quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Ansiedade responde por 40% dos afastamentos do trabalho por saúde menta

A ansiedade se tornou a principal causa de afastamentos do trabalho por transtornos mentais no Brasil, respondendo a cerca de 40% do número total de ausências, cerca de 157 mil registros, segundo o último levantamento da ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho). Já a síndrome de Burnout, ligada ao esgotamento profissional, registrou mais de 6 mil afastamentos no último ano, o triplo do obtido em 2023 quando foram contabilizados 1760 casos, o maior crescimento percentual entre todas as condições analisadas.

Os transtornos de ansiedade são caracterizados por medo excessivo, preocupação persistente e sensação constante de ameaça. No ambiente de trabalho, costumam estar associados à sobrecarga, à pressão por resultados, a jornadas extensas e à baixa previsibilidade das rotinas, fatores que favorecem a evolução silenciosa do Burnout.

Os benefícios concedidos por esses e outros problemas psicológicos, com duração superior a 15 dias, saltaram de 219.850 em 2023 para 393.670 em 2025. O volume representa um aumento de 79% no período, com um custo que chega a R$ 954 milhões.

O assunto está no centro das discussões do 23º Congresso da ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho), que acontece em Salvador, entre a próxima terça-feira (3) a sexta-feira (6). O evento, realizado em parceria com a SBMT (Sociedade Baiana de Medicina do Trabalho), ocorre no Centro de Convenções da cidade.

No evento também será debatido a reformulação da NR-1 (Norma Regulamentadora 01). Houve uma inclusão, por meio da Portaria nº 765/2025 do Ministério do Trabalho, dos riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais no ambiente de trabalho. A atualização entrou em vigor em maio deste ano. Na prática, fatores que podem afetar a saúde mental dos funcionários passaram a fazer parte das medidas de prevenção que devem ser adotadas pelas empresas, assim como os riscos físicos, químicos e ergonômicos.

Entre os exemplos estão assédio moral, excesso de trabalho, jornadas prolongadas, pressão constante e problemas na organização das atividades. As companhias que não identificarem e nem avaliarem situações que possam prejudicar a saúde dos trabalhadores, podem ser punidas.

Para o presidente da ANAMT, Francisco Cortes Fernandes, o encontro em Salvador é uma oportunidade para o médico do trabalho se manter atualizado diante das constantes transformações das mudanças regulatórias e das demandas da saúde ocupacional. “O evento sempre reúne especialistas renomados, pesquisadores e profissionais com ampla bagagem, o que contribui diretamente para o aprimoramento técnico, científico e ético da atuação profissional”, afirma Fernandes

Participam do congresso especialistas de diversos estados e de países como Peru, Argentina, México e Estados Unidos, que vão debater ações e políticas de proteção da saúde e do bem-estar do trabalhador brasileiro.

•        Preocupação com saúde mental das empresas atinge 2º maior nível histórico

No Brasil, cerca de 72% dos brasileiros trabalham em "modo de sobrevivência", segundo estudo da Starbem realizado em junho deste ano. O número corresponde aos níveis mais altos de uma escala de tensão aguda.

Por outro lado, o anuário "Saúde Mental das Empresas", lançado pelo Instituto Philos Org neste sábado, revela que, de 2025 para cá, os maiores grupos corporativos do país atingiram o segundo maior nível de preocupação em relação ao bem-estar de seus funcionários da série histórica.

Em uma escala de pontuação máxima de 16, o índice atingiu 8,02 pontos em 2026, com um leve recuo de 0,17 ponto em relação a 2025, quando o índice geral atingiu 8,19. Apesar da baixa, o número ainda é maior que em 2023, quando o índice apontava 5,40, e em relação a 2024, quando o indicador era de 5,06 pontos.

O anuário tem como base principal os relatos integrados, que são documentos elaborados pelas próprias organizações para prestar contas à sociedade e gerar valor ao negócio.

