terça-feira, 3 de novembro de 2026

Jeferson Miola: Os Bolsonaro perderam utilidade para Trump

A reconstituição da fuga de Flávio Bolsonaro não deixa dúvidas do envolvimento ativo dos governos argentino e estadunidense na operação cinematográfica planejada com pelo menos duas semanas de antecedência numa típica missão de exfiltração do aliado de Javier Milei e Donald Trump.

Apesar da negativa do chefe do Departamento de Estado Marco Rubio, está confirmado que a remoção de Flávio e família do Brasil com traslado secreto para os EUA foi coordenada, executada e financiada diretamente desde a Casa Branca com envolvimento central do assessor presidencial Jason Miller.

Agentes dos EUA atuaram ilegalmente nos territórios brasileiro e argentino – além, obviamente, de assegurarem o ingresso do fugitivo na Flórida mesmo sem documentação válida.

Apesar da notória subserviência dos Bolsonaro às agressões estadunidenses ao Brasil, os elementos conhecidos até o momento ainda não são suficientes para se confirmar que os integrantes da família miliciana sejam agentes recrutados para atuarem pelos interesses de Donald Trump.

É possível, contudo, inferir que no mínimo os Bolsonaro estabeleceram com Trump uma associação por interesses recíprocos.

Flávio receberia apoio irrestrito do governo Trump para vencer a eleição para, com isso, se salvar de condenações criminais, indultar seu pai e outros criminosos da trama golpista e enterrar os escândalos bolsonaristas de corrupção – INSS, Master, Refit etc.

Em contrapartida, o eventual governo miliciano entregaria as riquezas nacionais, sobretudo as do subsolo, e a soberania do país aos EUA, passando a obedecer à potência imperial como um protetorado dócil e servil.

Com a vitória de Flávio, Trump seria retribuído com o domínio total do Brasil sem precisar executar uma operação militar custosa – em termos financeiros e geopolíticos – como a realizada na Venezuela.

Derrotados na eleição, os Bolsonaro perderam, também, a utilidade para Trump e sua política intervencionista na América Latina.

Flávio, seu irmão Eduardo e demais bolsonaristas radicalizados que fugiram para lá até terão liberdade e garantias provisórias de vida nos EUA enquanto durar o governo Trump, porém foram descartados das equações geopolíticas.

Sintoma disso é a ordem de Trump para Flávio Bolsonaro retirar da carta delirante o trecho em que ele se autodeclarava o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Sem outra opção, o fugitivo obedeceu prontamente. A ordem de Trump significa que Flávio não será “promovido” a Guaidó II; e, portanto, não será um instrumento útil da estratégia ingerencista dos EUA no Brasil.

Diferentemente do Guaidó caribenho, a ideia de inventar um Guaidó tupiniquim não tem absolutamente a mínima viabilidade, por algumas razões.

Em primeiro lugar, porque a interferência dos EUA na Venezuela tinha consenso bipartidário. Apesar de ilegal, na ocasião a medida foi apoiada decididamente por democratas e republicanos. E vários governos vassalos da potência imperial aprovaram aquela política aberrante, inclusive o de Jair Bolsonaro.

Além disso, a situação do Brasil no mundo é muito distinta da do ex-regime bolivariano. Sob a liderança de Lula, o país foi reconhecido como referência no enfrentamento exitoso da guerra tarifária.

Após o segundo turno, Lula recebeu o reconhecimento imediato da quase totalidade dos governos nacionais, inclusive os de orientação ultradireitista, com exceção dos de Trump, Milei e Netanyahu.

Por último, é bastante difundida a percepção de que Flávio integra um bando criminoso que foge da polícia e da justiça, e não é um perseguido político por uma ditadura, como alega a narrativa bolsonarista. Essa realidade repercute imensamente nos EUA, e deve prejudicar ainda mais o desempenho dos republicanos na eleição legislativa do próximo dia 3 de novembro, levando Trump a perder maioria no congresso estadunidense e enfraquecendo sua gestão desastrosa.

Não deixa de ser trágico que, enquanto os Bolsonaro são descartados por Trump e são isolados internacionalmente, no Brasil parcelas significativas do eleitorado e setores de uma lúmpen-burguesia dominante continuem reverenciando esses gângsteres enganadores.

