Gilberto
Menezes Côrtes: Como a impossibilidade matemática vira derrota, fuga e um
vexame mundial
Com a
credencial de ter sido um bom aluno de matemática no Instituto Militar de
Engenharia (IME), o governador reeleito de São Paulo pelo Republicanos (o
partido da Iurd, de Edir Macedo), capitão Tarcísio de Freitas (sua patente
quando deixou o IME, em 2008), se investiu da condição de "professor de
matemática e de estatística" para, usando o método "Monte
Carlo", projetar, ainda no domingo, 25 de outubro, enquanto os eleitores
votavam nas urnas, a vitória de Flávio Bolsonaro por cerca de 53% dos votos
válidos, contra 47% atribuíveis a Lula. Com 6 milhões de dianteira.
O
método usado pelo capitão-governador, que já se lançou para 2030, partia de
pressupostos que não se confirmaram: Lula venceu por 51,79% (64.256 milhões)
contra 48,21% dos votos válidos de Flávio (59,826 milhões), ou mais
precisamente 4,430 milhões de votos de vantagem para Lula no segundo turno,
invertendo a dianteira de 47,03% de votos válidos de Flávio no primeiro turno
contra (56,104 milhões) 45,16% de Lula (53,879 milhões), com ganho de 2.224.965
votos do senador em 4 de outubro.
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O 'já ganhou' e a reação geracional
A
campanha de Flávio, inebriada pelo "já ganhou" que levou ao salto
alto e à precoce montagem do ministério entre os turnos, avaliou mal a reação
da juventude universitária em defesa da democracia (educação e jovens sempre
são perseguidos quando falta Democracia) e a mobilização geracional de netos e
avós para reduzir a abstenção e votos brancos e nulos em 25 de outubro,
garantindo direitos sociais, sobretudo após as grosserias e ofensas no último
debate da Globo, em 23 de outubro.
A
reação dos estudantes de Direito da Universidade Federal Fluminense, de
Niterói, em 5 de outubro, foi o estopim de uma ação geral da juventude
universitária, que reagiu unida quando o laboratório da Universidade Federal de
Pernambuco foi incendiado e a UnB (Brasília, criada por Darcy Ribeiro) sofreu
ameaças. Como escreveu Johnny Alf, em 1965, o "inesperado fez uma
surpresa". Não foi obra do acaso, como diria o jornalista Otávio Guedes.
Foi "a chama da juventude", como clamava Milton Nascimento, em
"Coração de Estudante". Foi algo muito além de uma vitória de Lula
(maior líder do país) e do PT (sempre menor que Lula). Foi a vitória da
Democracia ante a barbárie dos cortes.
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A diferença dos votos
A
diferença veio do aumento dos votos válidos repartidos entre ambos no primeiro
turno (109.984.041) para 124.082.273 no segundo turno (14.098.232 a mais),
sendo que os votos de Lula aumentaram em 10.376.694 e os de Flávio só em
3.721.538 votos.
E os
motivos (não considerados na planilha de Tarcísio de Freitas) para Lula
conquistar boa parte dos 9.316.747 votos destinados aos demais candidatos no
primeiro turno fluíram da maior transferência dos demais eleitores a Lula,
assim como do aumento líquido de 2.960.239 votos do maior comparecimento no
segundo turno, com a redução histórica da abstenção e os 1.821.246 votos
provenientes da diminuição dos brancos e nulos, que não se bandearam
maciçamente para Flávio, como supôs o "professor Tarcísio".
Isso
explica por que não houve a “fraude” alegada na primeira hora pelo senador
derrotado, e que arrastou os presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos
Estados Unidos, Donald Trump, a fazer coro e ajudar na fuga.
