Envenenar
água dos Guarani e Kaiowá “não é ameaça isolada”, afirma coordenador da Aty
Guasu
A
grande tensão política que perpassou o segundo turno das eleições presidenciais
também gerou repercussões para diversas comunidades indígenas do país. No Mato
Grosso do Sul, um servidor foi afastado por ameaça de “envenenar a água” de
indígenas Guarani e Kaiowá após o resultado da eleição presidencial. Denúncias
de violência e ofensas racistas contra indígenas e comunidades em todo o estado
também passaram a compor este cenário e ganharam atenção nacional.
Para o
coordenador da Aty Guasu, a Grande Assembleia Guarani e Kaiowá, Voninho
Benites, a ameaça de envenenamento expressa uma realidade de ameaças, violência
e violações que são cotidianas aos indígenas do estado – especialmente para as
comunidades afetadas pela desterritorialização e em luta pela terra.
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“Ponha veneno na água”
Em
áudios que circularam nas redes sociais após a confirmação da reeleição do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um homem afirma que os indígenas deveriam
ser envenenados por terem votado no candidato do Partido dos Trabalhadores
(PT). Os áudios são atribuídos a um servidor da prefeitura de Tacuru (MS), que
foi afastado após a repercussão do caso.
Numa
sequência de gravações, um homem afirma que “quem votou no PT só foi os índios
(sic). Desgraçados”. Em outro áudio do mesmo conjunto de mensagens, um homem
afirma que “tem que ponhar (sic) veneno na água, tem que matar essas pragas na
água”.
O áudio
viralizou nas redes sociais após denúncia do cacique Ivan Montiel, da aldeia
Sassoró, que também é vereador no município. “Estão disseminando o ódio e o
preconceito, um pensamento colonial que não vem de agora”, destacou o cacique.
“Não vamos aceitar esse tipo de preconceito contra nossas comunidades,
ameaçando colocar veneno em água”.
“Casos
de envenenamento de água já aconteceram diversas vezes contra nossas
comunidades. Não é uma ameaça isolada, faz parte de como matam nosso povo”
As
lideranças formalizaram a denúncia junto ao Ministério Público Federal (MPF) em
Mato Grosso do Sul, que deu prazo de 48 horas para a prefeitura de Tacuru
esclarecer a veracidade, a autoria e quais medidas estão sendo tomadas.
Em
nota, a prefeitura de Tacuru (MS) se comprometeu a colaborar com as autoridades
competentes, incluindo o MPF e a Polícia Federal (PF), e informou que ter
instaurado um “Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apuração rigorosa
dos fatos e das responsabilidades” e afastado os servidores de suas funções
“até a conclusão das investigações”.
A Aty
Guasu, a Grande Assembleia Guarani e Kaiowá, tem exigido que para além do PAD e
do afastamento, o servidor responda por crime. Para Voninho Benites,
coordenador da Aty Guasu, uma fala como esta não é apenas uma manifestação
verbal de ódio.
“Tacuru
está contextualizada em um Cone Sul onde muitas comunidades são atacadas e
muitas lideranças têm perdido suas vidas”, relembra. “Casos de envenenamento de
água já aconteceram diversas vezes contra nossas comunidades como em Ypoi, onde
jogaram veneno diretamente no rio, como quando aviões largam veneno em águas
que ficam perto de muitos de nossos territórios, adoecendo nossas crianças. Não
é uma ameaça isolada, faz parte de como matam nosso povo”.
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Histórico de ataques químicos
O uso
de agrotóxicos como arma química contra comunidades indígenas tem um longo
histórico no Mato Grosso do Sul.
Em
2025, uma das sequências mais graves de ataques contra o povo Guarani e Kaiowá
ocorreu na Terra Indígena (TI) Guyraroka, em Caarapó. A comunidade da TI viveu
meses de terror e violência depois que decidiu retomar uma fazenda sobreposta à
sua terra para evitar a aplicação de agrotóxicos nas proximidades de suas
moradias – prática que, nos últimos anos, gerou diversos problemas de saúde
para os indígenas.
