Não
há fora do mundo que proteja do fim do mundo
Eis a
situação na qual nos encontramos hoje: uma corrida armamentista pelo
desenvolvimento de uma nova tecnologia cujos próprios desenvolvedores vêm
alertando que provavelmente extinguirá a humanidade. No seu estágio atual, essa
tecnologia já é capaz de decidir autonomamente para onde e contra quem suas
armas serão apontadas — e em quais janelas de contexto ela própria apertará o
gatilho. Na verdade, a própria metáfora do “gatilho” torna-se obsoleta diante
das capacidades inauditas que, conforme nos alertam, essa tecnologia terá para
desencadear formas novas de extermínio — como a síntese de vírus e pandemias
mortais ou a orquestração de ciberataques em grande escala, aptos a fazer
colapsar a infraestrutura material que sustenta a vida humana no planeta.
Os
mecanismos que informam como essa tecnologia toma suas decisões autônomas, no
entanto, vêm se revelando opacos e imperscrutáveis mesmo para quem os cria —
passando a tratá-los como uma verdadeira “caixa preta”. Nesse sentido, vem se
abrindo uma discrepância intransponível entre a linguagem algorítmica dentro da
qual essa tecnologia opera e aquela que os seres humanos são efetivamente
capazes de representar. Como na fábula do aprendiz de feiticeiro ou no
Frankenstein de Mary Shelley, os engenheiros dessa nova etapa da técnica
admitem não compreender exatamente o que estão a criar, nem como controlá-lo.
Que o
temor dos criadores é sincero, atesta-o o fato de que essas mesmas pessoas
estão desenvolvendo, concomitantemente com as suas criaturas, uma verdadeira
“fobia sobrevivencialista”, que as leva a investir na construção acelerada de
bunkers e refúgios em lugares remotos do globo, da Nova Zelândia à Patagônia
argentina. Revelam, assim, também o seu próprio autoengano: a ilusão de que
serão capazes de fraudar o “universalismo negativo” que nos tornará a todos — a
humanidade em sua totalidade — vítimas de suas criações. Apostam que poderão,
com a sua riqueza, erguer santuários privados, separando os “eleitos” daqueles
que serão abandonados ao Armagedom. Aqueles que não se deixam enganar por esse
descomedimento ingênuo, contudo, avisam de maneira enfática: If Anyone
Builds It, Everyone Dies — se alguém a construir, todos morrerão. Não há um
“fora do mundo” que possa resguardá-los do fim do mundo.
A
ideologia que informa esse projeto parece reagir a uma “vergonha prometeica” —
à vergonha da fragilidade do corpo humano frente à força, constância e
eficiência da máquina e, em última instância, à vergonha de ter nascido ao
invés de ter sido projetado e fabricado. É a partir dessa ferida narcísica que
os engenheiros e financiadores da assim chamada inteligência artificial passam
a se conceber como profetas de uma nova era e parteiros de um novo tipo de ser,
capaz de finalmente superar as limitações humanas que lhes causam vergonha. A
ênfase, contudo, não reside nas limitações de ordem material, mas
principalmente nas de ordem moral. A autonomia da qual buscam dotar a
tecnologia revela-se uma inversão da própria autonomia pessoal, que ganha
terreno à medida que as pessoas lhe outorgam a tarefa de julgar e decidir por
si. A regra que passa a aplicar a si mesma torna-se normativamente
incompreensível e, portanto, indiscutível por nós, humanos. O algoritmo que
determina o alvo e aciona o disparo acaba por exterminar, assim, qualquer
possibilidade de responsabilidade pessoal.
A
sujeição a processos crescentemente maquinais de mediação social, por meio dos
seus mecanismos indecifravelmente abstratos, logra o objetivo de inaugurar uma
nova ontologia concreta que, ironicamente, suprime a capacidade essencialmente
humana para a abstração moral — fechando a lacuna entre o “ser” e o “dever
ser”, entre a cognição e o juízo, e entre a causalidade natural e a
reflexividade pessoal. A agência humana, já fortemente fragilizada por séculos
de divisão do trabalho que a converteram em mero “acionamento”, é finalmente
obliterada pelo autoacionamento.