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A patética proclamação do 'Napoleão'
Mas
Flávio Bolsonaro, que, em matéria de matemática, era mais atento às contas de
dividir (os salários dos apaniguados em seus gabinetes na Alerj nas
“rachadinhas”), não entendeu o movimento dos eleitores e, inconformado por ter
dançado comemorando vitória antes da hora, não reconheceu a derrota e partiu
para acusação de fraudes, com o “sumiço” de dois milhões de votos (a diferença
de sua vantagem de 2,224 milhões no primeiro turno para a dianteira final de
4,430 milhões de votos de Lula).
Pior é
que seu irmão Eduardo Bolsonaro, foragido nos Estados Unidos, em companhia do
economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, o general João
Figueiredo, embaralhou os números e as ideias na proclamação – em três versões,
tais os disparates em cada proclamação, do “presidente eleito” do Brasil, em
papel com o brasão dos “Estados Unidos do Brazil”, com Z, abandonado em 1967.
Estava
escancarada a subserviência de Flávio Bolsonaro ao presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, quem sabe com a candidatura do "Brazil" à
condição de 51º estado dos “Estados Unidos" da América do Norte.
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'Imbroglio' diplomático
Mas as
graves consequências diplomáticas de aceitar o asilo, mesmo temporário num
primeiro momento, a quem se declarava o “legítimo presidente eleito”, levaram o
Departamento de Estado, por meio de auxiliares do secretário Marco Rubio, a
fazer chegar ao irmão Eduardo e ao parceiro Paulo Figueiredo a ordem de
correção de rumo.
Na
terceira versão, lida por Flávio Bolsonaro, já em solo americano, voltou o
brasão da República Federativa do Brasil e o rebaixamento da condição do
senador derrotado e sem mandato a partir de 1º de fevereiro de 2028 à mera
suposição de “verdadeiro líder do Brasil”. Mais duas inverdades com o uso
abusivo do brasão da República.
O
resultado das urnas mostrou que o presidente verdadeiro e líder do Brasil é
Luís Inácio Lula da Silva. A legítima reeleição de Lula foi reconhecida pelo PL
e pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, responsável, em parte, por
induzir o raciocínio errático e sempre equivocado do senador.
A fuga
intempestiva para tentar salvar seu patrimônio e eventual liberdade se os
inquéritos a que vier a ser submetido (seja no Supremo Tribunal Federal, por
terem sido os eventuais crimes cometidos enquanto senador, ou na justiça
comum), compromete sua legitimidade como líder da oposição. Que já foi posta em
dúvida pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que condenou a fuga e a
carta, e pelo coordenador da campanha, senador Rogério Marinho, que também
renunciou à reeleição para ajudar o filho 01.
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Caso diplomático
O
envolvimento logístico dos governos Milei, da vizinha Argentina, e Trump
(apesar do presidente americano reiterar ter sido neutro na campanha) na fuga
de Flávio Bolsonaro e família, a partir de Puerto Iguazu, com destino à
Flórida, com escala para reabastecimento em Quito (Equador), pode aumentar as
complicações diplomáticas entre Brasília e Buenos Aires e entre Brasília e
Washington, impactando na vacância da embaixada brasileira em Buenos Aires e o
“agrément” do embaixador americano em Brasília.
Como
escreveu, sexta-feira, 30 de outubro, o embaixador Rubens Barbosa no “Relatório
Reservado”, o apoio logístico do governo Milei a Flávio Bolsonaro “recebeu
críticas da oposição local e agravou as relações diplomáticas com o Brasil, que
deve manter a embaixada em Buenos Aires indefinidamente sem titular e a relação
bilateral rebaixada”.
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Escudo das Américas
Com a
experiência de ter sido embaixador em Washington entre 1999 e 2004, Rubens
Barbosa pondera que a situação é mais grave, no “tocante aos EUA, pois
Washington não só deu apoio logístico para a família Bolsonaro até Miami, mas
também autorizou a permanência deles em Miami".