Depois
da retomada realizada em setembro, a fazenda Ipuitã, vizinha à aldeia, foi
palco de conflitos e de diversos ataques armados e ações abusivas de forças
policiais contra a comunidade, inclusive com denúncia de agressão sexual a uma
jovem. As violações à comunidade da TI Guyraroka já foram objeto de medidas
cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
No ano
anterior, 2024, outra situação grave envolvendo o uso de agrotóxicos como arma
química contra os indígenas foi registrado na TI Panambi – Lagoa Rica, no
município de Douradina. Naquele ano, os Guarani e Kaiowá também estiveram
durante meses sob o cerco de fazendeiros e jagunços, que montaram uma base em
frente à retomada Yvy Ajere para atacar os indígenas (leia o artigo sobre o
caso no relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de
2024).
Em meio
aos conflitos, os Kaiowá e Guarani denunciaram que a água de um córrego
utilizado por eles para lavar roupas, tomar banho e até para consumo apresentou
uma coloração turva e esbranquiçada, e inúmeros peixes apareceram mortos,
indicando um provável despejo irregular de substâncias tóxicas. Após entrarem
em contato com a água, adultos e crianças apresentaram sintomas como diarreia,
vômito, fortes dores estomacais e mal-estar. O caso foi denunciado às
autoridades.
Em anos
anteriores, a prática de pulverização aérea diretamente sobre acampamentos
Guarani e Kaiowá também era recorrente. Em 2020, a Justiça Federal do Mato
Grosso do Sul condenou um fazendeiro, um piloto de avião e uma empresa a
indenizarem indígenas da comunidade Tey Jusu, na TI Dourados-Amambaipegua I, em
Caarapó, pelo despejo de agrotóxicos em barracos de lona, em 2015. Na ocasião,
crianças e adultos tiveram dores de cabeça e garganta, diarreia e febre.
Também
em 2015, o tekoha Guyra Kambi’y, outra das comunidades que compõem a TI Panambi
– Lagoa Rica, foi alvo de um ataque aéreo com dispersão de agrotóxicos. O
Ministério Público Federal (MPF) caracterizou o ataque químico como “uma versão
moderna do agente laranja usada na Guerra do Vietnã”.
Apenas
um ano depois, 2016, caso semelhante ocorreu em Laranjeira Nhanderu, outra
comunidade Guarani e Kaiowá em luta pela terra. Os indígenas apontaram que a
pulverização aérea de agrotóxicos numa lavoura de soja vizinha à comunidade,
localizada no município de Rio Brilhante, matou os peixes e contaminou um rio
utilizado pelos indígenas.
A luta
pela terra é o pano de fundo comum a todos estes casos, se repetiram em
diversas outras comunidades do estado. As TIs Panambi – Lagoa Rica,
Dourados-Amambaipegua I e Guyraroka aguardam regularização, e a comunidade de
Laranjeira Nhanderu aguarda há décadas a conclusão da primeira etapa do
processo demarcatório, o relatório de identificação e delimitação.
O mais
recente relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, elaborado pelo
Cimi, registrou que, em 2025, o Mato Grosso do Sul foi o estado com mais
registros de violência contra a pessoa indígena, um dos três tipos de violência
sistematizados na publicação – que incluem também a violência contra o
patrimônio e a violência por omissão do poder público. Ao longo do ano, foram
registrados no estado 102 casos de violência contra a pessoa, incluindo 37
assassinatos, 18 tentativas de assassinato e 18 casos de lesão corporal, além
de episódios de racismo e discriminação, violência sexual, abuso de poder e
ameaças várias.
Em
abril de 2026, as denúncias foram novamente reforçadas em Brasília por uma
delegação da Aty Guasu. A organização Kaiowá e Guarani apresentou aos órgãos
federais uma lista de assassinatos de lideranças indígenas ligadas à luta pela
terra, além de ataques armados, dezenas de atropelamentos, desaparecimentos,
despejos ilegais e prisões arbitrárias.
“cortar
a luz, cortar a água, que índio também não pode ter nada disso, é só lamparina.
E eu acho que o índio também não podia voltar”
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Ofensas no período eleitoral
“Bugrada”,
“demônio”, “cão” e “ingratos” são alguns dos insultos e das ameaças que
indígenas dos povos Terena, Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul passaram a
receber após a confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
para o mandato de 2027 a 2030. Relatos de manifestações racistas, ameaças à
vida, à segurança e à integridade física dos indígenas foram registrados em
municípios da região do Pantanal e do Cone Sul do estado durante e após o
período eleitoral.
Os
casos incluem ofensas em redes sociais, circulação de áudios com discursos
discriminatórios, questionamentos sobre direitos básicos das comunidades
indígenas e uma denúncia de impedimento ao uso de material de campanha durante
a votação.
Em
Sidrolândia, uma publicação no WhatsApp reuniu reclamações sobre o uso de fogos
de artifício na aldeia Tereré. Na ocasião, uma pessoa utilizou a expressão
racista “bugrada fdp” para se referir aos indígenas.
Em
Nioaque, circulou um áudio com declarações racistas que questionavam o direito
dos indígenas de participar das eleições e de acessar serviços básicos. Na
gravação, o autor afirma que os indígenas não deveriam votar nem sair das
aldeias e defende que não tenham acesso ao abastecimento de água ou à energia
elétrica: “cortar a luz, cortar a água, que índio também não pode ter nada
disso, é só lamparina. E água no poço. E eu acho que o índio também não podia
voltar”.
O áudio
também contém a afirmação de que os indígenas deveriam ser impedidos de sair
das aldeias e circular pela região: “nós vamos começar a botar eles a
trabalhar, mandar fechar a porteira para não sair mais para a cidade, que índio
é só no mato”.
Ainda
em Nioaque, uma fazendeira cuja propriedade está localizada em área
reivindicada como território tradicional indígena teria enviado uma mensagem em
um grupo de WhatsApp com ofensas ao vereador Sérgio Terena. Na mensagem, ela o
chamou de “asno”.
Os
relatos evidenciam diferentes formas de discriminação contra os povos
indígenas, desde ofensas racistas em ambientes digitais até manifestações que
questionam direitos políticos e o acesso a serviços essenciais. Os casos foram
reunidos em um levantamento regional e demandam apuração para o esclarecimento
das circunstâncias e a eventual responsabilização dos envolvidos.
“No
Mato Grosso do Sul, os povos indígenas convivem há décadas com um cenário de
violência sistemática, marcado pela demora na demarcação de seus territórios e
pela imposição de condições precárias de vida”
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Racismo e violência para além do período eleitoral
“As
violências relatadas não são episódios isolados nem começaram no período
eleitoral. No Mato Grosso do Sul, os povos indígenas convivem há décadas com um
cenário de violência sistemática, marcado pela demora na demarcação de seus
territórios e pela imposição de condições precárias de vida em reservas
superlotadas, acampamentos, retomadas e beiras de estrada”, explica Matias
Rempel, coordenador do Cimi Regional Mato Grosso do Sul.
“A
negação de direitos básicos, como o acesso à água, à saúde, à educação e a
condições dignas de trabalho, soma-se aos assassinatos e às tentativas de
homicídio, à violência contra mulheres e crianças, às ações de forças policiais
e grupos armados e às ameaças de fazendeiros”, prossegue o missionário.
“As
manifestações racistas e as ameaças que ganharam visibilidade após as eleições
expressam uma lógica de discriminação e perseguição que faz parte do cotidiano
desses povos. Embora a violência atravesse diferentes governos, ela se
intensifica em contextos políticos que legitimam o discurso de ódio e a
ofensiva contra os direitos indígenas, como ocorreu durante o governo de Jair
Bolsonaro. No Mato Grosso do Sul, esse cenário também se mantém sob o governo
estadual, ligado ao setor ruralista e a um histórico de articulação política
contrária aos direitos territoriais indígenas”, avalia.
