César
Fonseca: Fenômeno eleitoral, André Janones vira maior desafio à tecnocracia do
PT
A
sensacional virada de 10 milhões de votos que permitiu ao presidente Lula
ganhar de Bolsonaro com 4 milhões de votos à frente, alcançando,
espetacularmente, seu quarto mandato, decorreu, essencialmente, do despertar da
sociedade para o perigo do triunfo fascista, graças a uma ousada política de
comunicação, comandada pelo deputado André Janones(Rede-MG), responsável por
arrastar jovens, velhos e trabalhadores em geral, no segundo turno eleitoral.
O
sucesso da comunicação revolucionária janonista chamou a atenção do mundo e
passou a influenciar candidatos em escala global para impedir o avanço da
ultradireita; os exemplos se espalham: na Espanha, o primeiro-ministro Pedro
Sanches, acossado pelo fascismo, cogita convidar Janones para ser seu
conselheiro.
O mesmo
acontece com o candidato de esquerda, Jean-Luc Mélenchon, do movimento França
Insubmissa, que disputará eleição presidencial, no próximo ano, atraído pelo
exemplo da arrancada revolucionária digital posta em prática pelo parlamentar
de Minas Gerais.
Diversos
dirigentes de partidos europeus, em luta contra a ultradireita europeia,
igualmente, se rendem à estratégia janonista, que tende a virar escola política
internacional de luta contra o perigo ultradireitista fascista, que se espraia,
mundo afora, no rastro da crise capitalista, aprofundada pelas guerras no Golfo
Pérsico, detonadas por Donald Trump, e na Ucrânia, devido à propensão europeia
de confrontar a Rússia, por meio da OTAN.
Os
resultados desses conflitos estão escancarados, em escala desastrosa: queda da
classe média, aumento do custo de vista, inflação mundial, instabilidade
capitalista, tremor no mercado de ações, dominado pela especulação, tensão
armamentista etc.
Nesse
contexto, a ultradireita ganhou fôlego e os fascistas viram, com alegria, o
poder lhes sorrir, levando-os a apostar todas as suas fichas no medo da
população em face da possibilidade do avanço do empobrecimento social, com a
debacle do Estado de Bem Estar Social democrata.
No
Brasil, temor semelhante diante da emergência fascista ganhou dimensão
extraordinária com a derrota lulista, no primeiro turno, desdenhada pela
ingenuidade esquerdista de que a vitória seria possível naquela primeira etapa
da disputa presidencial, mesmo frente a evidências adversas.
O
monstro ultradireitista, por fim, despertou o país para o perigo ditatorial e
levou a população a apoiar frente popular, nascida nas ruas, pelos estudantes,
mulheres e trabalhadores, que desembocaram no chamamento, em termos alarmistas,
comandado por Janones, em escala gigantesca.
TRUMP
EMBARCOU NO BOLSONARISMO FRACASSADO
Dessa
mobilização, brotaram os 10 milhões de votos da virada, com vantagem lulista de
4 milhões, distanciando-se do bolsonarismo, que soçobrou espetacularmente.
O
fenômeno serviu de alerta global.
Nem o
presidente Donald Trump, que se engajara na campanha do senador Flávio
Bolsonaro, por intermédio do secretário de Estado, Marco Rúbio, escapou,
decidindo, diante da derrota de Flávio, de acompanhar a farsa que ele próprio
ajudou a montar, articulando fuga bolsonarista, para justificar frustrada
montagem de desculpa de golpe, na esperança de anular as eleições.
A
embaixada americana jogou água fria nas articulações de Trump-Rúbio, ao
destacar que a vitória lulista foi incontestável, o que sinalizou ao chefe da
Casa Branca para recuo de tentativa golpista, para não repercutir,
negativamente, para ele, nas eleições parlamentares americanas, a serem
realizadas na próxima semana.
Trump
jogou Flávio ao mar, para não se dar mal perante seus eleitores/eleitoras,
críticos da possibilidade de a Casa Branca continuar apoiando as mentiras
bolsonaristas.
Nesse
sentido, Trump, também, é grande derrotado pela estratégia de comunicação
montada por André Janones, cujo beneficiário maior é Lula, que reconheceu esse
tributo eleitoral ao parlamentar mineiro.
JANONES
RACHA PT
O
sucesso de Janones, porém, parece, cria ciumeiras nas fileiras do PT, que, na
campanha eleitoral, não conduziu, mas foi conduzido pelo irresistível processo
político de comunicação social, verdadeiramente, revolucionário, expresso na
criação do “Exército de Lula”, assim denominado, para dar a dimensão gigantesca
ao trabalho do parlamentar das Gerais.