Já há
mais de cem anos, um Max Weber crítico e irresignado alertava que a ética da
responsabilidade seria o último recurso de que dispomos contra a “mecanização
petrificada” da vida — ápice do processo histórico de racionalização e
burocratização que ele diagnosticou como conducente a uma “jaula de aço” que
nos deixaria a todos, conforme a sua descrição romântica, mas precisa, “sem
espírito” e “sem coração”. Assim, percebe-se que a ascensão da inteligência
artificial revela ser apenas a etapa mais recente da intensificação de um
processo histórico mais antigo: um fio contínuo que parece ir do advento da
atiradeira à pólvora, e dela à bomba atômica e ao drone, mas que também é
traçável à primeira fábrica de alfinetes e ao egoísmo calculado do padeiro, do
açougueiro e do cervejeiro. Alguns dos ideólogos contemporâneos do domínio da
máquina chegam a argumentar, em termos que só podemos tratar como literatura
fantástica, que o capitalismo seria uma forma de vida alienígena vinda do
futuro para colonizar a Terra e os terráqueos, construindo no passado e no
presente as condições para a sua supremacia.
Importa,
contudo, reparar que os alertas feitos pelos executivos e engenheiros da
inteligência artificial sobre os perigos do fim do mundo são também
instrumentais para a autorrealização da sua profecia. Suas narrativas de horror
cósmico servem, em primeiro lugar, à valorização da mercadoria que buscam nos
vender — convertendo o risco da extinção no argumento supremo para que
reivindiquem o monopólio da “competência” sobre as decisões políticas que
determinarão o nosso destino. Para isso, colocam-se como tarefa o desembaraço
das regulações governamentais, dos entraves jurídicos e das oposições políticas
à aceleração tecnológica. Com esse objetivo, aliam-se a outras forças
autoritárias visando à captura do Estado — um Estado que, no longo prazo,
deverá ser ele próprio substituído por corporações igualmente dirigidas pelo
automatismo algorítmico. O que se percebe é que a mera existência dessa
tecnologia já impõe um regime existencial mais total do que qualquer regime
político que o conceito tradicional de totalitarismo, até aqui, jamais logrou
denotar.
A
justificação política para a eliminação do humano revela, enfim, todo o seu
paradoxo: o domínio da inteligência artificial passa a ser vendido como um
imperativo supremo de sobrevivência, pautado por um pretenso realismo político
— segundo o qual seria necessário desenvolvê-la a qualquer custo antes que um
futuro inimigo geopolítico, colocado em rota de colisão por uma necessidade
histórica profetizada como a “armadilha de Tucídides”, o faça. De que modo a
vitória desse futuro inimigo fará qualquer diferença para os mortos — que
seremos todos —, resta uma questão tragicamente em aberto.
Eis a
situação na qual Felipe Catalani publica o seu livro sobre as Teses para a Era
Atômica de Günther Anders. Dizer que a obra “toma o pulso do tempo” e que por
isso é um “livro necessário” seria um grande lugar-comum — não fosse o fato de
que o tempo de que falamos é aquele que Anders caracterizou como “tempo do
fim”, e de que a “necessidade” à qual nos referimos não é a necessidade humana,
qualquer que ela seja, mas aquela férrea necessidade histórica determinada por
um “sujeito automático” que, tendendo à valorização ao infinito, engendra a
todos em uma “mobilização total” contra inimigos úteis — cuja única serventia é
servir como ocasião para o desenvolvimento contínuo e intensificado dos meios
para a nossa própria autodestruição.
A
utilidade do livro de Catalani reside precisamente em nos franquear o arsenal
conceitual formulado por Günther Anders — em constelação crítica com Marx,
Adorno e Benjamin — para oferecer um repertório indispensável à explicação do
caráter apocalíptico do tempo presente. Embora a nossa conjuntura seja
tecnologicamente distinta e ainda mais grave do que aquela que Anders
testemunhou no século XX, o horizonte histórico permanece rigorosamente o
mesmo: continuamos a habitar o “tempo do fim”, esse prazo elástico e
indeterminado que perdurará até que se converta — e a nossa tarefa política e
ética, tal como proposta por Anders, é justamente impedir que se converta — no
“fim dos tempos”.
