Roberto
Xavier: Depois das urnas - o que 2026 acrescentou ao mapa eleitoral brasileiro
Em
agosto de 2026, antes da eleição presidencial, analisei a evolução territorial
do voto nos segundos turnos realizados entre 2002 e 2022. O objetivo não era
prever com exatidão o resultado, mas identificar os movimentos históricos que
estruturavam a disputa. A série mostrava uma passagem da hegemonia petista dos
anos 2000 para a erosão observada entre 2010 e 2014, a ruptura de 2018 e a
recomposição parcial de 2022. Com a incorporação dos resultados de 2026, é
possível verificar em que medida essa recomposição prosseguiu e que tipo de
configuração eleitoral emergiu depois das urnas.
O
resultado principal foi a estabilização do mapa formado após 2018. A
recuperação petista de 2022 não desapareceu, mas perdeu intensidade e não se
converteu em uma expansão territorial contínua. O PT preservou sua ampla
vantagem no Nordeste, permaneceu competitivo em Minas Gerais, alcançou o
equilíbrio no Norte e avançou em São Paulo e no bloco RJ/ES. No Centro-Oeste, o
resultado praticamente não se alterou, enquanto o Sul apresentou pequena
retração. Em vez de produzir uma nova transformação nacional, a eleição
consolidou as funções assumidas por cada território na disputa entre os dois
campos políticos.
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Da recomposição à consolidação
A série
examinada no artigo anterior podia ser organizada em três ciclos. O primeiro,
entre 2002 e 2006, correspondeu à construção de uma ampla coalizão eleitoral
petista, com forte presença no Nordeste e desempenho majoritário ou competitivo
nas demais regiões. O segundo, entre 2010 e 2018, foi marcado pela erosão dessa
base, inicialmente no Centro-Sul e posteriormente convertida em ruptura. O
terceiro começou em 2022, quando o PT recuperou parte importante dos votos
perdidos quatro anos antes. A questão ainda em aberto era se aquela recuperação
iniciava uma expansão duradoura ou representava uma correção depois do
resultado excepcional de 2018.
Os
dados de 2026 favorecem a segunda interpretação. Depois dos grandes
deslocamentos registrados entre 2018 e 2022, as variações mais recentes foram
geralmente pequenas. Minas Gerais, Nordeste e Centro-Oeste praticamente
repetiram os percentuais anteriores; o Norte deslocou-se para o empate; São
Paulo avançou moderadamente; e RJ/ES apresentou a mudança mais significativa em
favor do PT. Apenas no Sul houve retração. Esse conjunto indica que 2022
recompôs parte da base eleitoral desfeita em 2018, mas não inaugurou um
movimento de intensidade comparável. Uma vez superado o ponto mais agudo da
ruptura, novos avanços encontraram limites territoriais mais resistentes.
A
eleição de 2026 permite, portanto, acrescentar uma quarta etapa à periodização
anterior. Depois da hegemonia, da erosão e da ruptura, a recomposição de 2022
deu lugar a uma fase de consolidação. Essa etapa não representa o domínio
nacional de nenhum dos campos. O PT permanece amplamente majoritário no
Nordeste e competitivo nos territórios de equilíbrio, mas continua minoritário
em parte relevante do Centro-Sul. A oposição conserva vantagens importantes
nessas áreas, sem conseguir estabelecer uma maioria consistente em Minas Gerais
e no Norte ou reduzir de forma significativa a desvantagem nordestina.
O novo
mapa é mais segmentado do que aquele observado no início do século. Cada região
passou a desempenhar uma função mais definida: o Nordeste constitui a principal
base petista; Sul e Centro-Oeste são as fortalezas mais estáveis da oposição;
Minas Gerais e Norte funcionam como áreas de equilíbrio; e São Paulo e RJ/ES
permanecem favoráveis à oposição, embora com desvantagens petistas menores do
que em 2018. A competição nacional deixou de depender de grandes movimentos
simultâneos em todo o país e passou a ser influenciada por deslocamentos mais
concentrados, especialmente nos colégios populosos e nas zonas em que nenhum
campo construiu uma vantagem duradoura.
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O que a trajetória projetou e o que as urnas mostraram
A
projeção publicada em agosto utilizou a variação de 2018 a 2022 como
referência. O cenário central aplicava a 2026 metade dos deslocamentos
ocorridos naquele período, partindo da hipótese de que a recuperação
continuaria, mas em ritmo mais lento. O resultado confirmaria essa expectativa
no Nordeste, no Norte e, em menor medida, em RJ/ES. Nos demais territórios, a
recuperação perdeu força ou foi substituída pela estabilidade. A trajetória
histórica identificou corretamente a organização geral da disputa, mas
superestimou a possibilidade de reprodução dos movimentos verificados após
2018.
No
Nordeste, a projeção de 69,1% para o PT ficou praticamente sobre o resultado de
69,4%. A proximidade decorreu da estabilidade demonstrada pela região ao longo
das eleições mais recentes. Depois da forte expansão observada em 2006, a
votação petista consolidou-se em um patamar elevado, com oscilações
relativamente limitadas. Em 2026, a região não ampliou sua vantagem, mas também
não apresentou sinais relevantes de erosão. O desempenho confirmou que sua
principal função na equação nacional é preservar uma margem já estabelecida, e
não produzir sucessivos ciclos de crescimento.