A crise
política e diplomática com os EUA poderá ser agravada por essas medidas,
somando-se ao contencioso comercial a questão do combate ao narcoterrorismo com
o apoio ao Escudo das Américas, a questão das terras raras e, como mencionou
Lula no domingo, no discurso de vitória, de oposição à Estratégia de Segurança
Nacional dos EUA no tocante à área de influência e dominação na América Latina
(“o Brasil não vai ser quintal de ninguém”), a interferência das plataformas
digitais na eleição (atuação da Meta) e a "regulamentação e taxação das
big techs”.
Para o
embaixador, “o governo brasileiro aparentemente não vai conceder o “agrément”
ao novo embaixador norte-americano antes do ano que vem, ao contrário do que
havia sido anunciado. Não parece provável que o governo Trump vá se preocupar
neste momento com o adiamento do ‘agrément’ ou com Flávio Bolsonaro”.
Lembra
o embaixador que “durante a campanha eleitoral no Brasil e mesmo agora com o
senador em solo norte-americano, Trump evitou tomar lado e apoiar Flávio, a
pedido de Lula, segundo declaração do presidente dos EUA. Essa atitude
cautelosa da Casa Branca, preocupada com as eleições para o Congresso, deve
continuar. Resta aguardar o que Marco Rubio, no Departamento de Estado, pode
fazer contra o governo eleito”.
“O
governo brasileiro agiria com pragmatismo e serenidade se não passasse recibo
em relação aos apoios dos EUA e da Argentina ao senador Flávio e família.
Ignorar a atitude ideológica dos dois países seria a reação correta de
Brasília”.
“Nas
próximas semanas, Lula e Mauro Vieira vão se encontrar com Trump e Rubio nas
reuniões do G20, podendo surgir algum tipo de contato entre eles. É possível
esperar uma atuação política ativa de Flávio junto a seus aliados em
Washington, com possíveis medidas negativas nas relações bilaterais, inclusive
com eventuais restrições do Departamento de Estado a autoridades brasileiras”.
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O risco das apostas eleitorais no mercado
O tombo
das ações das “big techs” nos EUA, face aos fracos resultados do terceiro
trimestre que revelam serem custosos os investimentos em IA, mas com baixo
retorno até aqui, e o megarroubo cibernético de “hackers” da Coreia do Norte
que invadiram os sistemas da Binance e capturaram US$ 6,3 bilhões, em 20
minutos, da maior corretora de criptomoedas do mundo, gelaram os investidores
que davam como certa a vitória de Flávio Bolsonaro e trouxeram bilhões de
dólares para apostar na B3.
Logo
após a vitória do primeiro turno, o ingresso de dólares reduziu o câmbio em
mais de 5%, e o Ibovespa subiu quase 10%. Mas a inesperada derrota fez o jacaré
fechar a boca nas duas pontas (dólar subindo e Ibovespa caindo) e engolir o
especulador que não fez “hedge” para se prevenir de eventos reversos. O caso
Binance mostra que o mundo virtual das criptomoedas, no qual muitas empresas e
investidores acreditavam estar imune às garras do Fisco, também é perigoso,
pelo ataque dos “hackers”. O mercado reage como manada e a saída ficou
estreita. O dólar subiu quase 9% esta semana e o Ibovespa recuou 18%.
Mas
Lula não tem culpa das perdas. Cada um deve saber o risco das apostas (nas
“bets”, Lula proibiu a jogatina).
• A saída do bolsonarismo. Por Jean Paul
Prates
A fuga
de Flávio Bolsonaro oferece uma saída honrosa a quem ainda permanece no
bolsonarismo: abandoná-lo. A direita brasileira tem agora uma oportunidade de
recuperar sua autonomia, organizar propostas e exercer oposição sem subordinar
o país aos interesses de uma família.
Flávio
afirmou que permaneceria no Brasil e lideraria a oposição. Pouco depois,
apareceu desembarcando em Miami. A Polícia Federal informou que ele descumpriu
a determinação de entregar eventuais passaportes estrangeiros e que não havia
registro de sua saída pelos controles migratórios brasileiros.
