terça-feira, 3 de novembro de 2026

Roberto Xavier: Depois das urnas - o que 2026 acrescentou ao mapa eleitoral brasileiro

Em agosto de 2026, antes da eleição presidencial, analisei a evolução territorial do voto nos segundos turnos realizados entre 2002 e 2022. O objetivo não era prever com exatidão o resultado, mas identificar os movimentos históricos que estruturavam a disputa. A série mostrava uma passagem da hegemonia petista dos anos 2000 para a erosão observada entre 2010 e 2014, a ruptura de 2018 e a recomposição parcial de 2022. Com a incorporação dos resultados de 2026, é possível verificar em que medida essa recomposição prosseguiu e que tipo de configuração eleitoral emergiu depois das urnas.

O resultado principal foi a estabilização do mapa formado após 2018. A recuperação petista de 2022 não desapareceu, mas perdeu intensidade e não se converteu em uma expansão territorial contínua. O PT preservou sua ampla vantagem no Nordeste, permaneceu competitivo em Minas Gerais, alcançou o equilíbrio no Norte e avançou em São Paulo e no bloco RJ/ES. No Centro-Oeste, o resultado praticamente não se alterou, enquanto o Sul apresentou pequena retração. Em vez de produzir uma nova transformação nacional, a eleição consolidou as funções assumidas por cada território na disputa entre os dois campos políticos.

<><> Da recomposição à consolidação

A série examinada no artigo anterior podia ser organizada em três ciclos. O primeiro, entre 2002 e 2006, correspondeu à construção de uma ampla coalizão eleitoral petista, com forte presença no Nordeste e desempenho majoritário ou competitivo nas demais regiões. O segundo, entre 2010 e 2018, foi marcado pela erosão dessa base, inicialmente no Centro-Sul e posteriormente convertida em ruptura. O terceiro começou em 2022, quando o PT recuperou parte importante dos votos perdidos quatro anos antes. A questão ainda em aberto era se aquela recuperação iniciava uma expansão duradoura ou representava uma correção depois do resultado excepcional de 2018.

Os dados de 2026 favorecem a segunda interpretação. Depois dos grandes deslocamentos registrados entre 2018 e 2022, as variações mais recentes foram geralmente pequenas. Minas Gerais, Nordeste e Centro-Oeste praticamente repetiram os percentuais anteriores; o Norte deslocou-se para o empate; São Paulo avançou moderadamente; e RJ/ES apresentou a mudança mais significativa em favor do PT. Apenas no Sul houve retração. Esse conjunto indica que 2022 recompôs parte da base eleitoral desfeita em 2018, mas não inaugurou um movimento de intensidade comparável. Uma vez superado o ponto mais agudo da ruptura, novos avanços encontraram limites territoriais mais resistentes.

A eleição de 2026 permite, portanto, acrescentar uma quarta etapa à periodização anterior. Depois da hegemonia, da erosão e da ruptura, a recomposição de 2022 deu lugar a uma fase de consolidação. Essa etapa não representa o domínio nacional de nenhum dos campos. O PT permanece amplamente majoritário no Nordeste e competitivo nos territórios de equilíbrio, mas continua minoritário em parte relevante do Centro-Sul. A oposição conserva vantagens importantes nessas áreas, sem conseguir estabelecer uma maioria consistente em Minas Gerais e no Norte ou reduzir de forma significativa a desvantagem nordestina.

O novo mapa é mais segmentado do que aquele observado no início do século. Cada região passou a desempenhar uma função mais definida: o Nordeste constitui a principal base petista; Sul e Centro-Oeste são as fortalezas mais estáveis da oposição; Minas Gerais e Norte funcionam como áreas de equilíbrio; e São Paulo e RJ/ES permanecem favoráveis à oposição, embora com desvantagens petistas menores do que em 2018. A competição nacional deixou de depender de grandes movimentos simultâneos em todo o país e passou a ser influenciada por deslocamentos mais concentrados, especialmente nos colégios populosos e nas zonas em que nenhum campo construiu uma vantagem duradoura.

<><> O que a trajetória projetou e o que as urnas mostraram

A projeção publicada em agosto utilizou a variação de 2018 a 2022 como referência. O cenário central aplicava a 2026 metade dos deslocamentos ocorridos naquele período, partindo da hipótese de que a recuperação continuaria, mas em ritmo mais lento. O resultado confirmaria essa expectativa no Nordeste, no Norte e, em menor medida, em RJ/ES. Nos demais territórios, a recuperação perdeu força ou foi substituída pela estabilidade. A trajetória histórica identificou corretamente a organização geral da disputa, mas superestimou a possibilidade de reprodução dos movimentos verificados após 2018.