O Norte
também apresentou comportamento próximo do cenário projetado. A estimativa de
49,5% foi seguida por um empate em 50%. A região havia passado de uma maioria
petista nas primeiras eleições da série para uma disputa progressivamente mais
equilibrada, chegando a 2022 com pequena vantagem oposicionista. O novo
resultado completou esse movimento sem estabelecer predominância para qualquer
lado. Ao contrário da estabilidade nordestina, organizada em torno de uma ampla
diferença, a estabilidade do Norte ocorre em torno da paridade e torna a região
sensível a mudanças relativamente pequenas entre uma eleição e outra.
Em
RJ/ES, o PT passou de 43,2% para 46,3%, confirmando a continuidade da
recuperação iniciada em 2022, ainda que sem alcançar os 48,3% do cenário
central. A oposição permaneceu majoritária, mas sua vantagem foi reduzida quase
pela metade. O bloco não retornou ao padrão anterior a 2018, quando o PT ainda
obtinha maioria, mas se tornou mais competitivo. Entre os territórios do
Centro-Sul, foi aquele em que a tendência recente encontrou maior continuidade,
sugerindo que a ruptura de 2018 permanece em processo mais visível de
acomodação.
São
Paulo registrou o maior distanciamento entre a intensidade projetada e o
movimento efetivo. A estimativa de 52,2% pressupunha a continuidade parcial do
crescimento de 14,8 pontos ocorrido em 2022. Nas urnas, o PT alcançou 46,2%,
avanço de apenas 1,4 ponto. O resultado não interrompeu a recuperação iniciada
depois do piso de 30% em 2018, mas mostrou que o salto da eleição anterior não
era reproduzível na mesma proporção. Parte daquele crescimento correspondia à
recomposição de perdas excepcionais, e não necessariamente à formação de uma
tendência capaz de produzir maioria no estado.
Em
Minas Gerais, ocorreu o movimento inverso ao projetado. A aplicação da variação
anterior indicava queda para 46,2%, mas o PT obteve 50,4%, praticamente
repetindo 2022. A redução observada entre 2018 e 2022 não se transformou em
tendência, e o estado permaneceu dividido em proporções quase iguais. Embora o
percentual projetado tenha ficado distante do resultado, a interpretação
estrutural foi confirmada: Minas continuou a funcionar como estado-pêndulo, sem
vantagem consolidada para nenhum campo e com potencial para alterar o
equilíbrio nacional por movimentos relativamente pequenos.
No
Centro-Oeste, a recuperação petista observada em 2022 também encontrou um
limite. Depois de passar de 33,5% para 39,8%, o partido chegou a 40% em 2026,
abaixo dos 43% projetados. O resultado preservou a reação ao piso de 2018, mas
não reduziu de maneira relevante a vantagem oposicionista. A região demonstrou
maior resistência a novos deslocamentos e consolidou uma divisão próxima de 60%
a 40%. Nesse caso, a eleição anterior corrigiu parcialmente um resultado
extremo, sem alterar a orientação predominante do território.
O Sul
foi o único bloco em que a direção esperada não se confirmou. A projeção
apontava crescimento para 41,5%, mas o PT recuou de 38,2% para 37,4%. A
variação foi pequena, porém suficiente para interromper a recuperação iniciada
em 2022. A oposição ampliou ligeiramente sua vantagem e manteve na região sua
maior margem proporcional entre os territórios analisados. O resultado
evidencia que a recomposição posterior a 2018 não possuía a mesma profundidade
em todo o país e encontrou no Sul sua principal barreira territorial.
A
comparação revela, assim, movimentos distintos dentro de uma mesma eleição.
Nordeste e Norte seguiram muito próximos da trajetória estimada; RJ/ES e São
Paulo avançaram na direção esperada, mas em ritmos diferentes; Minas Gerais e
Centro-Oeste permaneceram estáveis; e o Sul registrou reversão. O principal
limite da projeção foi utilizar os deslocamentos entre 2018 e 2022 como
referência parcialmente reproduzível. A metodologia captou os espaços nos quais
havia possibilidade de mudança, mas as urnas mostraram que a recuperação
anterior continha um componente excepcional cuja força havia se esgotado em
parte.
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A matemática territorial depois de 2026
A
análise de agosto sustentava que a manutenção da vantagem petista no Nordeste
reduziria a dimensão da recuperação necessária no Centro-Sul. Como o peso
eleitoral dos territórios é muito desigual, pequenas variações em São Paulo,
Minas Gerais e RJ/ES poderiam produzir efeitos nacionais relevantes. Essa
lógica permaneceu válida, mas os resultados mostraram que sua concretização não
dependia de uma recuperação uniforme. O Nordeste preservou sua margem, enquanto
as mudanças no Centro-Sul ficaram concentradas sobretudo em São Paulo e RJ/ES.
