Moisés
Mendes: O Judiciário medroso e devagar precisa ter mais pressa diante de
fascistas fragilizados
Se o
sistema de Justiça decidisse fazer com os criminosos da direita o que os
brasileiros fizeram com o candidato do bolsonarismo, não haveria tantas Miamis
para tantos fugitivos. Já fugiram, além de Flávio, Alexandre Ramagem, Allan dos
Santos, Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli, Monark, alguns deles sem condenação.
Fugiram
até os que ainda não foram julgados em última instância. E todos os condenados
até aqui foram acusados de crimes considerados políticos, principalmente ações
golpistas. Lula disse e repetiu na campanha que Flávio é miliciano. Mas não há
processos contra Flávio por vínculos com milícias.
É na
área criminal da corrupção, principalmente da lavagem de dinheiro, que se
agrupam os grandes impunes do fascismo brasileiro. Como os integrantes das
máfias das emendas, que têm capilaridade nos Estados e nas cidades. Como os
vampiros da pandemia.
São
mais de 70 parlamentares, entre deputados e senadores, dependurados em algum
tipo de inquérito ou processo. Por corrupção miúda e graúda, algumas situações
crônicas, por envolvimento com quadrilhas articuladas com o mercado financeiro,
com o crime organizado, o garimpo, a grilagem e destruidores do meio ambiente.
A
maioria é de gente com vínculos com a extrema direita, e muitos estão agora sem
mandatos, como o próprio Flávio, que fugiu das investigações sobre o filme que
não existe e sobre outras lavagens. O sistema de Justiça é desafiado a levar
adiante, com a derrota do filho ungido, casos empacados por constrangimentos
políticos.
Juízes
empacaram, para ver antes o que iria acontecer na eleição, diante da ação
contra Deltan Dallagnol no Tribunal Superior Eleitoral. Por que empacaram?
Porque não tiveram coragem de cassar o registro do sujeito que, diziam as
pesquisas, seria eleito senador.
Esperaram
para ver o clima pós-eleição. Assim como esperaram por muito tempo, até
decidirem pela não condenação, para julgar os casos de Sergio Moro e Jorge
Seif. O TSE condena prefeitos e deputados com a alma encomendada, mas não se
atreve a condenar senadores.
Dallagnol
foi eleito senador, mas a estrutura bolsonarista que o sustenta está se
esfacelando. O TSE assumirá o risco de cassar seu registro, ou irá se submeter
à imposição da instância inferior do TRE do Paraná, que autorizou sua
candidatura?
O TSE,
que cassou o registro da candidatura de deputado federal de Dallagnol em 2023,
e assim cancelou seu mandato, aceita agora ser desafiado pelo mesmo TRE que
havia poupado o lavajatista?
Quantos
mais serão poupados, por leniência, por subserviência e por outras rimas que
desafiam nossa paciência? O sistema de Justiça brasileiro, subjugado pela
imposição do poder paroquial econômico e político (e não só pelas
interferências em altas Cortes de Brasília), como já admitiu o ministro Edson
Fachin, ainda será obediente aos interesses e ao ritmo imposto pelos poderosos?
Continuará com medo do assédio que ameaça acionar o impeachment de Alexandre de
Moraes?
Comarcas
dominadas por donos das cidades continuarão sob o controle de gente do
dinheiro, como se fossem vilas de faroeste? Em março deste ano, o ministro
Fachin disse em discurso, na reunião com presidentes de tribunais superiores e
tribunais de segunda instância:
“Precisamos
defender a Justiça como quem sabe que ela é o único caminho seguro. Não podemos
deixar que a Justiça fique aprisionada em interesses paroquiais, em
conveniências econômicas ou em cálculos políticos. O que legitima a justiça é o
mesmo ideal que legitima a liberdade. E em nome desse ideal devemos ser
virtuosos, dar o exemplo”.
O
presidente do STF tem sido célere no arquivamento de casos do vasto inquérito
das fake news. Na caneta, extinguiu investigações contra nomes de expressão da
extrema direita, não porque poderiam ser inocentes, mas porque o sistema de
Justiça foi incapaz de dar andamento a inquéritos e processos que os
transformariam em criminosos.
O
ministro precisa cobrar celeridade de comarcas subjugadas pelos “interesses
paroquiais” de poderosos, onde processos são mantidos em hibernação como forma
de manter ativo, pela inação, o que os juristas chamam de litígio predatório,
principalmente contra jornalistas. Informe-se sobre essa realidade com seus
assessores, ministro Fachin.
A
pressa do ministro definiu como prioridade poupar gente de fama do fascismo
cujos casos são tratados pelas altas Cortes, por suas imunidades. E como ficam
as instâncias inferiores sem pressa, que desafiam a corregedoria e o Conselho
Nacional de Justiça?
A
derrota do bolsonarismo é a chance para que, sem tanto medo de desagradar os
interesses de gente perigosa, a Justiça faça o que vem adiando há muito tempo.
