Flávio
Bolsonaro e seis senadores derrotados deixarão Congresso com inquéritos no STF
A saída
de parlamentares derrotados nas eleições de 2026 poderá ampliar a
vulnerabilidade política de senadores que enfrentam investigações e processos
no Supremo Tribunal Federal (STF). Além de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que deixou
o Brasil após descumprir uma determinação judicial, outros seis senadores não
reeleitos possuem pendências na Corte relacionadas a suspeitas de
irregularidades financeiras, uso de recursos públicos e disputas judiciais.
Segundo
levantamento publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, seis dos 18 senadores
que tentaram a reeleição e foram derrotados respondem a investigações ou
figuram em procedimentos no Supremo. Entre os nomes citados estão Ciro Nogueira
(PP-PI), investigado por suspeitas de favorecimento ao Banco Master, e Weverton
Rocha (PDT-MA), mencionado em apurações sobre lavagem de dinheiro relacionada
ao esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O
encerramento dos mandatos, em janeiro de 2027, não significa necessariamente
que os processos deixarão o STF. Uma decisão tomada pela Corte em março de 2025
estabeleceu que o foro por prerrogativa de função permanece válido após a saída
do cargo quando os fatos investigados ocorreram durante o exercício do mandato
e possuem relação com as atribuições parlamentares.
<><>
Flávio Bolsonaro enfrenta investigações após deixar o Brasil
A
situação de Flávio Bolsonaro ganhou uma dimensão adicional depois que o senador
deixou o país, em 27 de outubro, apesar das restrições determinadas pelo
ministro Alexandre de Moraes. Na véspera, o magistrado havia ordenado a
apreensão de seus passaportes, proibido viagens internacionais e impedido
contatos com outros investigados.
O
parlamentar viajou com familiares para os Estados Unidos. Após a saída, a
Polícia Federal cancelou seus passaportes brasileiros e iniciou uma apuração
sobre as circunstâncias do descumprimento das medidas judiciais.
Na
quarta-feira (28), Flávio divulgou uma carta na qual se apresentou como o
“verdadeiro presidente eleito do Brasil”, embora tenha sido derrotado por Luiz
Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais.
Uma das
investigações envolvendo o senador trata de suspeitas de lavagem de dinheiro e
evasão de divisas relacionadas ao advogado Willer Tomaz, apontado como seu
amigo. Outra frente examina o financiamento de Dark Horse, produção
cinematográfica sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
Áudios
divulgados pelo Intercept Brasil revelaram cobranças de Flávio a Daniel
Vorcaro, controlador do Banco Master, relacionadas ao financiamento do filme. O
senador reconheceu ter procurado patrocinadores privados, mas rejeitou a
existência de irregularidades.
<><>
Ciro Nogueira e Weverton Rocha são investigados
O
senador Ciro Nogueira também aparece em investigações relacionadas ao Banco
Master. A Polícia Federal apura suspeitas de que o parlamentar tenha atuado
para beneficiar interesses da instituição financeira mediante o recebimento de
vantagens indevidas.
As
suspeitas envolvem possíveis pagamentos realizados por Daniel Vorcaro entre
2024 e 2025, com utilização de empresas vinculadas às famílias do banqueiro e
do senador. Ciro nega qualquer participação em práticas ilícitas.
No
Maranhão, Weverton Rocha enfrenta apurações sobre possíveis conexões
financeiras com o esquema de descontos fraudulentos em benefícios
previdenciários. Os investigadores suspeitam que o parlamentar tenha recebido
recursos provenientes das irregularidades identificadas no INSS.
Weverton
contesta as suspeitas e sustenta que as movimentações financeiras examinadas
correspondem a atividades profissionais e empresariais devidamente informadas à
Receita Federal.
O
senador também figura em outro procedimento, sob relatoria do ministro Flávio
Dino, relacionado à suspeita de interferência na investigação do assassinato de
um empresário no Maranhão, ocorrido em 2022. O parlamentar nega ter interferido
no trabalho das autoridades.
<><>
Emendas parlamentares estão sob fiscalização
Outros
casos examinados pelo Supremo envolvem a aplicação de recursos provenientes de
emendas parlamentares. O senador Carlos Viana (PSD-MG) é citado em uma apuração
sobre R$ 3,6 milhões destinados à Fundação Oásis, entidade ligada à Igreja
Batista da Lagoinha.
O
ministro Flávio Dino determinou que a Controladoria-Geral da União (CGU)
realize uma auditoria sobre os repasses, com conclusão prevista para dezembro.
