Brasil
inspirou a China no passado e agora tem a chance de seguir seus passos, avaliam
analistas
Em duas
décadas, a China saiu da fama de ser origem de mão de obra barata e de produtos
de qualidade duvidosa para se tornar a maior potência mundial em tecnologia e
produtos de alto valor agregado. Parceiro estratégico, o Brasil vive um momento
ímpar para aprender com as estratégias chinesas.
Essa é
a opinião do autor dos livros "A China e a Nova Rota da Seda" e
"Quem Tem Medo da China", o doutor em ciência política pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Diego Pautasso, e de Gustavo
Alejandro Cardozo, doutor em desenvolvimento regional e pesquisador sênior do
Observa China. Eles abordaram o tema no podcast da Sputnik Brasil Mundioka
desta segunda-feira (2).
Desde
sistemas de inteligência artificial, chips, de infraestrutura de computação,
energia, à produção de baterias, trens de alta velocidade, satélites, o gigante
asiático não cessa de surpreender quando o assunto é velocidade em inovação.
Ao
lembrar que a partir dos anos 1980 o país recebeu multinacionais ocidentais que
se utilizaram da grande oferta de mão de obra barata, Pautasso destacou que o
governo chinês mobilizou políticas industriais, comerciais e tecnológicas que
internalizaram a cadeia produtiva, agregando valor à sua produção, com
qualificação da mão de obra e mobilidade social.
"É
exatamente esse processo, ao longo dos últimos 30, 40 anos, que fez a China
sair de uma produção de baixo valor agregado, de produtos simples e primários
[...] para se transformar no país que lidera a fronteira tecnológica",
disse ele, que é cocriador do projeto Fios da China nas redes sociais.
O
"grande pulo do gato da China", frisou, foi criar uma trajetória nova
no mercado automobilístico, com investimento em carros elétricos, tornando-a
líder nesse mercado.
"Eles
dominam das terras raras, passando pelas baterias, imãs e chegam até os
veículos elétricos. E com isso eles conseguem, em um só movimento, fazer uma
transição na sua mobilidade, por uma mobilidade elétrica e mais limpa, e ao
mesmo tempo dominar todo o circuito tecnológico relacionado aos carros
elétricos."
Já o
pesquisador do Observa China lembrou que há poucas décadas, os carros elétricos
chineses não entravam no Mercosul devido à qualidade, e atualmente a tecnologia
automotriz da China é imbatível. Ele destacou o investimento nas universidades
como crucial para alcançar a vanguarda da tecnologia:
"A
China está praticamente liderando em áreas estratégicas como ciências dos
materiais, químicas, engenharia, energia da computação e inteligência
artificial. É um dos maiores emissores de estudantes internacionais do mundo.
Os chamados Hai Gui, que estudaram fora, já voltam para a China com esse
know-how, esse conhecimento. Então, também colocam as universidades chinesas na
fabricação de novas ideias."
Capacidade
de coordenação, investimentos públicos robustos possibilitaram que o país, que
tinha 80% da população vivendo no campo em 1980, superasse a réplica de
tecnologias estrangeiras para aperfeiçoá-las e criar produtos competitivos,
ponderou Pautasso:
"Aqueles
que achavam que se tratava simplesmente de pirataria ou de bugigangas logo
viram a China liderar a inovação em várias áreas [...] E, nesse sentido, o
papel do planejamento público, do investimento, da visão de longo prazo, do
investimento em inovação, ciência e tecnologia cumpriram um papel articulado
nesse projeto de desenvolvimento nacional."
O
sucesso chinês, no entanto, é difícil de ser replicado, segundo os
entrevistados, pois demanda um governo que não é refém das leis do mercado, tem
soberania tecnológica e consegue concluir políticas industriais, comerciais e
tecnológicas como política de Estado.
"A
China tem um planejamento do desenvolvimento tecnológico, que é planificado, e
esse planejamento fica de quatro a cinco anos, e eles vão fazendo, digamos,
fixando objetivos para alcançar durante esse processo. Eles destinam um
pressuposto, esse pressuposto não é alterado, não é que muda o governo, e eles
tiram esse pressuposto, ele fica. Então eles têm resultados muito importantes
durante esses quatro, cinco anos que vão trabalhando", explicou Cardozo.
Para
Pautasso, essa capacidade tecnológica é fundamental para a soberania da
tecnologia digital, um dos gargalos aos quais muitos países são submetidos,
inclusive o Brasil, cuja ingerência das big techs ficou evidente durante as
eleições deste ano.
A tentativa frustrada dos EUA de tentar
boicotar a produção de semicondutores chineses é exemplo dessa
soberania.
"O
tiro saiu pela culatra, porque por ser uma economia grande, com capacidade de
planejamento, de investimento público, de realização de compras governamentais,
com ecossistema de empresas de inovação muito forte, que forma grande
quantidade de engenheiros técnicos e especialistas nessa área, acabou por
precipitar o desenvolvimento chinês na área de semicondutores", opinou.
"No final das contas, os Estados Unidos tinham maior dependência de
produtos críticos da China do que a China de produtos críticos dos Estados
Unidos".
Cardozo
também chamou a atenção para a questão milenar e cultural da sociedade chinesa:
"A
visão chinesa é uma visão muito comunitária, não uma visão individualista como
a nossa visão aqui ocidental."
As
estratégias estadunidenses de boicote ao crescimento chinês favoreceram a
diversificação do comércio da China, principalmente, em direção ao Sul Global.
O país
asiático também revelou o avanço vertiginoso no setor de defesa com produção de
mísseis hipersônicos, drones, veículos não tripulados, entre outras armas de
alta tecnologia, bem como modernização das forças armadas.
Com
isso, a China criou alternativas sistêmicas no campo
econômico,
no campo comercial, no campo tecnológico e no campo da governança ao domínio do
Atlântico Norte, opinou Pautasso.
"Relações
que obviamente podem ser atravessadas por contradições e assimetrias mas que
não são baseadas ou não têm sido baseadas na mesma lógica imperial e do recurso
à força. China não tem interesse em alterar substantivamente as regras do jogo,
a não ser no sentido de criar um mecanismo, uma governança mais efetiva, mais
participativa, com maior representação do Sul Global."
A
avaliação de Cardozo sobre esse aspecto é similar:
"A
big data é um aspecto de segurança nacional. Quem controla esse segmento do
mercado tem informação muito importante nessa competição ou nesse enfrentamento
com outros países de similares características."
A
China, afirmou ele, representa essa alternativa também por compartilhar novas
tecnologias que permitem a muitos países que têm outras características
socioeconômicas a incorporar esse know-how.
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Brasil como exemplo
Segundo
Pautasso, quando a China ainda tinha um Produto Interno Bruto (PIB) abaixo da
média mundial e enfrentava sérios problemas sociais e econômicos, na década de
1980, o Brasil era exemplo de país com o maior crescimento industrial no
Hemisfério Sul em ritmo acelerado.
"A
China extraiu lições da experiência brasileira, que obviamente também estava
atravessada por contradições, mas era um processo bastante virtuoso de
conversão de um país agrário num país industrializado de nível médio",
observou ele.
Agora,
cabe ao Brasil extrair as lições do processo de desenvolvimento chinês,
defendeu o entrevistado.
"Cabe
ao Brasil também se debruçar um pouco sobre a experiência chinesa [...],
estudando as melhores práticas para que a gente também possa iluminar um pouco
os desafios que temos pela frente."
Ele
ressaltou que a cooperação sino-brasileira com transferência de tecnologia
avançou em alguns setores importantes, e destacou o da saúde:
"A
gente tem o SUS [Sistema Único de Saúde], que garante grande quantidade de
compras governamentais. O Brasil se viu fragilizado no seu complexo industrial
da saúde. E essa é uma fronteira que a gente pode, a um só tempo,
reindustrializar e, ao mesmo tempo, estabelecer cooperação, transferência
tecnológica, joint ventures, inclusive aprender com as lições da China".
