Luiz
Marques: A epopeia lulista
A
vitória espetacular de Luiz Inácio Lula da Silva, tetracampeão na Presidência
da República, se inscreve nas mobilizações políticas que nos hemisférios Norte
e Sul arrebatam multidões. O sentido era igual na França, Espanha, Colômbia ou
no Obelisco argentino para comemorar o metalúrgico reeleito. A esperança achou
o espírito do tempo, ao dialogar com as mentes e corações.
Depois
de penar a supremacia neoliberal, grupos sociais em diferentes geografias
exprimem, de forma sincrônica, o descontentamento em áreas vitais ao exercício
da cidadania. Áreas que foram condensadas na denúncia crua sobre o “custo de
vida” com educação, saúde, moradia, trabalho, salário e mobilidade urbana. Sim,
paciência tem limite. “Do rio que tudo arrasta se diz violento. Mas ninguém diz
violentas as margens que o oprimem”, lembra Bertolt Brecht.
No
século XIX (anos 1830, 1848 e 1871), assim como no século XX (em 1917 e nas
décadas 1920-30 e 1960), o mundo viveu uma explosão de movimentos com viés
transformador e mesmo revolucionário. Agora, outra vez irradia o tremendo
frisson de lutas pelo direito a ter direitos nas ruas e nas praças.
Apesar
de anúncios fúnebres por parte dos autores, ditos pós-modernos, sobre o fim das
ideologias (esquerda e direita) e das classes sociais (substituídas pelas
tribos ou bolhas de pensamento), o fato é: o pleito recém-fechado trouxe de
volta a luta de classes para a esfera pública, as redes sociais e a
institucionalidade. Sabia-se sobre a tendência preferencial dos candidatos.
A
história é o palco da luta de classes que os discursos formulados, em especial
desde a Queda do Muro de Berlim, em 1989, não conseguiram desmontar para
retirar de cena. O conflito entre os “grandes” (que querem oprimir o povo) e os
“pequenos” (que não querem ser oprimidos) acompanha a humanidade através das
épocas; para usar as categorias de Nicolau Maquiavel em Il Principe, escrito em
1513 e publicado postumamente em 1532. Não desejar sofrer uma opressão confere
universalidade à causa dos humilhados e ofendidos.
Essa
teoria da história constitui, em simultâneo, a teoria da sociedade presente.
Serve de lente para um entendimento da virada sensacional e inédita, em que o
candidato que perde por dois milhões de votos no primeiro turno acresce à soma
dez milhões de votos, no segundo. Não, os eleitores não mudaram de ideia. Ocorre que, quem se absteve antes, resolveu
votar. Já outros que haviam votado branco ou nulo validaram a escolha de um
ícone da esquerda mundial, quando o adversário dava a pugna por vencida e antevia
a posse.
Analistas
afirmam que a eleição girou sobre o medo. Pura tautologia. Uma disputa sempre
carrega o temor das implicações individuais e coletivas, na visão da glória ou
do fracasso. Novas propostas para alçar a felicidade e a prosperidade apontam
caminhos díspares para a resolução dos problemas particulares e gerais. Não à
toa, suscitam desafios e galvanizam a subjetividade de atores históricos, que
não são meros atores “de classe”. Paixões são sanguíneas.
A
conjuntura global atravessa um “momento populista”. O termo populismo surge no
decênio 1890, nos Estados Unidos, inspirado na organização dos agricultores e
trabalhadores em oposição às elites financeiras e industriais, pelo People’s
Party. A etimologia deriva do latim, populus. Em uma acepção preconceituosa,
refere-se a militantes políticos defensores de interesses do povo (populist +
sufixo ism que indica doutrina e prática). Na imprensa, é mau agouro.
O
populismo pode ser de direita ao assumir “procedimentos autoritários” num
Estado de exceção pela supressão das instituições vigentes; ou de esquerda por
respeitar as “regras do jogo” no Estado de direito. No caso, então, o postulado
se baseia em dêmos (povo) e krátos (governo, poder) cuja síntese no embate
findo é encarnada por Lula-lá. A democracia com inclusão social, distribuição
de renda e participação cidadã alavanca o programa do futuro.
Para a
cientista política Chantal Mouffe, em Por um populismo de esquerda, mais do que
uma ideologia, o populismo é “uma estratégia discursiva de construção de uma
fronteira política, dividindo a sociedade em dois campos e apelando para a
mobilização dos ‘excluídos’ contra ‘aqueles no poder’ (leia-se o sistema)”. A
gauche dá voz ao silêncio e protege da demagogia de cada dia. É a alternativa
real ao neoliberalismo e à crise do capitalismo, conquanto os afetos das massas
sejam mobilizados politicamente. Desesperar, jamais.
O
realismo da extrema direita e da mídia corporativa supõe a aceitação da ordem
do egoísmo, sob as garras afiadas do capital. O campo progressista questiona a
normalização sistêmica da plutocracia sobre os rumos da nação: o entreguismo
dos bens naturais a interesses estrangeiros, a privatização de empresas
estatais estratégicas e a propalada austeridade fiscal que disfarça na
linguagem moral as perversões da classe dominante. Critica o status quo.
