quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Derrota nas eleições de meio de mandato o que significará para a política externa de Trump?

Com o controle do Congresso em jogo, as próximas eleições de meio de mandato nos EUA estão sendo observadas menos pelo que poderiam mudar e mais pela forma como poderiam aprofundar a paralisia e a polarização que já definem Washington.

A Sputnik conversou com especialistas norte-americanos de diversas áreas para entender melhor como os resultados da votação desta terça-feira (3) poderiam impactar a política externa dos EUA.

<><> Uma vitória democrata 'limitaria profundamente' Trump

Se os democratas recuperarem o controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado, eles terão a capacidade de limitar o poder de Trump de financiar uma guerra contra o Irã e a ajuda militar a Israel, ao mesmo tempo em que forçam o governo a retomar a ajuda ao regime de Zelensky em Kiev, disse o juiz Andrew Napolitano à Sputnik.

"O Congresso detém o poder sobre o orçamento, e isso funciona nos dois sentidos. O Congresso pode limitar a forma como o presidente gasta o dinheiro, mas também pode obrigar o presidente a gastar", afirmou o jornalista e especialista jurídico norte-americano.

"Existe, por exemplo, a possibilidade de forçar o presidente a gastar recursos que ele não deseja — como enviar mais verbas para o regime mais corrupto do planeta, que é o de Kiev", explicou. "Se Trump se recusar a fazê-lo, existem precedentes na Suprema Corte que permitem ao Congresso forçar essa ação."

Ao mesmo tempo, uma nova onda de "investigações intermináveis" tornará difícil para Trump manter o foco na política externa.

<><> Mais instabilidade, não menos

Dan Lazare, historiador constitucional e comentarista político norte-americano, avalia que uma eventual conquista de qualquer uma das casas legislativas pelos democratas seria uma receita para uma polarização ainda maior e para uma política externa mais assertiva, especificamente, mais voltada contra a Rússia e a China.

"É impossível prever como as coisas vão se desenrolar. Mas estou certo de que haverá mais instabilidade, e não menos", diz Lazare, acrescentando que um confronto com Pequim em torno de Taiwan provavelmente fará parte da agenda do Partido Democrata. "Independentemente do que aconteça, as divisões, sem dúvida, se aprofundarão."

Se os democratas conquistarem cadeiras suficientes, Lazare acredita que eles usarão seu recém-adquirido poder para criar obstáculos à administração Trump "a cada passo". A Casa Branca, por sua vez, responderá com contramedidas e ameaças, elevando potencialmente as tensões "ao ponto de ebulição".

Não há como escapar dessa "dialética negativa", argumenta ele, pois o problema está enraizado no próprio sistema político: "Os EUA possuem um sistema de caráter minoritário, no qual um pequeno número de congressistas consegue tirar proveito de diversos pontos de estrangulamento para paralisar as atividades. A paralisia, portanto, é um fato recorrente."

Embora a separação de poderes tenha sido concebida para evitar a concentração de autoridade e garantir a devida fiscalização de decisões importantes, seus mecanismos de freios e contrapesos tornaram-se, cada vez mais, armas na batalha política entre republicanos e democratas, observa o analista.

"A situação começou a se deteriorar após o caso Watergate, a derrota no Vietnã e as políticas de livre mercado de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Em meados da década de 1990, os dois partidos já estavam em guerra. Esse colapso se intensificou com a eleição de Trump em 2016, o Russiagate entre 2017 e 2020, e a tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021", afirmou.

Em vez de amenizar as tensões, cada eleição sucessiva apenas acirra ainda mais o conflito político, conclui Lazare.

<><> O curso permanece o mesmo

O tenente-coronel reformado do Exército dos EUA, Earl Rasmussen, apresenta uma perspectiva diferente, para ele é improvável que o resultado das eleições de meio de mandato altere, de alguma forma, o rumo das relações dos EUA com a Rússia ou com o Irã. "É preciso lembrar que existem interesses poderosos nos bastidores que continuam a sustentar os conflitos, sejam eles interesses de lobby, geopolíticos ou financeiros", afirma ele.