A Polícia Federal também recebeu prazo adicional de 60 dias para indicar a
necessidade de novas diligências.
A
expectativa é que o procedimento continue em andamento após o encerramento do
mandato parlamentar. Carlos Viana nega irregularidades na destinação dos
recursos.
O
senador Carlos Fávaro (PSD-MT), que também ocupou o Ministério da Agricultura,
teve emendas submetidas a procedimentos de fiscalização. Auditorias da CGU
identificaram problemas de planejamento e transparência em transferências
destinadas a municípios de Mato Grosso.
Paralelamente,
o Tribunal de Contas estadual examina suspeitas de superfaturamento em obras
financiadas com recursos indicados pelo parlamentar. Fávaro rejeita as
acusações de irregularidades.
O
ex-ministro também foi alvo de um pedido de impeachment apresentado pela
oposição ao STF, sob a alegação de que teria deixado de responder a um
requerimento da Câmara dos Deputados durante sua passagem pelo governo. O
procedimento está sob relatoria do ministro Luiz Fux, sem decisão registrada
sobre sua admissibilidade.
<><>
Renan Calheiros e Zenaide Maia enfrentam queixas-crime
As
pendências judiciais não se limitam a suspeitas de corrupção ou desvios de
recursos públicos. O senador Renan Calheiros (MDB-AL) enfrenta ações
apresentadas por seu adversário político Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da
Câmara dos Deputados e eleito para o Senado em 2026.
As
queixas-crime envolvem declarações de Renan sobre supostas irregularidades
relacionadas ao orçamento secreto e alegações de interferência na Polícia
Federal. Durante a campanha eleitoral, Lira apresentou novas medidas judiciais
contra o emedebista, que também figura em recursos em tramitação no Supremo.
A
senadora Zenaide Maia (PSD-RN), por sua vez, é alvo de uma queixa-crime
relacionada a supostos crimes contra a honra. Uma advogada atribui à
parlamentar e a um comunicador participação em ataques realizados nas redes
sociais.
Entre
os elementos apresentados na acusação está um pagamento de R$ 5 mil ao
comunicador, efetuado com recursos da cota parlamentar. A existência da
queixa-crime não representa comprovação das acusações.
<><>
Decisão do STF mantém foro após o fim do mandato
A
definição sobre o destino das investigações ganhou novos parâmetros em março de
2025, quando o STF decidiu, por sete votos a quatro, que o foro por
prerrogativa de função pode continuar válido mesmo depois que uma autoridade
deixa o cargo.
O
entendimento foi firmado durante a análise de um processo contra o senador
Zequinha Marinho (Podemos-PA), derrotado nas eleições de 2026.
O
parlamentar tornou-se réu sob a acusação de exigir que funcionários de seu
gabinete destinassem mensalmente 5% de seus salários ao Partido Social Cristão
(PSC), sob ameaça de exoneração. As suspeitas remontam a 2013, quando Zequinha
exercia mandato de deputado federal.
Desde
então, o processo passou por diferentes instâncias, acompanhando mudanças na
trajetória política do acusado, que deixou a Câmara, assumiu a
vice-governadoria do Pará e posteriormente conquistou uma cadeira no Senado.
Zequinha negou as acusações.
Ao
examinar um pedido de sua defesa, o Supremo estabeleceu que a competência da
Corte deve ser preservada quando os fatos investigados tiverem ocorrido durante
o exercício do cargo e estiverem relacionados às funções desempenhadas.
O
entendimento impede que a simples perda do mandato provoque automaticamente a
transferência dos processos para a primeira instância.
O
criminalista Marcelo Crespo, coordenador de Direito da ESPM-SP, explicou ao
Estadão que será necessário examinar individualmente se as condutas
investigadas “possuem ligação com sua atuação parlamentar”.
Essa
avaliação será determinante para estabelecer quais procedimentos continuarão no
STF e quais poderão ser encaminhados a outros órgãos judiciais.
<><>
Fim dos mandatos reduz proteção política dos investigados
Mesmo
nos casos em que as investigações permanecerem sob responsabilidade do Supremo,
os senadores derrotados perderão garantias constitucionais associadas ao
exercício do mandato.
Entre
essas proteções estão as restrições à prisão de integrantes do Congresso
Nacional e a possibilidade de a respectiva Casa legislativa suspender o
andamento de determinadas ações penais.
A
mudança também possui consequências políticas. Parlamentares em exercício
dispõem de instrumentos institucionais para reagir a decisões judiciais e
mobilizar aliados no Legislativo, situação que tende a se modificar após a
saída do Congresso.