No Nordeste, a projeção de 69,1% para o PT ficou praticamente sobre o resultado de 69,4%. A proximidade decorreu da estabilidade demonstrada pela região ao longo das eleições mais recentes. Depois da forte expansão observada em 2006, a votação petista consolidou-se em um patamar elevado, com oscilações relativamente limitadas. Em 2026, a região não ampliou sua vantagem, mas também não apresentou sinais relevantes de erosão. O desempenho confirmou que sua principal função na equação nacional é preservar uma margem já estabelecida, e não produzir sucessivos ciclos de crescimento.

O Norte também apresentou comportamento próximo do cenário projetado. A estimativa de 49,5% foi seguida por um empate em 50%. A região havia passado de uma maioria petista nas primeiras eleições da série para uma disputa progressivamente mais equilibrada, chegando a 2022 com pequena vantagem oposicionista. O novo resultado completou esse movimento sem estabelecer predominância para qualquer lado. Ao contrário da estabilidade nordestina, organizada em torno de uma ampla diferença, a estabilidade do Norte ocorre em torno da paridade e torna a região sensível a mudanças relativamente pequenas entre uma eleição e outra.

Em RJ/ES, o PT passou de 43,2% para 46,3%, confirmando a continuidade da recuperação iniciada em 2022, ainda que sem alcançar os 48,3% do cenário central. A oposição permaneceu majoritária, mas sua vantagem foi reduzida quase pela metade. O bloco não retornou ao padrão anterior a 2018, quando o PT ainda obtinha maioria, mas se tornou mais competitivo. Entre os territórios do Centro-Sul, foi aquele em que a tendência recente encontrou maior continuidade, sugerindo que a ruptura de 2018 permanece em processo mais visível de acomodação.

São Paulo registrou o maior distanciamento entre a intensidade projetada e o movimento efetivo. A estimativa de 52,2% pressupunha a continuidade parcial do crescimento de 14,8 pontos ocorrido em 2022. Nas urnas, o PT alcançou 46,2%, avanço de apenas 1,4 ponto. O resultado não interrompeu a recuperação iniciada depois do piso de 30% em 2018, mas mostrou que o salto da eleição anterior não era reproduzível na mesma proporção. Parte daquele crescimento correspondia à recomposição de perdas excepcionais, e não necessariamente à formação de uma tendência capaz de produzir maioria no estado.

Em Minas Gerais, ocorreu o movimento inverso ao projetado. A aplicação da variação anterior indicava queda para 46,2%, mas o PT obteve 50,4%, praticamente repetindo 2022. A redução observada entre 2018 e 2022 não se transformou em tendência, e o estado permaneceu dividido em proporções quase iguais. Embora o percentual projetado tenha ficado distante do resultado, a interpretação estrutural foi confirmada: Minas continuou a funcionar como estado-pêndulo, sem vantagem consolidada para nenhum campo e com potencial para alterar o equilíbrio nacional por movimentos relativamente pequenos.

No Centro-Oeste, a recuperação petista observada em 2022 também encontrou um limite. Depois de passar de 33,5% para 39,8%, o partido chegou a 40% em 2026, abaixo dos 43% projetados. O resultado preservou a reação ao piso de 2018, mas não reduziu de maneira relevante a vantagem oposicionista. A região demonstrou maior resistência a novos deslocamentos e consolidou uma divisão próxima de 60% a 40%. Nesse caso, a eleição anterior corrigiu parcialmente um resultado extremo, sem alterar a orientação predominante do território.

O Sul foi o único bloco em que a direção esperada não se confirmou. A projeção apontava crescimento para 41,5%, mas o PT recuou de 38,2% para 37,4%. A variação foi pequena, porém suficiente para interromper a recuperação iniciada em 2022. A oposição ampliou ligeiramente sua vantagem e manteve na região sua maior margem proporcional entre os territórios analisados. O resultado evidencia que a recomposição posterior a 2018 não possuía a mesma profundidade em todo o país e encontrou no Sul sua principal barreira territorial.

A comparação revela, assim, movimentos distintos dentro de uma mesma eleição. Nordeste e Norte seguiram muito próximos da trajetória estimada; RJ/ES e São Paulo avançaram na direção esperada, mas em ritmos diferentes; Minas Gerais e Centro-Oeste permaneceram estáveis; e o Sul registrou reversão. O principal limite da projeção foi utilizar os deslocamentos entre 2018 e 2022 como referência parcialmente reproduzível. A metodologia captou os espaços nos quais havia possibilidade de mudança, mas as urnas mostraram que a recuperação anterior continha um componente excepcional cuja força havia se esgotado em parte.

<><> A matemática territorial depois de 2026

A análise de agosto sustentava que a manutenção da vantagem petista no Nordeste reduziria a dimensão da recuperação necessária no Centro-Sul. Como o peso eleitoral dos territórios é muito desigual, pequenas variações em São Paulo, Minas Gerais e RJ/ES poderiam produzir efeitos nacionais relevantes. Essa lógica permaneceu válida, mas os resultados mostraram que sua concretização não dependia de uma recuperação uniforme. O Nordeste preservou sua margem, enquanto as mudanças no Centro-Sul ficaram concentradas sobretudo em São Paulo e RJ/ES. Nos demais blocos, prevaleceram estabilidade ou pequeno recuo.

