Como
é possível se recuperar após cometer o ‘maior erro da sua vida'
Em uma
terça-feira como outra qualquer, o funcionário público britânico Richard
Jackson cometeu o maior erro da sua vida, quando viajava de trem a caminho do
trabalho.
Jackson
esqueceu no trem uma pasta com documentos altamente secretos. Quando percebeu o
erro, ele entrou em pânico, mas já era tarde demais.
Cometido
em uma fração de segundo, o erro se transformou em notícia nacional no Reino
Unido. A vida de Jackson mergulhou no caos e ele foi consumido pela vergonha e
pela humilhação.
Quase
20 anos depois, ele conta aquele fatídico dia e suas consequências em
entrevista a Sian Williams para o programa Life Changing, da BBC Rádio 4.
Jackson
afirma ser a prova viva de que, mesmo depois de cometer o pior erro da vida, é
possível reconstruí-la.
Na
época em que tudo desmoronou, Jackson tinha 37 anos e morava em Yateley, no sul
do Reino Unido, com sua esposa Maddie e sua enteada Charlotte, de 15 anos. Sua
outra enteada, Becky, de 20 anos, estava na universidade.
"Nós
éramos muito felizes", recorda ele. "Mas eu estava muito concentrado
na minha carreira."
"Meus
méritos e meu valor provinham daquela carreira, daquele cargo, daquela posição
e da responsabilidade", ele conta. "Por um período, cheguei a
trabalhar 100 horas por semana. Eu não me desconectava."
O
Ministério da Defesa britânico havia transferido Jackson para o Gabinete do
governo. Ali, ele passou a ocupar um posto relacionado ao terrorismo global,
onde tinha acesso a informações de primeira mão, procedentes dos serviços de
inteligência britânicos GCHQ, MI5 e MI6.
Ao sair
do seu escritório em Londres, na segunda-feira à tarde, ele levou consigo uma
pilha de formulários que precisava preencher para formalizar seu cargo.
De
volta a casa, ele percebeu que, no meio do pacote, havia "dois documentos
sobre temas classificados, ambos ultrassecretos".
Examinando
hoje o que aconteceu, Jackson conta que deveria ter telefonado para o Gabinete
e pedido a alguém que fosse recolher os documentos de forma segura.
Mas ele
atribuiu o que fez posteriormente a um "certo instinto de
sobrevivência".
"Quem
sabe se eu os devolver, ninguém nunca ficará sabendo", pensou ele.
Jackson
guardou os documentos ultrassecretos em uma pasta de papelão de cor laranja
brilhante e, na manhã seguinte, se sentou no trem pensando repetidamente:
"Não esqueça isto."
Ele
desceu do trem e caminhou rapidamente para o seu escritório. Até que se deu
conta de que não tinha mais a pasta...
"Por
um instante, eu me senti como se o mundo tivesse ficado paralisado",
relembra Jackson.
Ele foi
a todas as estações de parada do trem e perguntou se alguém havia entregue uma
pasta, sem resultados.
"Eu
estava desesperado", ele conta. "Tudo, cada movimento, parecia muito
brusco... Eu me sentia mal."
Quando
viu sua esposa, Maddie, ele desmoronou. "Eu disse a ela que havia
arruinado nossas vidas", relembra Jackson.
"Ela
simplesmente me abraçou. Me disse que tudo ficaria bem e que seguiríamos
adiante."
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Nas mãos da BBC
No dia
seguinte, no trabalho, Jackson descobriu que os documentos haviam sido
encontrados e entregues para a BBC.
Ele
conta que sua primeira sensação foi de "alívio por saber que os documentos
estavam novamente em um lugar seguro". Até que se deu conta de que eles
"passariam a ser públicos".
"Fui
a principal notícia do informativo das seis da tarde", relembra Jackson.
"E fui suspenso, aguardando uma investigação."
Jackson
se escondeu em casa. Na hora do almoço, Maddie o encontrou sentado com as
pernas cruzadas no sofá, soluçando.
"Passei
a manhã tentando encontrar uma forma de morrer sem sentir dor", ele conta.