•        Cristina Kirchner prevê derrota de Trump nos EUA e nova onda progressista na América Latina

A ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner avalia que as eleições legislativas dos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira (3), poderão representar um revés para o presidente Donald Trump e abrir caminho para o fortalecimento de movimentos progressistas em diferentes países, especialmente na América Latina. A dirigente peronista acredita que uma derrota dos aliados do republicano poderá sinalizar uma mudança no cenário político internacional, com possíveis reflexos na Argentina.

As declarações foram dadas em entrevista exclusiva ao jornal americano The Washington Post, publicada nesta segunda-feira (2). Kirchner afirmou que o resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, que definirão a composição da Câmara dos Representantes e parte do Senado, poderá indicar o início de uma reação política contra governos de direita.

“A história não se escreve em linha reta. Há avanços e retrocessos, mas o povo sempre volta”, declarou a ex-presidente, ao comentar as perspectivas de recuperação das forças progressistas que marcaram sua trajetória política.

Kirchner também apontou uma contradição na atuação internacional de Trump, que tem apoiado lideranças conservadoras e governos de direita na América Latina. Na avaliação da dirigente argentina, o presidente americano poderá enfrentar uma derrota eleitoral justamente em seu próprio país.

“Paradoxalmente, o homem que fez de tudo para ajudar governos de direita a vencerem na América Latina vai perder as eleições em seu próprio país”, afirmou.

A previsão da ex-presidente se refere ao desempenho eleitoral dos candidatos ligados a Trump, uma vez que o próprio presidente americano não disputa as eleições legislativas de meio de mandato. O pleito será decisivo para determinar o equilíbrio de forças no Congresso dos Estados Unidos e a capacidade do governo republicano de avançar com sua agenda política.

<><> Kirchner acredita em desgaste de Milei e de governos de direita

Além de analisar a conjuntura americana, Cristina Kirchner projetou um possível enfraquecimento de lideranças conservadoras em outros países, incluindo o presidente argentino Javier Milei.

Segundo a ex-presidente, a insatisfação popular que favoreceu a ascensão de políticos identificados com discursos antissistema poderá se transformar em oposição a esses mesmos governantes caso suas promessas eleitorais não sejam cumpridas.

Kirchner avaliou que, quando Milei e outros líderes de direita “não cumprirem suas promessas”, a insatisfação que contribuiu para suas vitórias eleitorais “se voltará contra eles”.

A análise da dirigente peronista associa o futuro político dessas lideranças à capacidade de seus governos de corresponder às expectativas criadas durante as campanhas. Para ela, o descontentamento que impulsionou a direita também poderá favorecer uma reorganização das forças progressistas.

Nesse cenário, Kirchner considera que uma eventual derrota republicana nas eleições americanas poderá funcionar como um primeiro sinal de mudança no ambiente político internacional.

<><> Ex-presidente admite disputar novamente a Presidência argentina em 2027

Outro ponto importante da entrevista foi a possibilidade de Cristina Kirchner voltar a concorrer à Presidência da Argentina nas eleições de 2027, quando Javier Milei poderá disputar um segundo mandato.

Aos 73 anos, a ex-presidente não descartou retornar à disputa eleitoral, mas condicionou essa possibilidade à recuperação de seus direitos políticos, atualmente afetados por sua condenação judicial.

“Quando eu recuperar meus direitos políticos, por que não?”, respondeu ao ser questionada sobre uma eventual candidatura presidencial.

Kirchner busca reverter sua situação jurídica por meio de uma ação apresentada ao Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). No procedimento, a ex-presidente sustenta que sua condenação ocorreu em um processo que desrespeitou garantias fundamentais e o direito ao devido processo legal.

A dirigente argentina foi condenada a seis anos de prisão em um processo relacionado a irregularidades na contratação de obras públicas na província de Santa Cruz. Ela nega as acusações e afirma que a ação judicial teve motivações políticas.

Atualmente, Kirchner cumpre prisão domiciliar em Buenos Aires. Apesar das restrições judiciais, continua exercendo influência sobre a oposição argentina e mantém participação nas articulações do peronismo.