Rasmussen observa que "um ponto positivo é o engajamento [da administração Trump] com a Rússia", que, no entanto, enfrenta agora "obstáculos internos, além de resistências por parte de muitos líderes europeus e da Ucrânia". Paralelamente, a situação envolvendo o Irã, o apoio contínuo à guerra de Israel em Gaza e o conflito em curso no Iêmen "deixaram a Ásia Ocidental à beira de um colapso total, expondo os EUA e o Ocidente a uma situação humilhante".

Segundo o veterano militar norte-americano, nenhuma mudança futura no equilíbrio de poder no Congresso deve alterar esse curso; para isso, seria necessária nada menos que uma transformação cultural profunda dentro de setores da administração dos EUA, do Congresso e entre seus aliados.

Sobre a Ucrânia, Rasmussen argumenta que a liderança dos EUA precisa reconhecer as causas fundamentais do conflito, que remontam a um período anterior a 2014. Ele ressalta que Washington rompeu acordos internacionais e "levou a Rússia ao limite, enquanto muitos russos étnicos na Ucrânia sofriam durante os frágeis cessar-fogos de Minsk 1 e 2".

"Os EUA deveriam aceitar abertamente que a Ucrânia não fará parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte [OTAN], nem será um membro 'de fato' e que o país será, constitucionalmente, um Estado neutro. Precisamos aceitar, em nível internacional, as novas fronteiras. Deveríamos buscar um novo engajamento e desenvolver oportunidades de negócios conjuntas que beneficiem a todos", afirmou.

<><> 'Não existe política externa'

O analista militar e ex-oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, Scott Ritter, questiona a própria premissa de que as eleições de meio de mandato vão moldar a política externa, pois, em sua visão, não existe uma política externa coerente a ser moldada.

Sobre o Irã, Ritter descarta relatos de que Trump estaria planejando novos ataques após as eleições de meio de mandato. Ele observa que o conflito começou em fevereiro, sem que houvesse eleições à vista "e, ainda assim, mudamos nosso plano dez vezes em duas semanas". A única visão estratégica, argumenta ele, era a mudança de regime — e ela fracassou.

"Estamos tentando lidar com as consequências de uma guerra fracassada, de uma política fracassada." Essas consequências se manifestam internamente por meio dos preços da energia. O foco central de Trump no Oriente Médio, sustenta Ritter, resume-se agora a "como reduzir o custo da energia dentro dos Estados Unidos".

Quanto ao suposto plano dos Democratas de investigar a condução, por parte de Trump, das sanções sobre o diesel russo, Ritter é contundente:

"Os Democratas não possuem uma agenda de política externa mais ampla. Eles têm uma agenda de política interna voltada, essencialmente, para se vingar de Donald Trump." Ele ressalta que a Lei Lindsey Graham [Lindsey Graham Act] confere explicitamente ao presidente a discricionariedade de não impor sanções, "portanto, literalmente, ele não violou lei alguma".

Qualquer investigação, diz ele, não passa de "política norte-americana estúpida, em seu nível mais rasteiro [...]. Eles tentarão disfarçar isso com argumentos bonitos, como 'estamos fazendo isso pelo povo da Ucrânia' ou 'estamos fazendo isso pela democracia'. Mas estão fazendo por vingança política. É só isso".

Olhando para o futuro, Ritter prevê que uma Câmara dos Representantes sob controle democrata estaria "exclusivamente focada no impeachment de Donald Trump", em vez de na política externa. "O presidente pode sobreviver a um impeachment. Ele já provou isso duas vezes", acrescentou.

Quanto à questão mais ampla de saber se as eleições mudarão a política externa dos EUA, Ritter prevê "mais caos", com a política externa continuando a ser formulada "dentro de um círculo muito restrito de pessoas ao redor de Donald Trump".

<><> A economia orienta o voto e não o cenário mundial

Larry Johnson, ex-oficial de inteligência da CIA e funcionário do Departamento de Estado, argumenta que a política externa influencia a opinião dos eleitores apenas de forma indireta, por meio da inflação e das dificuldades econômicas geradas por uma eventual guerra com o Irã. O conflito na Ucrânia, por outro lado, "não tem sido, de fato, o que eu chamaria de uma questão decisiva que leve as pessoas a se sentirem fortemente a favor ou contra algo, porque, na prática, isso não afeta a vida delas".

"Não há unidade entre os republicanos, especialmente no que diz respeito à política externa. Existe uma divisão crescente, notadamente em questões relacionadas a Israel", afirmou. Vale destacar que os esforços diplomáticos de Trump em relação à Rússia "estão sendo duramente criticados tanto pelo establishment republicano quanto pelos democratas".

Ele duvida que a eleição traga mudanças significativas em relação à Rússia, uma vez que "a russofobia, esse antagonismo em relação à Rússia infelizmente, deve persistir".

¨      Analista: eleições parlamentares nos EUA são ferramenta de gestão da opinião pública

As eleições parlamentares nos Estados Unidos são uma ferramenta para gerenciar a opinião pública, uma maneira de encontrar desculpas ou nomear bodes expiatórios para as consequências mais negativas da política externa e interna, disse à Sputnik Brian Berletic, analista geopolítico veterano e ex-fuzileiro naval dos EUA.

Berletic afirmou que a política externa do seu país é determinada por poderosas corporações não eleitas e instituições financeiras que controlam ambos os partidos políticos por meio de um extenso lobby, a fim de promover a supremacia norte-americana e, assim, obter lucros e alcançar o mundo inteiro.

"Até que esses interesses especiais sejam expostos e deslocados do cenário político da América, nenhuma mudança significativa ocorrerá, a não ser a que o mundo multipolar possa impor de fora", destacou o analista.

Desta forma, as mudanças no Congresso após as eleições não afetarão de forma alguma a política externa dos EUA, assim como o presidente Trump, ao assumir o cargo, não fez nada para acabar com as guerras, já que ele mesmo prometeu falsamente que iria pará-las ou impedi-las durante a campanha eleitoral.

"As eleições norte-americanas servem principalmente como um meio de gerenciar a percepção pública e criar desculpas e bodes expiatórios para os piores resultados da política externa e interna dos EUA", sublinhou.

Ao mesmo tempo, o especialista enfatizou que os Estados Unidos estão deliberadamente envolvendo países europeus no conflito ucraniano, buscando que a Europa suporte o peso dessa luta com a Rússia na Europa, enquanto eles próprios estão se voltando para o confronto nas regiões da Ásia e do Oriente Médio.

"Ao retratar a 'diplomacia' em relação à Rússia, os Estados Unidos podem reformular sua própria guerra por procuração com a Rússia na Ucrânia como uma guerra 'europeia' e evitar as consequências da guerra que os próprios Estados Unidos estão, de fato, ainda travando contra a Rússia", afirmou Berletic.

Ao incumbir a Europa de continuar a guerra por procuração dos EUA com a Rússia na Ucrânia, e ao consolidar o controle militar sobre os fantoches dos EUA na Ásia Ocidental em relação ao Irã e seus aliados, bem como na Ásia-Pacífico contra a China, Washington cria uma versão global e multifrontal desse conflito já devastador e perigoso.

Atraindo assim mais nações diretamente para pagar os custos e os combates nessas guerras, a Casa Branca vem aumentando o risco para a paz global e a estabilidade para todo o mundo, concluiu o especialista.

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos em 3 de novembro determinarão o equilíbrio de poder no Congresso pelos próximos dois anos e se tornarão um dos principais eventos políticos do segundo mandato presidencial de Trump em meio a dificuldades econômicas e ao agravamento da situação internacional.

¨      Após 'conversas positivas', EUA e Irã estudam novas propostas para um acordo de paz

Os EUA e o Irã estão analisando separadamente novas propostas dos mediadores com o objetivo de chegar a um acordo, informou uma agência de notícias europeia, citando uma fonte a par das discussões.

De acordo com a publicação da Breitbart, após a reunião em Teerã com os mediadores do Catar, uma nova base para um acordo de paz entre o Irã e os Estados Unidos está sendo delineada. A fonte, que conhece o conteúdo das discussões, descreveu as conversas como "positivas".

"Os Estados Unidos e o Irã estão atualmente analisando separadamente as últimas sugestões feitas pelos mediadores com o objetivo de aproximá-los do lançamento de um novo acordo", diz o texto.

Segundo a matéria, essa atualização sobre as conversas diplomáticas veio logo depois que o presidente norte-americano, Donald Trump, publicou uma mensagem sobre o Irã no Truth Social nesta segunda-feira (2).

O chefe da Casa Branca afirmou que o Irã quer chegar a um acordo o mais rápido possível e admitiu a possibilidade de um entendimento. Ele atribuiu a queda nos preços do petróleo à confiança do mercado de que não haverá uma retomada de um conflito em grande escala com o Irã.

Teerã afirmou anteriormente que ofereceu aos Estados Unidos um plano de sete condições com opções para abrir o estreito de Ormuz em troca do levantamento do bloqueio naval e de restrições às exportações de petróleo. No entanto, Trump rejeitou a proposta.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã informou que recebeu a reação oficial dos EUA ao plano e forneceu sua avaliação da resposta de Washington por meio dos mediadores do Catar.

¨      Vitória democrata pode abrir investigações sobre entrada de Flávio nos EUA, diz mídia

As eleições legislativas dos EUA podem ampliar a pressão sobre a permanência de Flávio Bolsonaro no país caso os democratas conquistem maioria no Congresso. Especialistas, porém, afirmam que o Legislativo não tem poder para deportá-lo, embora possa abrir investigações e cobrar explicações do governo Trump.

Nesta terça-feira, as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos podem alterar a correlação de forças no Congresso e gerar impactos indiretos sobre a permanência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no país. A possibilidade de vitória democrata mobilizou brasileiros nas redes sociais, que passaram a cobrar de parlamentares do partido medidas para deportar o senador, alvo da hashtag #DeportTheBolsonaros.

Flávio chegou aos EUA na semana passada (28 de outubro) após deixar o Brasil, e sua situação passou a ser tema de debate entre opositores de Donald Trump. A eventual conquista de maioria democrata na Câmara e no Senado alimentou especulações sobre a adoção de medidas contra o parlamentar brasileiro.

Especialistas ouvidos pela mídia brasileira, porém, afirmam que o Congresso norte-americano não possui poder para deportar ou expulsar estrangeiros. Decisões desse tipo cabem a órgãos do Poder Executivo, como o Departamento de Estado e o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), ambos subordinados ao governo Trump.

Segundo analistas consultados pela apuração, uma vitória democrata poderia ampliar a pressão política sobre a Casa Branca, mas não garantir medidas concretas contra Flávio. Ainda assim, parlamentares teriam instrumentos para exigir esclarecimentos sobre sua entrada e permanência em território norte-americano.

De acordo com Roberto Uebel, da ESPM, o Congresso não tem jurisdição para deportar indivíduos, enquanto Vitelio Brustolin, da Universidade Federal Fluminense (UFF), lembra que a concessão e a revogação de vistos são atribuições exclusivas do Departamento de Estado dos EUA.

Ele ressalta ainda que revogação de visto, deportação e expulsão são procedimentos distintos, com consequências e trâmites legais diferentes.

Mas, uma possível maioria democrata também poderia abrir investigações para apurar se autoridades do governo Trump ofereceram tratamento privilegiado a Flávio Bolsonaro e sua família e poderiam examinar a emissão de vistos, a autorização de entrada no país e eventuais favorecimentos relacionados ao seu status migratório.

Brustolin observa que apenas a Câmara dos Deputados já teria poder para instaurar uma investigação parlamentar, sem depender de maioria simultânea no Senado, e, de acordo com Uebel, convocar o secretário de Estado, Marco Rubio, para prestar esclarecimentos sobre a atuação do governo no caso.

Mesmo que irregularidades fossem identificadas, os especialistas enfatizam que o Congresso não poderia determinar a revogação do visto nem ordenar a saída do senador dos EUA.

Apesar da impossibilidade de ação direta e de o tema estar longe das prioridades da oposição a Trump, os democratas já iniciaram movimentações sobre o tema.

De acordo com a mídia, um grupo de 25 deputados enviou uma carta a Marco Rubio questionando se o governo norte-americano auxiliou Flávio Bolsonaro a viajar para os EUA ou ingressar no país apesar de restrições judiciais brasileiras.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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