Para
Luiz Gomes Esteves, professor de Direito do Insper, a perda do mandato reduz a
capacidade dos políticos de articular resistência institucional diante de
investigações e decisões judiciais.
“De um
lado, os senadores podem mobilizar processos de impeachment para reagir a
eventuais investigações iniciadas pelo STF”, afirmou o especialista ao Estadão.
Segundo
sua avaliação, a saída do Legislativo também diminui a possibilidade de
mobilização corporativa em defesa dos antigos parlamentares. Com isso, medidas
judiciais que poderiam provocar confrontos políticos durante o exercício do
mandato tendem a enfrentar menor resistência institucional.
A
combinação entre a manutenção do foro em determinados casos e a perda das
garantias parlamentares poderá produzir um novo cenário para os investigados a
partir de janeiro de 2027. Embora a competência do Supremo dependa das
circunstâncias de cada processo, o fim dos mandatos reduzirá a proteção
institucional disponível aos senadores derrotados.
• Gustavo Tapioca: O fugitivo pode voltar
Trump,
o anfitrião cúmplice dos Bolsonaro, corre o risco de ver ruir sua maioria no
Congresso nas eleições de meio de mandato desta terça-feira, 3 de outubro.
Diante da ameaça de derrota republicana nas urnas, o fugitivo Flávio Bolsonaro
não demora a enfrentar a ironia do próprio destino e de um possível “Fora
daqui.”
Play
Video
A
Justiça brasileira estará à espera do foragido que queria se esconder atrás de
Trump e Rubio. Um derrotado nas urnas, nas redes e nas ruas brasileiras que
transformou o Código Penal numa lista de tarefas cumpridas. Ou, como circula
também nas ruas e nas redes: Flávio
gabaritou o Código Penal.
A
aproximação das eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos
colocou em curso um relógio regressivo para a milionária fuga de Flávio
Bolsonaro.
Se a
projeção de vitória dos democratas se confirmar nas urnas nesta terça-feira, 3,
a permanência do Bolsonaro Flávio em solo americano deixará de ser um ato de
compadrio sob a chancela da Casa Branca e se tornará um impasse institucional
de altíssimo custo para Donald Trump.
Embora
a legislação norte-americana reserve ao Poder Executivo — via Departamento de
Estado e de Segurança Interna — a prerrogativa formal de conceder vistos ou
executar deportações, a mudança da maioria no Congresso altera drasticamente o
cenário.
Com o
controle dos Comissões e o poder legal de emitir intimações (subpoenas), a
oposição democrata não hesitará em transformar a proteção ao fugitivo em
munição contra a Casa Branca. O santuário imaginado pelos Bolsonaro na Flórida
ameaça se converter, em ritmo acelerado, na mais incômoda armadilha
diplomática.
<><>
Bastidores da fuga
A
reconstrução dos bastidores da fuga milionária de Flávio expôs o enredo de uma
desesperada operação transnacional. Reportagem do Clarin descreve
minuciosamente que, para escapar das ordens judiciais e burlar o monitoramento
da Polícia Federal, o candidato derrotado enfrentou mais de 20 horas de carro a
partir de Brasília até a fronteira em Puerto Iguazú, trocando de veículos e
despistando autoridades.
O plano
esbarrou em momentos de tensão na Argentina. Foi necessária a intervenção do
governo de Javier Milei e a articulação diplomática expressa vinda de
Washington para destravar a saída do jato por um acesso secreto do aeroporto.
Segundo
o The New York Times, a operação teve a articulação direta de Jason Miller,
conselheiro sênior de Trump, em alinhamento constante com o ex-deputado
Eduardo, outro Bolsonaro que atua em solo americano como traidor da pátria e
despachante do clã junto ao trumpismo.
<><>
O custo milionário da rota de fuga
A
dimensão financeira da escapatória escancara cifras que exigem investigação
imediata. O Gulfstream G400, matrícula argentina LV-JQW, da empresa Baires Fly,
custa R$ 187 milhões.
O
fretamento do jato executivo para a rota Puerto Iguazú–Miami (com escala no
Equador) custou US$ 150 mil (cerca de R$ 800 mil), pagos por um intermediário
nos EUA.
O dono
do jatinho, Luis Grande, em entrevista à AFP, disse que recebeu o pagamento de
um broker (intermediário) que mora nos EUA, de uma conta empresarial americana
para uma conta argentina.
A
pergunta central permanece: quem bancou essa fatura milionária? Trata-se de
caixa dois, do Dark Horse e de outros “investimentos” de Vorcaro?
