Ivana
Bentes: Campanha-multidão
O termo
“psicose coletiva” foi repetido em posts e memes para descrever a ansiedade
aguda, a hipervigilância e o esgotamento emocional após o primeiro turno entre
Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Quando Lula ficou atrás e
constatamos que um projeto de Brasil poderia, como em 2018, guinar
catastroficamente para a extrema direita, algo aconteceu.
Em um
país polarizado, no qual a direita passa a controlar, a partir de 2027, 64% do
Senado e 59% da Câmara, as eleições entraram em estado de urgência e contágio
afetivo. O campo progressista e as esquerdas produziram aquilo que Deleuze
chama de um “acontecimento”: quando o intolerável deixa de ser suportável e
precisamos romper a “normalidade” para redistribuir os desejos e agir.
Podemos
nomear essa experiência de Outubro das multidões, Jornadas de outubro de 2026,
Virada, Levante da juventude ou manifestações de outubro.
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Tomar as ruas, os algoritmos e os memes de produção
A
sociedade tomou a campanha para si, passou a fabricar imagens, inventar
palavras de ordem, trazer o humor, os memes e a zoeira, improvisar linguagens e
fazer das ruas uma imensa superfície de comunicação e experimento político.
Quando
Lula apareceu em 7 de outubro segurando o próprio celular e dizendo “bora,
gente, pra rua”, a campanha institucional incorporou uma gramática que já
circulava fora dela: o vídeo selfie, a autoexpressão. O vídeo, o meme e a
declaração para os eleitores precisam ser apropriáveis, repetíveis, remixáveis,
colocados novamente em circulação por milhares de pessoas.
A
primeira barreira ao avanço da extrema direita seria produzir uma onda ao mesmo
tempo coordenada e ingovernável, um movimento multitudinário, heterogêneo e
vivo. Não apenas as mesmas palavras de ordem ou os feitos já realizados, mas um
horizonte de devir e de futuro.
Golpismos,
discursos de desestabilização das instituições, racismo, machismo, pânico
moral, uso da religião como domínio político e capitalismo algorítmico estão
enraizados no tecido social. A todo momento precisamos de uma cola para
produzir coesão em tantas fissuras.
Como
resolver o paradoxo de coordenar uma multidão de 10 milhões de pessoas em um
grupo de WhatsApp e, simultaneamente, descentralizar e perder o controle? Como
transformar um surto e um susto coletivo em algo programático?
É essa
passagem, da campanha dirigida à campanha atravessada por uma multidão, que
elegeu Lula para seu inédito quarto mandato. A virada mobilizou estudantes,
fandoms, torcidas, idosos, ativismos de nicho e eleitores que rejeitam o
bolsonarismo, além de mídias independentes, do jornalismo investigativo ao
humor, do ninjismo ao janonismo: o Exército do Lula digital, comandado por
André Janones.
A onda
encontrou obstáculos, da trava da Meta para postagens ao boicote de ônibus no
dia da votação, mas produziu uma virada extraordinária: 64.256.232 votos para
Lula no segundo turno, sabendo que será, aos 81 anos, sua última eleição.
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Da crise da representação à campanha-multidão
Junho
de 2013 e Outubro de 2026 repetem formas inquietantes de mobilização, mas seria
um equívoco tomar a semelhança das linguagens por identidade dos projetos
políticos. Junho fez explodir pautas e recusas, em tensão com partidos e
representação; Outubro combina energia heterogênea e objetivo eleitoral em
torno de Lula.
O
problema da representação não desaparece: muda de posição no interior do
acontecimento. Os “desorganizados”, que em 2013 se organizavam no Facebook,
agora usam Instagram, WhatsApp, TikTok, X e YouTube. Em Junho, coletivos
produziam aquilo que chamávamos de enxameamento: atos multiplicados sem comando
único. Em Outubro, manifestações estudantis, artistas, criadores de jingles,
indígenas, ribeirinhos e iniciativas de mobilização ancestral e digital
tampouco esperaram sempre a orientação central da campanha.