Logo
após a vitória, que consagrou Janones, o primeiro a reconhecer o triunfo da
comunicação revolucionaria, geradora de levante social, foi o presidente Lula.
O
titular do Planalto fez questão de ter Janones ao seu lado, enquanto, na
Avenida Paulista, no calor da vitória, levantou a Constituição para prometer
governo diferente, sintonizado com as energias das ruas, praças e avenidas, em
aclamação por mudanças quantitativas e qualitativas.
A
liderança petista, nas horas seguintes, ao coordenar ação dos diretórios
partidários, adiantou-se à defesa na política econômica antineoliberal,
propugnando alteração naS metas de ajuste fiscal restritivo, a partir de novo
cálculo da inflação, como destacou o presidente do partido, Edinho Silva.
NOVO
CHOQUE DE IDÉIAS
Também,
experimentados quadros do partido, como o ex-deputado José Genoíno, em
entrevista à TV 247, nesta sexta-feira, destacou que Lula terá que governar com
a pauta do povo, não com a pauta do mercado, dada pelos especuladores da Faria
Lima.
O calor
político das massas, mobilizadas pela nova comunicação, que deverá sacudir o
quarto mandato lulista, põe em cena, como fator substantivo, o protagonismo do
personagem relevante da eleição, isto é, o deputado Janones, como braço direito
de Lula, para garantir a maiúscula vitória.
Entrou
em colapso a política de comunicação social do ministro Sidônio Palmeira, de
viés conciliatório/conservador, ultrapassada pelos fatos emergentes
extraordinários, dando lugar a forças mais vigorosas e determinadas.
NOVAS
EXPECTATIVAS EM NOVA CORRELAÇÃO DE FORÇAS
Líderes
e influenciadores do partido mais à esquerda, com grande destaque na
militância, como os stalinistas Walter Pomar, ligado ao Foro de São Paulo, e
Breno Altman, do site Ópera Mundi, um dos principais jornalistas e ideólogos do
pensamento progressista, adotaram posições conflitantes, diante do fenômeno
Janones.
Enquanto
Altman defendeu, no primeiro momento, indicação de Janones para a Secretaria de
Comunicações, a fim de dar sequência ao processo de mobilização social, Pomar
se manteve neutro, negando-se, em entrevista ao próprio Breno Altman, a
pronunciar o nome de Janones, mantendo-o sob cortina de fumaça.
Ou
seja, dentro do próprio PT, Janones não é unanimidade, como parece que é, para
o presidente Lula.
Outro
grande vitorioso na disputa eleitoral, atual Ministro da Educação, Camilo
Santana, eleito senador pelo Ceará, tenta influir na futura política de
comunicação, ao defender Chagas Vieira, seu assessor, para a pasta ministerial,
candidata a ser a mais importante do futuro governo, ao lado do Ministério da
Fazenda, alvo da disputa entre neoliberais ortodoxos e progressistas
heterodoxos.
A
posição do presidente petista, Edinho Silva, em favor de mudança da meta
inflacionária, fixada, atualmente, em 3% ao ano, considerada excessivamente
ortodoxa, inviável à retomada desenvolvimentista, clamada pelas urnas, tende a
ser fator importante que se sintoniza com a pauta do povo, defendida por José
Genoíno, também, entusiasta do trabalho de Janones.
Resta
saber qual será a posição do PT, que deverá ser expressa, formalmente, no
próximo Congresso do partido, no próximo ano, mas as demandas para já estão no
ar.
Um dos
nomes forte do partido, deputado José Guimarães, atual ministro da Secretaria
de Relações Institucionais, reconhece, no cenário pós-eleitoral em curso, os
ventos fortes por mudanças, mas ressalta que o PT deve continuar dando as
cartas, mesmo se evidenciando que o partido foi conduzido pela nova correlação
de forças que saiu das urnas.
Enfim,
estará o Partido dos Trabalhadores aberto às autocríticas, às quais seus
adversários reclamam, para aceitar o protagonismo irresistível de Janones, ou
vai tentar atraí-lo para a agremiação petista, no caldo da qual tenderia a se
diluir no embate das forças no interior da tecnocracia partidária?
Janones
aceitaria ou resistiria a tal manobra que o esvaziaria, politicamente?
• Lula venceu pela mobilização nas ruas e
nas redes, diz Marcos Coimbra
A
vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições
presidenciais representou não apenas uma virada aritmética expressiva nas
urnas, mas um triunfo direto do engajamento popular sobre o desalento que
dominava o ambiente político. A análise detalhada desse desfecho foi
apresentada pelo sociólogo Marcos Coimbra durante o programa Forças do Brasil,
transmitido ao vivo pela TV 247 e apresentado pelo jornalista Mário Vitor
Santos.