Inclusive em pequenas paróquias, ministro Fachin.
¨
Venceremos o fascismo nos votos e nas ruas! Por Florestan
Fernandes Jr
Vencemos,
em 25 de outubro, uma batalha decisiva contra o fascismo, mas estamos longe de
vencer a guerra. Isso porque a vitória nas urnas não significa que o perigo
tenha passado. Ao contrário: a extrema-direita já se movimenta para continuar o
combate por outros meios.
O
quarto mandato do presidente Lula começou no dia seguinte ao encerramento da
apuração, sob ameaça permanente à nossa soberania, alimentada pelo eixo
internacional da extrema-direita, representado por Trump, Netanyahu e Milei.
Não por acaso, os três chefes de Estado ainda não reconheceram a vitória de
Lula.
A fuga
de Flávio Bolsonaro, apenas dois dias após a derrota eleitoral, é mais um sinal
de que a extrema-direita brasileira não pode ser compreendida como um fenômeno
isolado ou estritamente nacional. Flávio fugiu graças ao apoio logístico de um
ex-agente do Mossad, Menachem Booky Halevy, que aparece em várias fotos ao lado
do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Em 2026, o ex-agente do serviço de
inteligência israelense esteve três vezes no Brasil, a última delas em 19 de
outubro, seis dias antes da votação.
Santiago
Caputo, importante assessor do presidente Javier Milei, que mantém relações
diretas com representantes da Casa Branca ligados ao presidente Donald Trump,
também esteve em Puerto Iguazú na noite em que o candidato derrotado, Flávio
Bolsonaro, fugiu do Brasil pela fronteira com a Argentina. Segundo o jornal
Clarín, Caputo monitorou a operação desde o início, quando empresas ligadas à
Embaixada dos Estados Unidos contrataram um voo com a companhia argentina
Baires Fly.
Enquanto
Flávio Bolsonaro se instalava com a família em Miami, o fascismo brasileiro
realizava uma operação típica de milícias: intimidar as populações que votaram
e apoiaram o presidente Lula. Somente entre os dias 28 e 30 de outubro, foram
registradas no Ministério do Trabalho 4.306 denúncias de assédio eleitoral.
Metade delas ocorreu no Sudeste, onde São Paulo concentrou 48,5% do total
registrado na região.
O que
esses episódios revelam é que a derrota eleitoral não interrompeu a ofensiva da
extrema-direita. Ao contrário, ela inaugura uma nova etapa de atuação, que
combina articulação internacional, operações políticas e intimidação interna.
Não estamos diante de manifestações isoladas, mas de uma disputa que ultrapassa
as fronteiras nacionais e ameaça a própria soberania brasileira.
Diante
desse cenário, a responsabilidade pela defesa da democracia não é apenas do
governo Lula. É também de todos aqueles que foram às urnas e garantiram seu
quarto mandato. A esquerda voltou a ocupar as ruas, fez história e demonstrou
que tem força social, capacidade de mobilização e disposição para enfrentar o
fascismo. Essa conquista precisa ter continuidade. É fundamental preservar a
vitalidade desse movimento, manter mobilizado o exército de Lula, nas redes
sociais e nas ruas, e defender incansavelmente as pautas da liberdade, da
democracia e da soberania nacional.
Não
podemos permitir que a energia que nos levou à vitória se dissipe. A esquerda
precisa continuar nas ruas, mobilizada e organizada, sem abrir espaço para o
retrocesso. A batalha eleitoral terminou. A luta pela democracia continua.
¨
Combater o golpismo e governar com as ruas. Por Maurici
Morais
A
vitória consagradora de Lula no segundo turno, conquistando seu quarto mandato
presidencial, contrariou as projeções de todas as pesquisas, a torcida da Faria
Lima e a convicção do bolsonarismo. Como já repisado, a força para a virada
veio das múltiplas e enormes manifestações de rua e da ocupação do espaço
digital nas redes, na defesa das conquistas sociais, da soberania e contra a
ameaça da ultradireita alinhada aos interesses de especuladores e ao trumpismo.
O impacto da vitória foi tão grande que “fazer o L” se tornou símbolo global
das forças progressistas, e o Exército do Lula virou referência digital para a
esquerda democrática no mundo.
Infelizmente,
as reações políticas ao quarto mandato parecem variedades atualizadas do
golpismo que acompanhou o comportamento da direita desde o governo Dilma
Rousseff, que levou ao golpe legislativo contra a primeira presidenta do
Brasil, eleita democraticamente. Como a história mostrou, a aventura golpista
da direita tradicional, que embarcou no golpe contra Dilma, culminou com a
ascensão do então obscuro deputado federal Jair Bolsonaro ao poder. O mesmo que
votou pelo impeachment de Dilma tecendo uma homenagem grotesca ao general
Brilhante Ustra, o mais notório torturador da ditadura militar. Esse movimento,
além de promover a restauração de ideias presentes no período militar, reduziu
a direita tradicional, autodenominada social-democracia, a uma posição de
insignificância, a reboque do autoritarismo, preconceito e opressão da
extrema-direita.