A
distância entre a bravata pública e a conduta pessoal ficou documentada.
Veio
então a carta em que se apresentou como “presidente eleito”, expressão
posteriormente substituída por “líder”. A Presidência imaginária durou menos
que a repercussão do documento. Há pusilanimidade em prometer enfrentar a
realidade e partir; desfaçatez em reivindicar uma vitória que as urnas negaram;
e falta de inteligência estratégica em supor que uma autoproclamação no
exterior substituiria legitimidade política no Brasil.
A
aventura também começou a cobrar seu preço internacional. Democratas americanos
criticaram o acolhimento concedido por Trump. Na Argentina, opositores exigiram
explicações sobre a participação do governo Milei. Na Itália, Angelo Bonelli
questionou a concessão da cidadania aos Bolsonaro.
Flávio
conseguiu transformar sua conveniência pessoal em constrangimento para governos
amigos.
Segundo
a Reuters, Marco Rubio recomendou sua admissão nos Estados Unidos, aprovada por
Trump. A mesma agência informa que Washington não planeja apoiar sua pretensão
de governar o Brasil. Eis o limite de uma estratégia que entrega a terceiros a
decisão sobre o próprio futuro e ainda pretende falar em soberania nacional.
Conheço
por dentro o trabalho de oposição. No Senado, inclusive como líder da Minoria,
enfrentei o governo Bolsonaro preservando o contraditório e o diálogo entre
esquerda e direita. Denunciar seus absurdos exigia estudo, presença e
disposição para o confronto democrático. Também exigia reconhecer
interlocutores legítimos entre aqueles que pensavam diferente. Estavam em jogo
vidas durante a Covid, a proteção da Amazônia, a educação, a saúde, a
segurança, a inclusão e os rumos da economia. Quando o óleo atingiu nossas
praias, cobrei respostas e acompanhei o sofrimento de comunidades que dependiam
do mar. A política precisava estar onde estavam os problemas.
Aprendi
no Senado que liderar uma oposição é permanecer, fiscalizar, propor e responder
pelo que se diz.
Por
isso, a ruptura que interessa agora precisa alcançar o método bolsonarista: a
fabricação permanente de inimigos, o desprezo pelo conhecimento, a intimidação
institucional e a recusa em aceitar limites. Trocar de sobrenome mantendo essas
práticas apenas prolongaria o mesmo impasse.
Já
existem sinais de afastamento. O PL reconheceu o resultado eleitoral. Tarcísio
de Freitas defendeu seu respeito, e outros aliados rejeitaram a aventura da
autoproclamação. Essas manifestações ainda convivem com lealdades e
ambiguidades, mas abrem espaço para uma escolha: construir uma direita
democrática ou continuar prestando serviços à sobrevivência política do clã.
Conservadores,
liberais e eleitores de Flávio têm todo o direito de cobrar o governo, disputar
eleições e apresentar alternativas.
O país
precisa dessa competição. Lula, por sua vez, terá de reconhecer a amplitude da
vitória que recebeu, abrir canais de diálogo e entregar resultados. Uma vitória
construída por tantos exige um governo capaz de ouvir muito além dos seus.
Flávio
não enterrou sozinho o bolsonarismo. Expôs, porém, o abandono de
responsabilidade que existe por trás de sua retórica de coragem. Cabe à
sociedade impedir que esse tipo de política encontre apenas um novo porta-voz.
Talvez
aí comece uma alvorada brasileira. Podemos chegar a 2030 com candidatos
melhores, debates mais exigentes e divergências sustentadas por propostas.
Podemos voltar a procurar, nas redes, nos jornais e na televisão, conteúdos
densos, construtivos e inteligentes. Essa mudança dependerá também de nós: da
atenção que oferecemos, das lideranças que escolhemos e da qualidade que
passamos a exigir. O Brasil merece voltar a discutir o seu futuro
Fonte:
JB

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