Nos demais blocos, prevaleceram estabilidade ou pequeno recuo.
A
matemática eleitoral não é determinada pelo número de regiões vencidas, mas
pela combinação entre tamanho do eleitorado e diferença construída dentro de
cada território. Uma vantagem ampla no Nordeste pode compensar derrotas mais
estreitas em outras áreas, enquanto as margens oposicionistas no Sul e no
Centro-Oeste precisam ser combinadas com resultados favoráveis nos grandes
colégios do Sudeste. Minas Gerais e Norte assumem importância específica porque
não oferecem uma vantagem previsível a nenhum campo. São Paulo, por sua vez,
permanece central tanto por seu peso eleitoral quanto pela distância ainda
existente entre as duas forças.
Para o
PT, essa configuração exige preservar sua base nordestina, sustentar a
competitividade em Minas Gerais e no Norte e diminuir as perdas nos maiores
colégios do Centro-Sul. Em 2026, os dois primeiros componentes foram mantidos,
mas o terceiro avançou de forma limitada. Para a oposição, a equação depende da
conservação de suas fortalezas, da manutenção da maioria em São Paulo e RJ/ES e
da conquista de vantagens nas zonas de equilíbrio. As urnas preservaram sua
base territorial, mas não produziram mudança suficiente nas áreas em que a
disputa permanece aberta.
O
resultado nacional continua, portanto, condicionado por um sistema de
compensações. A estabilidade regional não reduz a competitividade; ela
concentra a disputa em determinadas margens e territórios. Como as principais
bases de cada campo estão relativamente definidas, a diferença pode ser
produzida por poucos pontos percentuais nos colégios mais populosos. O mapa
permite antecipar onde cada força tende a obter seus melhores resultados, mas
não elimina a incerteza sobre o desfecho, justamente porque os territórios de
equilíbrio e as reduções de margem podem alterar a soma final.
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O que 2018 revelou e 2026 esclareceu
A
ruptura de 2018 foi precedida por uma erosão que já aparecia na série desde
2010, especialmente em São Paulo, RJ/ES, Sul e Centro-Oeste. A novidade daquela
eleição foi a intensidade do deslocamento e a reorganização do campo
oposicionista sob uma nova liderança. A série histórica permitia identificar os
territórios em que a base petista se enfraquecia, mas não poderia determinar
quem ocuparia esse espaço ou em quais condições. Essa distinção permanece
fundamental: a trajetória revela possibilidades e limites territoriais,
enquanto candidaturas, alianças e conjunturas definem sua expressão em cada
eleição.
Os
resultados posteriores permitem dimensionar melhor o alcance daquela ruptura. A
eleição de 2022 recuperou parte do eleitorado perdido, mas 2026 mostrou que
essa recomposição tinha um limite. O PT não retornou à presença territorial dos
anos 2000, nem permaneceu nos patamares excepcionalmente baixos de 2018. A
oposição, por sua vez, conservou o predomínio em extensas áreas do Centro-Sul,
sem transformá-lo em hegemonia nacional. Formou-se uma configuração
intermediária, na qual os dois campos possuem bases consistentes, mas
insuficientes para garantir isoladamente uma maioria nacional.
Essa
sequência também esclarece o alcance das projeções baseadas em tendências
eleitorais. A série histórica foi capaz de reconhecer as funções territoriais
que continuaram presentes em 2026 e de indicar onde existia espaço para
recuperação. Sua limitação esteve em estimar o ritmo dos movimentos. Variações
intensas depois de uma eleição de ruptura podem representar uma correção
extraordinária, e não o início de um deslocamento linear. Uma vez recomposta
parte das perdas, a continuidade passa a depender de mudanças políticas mais
profundas, que não podem ser deduzidas apenas dos percentuais anteriores.
O
balanço de 2026 não deve ser reduzido, portanto, a uma relação entre
percentuais projetados e realizados. O aspecto mais relevante é que a
arquitetura territorial da eleição permaneceu reconhecível, embora os
movimentos dentro dela tenham sido menores e mais desiguais. O Nordeste
confirmou sua estabilidade; o Norte chegou ao equilíbrio; RJ/ES tornou-se mais
competitivo; São Paulo avançou lentamente; Minas Gerais reafirmou sua condição
pendular; e Sul e Centro-Oeste preservaram a predominância oposicionista. O
novo resultado tornou mais precisos os contornos do mapa surgido depois de
2018.
Se 2018
foi a eleição da ruptura e 2022 a da recomposição, 2026 pode ser definida como
a eleição da consolidação. Consolidou-se não a hegemonia de um campo, mas uma
divisão territorial em que as bases regionais estão mais delimitadas e a
decisão nacional depende de margens construídas nos grandes colégios e nas
zonas de equilíbrio. A trajetória histórica identificou corretamente o terreno
da disputa. As urnas acrescentaram a informação que faltava: a recuperação
iniciada em 2022 não desapareceu, mas perdeu força e passou a operar dentro de
uma geografia eleitoral mais estável.
Fonte:
Brasil 247

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