“Crimes
e ameaças com teor de ódio político somaram-se a diversas camadas de violações
que estão permanentemente em curso, produzindo, nesta última semana, o cenário
fúnebre amplamente divulgado pelas mídias sociais e veículos de comunicação”,
lamenta Matias. “Infelizmente, esta não foi uma semana atípica para os povos do
Mato Grosso do Sul. Pelo contrário, foi o fluxo ordinário da realidade imposta
a estes povos que seguem sendo massacrados enquanto exigem o direito à
demarcação de seus territórios”.
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Nota da Funai
A
Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) divulgou, na manhã desta
quinta-feira (29), uma nota sobre as denúncias de violência e ameaças contra
indígenas no Mato Grosso do Sul.
O órgão
informou que acionou a Polícia Federal para que os fatos sejam apurados com
celeridade e rigor, e informou que atua em conjunto com o Ministério dos Povos
Indígenas (MPI), o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e o
Ministério da Igualdade Racial (MIR) para qualificar as denúncias e solicitar a
investigação dos casos.
• Polícia Federal investiga onda de
violência contra indígenas no Mato Grosso do Sul após as eleições
Polícia
Federal (PF) foi acionada pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI), nesta
quinta-feira (29), para investigar os casos de violência contra indígenas
Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, após o resultado das eleições.
A
Fundação dos Povos Indígenas (Funai) classificou os relatos como “extremamente
preocupantes” e cita ameaças à vida, à segurança e à integridade física dos
indígenas, manifestações de discriminação e incitação ao ódio.
“Diante
da gravidade dos relatos, o MPI acionou a Polícia Federal para que os fatos
sejam apurados com celeridade e rigor. O Ministério também mantém diálogo com
as comunidades indígenas, por meio do Departamento de Mediação e Conciliação de
Conflitos Fundiários Indígenas (Demed), e segue atuando, no âmbito de suas
competências, para assegurar a proteção e os direitos das comunidades”, informa
a nota do governo federal. As denúncias têm sido reunidas pela Articulação dos
Povos Indígenas do Brasil (Apib) e Associação Aty Guasu.
Nesta
quinta (29), por volta das 6h, a casa da Ñandesy Roberta, de 90 anos, taxada
como feiticeira e sofrendo racismo, foi incendiada de forma criminosa, na
aldeia Jaguapiré, município de Tacuru (MS). Foram queimados todos os
instrumentos sagrados usados nos rituais do povo, como takua, xiru, mbaraka,
mimby e outros.
Na
quarta (28), um servidor da Prefeitura de Tacuru (MS) foi afastado das funções
após sugerir o envenenamento da água consumida por indígenas da Aldeia Sassoró
em mensagem de WhatsApp.
No
domingo (25), à noite, uma família inteira foi assassinada em Naviraí. No mesmo
dia, houve atropelamentos em Coronel Sapucaia. Um homem morreu.
A
Anistia Internacional Brasil e o Greenpeace também cobraram resposta urgente
das autoridades diante das denúncias no Mato Grosso do Sul.
Além do
MPI, os ministérios dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e da Igualdade
Racial (MIR) atuam para reunir denúncias de violência relacionadas aos povos
indígenas, comunidades quilombolas e povos de terreiro. Os órgãos estão em
diálogo permanente, por meio de uma força-tarefa, para que os casos sejam
investigados “de forma célere, e os responsáveis identificados e
responsabilizados por possíveis crimes”.
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São Paulo e Minas Gerais
A
escalada da violência também foi denunciada pela deputada federal Célia
Xakriabá (Psol-MG) na Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade
Racial, que apontou um incêndio no território do povo Tikm’n, conhecido como
Maxakali, em Minas Gerais. “São povos indígenas que enfrentam ameaças à vida, à
água e aos seus territórios. Essas denúncias precisam ser investigadas, e o
poder público deve agir para garantir proteção às comunidades”, disse Célia.
A Apib
também denunciou casos de ameaças a indígenas em Avaí (SP), próxima à região de
Bauru.
Fonte:
Cimi/Brasil de Fato

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