rendido aos números.

•        Falta de sensibilidade aos fluxos subterrâneos: Os institutos falharam em captar o movimento real de transporte de eleitores, organização comunitária e adesão silenciosa em regiões como o Norte e o Nordeste.

Para o diretor do Vox Populi, o setor de pesquisa no Brasil precisa realizar uma autoavaliação rigorosa e transparente após sucessivos ciclos de divergências com o sentimento popular, evitando que o instrumento perca de vez sua credibilidade perante a cidadania.

<><> O peso da incumbência e o isolamento da extrema-direita

Outro elemento decisivo destacado na análise foi o comportamento do eleitor indeciso na reta final. Coimbra observou que, historicamente, a tendência das disputas de segundo turno beneficia o incumbente quando este detém entregas palpáveis e estabilidade a oferecer, em oposição a aventuras institucionais. O crescimento de Lula em todas as unidades da federação refletiu a busca por segurança política e reconstrução institucional.

O sociólogo também avaliou que o encerramento do pleito sela o declínio do núcleo tradicional do bolsonarismo. Desgastado por posturas erráticas, disputas fratricidas e derrotas acumuladas, o clã perdeu capacidade de articulação hegemônica sobre a direita:

“Quase entregamos o país a um projeto degradante. Se não fossem os jovens, os trabalhadores, as mulheres, as populações indígenas e a diversidade desse Brasil vivo, o custo institucional seria incalculável.”

<><> Esperança e o recado ao mundo

O desfecho do processo eleitoral brasileiro foi recebido internacionalmente com alívio, funcionando como um contraponto geopolítico relevante em um período marcado pelo avanço de correntes autoritárias no Ocidente. Coimbra concluiu destacando que o resultado deixa lições permanentes para o campo progressista: a necessidade de manter canais abertos com as bases populares, a primazia da mobilização nas ruas e o entendimento de que disputas eleitorais não se vencem em tabelas estatísticas, mas na convicção dos cidadãos em defender o próprio futuro.

 

Fonte: Brasil 247

 

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