Em
diálogo com a bancada, Coimbra dissecou os fatores que culminaram na virada
histórica que agregou cerca de 10 milhões de votos adicionais à candidatura
petista entre a primeira e a segunda etapa da disputa. Para o especialista, a
equação vitoriosa combinou a estatura política e a capacidade de renovação de
Lula com uma mobilização espontânea que partiu das periferias, dos jovens e de
movimentos organizados em todo o território nacional.
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A força da mobilização: ruas, redes e sociedade viva
Ao
analisar as causas determinantes do resultado, Coimbra pontuou que toda eleição
presidencial envolve uma combinação de fatores absolutos e relativos. Do lado
relativo, o sociólogo destacou a fragilidade política e moral do projeto
adversário encabeçado pela extrema-direita. Do lado absoluto, ressaltou a
dimensão histórica de Lula como liderança global e sua habilidade de “consertar
o avião em pleno voo” — adaptando tom, discurso e postura à urgência do
momento.
Contudo,
o ponto de inflexão mais marcante ocorreu fora dos gabinetes eleitorais.
Segundo Coimbra, o susto do primeiro turno forçou o campo progressista e a
sociedade civil a um despertar coletivo:
“Foi um
movimento extraordinário de pessoas dizendo que não aceitariam aquele
retrocesso. O sentimento de votar em Lula não nasceu na manhã do domingo; ele
existia, estava sendo gestado na sociedade e se manifestou com intensidade
inegável.”
Essa
reação ganhou tração decisiva a partir do engajamento juvenil — exemplificado
pela articulação de estudantes universitários, coletivos periféricos e
influenciadores em redes digitais — que substituiu a passividade pela ação
direta de convencimento, voto a voto, nas ruas e nas plataformas digitais.
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As pesquisas sob xeque: a necessidade de autocrítica metodológica
Um dos
eixos centrais da conversa foi a discrepância entre as projeções divulgadas
pelos institutos de pesquisa ao longo do segundo turno e o resultado
sacramentado pela Justiça Eleitoral. Coimbra enfatizou que a avalanche de
levantamentos apontando desvantagem para a campanha de Lula gerou uma atmosfera
artificial de desânimo na opinião pública informada.
O
sociólogo advertiu para o risco democrático de a pesquisa deixar de cumprir seu
papel descritivo para atuar como indutora de comportamento:
• O efeito desmobilizador: Quanto mais o
eleitor consumia noticiário pautado por oscilações diárias e margens
desfavoráveis, maior era a sensação de derrota inevitável.
• A profecia que quase se cumpriu: Coimbra
alertou que um ambiente de pessimismo sistemático poderia ter sufocado a ida às
urnas caso a militância e o eleitor comum tivessem se rendido aos números.
• Falta de sensibilidade aos fluxos
subterrâneos: Os institutos falharam em captar o movimento real de transporte
de eleitores, organização comunitária e adesão silenciosa em regiões como o
Norte e o Nordeste.
Para o
diretor do Vox Populi, o setor de pesquisa no Brasil precisa realizar uma
autoavaliação rigorosa e transparente após sucessivos ciclos de divergências
com o sentimento popular, evitando que o instrumento perca de vez sua
credibilidade perante a cidadania.
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O peso da incumbência e o isolamento da extrema-direita
Outro
elemento decisivo destacado na análise foi o comportamento do eleitor indeciso
na reta final. Coimbra observou que, historicamente, a tendência das disputas
de segundo turno beneficia o incumbente quando este detém entregas palpáveis e
estabilidade a oferecer, em oposição a aventuras institucionais. O crescimento
de Lula em todas as unidades da federação refletiu a busca por segurança
política e reconstrução institucional.
O
sociólogo também avaliou que o encerramento do pleito sela o declínio do núcleo
tradicional do bolsonarismo. Desgastado por posturas erráticas, disputas
fratricidas e derrotas acumuladas, o clã perdeu capacidade de articulação
hegemônica sobre a direita:
“Quase
entregamos o país a um projeto degradante. Se não fossem os jovens, os
trabalhadores, as mulheres, as populações indígenas e a diversidade desse
Brasil vivo, o custo institucional seria incalculável.”
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Esperança e o recado ao mundo
O
desfecho do processo eleitoral brasileiro foi recebido internacionalmente com
alívio, funcionando como um contraponto geopolítico relevante em um período
marcado pelo avanço de correntes autoritárias no Ocidente. Coimbra concluiu
destacando que o resultado deixa lições permanentes para o campo progressista:
a necessidade de manter canais abertos com as bases populares, a primazia da
mobilização nas ruas e o entendimento de que disputas eleitorais não se vencem
em tabelas estatísticas, mas na convicção dos cidadãos em defender o próprio
futuro.
Fonte:
Brasil 247

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