O levantamento também leva em consideração a área em que cada empresa está inserida. Neste ano, e pelo segundo ano seguido, o Setor Financeiro despontou como a área com maior pontuação do índice, com 10,8 pontos.

A empresa com maior avaliação no ranking desse grupo foi o Banco do Brasil (13,78), seguido por Bradesco (13,22) e Itaú Unibanco (12,57).

Nos demais setores, o ranking segue com TI, Telecom, Tecnologia e Comunicação em segundo lugar (8,77) e Indústria em terceiro (8,69). Confira o restante da classificação:

•        Comércio: 8,43;

•        Energia e Recursos Naturais: 7,98;

•        Serviços, Transportes e Logística: 6,67;

•        Alimentos e Bebidas: 6,09;

•        Agronegócio: 5,78.

Entre as empresas de destaque, em um recorte geral, a Renner aparece como líder do ranking geral, com um índice de 14,35. Em seguida, o Banco do Brasil se destaca não só no seu grupo, mas também em um contexto maior. O Bradesco, por sua vez, fecha o pódio em terceiro lugar.

Em seguida, Arcelor Mittal (12,61), Itaú Unibanco (12,57), Vibra (12,17) figuram em quarto, quinto e sexto lugar. Completam o ranking das dez empresas com melhor desempenho no anuário: Petrobras (11,30), Suzano (10,96), Globo (10,95) e Embraer (10,91).

<><> Custo sobre saúde mental do trabalhador

O aumento dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil custou cerca de R$ 1 bilhão ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), segundo dados do início deste ano.

Ainda de acordo com o instituto, 1 em cada 7 trabalhadores foi afastado por transtornos mentais e comportamentais ao longo do ano passado - o equivalente a 546 mil trabalhadores, o maior número registrado historicamente e alta superior a 14,5% em relação a 2024.

O cenário alerta para a necessidade de mudança na cultura organizacional, que ainda falha em reconhecer elementos como carga de trabalho, modelo de gestão, metas e ambiente como potenciais geradores de adoecimento.

Nesse contexto, a atualização da Norma Regulamentadora n°1, há poucos meses do Dia Mundial da Saúde Mental, aproxima a legislação brasileira de padrões internacionais e reforça que a saúde mental também é saúde do trabalhador.

Assim, desde maio deste ano, a NR-1 passa a exigir oficialmente o gerenciamento de riscos psicossociais. Na prática, a norma coloca fatores como assédio moral, metas abusivas, jornadas excessivas e pressão constante no centro das obrigações corporativas, ao lado de riscos físicos, químicos e ergonômicos.

Os fatores de prevenção que passam a ser obrigatórios são os mesmos que ajudam o trabalhador a não passar pelo processo conhecido por "Burnout", síndrome caracterizada pelo esgotamento físico e emocional do trabalhador.

Os principais pilares que caracterizam a síndrome incluem a exaustão, o distanciamento do ambiente profissional e a queda de produtividade. Uma pessoa que antes tinha uma relação produtiva, feliz e prazerosa com suas atividades laborais passa a demonstrar um comportamento distanciado e uma sensação de perda de eficiência.

O Brasil, por exemplo, além de passar por uma crise de afastamentos por questões de saúde mental, também passa por uma queda em sua produtividade - refletida, ainda, em sua competitividade frente aos demais países.

Um levantamento do FGV Ibre aponta queda de 0,5% na produtividade por horas trabalhadas no primeiro trimestre de 2026, reforçando uma tendência que já preocupa há décadas.

Nessa linha, a atualização da NR-1 representa uma mudança estratégica no sistema de trabalho. Segundo Amanda Bittencourt, gerente da operadora de saúde Care Plus Ocupacional, fatores como ambiente corporativo, pressão emocional, relações de liderança e organização do trabalho ganham peso formal após a medida.

"A partir do momento em que a norma exige um olhar estruturado para os riscos psicossociais, as empresas passam a ter mais condições de identificar padrões antes do esgotamento, agindo preventivamente para tratar a raiz do problema, e não apenas os seus sintomas."

 

Fonte: CNN Brasil

 

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