<><> Liderança peronista mantém influência na oposição argentina

Mesmo afastada das disputas eleitorais por sua condenação, Cristina Kirchner permanece como uma das principais referências políticas do peronismo argentino.

A ex-presidente continua à frente do Partido Justicialista, organização fundada há oito décadas por Juan Domingo Perón e Eva Perón, e participa da liderança da Fuerza Patria, principal bloco de oposição no Congresso argentino.

Sua permanência nessas posições demonstra a importância que ainda exerce sobre o campo político que governou a Argentina em diferentes períodos e que atualmente busca construir uma alternativa ao governo Milei.

A possibilidade de uma candidatura em 2027, embora dependa de mudanças em sua situação judicial, mantém aberta a discussão sobre o papel de Kirchner na reorganização da oposição.

A entrevista também evidencia a atenção da dirigente argentina à política internacional. Ao relacionar as eleições legislativas americanas ao futuro dos governos latino-americanos, Kirchner apresenta a hipótese de que uma mudança no equilíbrio político dos Estados Unidos possa estimular forças progressistas em outros países.

•        Milei ficou furioso com vitória de Lula e pediu para não ser incomodado

O presidente da Argentina, Javier Milei, teria reagido com irritação à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro na eleição presidencial brasileira. Segundo relato publicado pelo jornal argentino Clarín, o mandatário acompanhou o resultado na residência oficial de Olivos, onde teria dirigido insultos a pessoas próximas e exigido que não fosse incomodado após a confirmação da derrota de seu aliado político.

Milei acreditava que seu apoio a Flávio Bolsonaro poderia contribuir decisivamente para a vitória da direita brasileira. A avaliação, compartilhada por integrantes de seu governo, acabou frustrada pelo desempenho de Lula nas urnas. O episódio teria agravado um momento de desgaste político do presidente argentino, que também enfrenta divergências internas sobre a condução da economia.

A publicação relata que Milei reagiu diante das telas de televisão com insultos e palavrões. Em determinado momento, teria feito uma exigência aos assessores: “Não me incomodem mais”.

O ministro das Relações Exteriores argentino, Pablo Quirno, havia demonstrado confiança na influência internacional de Milei após o primeiro turno da eleição brasileira. Na ocasião, declarou: “O triunfo de Bolsonaro confirma a influência global de Milei”. Também afirmou: “Todos os candidatos apoiados por Milei ganham as eleições”.

A derrota de Flávio Bolsonaro, portanto, representaria não apenas um revés para a direita brasileira, mas também um golpe nas pretensões de Milei de consolidar sua influência sobre movimentos conservadores da América Latina.

<><> Jornal aponta operação da inteligência argentina para retirar Bolsonaro do Brasil

Outro ponto central da publicação do Clarín envolve uma suposta operação internacional para viabilizar a saída de Flávio Bolsonaro do território brasileiro. Segundo o relato, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, teria articulado politicamente a operação, com colaboração do governo argentino.

A reportagem afirma que o Departamento de Estado dos Estados Unidos teria solicitado apoio de Milei para executar a estratégia. Washington também teria mantido contatos com Lula para assegurar uma janela de tempo que permitisse a saída do político brasileiro.

Na Argentina, a operação teria sido coordenada por Santiago Caputo, assessor próximo de Milei, com participação da Secretaria de Inteligência de Estado (SIDE). Agentes envolvidos na logística teriam utilizado a expressão “o pacote” para se referir a Bolsonaro.

Segundo o jornal, a estrutura da inteligência argentina teria disponibilizado veículos e um avião executivo Gulfstream G400 para o deslocamento até Miami, nos Estados Unidos.

Fontes oficiais e representantes do mercado aeronáutico citados pelo Clarín sustentam que Caputo teria recorrido a recursos reservados da SIDE para custear o avião. O valor estimado do fretamento seria de aproximadamente US$ 140 mil.

A aeronave, conforme a publicação, já estaria disponível em Puerto Iguazú cerca de 24 horas antes da operação. O jornal menciona inclusive que a família Bolsonaro teria solicitado arroz com frango para o serviço de alimentação do voo.

Essas informações constituem alegações da reportagem argentina e não devem ser tratadas como fatos comprovados sem documentação independente. O material fornecido não apresenta registros de voo, comprovantes de pagamento ou manifestações oficiais que confirmem o uso de recursos da inteligência argentina.