Mesmo
diante da resistência de amplos setores da sociedade e da maioria das Forças
Armadas, animada pelo protagonismo na oposição a Lula, a ultradireita tentou um
golpe no dia 8 de janeiro de 2023. Mas a derrota da articulação golpista e a
punição aos responsáveis não se mostraram suficientes para interromper o
assédio permanente às instituições democráticas e às conquistas sociais. Os
processos sociais e políticos que vêm fortalecendo partidos e movimentos de
ultradireita são de natureza global, têm forte correlação com o aumento das
desigualdades sociais, mas também com o estreitamento de oportunidades
econômicas de melhora da condição profissional e de conforto material de
famílias e indivíduos.
Apesar
da redução da pobreza, da desigualdade, da retirada do país do Mapa da Fome
pela segunda vez, da menor taxa de desemprego da história e do aumento da renda
no Lula 3, há a percepção de que os preços estão bastante elevados,
especialmente na alimentação. Aliado a isso, a expansão do endividamento, dos
juros proibitivos e a insegurança com as perspectivas de futuro têm sido usados
na comunicação da extrema-direita para fomentar o sentimento de desalento e
contra a política.
O
enfrentamento desses problemas, em boa medida herdados dos governos Jair
Bolsonaro e Michel Temer, fruto de políticas neoliberais que ampliam a
desigualdade e as injustiças sociais, demanda tempo, e a necessidade de
soluções é urgente. Todo esse contexto é parte da explicação para a facilidade
com que as manifestações raivosas da extrema-direita penetravam nas camadas
populares, amplificadas pela capacidade de manejo das redes sociais para a
difusão de falsidades e lemas de intolerância.
O
avanço do golpismo em sua variante atualizada tem como atores principais o
tamanho das bancadas extremistas no Congresso e os movimentos sorrateiros da
Faria Lima contra as políticas do governo Lula com a ameaça da catástrofe
fiscal. Já se lê no noticiário da imprensa tradicional que esse deve ser o tema
central do próximo governo. É a velha cantilena de amarrar o governo pela via
do debate público enviesado, em que só são consideradas as preocupações com as
contas públicas e se ignora a necessidade de enfrentamento dos problemas que
afetam a maioria da população. Uma defesa da transferência de renda dos pobres
para os ricos travestida de roupagem técnica.
Mas há
uma novidade no cenário que precisa ser explorada pelas forças progressistas do
país. A fuga de Flávio Bolsonaro produziu um efeito inverso ao esperado: em vez
de unir a direita e a extrema-direita em torno do seu nome, terminou por
desgastar o bordão clássico da fraude eleitoral. A patética carta golpista de
Flávio Bolsonaro engrossou o caldo da extrema-direita, levando os que
patrocinaram o golpismo até aqui a se verem diante da necessidade de buscar
outra via. Esse contexto pode levar a um isolamento da extrema-direita, e isso
precisa ser explorado.
É claro
que os que se veem impedidos pela via democrática de estar no governo vão
tentar inviabilizar o governo Lula 4 e impor sua agenda regressiva de
destruição dos direitos sociais e dos valores de tolerância por dois caminhos
principais: de um lado, no Congresso Nacional, já que saíram das urnas com
maioria significativa; e, de outro lado, na agenda econômica nacional, via pela
qual vão tentar amarrar o governo Lula e impedi-lo de implementar um programa
social robusto e mais à esquerda, como querem os mais de 64 milhões que votaram
em Lula no segundo turno.
Portanto,
é fundamental que o governo se movimente para frear essas ofensivas. Sabemos
que não existe solução mágica; esses movimentos precisam ser contidos e
enfrentados no dia a dia. Mas existe um ator central a nos guiar nesse
enfrentamento: o povo. O Governo Lula 4 precisará, mais do que nunca,
fortalecer as linhas de defesa da democracia e dos avanços sociais estimulando
e fortalecendo o diálogo com as ruas, com a população.
Lula já
falou em ampliar o governo e estabelecer essa conexão com maior intensidade. É
possível, inclusive, imaginar que essa atuação conectada com a vontade popular
será capaz de isolar ainda mais a extrema-direita e criar os contrapontos
necessários no Congresso para a governabilidade. Afinal, saímos do processo
eleitoral seguros de que a força organizada da sociedade estará ativa e alerta
ao golpismo permanente que nos assola há mais de uma década. Os próximos quatro
anos não serão fáceis, mas, ao contrário do pós-golpe contra Dilma e da vitória
sobre Jair Bolsonaro em 2022, agora saímos mais fortes das urnas e com
musculatura na sociedade.
Fonte:
Brasil 247

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