Ele
também citou os setores ferroviário, rodoviário e metroviário, em que a China
teria muito a contribuir e fortalecer em parcerias de transferência de
tecnologia.
Cardozo
corroborou a importância da visão de longo prazo para o sucesso de qualquer
desenvolvimento e disse que o Brasil tem neste momento uma oportunidade ímpar,
principalmente nas áreas de minerais raros, painéis solares, baterias de
hidrogênio verde. Para ele, o Brasil, assim como a China faz, precisa focar em
investimento tecnológico e industrial articulado com pesquisa acadêmica de
forma coordenada.
"O
Brasil tem muitas condições para ser uma potência muito importante a nível
global em muitas áreas estratégicas. Acho que é a melhor economia neste momento
da América do Sul, muito importante [...] tem todas as condições para poder
criar uma situação que torne, digamos, esse processo muito mais positivo quanto
à absorção desse know-how proveniente da China. Tem muitos pesquisadores
brasileiros que vão para a China e voltam, mas muitas vezes as instituições
acadêmicas não estão trabalhando nas universidades, ou em centros de pesquisa,
não estão trabalhando conjuntamente com as políticas do governo
brasileiro".
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China tem um sistema de resistência a Starlink semelhante
ao da Rússia, diz especialista
A China
tem um sistema para combater Starlink com princípio de funcionamento semelhante
ao do complexo russo Volna-Kupol-Garant, disse Dmitry Kuzyakin,
construtor-chefe do Centro de Soluções Integradas não Tripuladas, à Sputnik.
Anteriormente,
o construtor-chefe contou à agência sobre o complexo russo Volna-Kupol-Garant,
cujo princípio se baseia em um impacto eletrônico
direcionado
nos satélites Starlink localizados sobre determinado território para interferir
na sua operação com os terminais na área de funcionamento do complexo.
"A
China tem um sistema muito semelhante, exclusivamente para as mesmas tarefas –
usar um feixe de rádio para afetar satélites voando sobre o
território da China", disse Kuzyakin.
Ele
observou que a existência de tais sistemas permite aos países limitar as
comunicações
por satélite sobre o seu território.
"Neste
caso, o Starlink é uma ferramenta de influência externa que deve ser capaz de
controlar. Se não chegar ao normal, então limitaremos o trabalho dos satélites
sobre o nosso território", concluiu o especialista.
Kuzyakin
havia dito anteriormente à agência que a Starlink não era oficialmente
destinada a operar em território russo, no entanto, terminais modificados podem
obter acesso à comunicação ao fornecer coordenadas incorretas de sua
localização ao sistema.
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Chanceler chinês diz que avanço nas relações com Arábia Saudita é prioridade da
China
Em
comunicado, chancelaria chinesa destaca a confiança política mútua entre Pequim
e Riad e a interação estratégica entre os países.
A China
considera o desenvolvimento das relações com a
Arábia Saudita
uma prioridade em sua diplomacia no Oriente Médio, afirmou nesta segunda-feira
(2) o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, em reunião com o
ministro de Estado e conselheiro de Segurança Nacional da Arábia Saudita,
Musaed al-Aiban.
"A
Arábia Saudita sempre foi um importante parceiro estratégico abrangente da
China, e a China considera o desenvolvimento das relações com a Arábia Saudita
uma área prioritária de sua diplomacia no Oriente Médio", disse Wang Yi,
de acordo com o Ministério das Relações Exteriores da China .
Ele
observou que as relações entre a China e a Arábia
Saudita
mantêm um ritmo estável. Afirmou que ambos os lados fortaleceram a confiança
política mútua, mantiveram a interação
estratégica
e avançaram na cooperação prática.
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Há uma demanda por um novo modelo de ordem mundial, mas
muitos não gostam disso, diz Lavrov
A
maioria mundial tem demandado um novo modelo de ordem mundial, mas muitos não
gostam disso, declarou nesta terça-feira (3) o ministro das Relações Exteriores
da Rússia, Sergei Lavrov.
Discursando
na sessão plenária da IV Conferência Internacional de Minsk sobre Segurança
Eurasiana, Lavrov afirmou que, em tal modelo, a igualdade real de direitos dos
Estados soberanos deve ser assegurada como condição fundamental para o
desenvolvimento seguro e sustentável de todos os povos.
"Nem
todos gostam disso, e há uma luta séria pelo direito de determinar em que
princípios a nova ordem mundial será baseada, e sua manifestação é
especialmente perceptível no nosso grande continente comum da Eurásia",
disse Lavrov.
Como
enfatizou Lavrov, a Rússia defende a
formação de uma estrutura mais justa das relações internacionais em uma base
multipolar, que deve também refletir a diversidade cultural e civilizacional do
mundo moderno e dos povos e reconhecer o direito de cada povo de determinar o
seu destino.
A
guerra desencadeada pelos países ocidentais contra a Rússia pelas mãos da Ucrânia pôs fim ao
euro-atlantismo como uma oportunidade de unir todos, disse. Por enquanto, não
há perspectivas de um diálogo realista com a Europa, pois o Ocidente está indo contra uma
tendência histórica objetiva para a multipolaridade, acrescentou o ministro.
"Eles
[os europeus] queriam e continuam querendo transformar a OSCE em um instrumento
de serviço ideológico de seus interesses, os interesses da OTAN, bem como os
interesses da União Europeia, que está evoluindo rapidamente de uma unificação
socioeconômica integrada para um bloco militarista agressivo de orientação
antirussa e antibelarussa", disse Lavrov.
Confira
outras declarações do chanceler russo:
Rússia
não pretende se envolver em uma nova corrida armamentista na Europa, propõe
negociar um novo sistema de garantias mútuas de segurança;
Rússia
insiste não em um cessar-fogo temporário, mas em uma solução confiável para as
causas da crise ucraniana;
Os
apelos para negociar uma trégua destinam-se apenas a dar uma pausa a Kiev;
Londres e Paris, com seus apelos por
uma parada na linha de contato, estão tentando estabilizar o regime nazista de
Kiev, em vez de acabar com o conflito;
O
conflito no Oriente Médio mostrou que a
presença militar de atores externos não só não garante a segurança, como também
aumenta os riscos.
A IV
Conferência Internacional de Minsk sobre Segurança Eurasiana é realizada em Minsk, nos dias 3 e 4 de
novembro.
Mais de
600 representantes de 50 países do mundo participam, incluindo o presidente de Belarus, Aleksandr
Lukashenko, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, a
liderança do Estado da União, da Comunidade dos
Estados Independentes
(CEI), da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), da Organização
para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), da Organização para
Cooperação de Xangai
(OCX) e de outras organizações internacionais.
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Putin determina que data centers privados na Rússia reservem 10% da capacidade
para o país
Medida
é tomada em resposta a ataques ucranianos a data centers russos realizados nas
últimas semanas.
O
presidente russo, Vladimir, Putin, assinou nesta segunda-feira (2) um decreto
que determina que proprietários russos de data centers não estatais reservem
10% do espaço físico e da capacidade das estruturas para ajudar a manter a
infraestrutura digital da Rússia.
Esse
mecanismo permitiria que as autoridades russas acessassem rapidamente a
capacidade disponível dos centros de dados, caso necessário.
Nas
últimas semanas, data centers da Rússia foram alvos de ataques de drones
ucranianos, que alvejaram instalações operadas pelas empresas de tecnologia
Yandex e Sberbank.
Putin
instruiu o Ministério do Desenvolvimento Digital a realizar um inventário da
capacidade disponível e do espaço físico em data centers privados em toda a
Rússia. Uma comissão governamental especial, a ser criada pelo decreto, terá
poderes para ordenar a liberação da capacidade reservada, sendo obrigatório que
os operadores disponibilizem o acesso em até 24 horas após a decisão.
O
decreto também permite o uso temporário de centros de dados localizados no
exterior, sujeito à aprovação do Serviço Federal de Segurança (FSB, na sigla em
russo).
Fonte:
Sputnik Brasil

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