Na
Parte I, Catalani traduz e comenta de forma minuciosa as “Teses para a Era
Atômica” (1959) de Gunter Anders, desdobrando como esse “filósofo de ocasião”
condensa em formulações diretas o novo estatuto da política, da moral e da
história inaugurado pelo advento da bomba atômica. O valor renovado desse
repertório reside em sua capacidade de deslocar o papel da técnica como
instrumento neutro ou meio para fins humanos, situando-a mais corretamente como
um regime existencial autônomo que impõe seus próprios fins e, com eles, o
perigo insuperável do “fim dos tempos”. Lendo o livro, é impossível não
perceber como conceitos como a “vergonha prometeica”, a “abolição da ação”
suplantada pelo “desencadeamento”, a “onipotência negativa” e o “universalismo
negativo” que nos converte a todos em morituri (aqueles que estão
prestes a morrer) deixam de explicar apenas o perigo dos silos nucleares do
século XX. Transpostos para a situação atual, que soma os perigos da
inteligência artificial e do colapso ecossistêmico ao holocausto nuclear, tais
conceitos ajudam a explicar a opacidade das “caixas pretas” algorítmicas, a
irresponsabilidade e incompetência moral dos novos “aceleracionistas de
direita” e a conversão da ideia de progresso — ou “inovação” — em um
automatismo cego que avança à revelia de qualquer capacidade de representação e
deliberação humana.
Na
primeira seção da Parte II, intitulada “As origens da discrepância prometeica”,
Catalani escava a gênese histórica do descolamento entre progresso técnico e
progresso moral, promovendo um decisivo excurso sobre Walter Benjamin. Ao
retomar os debates alemães do entreguerras sobre a guerra química e a
industrialização do extermínio, a obra demonstra como Benjamin antecipou o
diagnóstico andersiano ao denunciar a “discrepância gritante” entre a magnitude
dos meios técnicos e o mínimo esclarecimento moral de seu uso. Contra a ilusão
de um progresso linear, o livro recupera a intuição de Adorno e a refina: a
única história universal contínua do capital não conduz da barbárie à
civilização, mas transcorre “da pólvora à bomba atômica” — exigindo, nos termos
de Benjamin, o acionamento do “freio de emergência” para interromper o curso
catastrófico do automatismo técnico.
Na
segunda seção, sob o título “Apocalípticos e mal integrados”, Catalani
confronta um ponto cego crucial na reflexão de Anders: a situação da periferia
do capitalismo e do chamado “subdesenvolvimento”. Diante de certas hesitações
de Anders — que chegou a sugerir que a crítica da técnica seria um “luxo”
inacessível a populações famintas do Terceiro Mundo —, Catalani mobiliza o
conceito blochiano de “simultaneidade do não-simultâneo” e a noção de
“apocalipse desigual e combinado” para demonstrar que a ameaça técnica não
respeita fronteiras nacionais. Aqui, a periferia global surge como a vanguarda
de uma “simultaneidade apocalíptica”, na qual a automação high-tech e a
precarização social coexistem. Ao diagnosticar a “brasilianização” do próprio
centro do capital e o alastramento das policrises contemporâneas, Catalani
revela que o “tempo do fim” unifica o planeta pela produção contínua de
desintegração, anomia e obsolescência humana. Qualquer resposta à pergunta —
“teriam os países subdesenvolvidos direito à bomba atômica?” — parece, nesse
contexto, deixar de fazer sentido.
Ao
longo de todo o livro, Catalani recupera também a própria figura humana e
intelectual de Anders: um autor que recusava o figurino do filósofo construtor
de grandiosas arquiteturas teóricas — que também perdem todo o sentido frente
ao desafio concreto da sobrevivência coletiva — para se assumir, com
provocativa ironia, como um moralista. Na qualidade de moralista, Anders buscou
oferecer uma resposta à cegueira do nosso tempo por meio de uma profunda
pedagogia do medo: a ampliação deliberada da nossa imaginação moral como um
recurso vivificante, capaz de nos arrancar da passividade e nos convocar a
agir, no presente, como verdadeiros “inimigos do apocalipse”.