Esse
“arco da aliança” trouxe a força das mídias independentes: Mídia NINJA,
Revelando.Brasil, ICL Notícias, The Intercept Brasil, Revista Fórum, Lupa, Aos
Fatos, perfis de humor e tantas redes de investigação, checagem, memes, música
e zoeira.
O novo
está na coexistência desses multiversos e na sincronicidade das “bolhas”:
pequenos grupos capazes de convocar, propor linguagens, agir por iniciativa
própria e, em outras ocasiões, sob comandos coordenados. A campanha oficial se
manteve organizada, mas tornou-se porosa. A campanha oficial perdeu a
exclusividade, não necessariamente o controle.
Lula, o
“presidente analógico” que dizia não usar celular, atravessou a quarta parede
da tela. Sempre foi, de certa forma, o meio e a mensagem, mas passou a
comunicar o que chamo de “vida-linguagem”: o corpo que fala, a afetividade que
transborda, menos um populismo digital do que um popular pop, um digital
atravessado pela oralidade.
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O Exército do Lula – como adestrar o algoritmo
A
guerrilha digital de André Janones produziu uma mudança tática profunda. Em vez
da resposta institucional e da temporalidade lenta da checagem, passou a operar
por antecipação, conflito, expectativa, suspense e linguagem coloquial.
Anúncios de revelações, provocações e contradições do adversário: tudo para
ocupar o fluxo antes favorável à extrema direita.
O
apoiador passa a ser simultaneamente eleitor, produtor, editor e distribuidor:
do eleitor como “público-alvo” ao eleitor como infraestrutura comunicacional. A
campanha somos nós! A sacada de André Janones foi produzir uma ação coordenada
fora da linguagem partidária tradicional, sem perder o objetivo eleitoral.
O
Exército do Lula, canal de WhatsApp administrado pelo deputado, chegou a mais
de 10 milhões de seguidores em 23 de outubro. Era uma tensão entre autonomia e
convergência, uma pedagogia digital fulminante que ensinou como “adestrar” o
algoritmo e produzir sincronicidade.
Ações
simples: curtir, comentar, assistir aos vídeos até o fim, salvar, subir
hashtags no mesmo horário, seguir perfis progressistas #esquerdasegueesquerda e
cumprir missões diárias de postagem. Tudo impulsionado por um “algoritmo
humano”, Janones, que comandava aos berros de “Pessoal, urgente!” e
“Explodam!”, produzindo um estado alterado de disponibilidade.
Já não
se tratava apenas de consumir o fluxo, mas de intervir deliberadamente nele. A
metáfora deleuziana de surfar a onda ajuda a entender a operação, mas exige uma
ressalva: nas sociedades de controle, o surfe também é imagem da modulação
permanente, da obrigação de adaptar-se a fluxos que não controlamos. Surfar não
é construir um muro contra o algoritmo: é insinuar-se nele, usar sua energia,
deslocar a pauta. Precisamos também furar a onda e, mais difícil ainda,
inventar outras.
O
sequestro da bandeira brasileira pelo bolsonarismo havia sido traumático; a
resposta foi inundar o feed com camisas da seleção, roupas verde-amarelas e o
gesto em L.
Uma
ação especialmente mudou minha visão de guerrilha midiática: os apelos de André
Janones para não comentar, não repercutir, não engajar perfis de extrema
direita. Mas talvez estivéssemos diante de uma diferença decisiva entre
confronto político e alimentação algorítmica do conflito.
Não é
necessário oferecer nossa indignação como combustível gratuito às narrativas
adversárias. Mas não engajar não pode significar não conhecer, não investigar
nem contestar uma falsidade. O silêncio tático diante de um post não deve virar
bolha impermeável à crítica.
A
imagem e a visibilidade são capitais preciosos a serem geridos numa eleição e
para além dela.
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Economia narrativa – da indignação moral à indignação esclarecida
Há algo
profundamente incômodo quando a imprensa brasileira e a mídia global
transformam as bravatas de Donald Trump e as atrocidades ditas por Jair, Flávio
Bolsonaro ou Nikolas Ferreira em caça-cliques e numa campanha involuntária de
propagação dos extremismos.