Dinheiro
não declarado ou o patrocínio escancarado de grupos de interesse estrangeiros
dispostos a comprar a soberania do Brasil que Flávio oferecia se fosse eleito?
<><>
“O hemisfério é nosso”
O
acolhimento em Miami não foi mero ato de solidariedade ideológica; é a
engrenagem de uma versão repaginada da Doutrina Monroe. Marco Rubio, à frente
do Departamento de Estado, resumiu essa geopolítica na frase: “O hemisfério é
nosso”.
Trata-se
da obsessão em dominar a América Latina e desestabilizar por fora o que a
extrema-direita perdeu nas urnas por dentro.
No
entanto, o pragmatismo de Washington nunca conheceu lealdade. Na política
externa americana, aliados cooptados duram exatamente até o momento em que se
tornam um transtorno contábil ou eleitoral.
E a
ilusão de que a Flórida seria um santuário inexpugnável pode ruir diante da
calculadora fria dos midterms, a eleição desta terça-feira, 3 de novembro.
• A fuga, o financiamento estrangeiro e os
beneficiados. Por Oliveiros Marques
A
reportagem do Fantástico deste domingo sobre a fuga de Flávio Bolsonaro para os
Estados Unidos, tentando escapar de condenações por corrupção, evasão de
divisas e lavagem de dinheiro, revelou uma engrenagem que vai muito além de um
senador em pânico por possivelmente ser pego com a mão na botija.
Um dos
jatos utilizados na operação estaria ligado a um advogado e amigo do fugitivo,
investigado pela Polícia Federal por lavar mais de US$ 1 bilhão em apostas e
nome central no escândalo do INSS que roubou aposentados e pensionistas. Na
prática, o fugitivo seria seu sócio: Flávio é “usuário master” de uma conta
bancária da empresa dele em um paraíso fiscal.
Na van
que cruzou a fronteira estava um advogado da defesa de Jair Bolsonaro. Na
Argentina, a entrada do senador foi registrada três vezes em 40 minutos, com
passaporte italiano, carteira de motorista e passaporte brasileiro, e o comboio
teve caminhonete da chancelaria e batedores da polícia aeroportuária. Segundo o
jornal argentino Clarín, o principal assessor de Javier Milei acompanhou cada
etapa da empreitada de fuga.
O voo
final, com escala no Equador para evitar o espaço aéreo brasileiro, custou US$
150 mil, pagos por um intermediário nos EUA, e a imprensa americana aponta um
estrategista e ex-assessor de Donald Trump como organizador. O jato pertence a
uma empresa argentina citada no escândalo de corrupção que derrubou um aliado
de Milei, e cujos executivos estão no centro de investigações sobre conexões
com um operador do tráfico internacional de drogas.
E,
vejam só, havia ainda Menachem “Booky” Halevy, apontado como ex-oficial do
Mossad, serviço secreto de Israel conhecido por métodos nada ortodoxos. Ele
entrou no Brasil em 19 de outubro, antes do segundo turno, após sucessivas
viagens ao país ao longo do ano.
O
entorno de Trump nunca escondeu a simpatia pela candidatura do filho do
ex-presidente preso. Os loucos portenhos, tampouco. Somado ao possível
financiamento de entidades de extrema direita na compra de engajamento nas
redes e ao carinho da Meta pelo candidato derrotado, esse cenário exige uma
investigação profunda sobre interferência e dinheiro estrangeiro na campanha.
A lei é
clara. O artigo 17, II, da Constituição proíbe os partidos de receberem
recursos de entidade ou governo estrangeiros, e o artigo 14, § 9º, protege a
legitimidade das eleições contra o abuso do poder econômico. A Lei 9.504/97
(art. 24, I) veda a candidatos e partidos doações de entidade ou governo
estrangeiro; a Lei 9.096/95 (art. 28, I) prevê o cancelamento do registro do
partido que receber recursos de procedência estrangeira; e a LC 64/90 (art. 22,
XIV) torna inelegível por oito anos quem contribuir para o abuso.
Caberá
às investigações definir se a responsabilidade alcança só a candidatura do
derrotado fujão ou também o seu partido. Mas, beneficiada uma candidatura
presidencial, toda a cadeia político-eleitoral em torno dela teria se valido de
tal vantagem. Se comprovada a interferência, estaremos diante do processo
eleitoral mais fraudado de nossa história fora de uma ditadura. E a fraude não
terá vindo das urnas eletrônicas.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário