Com
a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto
bolsonarista?
O Rio
de Janeiro foi a maior cidade do país e uma das duas capitais – a outra foi
Macapá – a mudar de lado entre o primeiro e o segundo turnos da eleição
presidencial. Berço político da família Bolsonaro desde que Jair Messias foi
eleito vereador, em 1988, o município acaba de dar ao presidente Luiz Inácio
Lula da Silva uma vitória que o Partido dos Trabalhadores não conseguia há 12
anos.
Lula
reverteu a desvantagem do primeiro turno em terras cariocas e venceu a disputa
com uma vantagem de 113.193 votos, conquistados principalmente pelo aumento da
margem petista em bairros da Zona Sul, como Copacabana, pelo crescimento de
votos na Zona Oeste e por viradas decisivas em cinco zonas eleitorais da região
Norte, que abrangem bairros populosos (como Cachambi, Irajá, Olaria, Penha,
Piedade e Engenho de Dentro). A maior votação proporcional do presidente foi na
16ª Zona Eleitoral (Cosme Velho, Laranjeiras, Catete, Glória, Lapa, Bairro de
Fátima e Santa Teresa), em que o petista teve 69,98% dos votos.
Com a
diminuição da abstenção, o candidato petista recebeu 373.874 votos a mais do
que no primeiro turno. O resultado dá sinais de que o bolsonarismo perdeu
fôlego no Rio após a família Bolsonaro ter vencido 22 de 24 eleições
disputadas. A única derrota na capital, além deste último segundo turno, foi
quando Flávio tentou ser prefeito em 2016. O dado inclui todas as eleições
disputadas por membros da família desde 1988, incluindo pleitos para
presidente, prefeito, senador, deputado federal, deputado estadual e vereador.
Importante
lembrar que, hoje, nenhum membro da família está mais na cidade: Jair está em
prisão domiciliar em Brasília, Eduardo continua foragido nos EUA, Carlos e
Renan mudaram-se para Santa Catarina (onde foram eleitos como senador e
deputado federal, respectivamente) e Flávio acaba de fugir para Miami. Michelle
há muito mora em Brasília, onde acaba de se eleger como senadora.
Embora
o Rio tenha sido um dos motores da virada no país, Lula não ganhou no estado,
mas conseguiu reduzir a diferença de votos de maneira significativa, como
analisa o cientista político Fábio Vasconcellos, professor da UERJ e da
PUC-Rio: “Lula terminou o primeiro turno com uma desvantagem de 1,2 milhão de
votos no estado – e 137 mil votos na capital. No segundo, reduziu essa
diferença para 670 mil votos no estado. A capital sozinha foi responsável por
37% do ganho”.
O
presidente adicionou 872.372 novos votos no estado contra 202 mil novos votos
para Flávio, derrubando pela metade a diferença a favor do senador do PL. Os
670 mil votos a mais para o presidente no saldo direto transformaram o Rio no
terceiro estado em que ele mais cresceu no segundo turno em termos absolutos,
atrás apenas de São Paulo (2,61 milhões de novos votos) e Minas Gerais (1,16
milhão a mais). Mas o que explica a virada de Lula na capital e o crescimento
no estado além da queda na abstenção entre os dois turnos (de 23,32% para
21,62%)? Para Vasconcellos, são três fatores: as manifestações estudantis, a
atuação de políticos e militantes da esquerda fora da Zona Sul e, por fim, a
participação de Eduardo Paes e da máquina municipal na campanha após o primeiro
turno.
“Se
expandirmos o olhar até Niterói, vamos ver que o movimento dos jovens começou
ali, no dia seguinte ao primeiro turno. Aquele movimento serviu de gatilho,
acionou outros grupos, outros jovens que tomaram, por exemplo, a Avenida Rio
Branco, no Rio, dias depois. Acredito que o receio da volta da família
Bolsonaro ao poder tenha falado mais alto. O argumento do risco democrático
pegou na capital, criou liga, motivou”, destaca o cientista político que também
é pesquisador do INCT ReDem (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia –
Representação e Legitimidade Democrática, projeto sediado na UFPR). “A turma do
PSOL, por sua vez, teve um papel importante na Zona Oeste. Essa mobilização
para além da Zona Sul permitiu que o discurso da campanha relativo aos riscos
de cortes sociais pudesse repercutir em outras áreas.”
Segundo
o pesquisador, a participação ativa de Eduardo Paes na campanha lulista após o
primeiro turno também foi importante. “Com Paes tivemos um terceiro discurso: o
da racionalidade política, este bem aderente a quem não se vê em nenhum dos
campos ideológicos, estava cansado de lulistas versus bolsonaristas, mas sabia
reconhecer que, do ponto de vista prático, os governos Lula foram positivos
para o Rio. Paes focou nesse ponto.”
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Estamos diante de um movimento antibolsonarista?
Também
professor da PUC-Rio, onde dirige o Departamento de Comunicação, Arthur
Ituassu, tem chamado atenção para o surgimento de um antibolsonarismo. Segundo
ele, isso foi impulsionado pelas mídias digitais no segundo turno nas grandes
cidades, “especialmente nos bairros de renda média e baixa nos centros mais
ricos do país, como Rio, São Paulo e Belo Horizonte”.
“O que
sabemos, por meio de dados, é que os maiores ganhos de Lula em relação ao seu
próprio desempenho foram nas cidades de renda média entre R$ 2.554,85 e R$
6.929,48, onde ele teve aumento proporcional de 24% em relação ao primeiro
turno. Como estamos falando de grandes centros urbanos, tendemos a acreditar
que as mídias digitais e a mobilização feita nesse terreno têm impacto nessa
mudança”, afirma Ituassu. “E há o surgimento de um antibolsonarismo (antes só
falávamos de antipetismo) que, alimentado pela comunicação digital, incentivou
a percepção de medo nesses eleitores de um novo governo Bolsonaro”, reflete o
pesquisador, que também é autor do livro “A Nova Regra do Jogo” – no qual fala
sobre a relação entre mídias digitais, política e democracia.
Segundo
ele, o resultado do segundo turno “faz a gente pensar como teria sido a eleição
para a Câmara, o Senado e mesmo para governador do Rio se tivesse havido
campanha semelhante no primeiro”. O pesquisador acredita que a comunicação
digital influenciou a construção de um medo efetivo do retorno dos Bolsonaro à
presidência.
E será
que o fato de o Rio ser berço político da família e também onde nasceram as
milícias pode ter aumentado na cidade a força da comunicação digital da
esquerda, que focou no envolvimento de Flávio com milicianos e na defesa que
ele fez como advogado do policial acusado de matar a menina Ana Clara?
“Acredito que sim, mas ainda não temos pesquisa sobre isso, é uma hipótese a
ser testada.”
Dias
antes do pleito, o caso de Ana Clara – morta aos 5 anos de idade, em 2021,
quando brincava na porta de casa – dominou as ruas e as redes sociais. O fato
de Flávio ter atuado como advogado do réu, como revelou em março o ICL
Notícias, revoltou um mar de gente. O Exército do Lula, canal criado no
WhatsApp pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) e que hoje tem 10,5
milhões de pessoas, explorou diariamente esse tema e tinha missões enviadas por
Janones que orientavam o disparo de posts com hashtags como
#PesquiseOCasoAnaClara. Além disso, a série de videorreportagens Revelando,
lançada pouco antes do primeiro turno, fez um episódio sobre o tema que
viralizou. A comoção foi tamanha que uma campanha para dar uma casa para a mãe
da menina, Cristiane Gomes da Silva, arrecadou no dia 27 de outubro R$ 1,5
milhão em apenas cinco horas.
A
cientista social Manuela Peclat, pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança
e Cidadania (CESeC/Universidade Candido Mendes), analisa que esses três pontos
– a história de Ana Clara, a série Revelando e também o Exército do Lula –
tiveram grande impacto no eleitorado carioca e fluminense, mas também no
nacional. “É uma soma de fatores. O canal, por exemplo, teve peso porque, pela
primeira vez, a esquerda teve um experimento prático de aprendizado sobre redes
sociais. O bolsonarismo tem essa expertise, o próprio mecanismo de fake news
consegue um alcance muito grande. A mobilização do Janones foi um aprendizado
de última hora tentando driblar o algoritmo”, pondera Manuela.
Ela
destaca também dois movimentos de Lula a poucos dias do segundo turno, sendo
que um deles atinge em cheio o bolso dos Microempreendedores Individuais
(MEIs). Batizada como Prospera MEI, a Lei Complementar 238/2026, sancionada
pelo presidente em 21 de outubro, prevê um pacote de ações que incluem o perdão
de dívidas dos microempreendedores com a União e um novo teto que permite a
ampliação do faturamento. Somados, os estados do Rio (com 1,3 milhão de MEIs),
São Paulo (4,7 milhões) e Minas Gerais (1,8 milhão) responderam por 44,6% dos
10,4 milhões de novos votos que Lula conseguiu para vencer a eleição.
“Outra
cartada foi a defesa que o presidente fez da diminuição da maioridade penal
para crimes hediondos. Historicamente a esquerda tem dificuldade de se
posicionar no campo da segurança pública, é um campo tomado pelas soluções que
a direita dá, medidas extremamente punitivistas que a longo prazo não se mantêm
e não resolvem o problema, só aumentam a população carcerária e o poder das
facções. Apesar das ressalvas da esquerda, esse posicionamento foi importante
para um eleitorado com tendência de voto mais à direita.”
Uma das
vozes mais proeminentes da nova geração progressista do Rio, Anielle Franco
(PT-RJ), que foi ministra da Igualdade Racial no atual governo e a mulher mais
votada do estado para a Câmara dos Deputados (149.726 votos), concorda que a
mobilização digital, sobretudo após o “susto” da esquerda no primeiro turno,
foi um dos pilares da vitória no Rio e no Brasil.
“As
pessoas se mobilizaram digitalmente. Antes mesmo do Exército do Lula, canais
pequenos que já existiam foram se multiplicando. A minha equipe de campanha,
por exemplo, tinha 50 grupos no WhatsApp que foram transformados em grupos do
Lula no Rio. Mas aconteceu também uma mobilização muito grande da militância no
dia a dia”. Anielle destaca o envolvimento dos parlamentares eleitos e
candidatos não-eleitos nos dias finais da disputa. Esses dois elementos
combinados – mobilizações digitais e da base –, segundo ela, “reacenderam a
militância”.
“No
Rio, conseguimos unificar mais de 200 favelas em prol do presidente. Nem todos
queriam ele, mas a gente mostrou que, entre o bom e o péssimo, o favelado tinha
que sobreviver”, conta Anielle, que todos os dias anunciava em seus grupos os
locais onde pediria votos para Lula.
Anielle
também afirma que o governo federal acertou ao ampliar o diálogo com os
movimentos de base a partir da retomada dos Conselhos Municipais e Estaduais de
Promoção da Igualdade Racial, além do fortalecimento do Conselho Nacional. “Nem
sempre a relação era das melhores porque as pessoas tinham muitos anseios para
o governo solucionar, obviamente não era possível resolver tudo de imediato.
Mas mostramos nos conselhos que era possível não apenas questionar, mas também
construir juntos políticas públicas. Com isso, o governo se aproximou dos
movimentos sociais muito antes das eleições.”
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O efeito Eduardo Paes depois do primeiro turno
O
deputado estadual Flávio Serafini (PSOL-RJ), reeleito este ano e com atuação
política dedicada à defesa da educação pública, destaca medidas que o governo
tomou que “reafirmaram seu compromisso com a classe trabalhadora”,
especialmente a aprovação do fim da escala 6×1 no Senado.
“Mas um
elemento especial é que a candidatura do Eduardo Paes ao governo do Rio acabou
atrapalhando a candidatura do Lula no primeiro turno. O próprio Eduardo não
fazia campanha para o Lula achando que essa associação poderia atrapalhar a
eleição dele. Outras forças democráticas também não estavam engajadas na
eleição do Lula, como o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves (PDT-RJ)”. O
deputado avalia que no interior do estado, antes de primeiro turno, Lula também
estava escondido atrás da eleição de Paes. “No segundo turno, todas as forças
se canalizaram para Lula e para defender a democracia”, aponta Serafini.
Michaela
Bastos Ribeiro, de 19 anos, aluna do primeiro período no curso de Serviço
Social da UFF (Universidade Federal Fluminense), estava entre os estudantes que
tomaram as ruas de Niterói logo após o primeiro turno – foram 16 atos em 21
dias – que motivaram jovens cariocas e do Brasil todo a fazerem o mesmo. O
movimento gerou uma espécie de “Primavera Brasileira”, com repercussão
internacional, como mostrou a Agência Pública.
A
estudante nunca havia participado de manifestações políticas até aquele
momento. “Foi maravilhoso poder estar lá, sentir que fiz parte desse movimento
e que, de alguma forma, ajudei a fazer a diferença. Todas as manifestações
foram muito pacíficas e informativas. Hoje sei que estar politicamente
informada é importante, e que a política afeta nossa vida a todo momento”, diz
Michaela. “As manifestações foram o pontapé inicial para mostrar que a gente
não precisava aceitar calado o resultado do primeiro turno e que juntos
tínhamos força para mudar a situação.”
Para a
pesquisadora Manuela Peclat, as palavras ditas por Lula durante sua entrevista
coletiva na véspera da eleição, após o ato histórico na praia de Copacabana,
sintetizam o envolvimento de Michaela e tudo que aconteceu nos 21 dias entre os
dois turnos: “O que o povo brasileiro fez nesse segundo turno não estava
escrito em nenhuma página da nossa sociologia. O povo assumiu para si a
responsabilidade de fazer a campanha”, afirmou o presidente Lula. “A grande
lição dessa campanha é: sem o povo a gente não ganha as eleições e sem o povo a
gente não governa.”
Fonte:
Por Caio Barretto Briso, em Agência Pública

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