Uma
economia narrativa da provocação e do escândalo colocou a extrema direita como
protagonista permanente do noticiário. Há coberturas jornalísticas que
amplificam e naturalizam a desinformação em nome de uma equivalência
inexistente entre enunciados, que no limite se torna antiética.
André
Janones, Mídia NINJA, Revelando Brasil e 342Artes buscaram o viral associado a
pautas reais e propostas de Lula, diferente das campanhas de indignação moral.
O vídeo de Nikolas Ferreira sobre “O Nordeste que foi esquecido” tornou-se
exemplar: uma superprodução com teleprompter e enquadramentos escolhidos para
mostrar pobreza e sofrimento e produzir ressentimento contra Lula.
Quando
os bastidores das filmagens circularam e moradores contestaram a imagem de um
Nordeste miserável e passivo, a indignação mudou de objeto e voltou-se contra o
olhar que transformava o Nordeste em cenário de miséria. Voltou-se contra o
olhar que transformava a região em cenário de miséria para fins eleitorais.
A
comunicação foi mais inventiva quando não respondeu apenas “Nikolas está
errado”, mas produziu paródias, memes e zoeiras que expunham a moralidade
escondida no enquadramento. Da indignação moral se produziu uma indignação
esclarecida: não apenas disputar o escândalo, mas revelar quem o construiu, de
que lugar fala e para que serve. Essa é a diferença entre surfar o algoritmo e
envenenar o mar de informações com fake news, cinismo e vale-tudo.
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A visibilidade das multidões
Outubro
foi também um levante da juventude, vetor de aceleração e urgência. A
disponibilidade dos estudantes para ir imediatamente às ruas depois do
resultado-catástrofe para Lula no primeiro turno foi decisiva.
Mas a
campanha-multidão não foi movida apenas pela juventude. Uma das imagens mais
comoventes foi a dos idosos: avós levados por filhos e netos, alguns com
dificuldades de locomoção, fazendo questão de votar sem obrigação legal. Há
algo extraordinário nesse encontro entre gerações: jovens que inventam
linguagens e idosos que carregam a memória de vidas e lutas. Uma multidão
intergeracional.
A
sequência das manifestações desembocou, em 18 de outubro, no Ato Musical pela
Democracia, em Copacabana. Convocado por Caetano Veloso e Paula Lavigne,
organizado pelo 342Artes e pela Mídia NINJA, reuniu Caetano, Djavan, Xamã,
Frejat, Marina Sena, Duda Beat, Ivan Lins e Fernanda Abreu. Não foi apenas um
espetáculo: MPB, Tropicália, samba, pagode, rock, rap, funk, bandeiras
LGBTQIA+, cartazes e corpos de diferentes idades transformaram a Avenida
Atlântica em experiência comum.
Os Atos
pela Democracia, do Rio a Salvador, do rap periférico paulistano ao samba na
Lapa, foi articular cultura, ruas e comunicação como dimensões simultâneas da
ação coletiva. As manifestações ocorreram em mais de 600 cidades brasileiras,
capitais e interior, numa capilarização territorial inédita.
O
342Artes converteu laços culturais em convocatória pública; a Mídia NINJA atuou
na mobilização, cobertura ao vivo e circulação de imagens. Não há mais
separação entre convocação e narração.
A rua
produz imagens; as imagens tornam a rua reconhecível; essa visibilidade retorna
às redes e pode produzir uma “cola” coletiva. Redes e ruas têm um só sistema
nervoso, um só transe.
O
estado maníaco deste segundo turno tem produzido uma síndrome de abstinência
pós-eleições: de posts, memes, músicas e principalmente jingles. Em 2026,
deixaram de ser apenas trilha oficial de campanha e viraram armas meméticas:
pedaços curtos, repetíveis, remixáveis, fáceis de circular no Instagram,
TikTok, WhatsApp, Reels e ruas.
“Bora
Lula”, “Rap do Silva” e jingles como “Tariflávio” mostraram que a música
funcionou como dispositivo de mobilização, deboche e fabricação de
pertencimento. Mais do que convencer por argumento, condensavam posições
políticas em refrões, afetos e ritmos reconhecíveis: uma batalha também sonora,
capaz de transformar campanha em cultura popular.
