terça-feira, 3 de novembro de 2026

Veja quais hábitos podem estar ameaçando a sua saúde cardíaca

Sono inadequado, estresse crônico e o consumo excessivo de sódio e ultraprocessados estão entre os hábitos mais subestimados pela população e que podem prejudicar a saúde cardíaca de forma silenciosa.

Um estudo, publicado na revista Plos One em 2024, analisou um grupo de pessoas na Coreia e mostrou que o excesso de sal atinge 95,6% das pessoas em alto risco cardiovascular aterosclerótico, seguido pela privação de sono (49,9%) e pelo sedentarismo (43,8%).

À CNN Brasil, Fernando Rangel, cardiologista do Pró-Cardíaco, da Rede Américas, explicou que esses hábitos podem não dar sinais evidentes no curto prazo, mas que a combinação de noites mal dormidas, ansiedade contínua e má alimentação deteriora os vasos sanguíneos e eleva drasticamente os riscos de infarto, AVC e hipertensão.

<><> Privação de sono

De acordo com o médico, o sono inadequado é um dos hábitos mais prejudiciais e subestimados.

A relação entre as horas dormidas e a saúde do coração funciona em dois extremos: dormir pouco (menos de 6 a 7 horas) ou demais (mais de 9 horas) eleva os riscos de hipertensão, infarto, insuficiência cardíaca e AVC.

"Mecanisticamente, a privação de sono deteriora a estrutura e função vascular — mesmo uma única noite sem dormir já se associa a aumento da rigidez arterial", explica o especialista.

Já a insônia crônica prejudica o corpo de três formas principais:

  • Descenso noturno da pressão arterial: Como a pessoa tem dificuldade para dormir, a pressão arterial não cai o suficiente durante a madrugada, deixando o coração e as artérias sob estresse contínuo 24 horas por dia.
  • Disfunção endotelial sistêmica: Os vasos sanguíneos perdem a flexibilidade: A camada interna das artérias (o endotélio) para de funcionar direito, ficando mais rígida e propensa a entupimentos.
  • Resistência à insulina: isso eleva a taxa de açúcar no sangue e favorece o ganho de peso e o diabetes.

A combinação da insônia à menor duração do sono representa um risco cardiovascular ainda maior do que qualquer uma das condições isoladamente.

<><> Ansiedade e estresse crônico

Segundo Fernando, a ansiedade também tem efeito negativos comprovados sobre o sistema cardiovascular.

O cardiologista menciona um metanálise realizada com mais de 2 milhões de participantes de 46 grupos diferentes. A pesquisa mostrou que a ansiedade está associada a maior risco de mortalidade cardiovascular, doença coronariana, AVC e insuficiência cardíaca.

A ansiedade também se relaciona a maior risco de espasmo coronariano, e favorece hipertensão, adiposidade excessiva e tabagismo.

O estresse e a ansiedade constantes ativam o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal — que coloca o corpo em estado de alerta ––, elevam catecolaminas (como adrenalina e noradrenalina), e reduzem a variabilidade da frequência cardíaca.

As condições também podem resultar no aumento da pressão arterial e no surgimento de lesões cardiovasculares.

Segundo Rangel, o hábito de "estar sempre conectado" (como uso excessivo de dispositivos ou redes sociais) é um padrão reconhecido como fonte de estresse psicológico crônico.

<><> O que fazer?

O médico alerta que sintomas vagos como fadiga, indigestão ou ansiedade, podem esconder um problema cardíaco grave, como a síndrome coronariana aguda, especialmente em mulheres. 

A recomendação é não ignorar esses sintomas "comuns", para que o atendimento seja realizado o mais rápido possível.

Para evitar consequências graves ou reverter danos já existentes nos vasos sanguíneos, os cinco fatores de risco modificáveis devem ser considerados: IMC elevado, pressão arterial elevada, colesterol elevado, tabagismo e diabetes.

Esses fatores respondem por mais da metade de todas as doenças cardiovasculares no mundo — e a pressão alta lidera essa lista.

Por isso, as recomendações envolvem um controle rigoroso da pressão arterial, o fim do tabagismo, o equilíbrio das taxas de açúcar no sangue e a melhora nos níveis de colesterol. Dormir de 7 a 9 horas por noite de forma regular e adotar práticas para gerenciar o estresse e a ansiedade completam os hábitos saudáveis.