Lula da
Silva ao longo da campanha desfralda a bandeira contra a exploração com a
revogação da despótica escala 6 por 1. Na sequência, atende as reivindicações
de Microempreendedores Individuais (MEIs), amplia o limite anual de faturamento
do setor, perdoa dívidas impagáveis à União e aventa renegociar o devido por 90
ou 95% com os bancos. Afora suspender as Bets que drenam os recursos das
famílias e do comércio pelo estímulo ao vício nas apostas.
Como
não só de pão vivem as pessoas, mas de entretenimento, lazer, recreações
familiares e confraternizações sociais, – o governo garante a gratuidade de
ônibus nos fins de semana em todo o território, com 25% das emendas
parlamentares impositivas. Um arremate de probidade à indecente verba que,
ademais, mina o presidencialismo ao cercear as iniciativas programáticas.
Contra
a alienação na política, o presidente combate um absenteísmo que atinge em
média 20% dos cidadãos aptos a ir às urnas. O incentivo ao civismo patriótico
democratiza a democracia. Contra a alienação na assistência social, corrige as
cifras desatualizadas do Bolsa Família e leva o Pé de Meia ao conjunto dos
estudantes no Ensino Médio, incluindo universitários, para conter o êxodo
escolar dos jovens. Medidas virtuosas, acatadas à contrapelo pela direita em
função de um empoderamento dos laboriosos dadas as eleições.
Ao se
preparar para vestir a faixa presidencial pela quarta vez, Lula ajuda o país a
conhecer a si mesmo e a aprofundar uma política democrática de raiz. É possível
na próxima gestão desenvolver um “reformismo forte” que propicie um padrão de
governabilidade e sociabilidade, para muito além da necropolítica e do
sujeito-mercadoria constrangido pelos dogmas da Faria Lima.
A
horizontabilidade das manifestações gerou brechas para encaminhamento de
demandas que superam o gerencialismo, ao aflorar modalidades participativas.
Com o que a política se desinstitucionaliza e pluraliza, mantendo a
centralidade do antagonismo. Nessa moldura ético-política se produzem as ações
discursivas para hegemonizar a sociedade civil, que responde na marcha de
corpos untados em ideais civilizacionais. Não arvoram a perfeição, senão o
“transitório-porque-aberto” para a campanha de performance autônoma.
A
política permeou o processo conscientizador do país-continente. Politizou a
política com a “questão nacional” e a “questão democrática”. Acordou o povo do
sono dogmático, do Oiapoque ao Chuí, para fazer de uma vibrante eleição a mais
politizada e ideologizada desde o início da redemocratização. O exército
digital do general André Janones e os atos presenciais da vanguarda social
inserem o Brasil no mapa dos levantes que estouram alhures. Ira globalizada.
Temas
universais da modernidade serviram de eixo mobilizador: a soberania, a justiça
social, a defesa do meio ambiente, a luta contra as desigualdades e contra o
leque de violências sobretudo nas cidades de maior porte. O fascismo filtrou o
mal-estar com a temática da segurança pública, o punitivismo e o apelo para a
diminuição da idade penal (16 anos). Estendeu o medo à existência social, sem
reconhecer a resiliência da nação. A imagem da arte reduzida à música
sertaneja, ao final do teatro, afronta o orgulho brasileiro da diversidade.
Aqui,
vale enfatizar a articulação política do “esprit du temps” com a hegemonia da
esperança por sobre as ruínas legadas pela destruição do modelo de Estado,
fundado na guerra de todos contra todos. A correta compreensão da totalidade
extrapola as cores ostentadas pelo vestuário; pressupõe a abertura étnica, de
raça e gênero, condição sexual e social, pluralidade etária e ocupacional.
Enquanto os bolsonaristas passam indiferentes pelo homem branco com o negro sob
grilhões. O racismo e a aporofobia revelam a alma do antipetismo.
Para a
dupla de teóricos Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, no ensaio Hegemonia e
estratégia socialista: Por uma política democrática radical, o discurso cobre a
aridez. “É neste ponto que se torna da maior importância a concepção do social
como “espaço discursivo” – ou seja, que possibilita as relações de
representação estritamente inconcebíveis no interior de um paradigma fisicista
ou naturalista”. Em resumo, a atividade desde os gregos exercida com a palavra
– a política – é o instrumento essencial da epopeia lulista. A lição para o
mundo.
A
utopia da “communauté introuvable / comunidade inacessível”) constrói-se a
partir da satisfação de necessidades básicas, até o sonho se transformar em uma
dialética que descontextualiza e recontextualiza a vontade desperta de
liberdade e igualdade. Os guardiões da Bastilha moderna são as finanças e as
big techs, tecidas pelo monetarismo e os monopólios tecnológicos. Sua tristeza
deve-se à nossa consciência – vertida em uma práxis política dos comuns.
Fonte:
A Terra é Redonda

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