No
campo pró-Lula, jingles e paródias circularam de forma distribuída e memética,
numa rede afetiva. No campo de Flávio Bolsonaro, o sertanejo concentrou a
mobilização artística mais visível, reforçando uma identidade cultural
organizada.
Tomei
um susto quando vi o próprio Lula agradecendo aos fandoms numa manifestação na
Avenida Paulista! Junho de 2013 havia produzido cartazes escritos à mão,
enunciados singulares, fantasias e vídeos que escapavam à uniformidade. Outubro
atualiza isso com selfies, inteligência artificial, memes, hashtags
sincronizadas, collabs e performances de fãs.
Comunidades
de BTS (ARMYs), Taylor Swift (Swifties), Beyoncé (BeyHive), Lady Gaga, Anitta e
BLACKPINK articularam o Fandoms com Lula, reunindo principalmente jovens,
mulheres e pessoas LGBTQIA+. Vieram mutirões digitais, missões gamificadas,
fanarts e paródias com IA: “Taylula”, “Super Lula” em anime e remixes do
“Pessoal, urgente!” de André Janones.
Os
fandoms trouxeram saberes aperfeiçoados durante anos: edição de vídeos,
tradução colaborativa, hashtags, distribuição de tarefas e redes de confiança.
Não se deve confundir o apoio de fãs com endosso do artista nem imaginar uma
fanbase homogênea. A militância não nasce apenas onde há diretório ou
assembleia, mas também onde existem vínculos duradouros e capacidade de agir em
comum.
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A Revolução não será impulsionada
Hoje as
plataformas decidem o alcance por modelos opacos, impõem formatos e reservam
para si o poder de alterar ou interromper distribuições. A mídia-multidão
conquistou capacidade de produzir narrativas, mas não soberania sobre as
infraestruturas que as fazem circular.
Essa
contradição se tornou explícita na disputa entre a campanha de Lula e o não
impulsionamento de posts pela Meta. A coligação denunciou restrições de
distribuição e problemas na publicidade eleitoral; o TSE exigiu
esclarecimentos. A Meta reconheceu falhas técnicas, bloqueios indevidos e
desativação temporária de uma conta de anúncios, mas negou favorecimento
deliberado a qualquer candidato.
O
reconhecimento dos erros não dissolve a questão política: as condições de
visibilidade de uma eleição dependem de sistemas privados conhecidos apenas
parcialmente. Não disputamos somente o direito de falar. Disputamos quem
aparece, para quem, em que ritmo e com que intensidade. Um meme foi ao ponto:
“A Meta é enlouquecer a Meta”.
A
inteligência artificial radicaliza a questão. Se em Junho de 2013 o streaming
interpelava o monopólio da imagem e do testemunho, em 2026 a disputa envolve o
estatuto do próprio visível. A imagem pode ser registrada, recombinada,
produzida sinteticamente ou acusada de ser sintética mesmo quando é verdadeira.
O projeto VigIA, da Agência Lupa, encontrou 554 publicações com deepfakes no
período monitorado antes do primeiro turno.
A
inteligência artificial permitiu paródias, criação estética e novas formas de
expressão, mas também pode falsificar vozes, inventar cenas e fabricar
evidências. Ameaça a confiança pública não só pela mentira bem produzida, mas
pelo álibi de que toda imagem inconveniente seria artificial.
Uma
controvérsia com a Meta AI no WhatsApp condensou o problema: imagens sobre Lula
e o 13 foram bloqueadas em testes que tiveram resultados diferentes para Flávio
Bolsonaro e o 22. A Meta reconheceu falha técnica e afirmou tê-la corrigido. As
máquinas processam desejos, mas também restringem, geram viés e aceleram
cenários.
O
Brasil não viveu esse outubro isoladamente. Na França, manifestações estudantis
por condições dignas de educação dialogaram com mobilizações contra o custo de
vida. Não há uma onda ideológica unificada, mas uma constelação de impasses
históricos e invenções de linguagem.
Paris
oferece uma imagem instigante. Bandeiras de One Piece, referências a Naruto e
Dragon Ball, super-heróis e games encontraram a memória de Maio de 1968 e das
revoluções francesas. A historiadora Ludivine Bantigny chamou atenção para uma
formulação radical: esses jovens desejariam não apenas mudar a vida, mas
“quitter l’époque contemporaine”, sair da época contemporânea.