Ao
chegarmos à terceira parte do livro, contudo, a qualificação “verdadeiro” —
quando nos referimos aos verdadeiros inimigos do apocalipse — revela-se uma
distinção decisiva. Ao intitular sua obra O Inimigo do Apocalipse,
Catalani descreve Anders como um pensador “político” no sentido consagrado pelo
ideólogo reacionário Carl Schmitt — que, a despeito da sua profunda afinidade
com o nazismo, produziu um insight analítico incontornável: a inimizade
política é determinada pela possibilidade real do aniquilamento físico. Os
imperativos de manutenção da vida e da própria existência superam quaisquer
outros critérios de aliança ou subordinação. Ao resgatar as entrevistas e
escritos tardios em que Anders justifica o recurso à violência como um “direito
natural” de autodefesa contra aqueles que promovem a nossa aniquilação, a obra
de Catalani nos confronta com uma aporia central — assinalada por um comentário
crítico de Adorno — que recusa soluções apressadas. No estado de emergência
técnica em que nos encontramos, Anders denuncia a insuficiência do pacifismo,
ironizando as manifestações de protesto que se convertem em meros “festivais de
música com salsichas”.
A
dificuldade da nossa situação é que os próprios promotores contemporâneos da
aceleração — a exemplo do magnata do Vale do Silício Peter Thiel — também
reivindicam para si um papel anti-apocalíptico. Assim como Carl Schmitt
enxergou no hitlerismo um freio providencial contra o avanço de uma pretensa
dominação mundial judaica — que, segundo ele, faria o trabalho do Anticristo,
destruindo a autoridade e conduzindo o planeta a uma guerra civil mundial de
extermínio mútuo —, a ideologia dos oligarcas da tecnologia encontra na
animosidade contra inimigos políticos designados (aos quais atribuem uma
onipotência nociva, segundo a fórmula clássica do antissemitismo moderno) a
ocasião mais eficiente para remover os entraves à “mobilização total” — aquela
fusão de técnica, trabalho e guerra que Walter Benjamin, ao criticar Ernst
Jünger, desmascarou como o momento em que o fascismo se revela como a
encarnação suprema da ideologia capitalista.
Em
Jünger, em Schmitt e em Thiel, as angústias e sofrimentos gerados no seio do
capitalismo são, assim, capturados e direcionados, produzindo uma “crítica
truncada” que desloca a justa revolta e o temor popular para alvos ilusórios,
enquanto mantém intocadas as engrenagens para a sua própria intensificação.
Revela-se aí de que modo a falsa oposição ao fim dos tempos serve, na prática,
como o seu principal combustível. Por esse motivo, o apelo à “autodefesa” do
“inimigo do apocalipse” que encontramos em Anders não é desprovido de
dificuldades. A questão sobre como contribuir para a produção do “verdadeiro
estado de exceção” — postulado por Benjamin em resposta a Schmitt — sem que
aquele se confunda ou descambe para o estado de exceção schmittiano, permanece
como um desafio em aberto.
Um
primeiro aspecto da dificuldade quanto a saber se a violência política pode
operar como o “freio de emergência da história” depende da identificação
criteriosa do “verdadeiro inimigo”. Que critérios separariam a justificativa
moral que Anders faz da autodefesa violenta contra aqueles que aceleram o fim,
da revolta niilista de um Unabomber contra a “sociedade industrial”? Ou de
insurgências individuais mais recentes, como a promovida por Luigi Mangione
contra um executivo do predatório sistema de saúde privada dos EUA? Ou ainda,
radicalizando e ampliando o escopo do problema, da escalada armamentista
atômica de países subdesenvolvidos — motivados concomitantemente por
preocupações legítimas de segurança (que o próprio Anders reconheceu), mas
também por recursos irracionais à violência redentora, justificados por
delírios milenaristas? Adicionalmente, como evitar a armadilha inscrita no fato
de que, no nosso contexto, qualquer insurgência violenta (ou mesmo não
violenta) é ela própria imediatamente capturada e interpretada pelos defensores
da aceleração como uma ameaça apocalíptica que justifica a ampliação dos meios
de controle, repressão e extermínio?
Essas
perguntas permanecem como a ferida aberta da práxis no “tempo do fim”: – onde,
afinal, deve ser colocada a “anti-bomba” capaz de implodir a presente estrutura
de intensificação da inimizade política que motiva a corrida armamentista rumo
à extinção humana? Enquanto não encontramos uma resposta satisfatória, seguimos
fadados a debater entre amigos, comer salsichas e aguardar os mísseis.
Fonte:
Por Bruno Ruffier, no Blog da Boitempo

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