Na alimentação, pequenas substituições do dia a dia podem beneficiar a saúde cardiovascular:

  • Dar preferência a leguminosas (como feijão, lentilha e grão-de-bico) e nozes no lugar da carne vermelha em algumas refeições.
  • Evitar ultraprocessados: Substituir carnes processadas (como linguiça, presunto e salsicha) por peixes, e trocar refrigerantes e sucos industrializados por água, frutas e chás.
  • Gorduras boas: Trocar gorduras saturadas e trans (manteiga, gordura animal) por óleos vegetais saudáveis, como o azeite de oliva.
  • Bebidas: eliminar bebidas açucaradas, ricas em açúcares refinados e xarope de milho, é considerado uma das medidas mais simples e de maior impacto, pois previne o acúmulo de gordura no fígado e a alteração do colesterol.

Fernando Rangel também indica padrões alimentares como o Mediterrâneo, DASH e Prudente, que mostram redução consistente de incidência de doenca cardiovascular em comparação à alimentação habitual.

¨      Álcool faz bem à saúde? Por que a ideia de proteção merece cuidado

Durante muitos anos, a ideia de que uma taça de vinho tinto por dia protegeria o coração ganhou espaço nas conversas e até nas recomendações de saúde. O hábito passou a ser visto por muita gente como uma forma de prevenção. Mas essa interpretação exige cuidado: observar menos doenças entre pessoas que bebem pequenas quantidades não significa comprovar que a bebida seja responsável por essa diferença.

Boa parte das pesquisas sobre o assunto acompanha os hábitos das pessoas e seus desfechos de saúde, sem determinar quem vai beber ou deixar de beber. Alimentação, atividade física, tabagismo e condições de vida podem influenciar os resultados. Por isso, atribuir ao vinho uma proteção observada nesses estudos pode levar a uma conclusão equivocada.

A declaração científica publicada em 2025 pela Associação Americana do Coração reconhece que ainda existem incertezas sobre os efeitos cardiovasculares do consumo baixo a moderado. Alguns estudos sugerem associações favoráveis para determinadas doenças, mas isso não estabelece uma relação de causa e efeito. A entidade não recomenda começar a beber, nem consumir vinho ou outra bebida alcoólica para obter benefícios à saúde.

<><> Os efeitos sobre o coração e o cérebro

Quando o consumo é excessivo, os riscos estão mais bem estabelecidos. Beber muito, tanto de forma habitual quanto em episódios concentrados, está associado a hipertensão, arritmias, enfraquecimento do músculo cardíaco e acidente vascular cerebral, o AVC. A elevação da pressão arterial é um dos caminhos pelos quais o álcool pode contribuir para comprometer a circulação e o cérebro.

Os efeitos cerebrais também podem ocorrer por outros mecanismos. O consumo intenso e prolongado pode causar danos diretos às células nervosas, favorecer deficiências nutricionais e alterar processos metabólicos. Mudanças na resposta imunológica e processos inflamatórios também participam dos danos relacionados ao álcool. Não se trata, portanto, apenas dos efeitos passageiros percebidos durante a embriaguez.

Outros hábitos precisam entrar nessa avaliação. Tabagismo, sedentarismo e alimentação inadequada podem coexistir com o consumo elevado e acrescentar riscos. Isso, porém, não permite afirmar que todas as pessoas que bebem apresentem essas características, nem elimina os efeitos próprios da bebida sobre o organismo.

<><> Existe uma quantidade sem risco?

Não há uma quantidade de álcool que possa ser apresentada como completamente isenta de riscos para a saúde. Isso não significa que beber ocasionalmente represente o mesmo risco que consumir grandes volumes todos os dias. A quantidade, a frequência e os episódios de excesso fazem diferença, assim como as características de cada pessoa. A Organização Mundial da Saúde ressalta que mesmo níveis baixos podem trazer riscos, embora a maior parte dos danos esteja relacionada ao consumo intenso, contínuo ou episódico.

Também é preciso olhar além do coração. O álcool aumenta o risco de diferentes tipos de câncer, incluindo os de mama, fígado, intestino e esôfago. Uma possível associação favorável em determinado desfecho cardiovascular não pode ser interpretada, isoladamente, como benefício para a saúde como um todo.

Para quem não bebe, não existe motivo médico para começar em busca de proteção. Para quem bebe, reduzir a quantidade e evitar episódios de excesso são medidas que ajudam a diminuir os riscos. A prevenção cardiovascular deve se apoiar em cuidados com benefícios comprovados, como controlar a pressão arterial, praticar atividade física, não fumar e manter uma alimentação adequada. A taça de vinho não substitui esses cuidados.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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