A matemática eleitoral não é determinada pelo número de regiões vencidas, mas pela combinação entre tamanho do eleitorado e diferença construída dentro de cada território. Uma vantagem ampla no Nordeste pode compensar derrotas mais estreitas em outras áreas, enquanto as margens oposicionistas no Sul e no Centro-Oeste precisam ser combinadas com resultados favoráveis nos grandes colégios do Sudeste. Minas Gerais e Norte assumem importância específica porque não oferecem uma vantagem previsível a nenhum campo. São Paulo, por sua vez, permanece central tanto por seu peso eleitoral quanto pela distância ainda existente entre as duas forças.

Para o PT, essa configuração exige preservar sua base nordestina, sustentar a competitividade em Minas Gerais e no Norte e diminuir as perdas nos maiores colégios do Centro-Sul. Em 2026, os dois primeiros componentes foram mantidos, mas o terceiro avançou de forma limitada. Para a oposição, a equação depende da conservação de suas fortalezas, da manutenção da maioria em São Paulo e RJ/ES e da conquista de vantagens nas zonas de equilíbrio. As urnas preservaram sua base territorial, mas não produziram mudança suficiente nas áreas em que a disputa permanece aberta.

O resultado nacional continua, portanto, condicionado por um sistema de compensações. A estabilidade regional não reduz a competitividade; ela concentra a disputa em determinadas margens e territórios. Como as principais bases de cada campo estão relativamente definidas, a diferença pode ser produzida por poucos pontos percentuais nos colégios mais populosos. O mapa permite antecipar onde cada força tende a obter seus melhores resultados, mas não elimina a incerteza sobre o desfecho, justamente porque os territórios de equilíbrio e as reduções de margem podem alterar a soma final.

<><> O que 2018 revelou e 2026 esclareceu

A ruptura de 2018 foi precedida por uma erosão que já aparecia na série desde 2010, especialmente em São Paulo, RJ/ES, Sul e Centro-Oeste. A novidade daquela eleição foi a intensidade do deslocamento e a reorganização do campo oposicionista sob uma nova liderança. A série histórica permitia identificar os territórios em que a base petista se enfraquecia, mas não poderia determinar quem ocuparia esse espaço ou em quais condições. Essa distinção permanece fundamental: a trajetória revela possibilidades e limites territoriais, enquanto candidaturas, alianças e conjunturas definem sua expressão em cada eleição.

Os resultados posteriores permitem dimensionar melhor o alcance daquela ruptura. A eleição de 2022 recuperou parte do eleitorado perdido, mas 2026 mostrou que essa recomposição tinha um limite. O PT não retornou à presença territorial dos anos 2000, nem permaneceu nos patamares excepcionalmente baixos de 2018. A oposição, por sua vez, conservou o predomínio em extensas áreas do Centro-Sul, sem transformá-lo em hegemonia nacional. Formou-se uma configuração intermediária, na qual os dois campos possuem bases consistentes, mas insuficientes para garantir isoladamente uma maioria nacional.

Essa sequência também esclarece o alcance das projeções baseadas em tendências eleitorais. A série histórica foi capaz de reconhecer as funções territoriais que continuaram presentes em 2026 e de indicar onde existia espaço para recuperação. Sua limitação esteve em estimar o ritmo dos movimentos. Variações intensas depois de uma eleição de ruptura podem representar uma correção extraordinária, e não o início de um deslocamento linear. Uma vez recomposta parte das perdas, a continuidade passa a depender de mudanças políticas mais profundas, que não podem ser deduzidas apenas dos percentuais anteriores.

O balanço de 2026 não deve ser reduzido, portanto, a uma relação entre percentuais projetados e realizados. O aspecto mais relevante é que a arquitetura territorial da eleição permaneceu reconhecível, embora os movimentos dentro dela tenham sido menores e mais desiguais. O Nordeste confirmou sua estabilidade; o Norte chegou ao equilíbrio; RJ/ES tornou-se mais competitivo; São Paulo avançou lentamente; Minas Gerais reafirmou sua condição pendular; e Sul e Centro-Oeste preservaram a predominância oposicionista. O novo resultado tornou mais precisos os contornos do mapa surgido depois de 2018.

Se 2018 foi a eleição da ruptura e 2022 a da recomposição, 2026 pode ser definida como a eleição da consolidação. Consolidou-se não a hegemonia de um campo, mas uma divisão territorial em que as bases regionais estão mais delimitadas e a decisão nacional depende de margens construídas nos grandes colégios e nas zonas de equilíbrio. A trajetória histórica identificou corretamente o terreno da disputa. As urnas acrescentaram a informação que faltava: a recuperação iniciada em 2022 não desapareceu, mas perdeu força e passou a operar dentro de uma geografia eleitoral mais estável.

 

Fonte: Brasil 247

 

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