"Pensei
muitas vezes no que teria acontecido se ela não tivesse voltado para casa na
hora do almoço... mas imagino que nunca irei saber."
"Passamos
aquela tarde conversando", prossegue ele. "E acredito que foi ali que
pensei pela primeira vez: 'Se quiser superar isso, não posso fazer
sozinho.'"
O
Gabinete do Governo considerou que aquela era uma falta grave e o rebaixou de
categoria em três níveis. Ele respondeu processo de acordo com a Lei de
Segredos Oficiais, evitou a prisão e foi multado em 2,5 mil libras (cerca de R$
16,9 mil, pelo câmbio atual).
Teoricamente,
tudo havia terminado. Mas Jackson não conseguia se livrar da vergonha, do
arrependimento e da humilhação.
Ele
agradece às muitas pessoas que se preocuparam com ele e o ajudaram a
reconstruir sua vida.
"Eu
mesmo consertei muito pouco. Muitas pessoas me ajudaram a consertar tudo."
Jackson
voltou para o Ministério da Defesa, em um cargo no setor de recursos humanos.
Posteriormente, ele foi transferido para o Departamento de Cultura, Meios de
Comunicação e Esporte, para trabalhar nos Jogos Olímpicos de Londres 2012.
Jackson,
então, deixou o funcionalismo público e passou a trabalhar para os samaritanos.
Posteriormente,
ele assumiu a direção de uma equipe de analistas que estudavam os riscos do
terrorismo global. E, nas horas vagas, começou a estudar para ser coach de
desenvolvimento pessoal.
Quando
foi demitido, Jackson fundou uma empresa de coaching, a NewDay, que ajuda as
pessoas a superar o estresse causado por gerenciar material perturbador.
"Eu
podia contar a minha história... e fazia sentido", ele conta. "Havia
uma razão para o que fiz."
Jackson
deseja que as pessoas saibam que existem formas de corrigir o maior erro que
alguém cometer na vida.
"Você
pode estar em uma situação realmente ruim e, ainda assim, se erguer e
superar", explica ele. "Existem formas de ajudar a si próprio e obter
ajuda."
Quando
alguém pergunta se ele perdoou a si próprio, Jackson responde que não, mas que
voltou a ser feliz.
Maddie
também está satisfeita porque ele não trabalha mais 100 horas por semana.
"Minha
vida não é definida pela minha carreira e estou mais presente em casa",
ele conta. "Agora, valorizo muito mais a sorte que tenho de ter pessoas
maravilhosas na minha vida."
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Você cometeu um erro? Aqui estão algumas formas de se recuperar
Richard
Jackson compartilhou os passos que o ajudaram a superar seu episódio
traumático:
• Retire os pensamentos da sua cabeça. Nos
momentos difíceis, sua mente salta de "Cometi um erro terrível" para
"Sou uma pessoa inútil" à velocidade do pensamento. Escrever aquilo
ou falar com alguém ajuda a desacelerar o processo e oferece a oportunidade de
observar estes saltos sem lógica.
• Continue fazendo as atividades que você
aprecia. Quando você se sente indigno, deixa de fazer aquilo que faz você se
sentir bem. Descubra quais são essas atividades, como ir à academia, ler um
livro ou dar um longo passeio, e as transforme em momentos imprescindíveis na
sua rotina.
• Relembre seu valor e seu sucesso. Tenho
um quadro de evidências ao lado da minha mesa, com anotações das minhas
conquistas e dos comentários positivos que recebi. É uma recordação tangível de
que não sou aquele erro, sou muito mais que aquilo.
• Encontre seu amigo crítico. Você precisa
de alguém que anime você, mas que também chame sua atenção quando você se
descuidar. Alguém que realmente esteja do seu lado.
• Determine o que você pode arrumar e o
que não pode. Se você tiver causado danos, assuma a responsabilidade: peça
desculpas e corrija o que for possível. Mas não seja responsável por aquilo que
você nunca causou.
• Não confunda o seu pior momento com toda
a sua história de vida. Você não é aquele erro. Continue sendo a pessoa que
existia antes e ainda poderá haver uma pessoa depois, que você ainda não
conheceu.
Fonte:
BBC News

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