O Clarín também atribui à operação uma motivação política de Santiago Caputo. O assessor teria buscado reconstruir relações com interlocutores de Washington, especialmente após desgastes com Barry Bennett, Leo Scatturice e Robert Citrone.

<><> Derrota no Brasil amplia dificuldades políticas de Milei

A avaliação apresentada pelo jornal é que o resultado eleitoral brasileiro pode alterar o equilíbrio político regional. Milei vinha apostando no fortalecimento de governos ideologicamente próximos, enquanto Lula procura manter canais de diálogo com o governo do presidente norte-americano Donald Trump.

A reportagem sustenta que a vitória de Lula, apesar da perspectiva de um Congresso hostil, poderia abrir espaço para negociações políticas internas no Brasil e para uma reorganização das relações com Washington.

Na Argentina, o episódio ocorre em meio a questionamentos sobre a capacidade do programa econômico de Milei de produzir uma recuperação perceptível da renda e do consumo.

Integrantes da ala política do governo, ligados à secretária-geral da Presidência, Karina Milei, estariam pressionando o ministro da Economia, Luis Caputo, por medidas capazes de melhorar as condições financeiras da população.

Segundo a publicação, a resposta recorrente do ministro seria: “Aguentem”.

O chefe de Gabinete, Diego Santilli, também teria levado as preocupações diretamente ao presidente argentino. Milei, no entanto, teria descartado mudanças substanciais na estratégia econômica.

“Vou morrer amarrado ao mastro deste programa”, teria respondido o presidente, conforme o relato atribuído a Santilli.

<><> Política econômica enfrenta críticas de empresários e economistas

A resistência de Milei a mudanças ocorre em um cenário de críticas crescentes aos efeitos de sua política de estabilização monetária sobre a atividade econômica.

O Clarín destaca quatro problemas associados à estratégia do governo: a contenção dos salários, que limita o consumo; a valorização cambial, que prejudica a competitividade industrial; a redução dos investimentos públicos, que afeta a infraestrutura; e a manutenção de juros elevados, que restringe a expansão econômica.

O economista Ricardo Arriazu, anteriormente identificado como defensor do programa, teria passado a questionar a condução monetária do Banco Central argentino. Segundo a publicação, ele acusou Santiago Bausili, presidente da instituição, de “sufocar a atividade”.

O ex-ministro da Economia Domingo Cavallo também criticou a administração cambial: “Este governo administra o dólar como Moreno administrava os preços”.

No setor industrial, dirigentes da União Industrial Argentina (UIA) estariam pressionando seu presidente, Martín Rappallini, a apresentar publicamente as dificuldades enfrentadas pelas empresas.

A reportagem menciona levantamento da consultoria Orlando Ferreres que indicaria crescimento de apenas 0,1% da atividade econômica no período analisado, acompanhado de retração em setores como indústria, agropecuária, bancos e construção.

O desempenho econômico também estaria provocando preocupações entre investidores internacionais. Em uma reunião de representantes do mercado financeiro em Wall Street, executivos teriam discutido os riscos associados à continuidade da estratégia econômica argentina.

O jornal relata ainda que representantes da BlackRock transmitiram uma avaliação de cautela sobre investimentos em ativos argentinos, atribuída ao presidente da gestora, Larry Fink.

<><> Tensões entre Milei e Patricia Bullrich se aprofundam

As divergências sobre a economia também estariam afetando a relação entre Milei e Patricia Bullrich.

Segundo o Clarín, Bullrich teria advertido o presidente sobre a dificuldade de recuperar o consumo diante da inflação persistente.

“Com a inflação atual, não haverá recuperação do consumo”, teria afirmado.

A publicação relata ainda um episódio ocorrido durante um evento da Fundação Faro, quando Milei fez ataques à imprensa. Bullrich teria demonstrado desaprovação diante de empresários presentes.

Posteriormente, segundo o jornal, ela teria comentado: “Já estou de saco cheio dos insultos”.

O episódio é apresentado como um sinal de distanciamento político entre Bullrich e o núcleo mais próximo do presidente, especialmente Karina Milei.

 

Fonte: Brasil 247

 

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