A força
da frase está na hipótese de que reivindicações por escolas, salários e moradia
convivem com a recusa de um mundo que reduziu o futuro à repetição da crise.
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Reabrir Junho?
A
pergunta francesa pode ser deslocada para o Brasil: e se, em vez de abandonar a
época contemporânea, fosse necessário reabrir as promessas de suas revoluções
interrompidas? Samuel Hayat, ao refletir sobre Outubro em Paris, propõe
reabrir, e não simplesmente encerrar, a época contemporânea.
Eis o
problema que Junho de 2013 nos devolve: é possível reabrir suas potências sem
reproduzir as condições que permitiram a apropriação de parte daquela
insubordinação pela extrema direita?
Junho
nasceu de conflitos urbanos, da luta contra o aumento das tarifas e da
violência policial, especialmente a repressão de 13 de junho em São Paulo. A
mídia-multidão não apenas registrava essa abertura: produzia novas experiências
de presença e autoria coletiva.
A
recusa das direções partidárias podia significar experimentação democrática;
podia também converter-se em antipartidarismo, hostilidade a sindicatos e
agressões a militantes de esquerda. O que parecia uma só multidão era um campo
de disputa entre ideias incompatíveis de povo, política e futuro.
O
bolsonarismo não estava contido em Junho como uma semente destinada a germinar
cinco anos depois. Junho não produziu sozinho a extrema direita; tornou-se uma
das arenas em que forças distintas aprenderam a disputar a legitimidade das
ruas.
Nem
toda revolta contra o presente deseja um futuro de liberdade. O Tradicionalismo
estudado por Benjamin Teitelbaum, em suas conexões com Steve Bannon, Olavo de
Carvalho e Aleksandr Dugin, articula crítica ao igualitarismo a imagens de
hierarquia espiritual. Há setores cuja promessa não é ampliar a soberania
popular, mas reencantar hierarquias consideradas naturais ou sagradas,
anteriores ao Iluminismo e à Revolução Francesa.
Esse é
o paradoxo que mais me interessa: a extrema direita pode ser tecnicamente
futurista e politicamente regressiva. Usa inteligência artificial, segmentação
algorítmica e imagens sintéticas para promover autoridade paternal, guerra
cultural, obediência e homogeneidade nacional. Um futuro retroativo, o novo
empregado para reinstalar antigas assimetrias.
Essa
dupla direção do desejo de ruptura ilumina Michel Foucault em sua “Introdução à
vida não fascista”, prefácio a O anti-Édipo. Não basta identificar o fascismo
no inimigo, no partido ou no Estado; é preciso interrogá-lo nas pequenas
paixões pelo poder, nos hábitos de obediência e no prazer de esmagar uma
diferença.
Reabrir
Junho exige mais do que celebrar sua estética ou lamentar sua captura. É
disputar o que ficou barrado pela própria esquerda, sem tradução institucional
e continuidade: rejeição da velha política, direito à cidade, comuns urbanos,
participação direta, serviços públicos, crítica à violência de Estado e
capacidade de produzir nossas próprias imagens.
Reabrir
não é inocentar Junho de suas contradições; é impedir que apenas sua
interpretação regressiva permaneça como herança. A multiplicação das vozes pode
produzir ação comum sem identidade única, mas também pequenos autoritarismos,
tribunais digitais e unanimidades punitivas. É combater as novas
infraestruturas do autoritarismo, do tecnofascismo, os algoritmos de destruição
de massas.
Reabrir
Junho, as promessas democráticas, o próprio contemporâneo: não voltar a um
passado idealizado ou demonizado, mas disputar quais presentes e futuros,
temporalidades e espaços ainda podemos inventar. A sociedade que sai às ruas e
às redes reivindica o direito de fazer uma fissura no presente, de jogar mais
uma vez todas as fichas para o alto e acolher a precipitação do novo, não ser
apenas espectadora do futuro que lhe reservaram.
Fonte:
A Terra é Redonda

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