quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Brasil inspirou a China no passado e agora tem a chance de seguir seus passos, avaliam analistas

Em duas décadas, a China saiu da fama de ser origem de mão de obra barata e de produtos de qualidade duvidosa para se tornar a maior potência mundial em tecnologia e produtos de alto valor agregado. Parceiro estratégico, o Brasil vive um momento ímpar para aprender com as estratégias chinesas.

Essa é a opinião do autor dos livros "A China e a Nova Rota da Seda" e "Quem Tem Medo da China", o doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Diego Pautasso, e de Gustavo Alejandro Cardozo, doutor em desenvolvimento regional e pesquisador sênior do Observa China. Eles abordaram o tema no podcast da Sputnik Brasil Mundioka desta segunda-feira (2).

Desde sistemas de inteligência artificial, chips, de infraestrutura de computação, energia, à produção de baterias, trens de alta velocidade, satélites, o gigante asiático não cessa de surpreender quando o assunto é velocidade em inovação.

Ao lembrar que a partir dos anos 1980 o país recebeu multinacionais ocidentais que se utilizaram da grande oferta de mão de obra barata, Pautasso destacou que o governo chinês mobilizou políticas industriais, comerciais e tecnológicas que internalizaram a cadeia produtiva, agregando valor à sua produção, com qualificação da mão de obra e mobilidade social.

"É exatamente esse processo, ao longo dos últimos 30, 40 anos, que fez a China sair de uma produção de baixo valor agregado, de produtos simples e primários [...] para se transformar no país que lidera a fronteira tecnológica", disse ele, que é cocriador do projeto Fios da China nas redes sociais.

O "grande pulo do gato da China", frisou, foi criar uma trajetória nova no mercado automobilístico, com investimento em carros elétricos, tornando-a líder nesse mercado.

"Eles dominam das terras raras, passando pelas baterias, imãs e chegam até os veículos elétricos. E com isso eles conseguem, em um só movimento, fazer uma transição na sua mobilidade, por uma mobilidade elétrica e mais limpa, e ao mesmo tempo dominar todo o circuito tecnológico relacionado aos carros elétricos."

Já o pesquisador do Observa China lembrou que há poucas décadas, os carros elétricos chineses não entravam no Mercosul devido à qualidade, e atualmente a tecnologia automotriz da China é imbatível. Ele destacou o investimento nas universidades como crucial para alcançar a vanguarda da tecnologia:

"A China está praticamente liderando em áreas estratégicas como ciências dos materiais, químicas, engenharia, energia da computação e inteligência artificial. É um dos maiores emissores de estudantes internacionais do mundo. Os chamados Hai Gui, que estudaram fora, já voltam para a China com esse know-how, esse conhecimento. Então, também colocam as universidades chinesas na fabricação de novas ideias."

Capacidade de coordenação, investimentos públicos robustos possibilitaram que o país, que tinha 80% da população vivendo no campo em 1980, superasse a réplica de tecnologias estrangeiras para aperfeiçoá-las e criar produtos competitivos, ponderou Pautasso:

"Aqueles que achavam que se tratava simplesmente de pirataria ou de bugigangas logo viram a China liderar a inovação em várias áreas [...] E, nesse sentido, o papel do planejamento público, do investimento, da visão de longo prazo, do investimento em inovação, ciência e tecnologia cumpriram um papel articulado nesse projeto de desenvolvimento nacional."

O sucesso chinês, no entanto, é difícil de ser replicado, segundo os entrevistados, pois demanda um governo que não é refém das leis do mercado, tem soberania tecnológica e consegue concluir políticas industriais, comerciais e tecnológicas como política de Estado.

"A China tem um planejamento do desenvolvimento tecnológico, que é planificado, e esse planejamento fica de quatro a cinco anos, e eles vão fazendo, digamos, fixando objetivos para alcançar durante esse processo. Eles destinam um pressuposto, esse pressuposto não é alterado, não é que muda o governo, e eles tiram esse pressuposto, ele fica. Então eles têm resultados muito importantes durante esses quatro, cinco anos que vão trabalhando", explicou Cardozo.

Para Pautasso, essa capacidade tecnológica é fundamental para a soberania da tecnologia digital, um dos gargalos aos quais muitos países são submetidos, inclusive o Brasil, cuja ingerência das big techs ficou evidente durante as eleições deste ano.

A tentativa frustrada dos EUA de tentar boicotar a produção de semicondutores chineses é exemplo dessa soberania.

"O tiro saiu pela culatra, porque por ser uma economia grande, com capacidade de planejamento, de investimento público, de realização de compras governamentais, com ecossistema de empresas de inovação muito forte, que forma grande quantidade de engenheiros técnicos e especialistas nessa área, acabou por precipitar o desenvolvimento chinês na área de semicondutores", opinou. "No final das contas, os Estados Unidos tinham maior dependência de produtos críticos da China do que a China de produtos críticos dos Estados Unidos".

Cardozo também chamou a atenção para a questão milenar e cultural da sociedade chinesa:

"A visão chinesa é uma visão muito comunitária, não uma visão individualista como a nossa visão aqui ocidental."

As estratégias estadunidenses de boicote ao crescimento chinês favoreceram a diversificação do comércio da China, principalmente, em direção ao Sul Global.

O país asiático também revelou o avanço vertiginoso no setor de defesa com produção de mísseis hipersônicos, drones, veículos não tripulados, entre outras armas de alta tecnologia, bem como modernização das forças armadas.

Com isso, a China criou alternativas sistêmicas no campo econômico, no campo comercial, no campo tecnológico e no campo da governança ao domínio do Atlântico Norte, opinou Pautasso.

"Relações que obviamente podem ser atravessadas por contradições e assimetrias mas que não são baseadas ou não têm sido baseadas na mesma lógica imperial e do recurso à força. China não tem interesse em alterar substantivamente as regras do jogo, a não ser no sentido de criar um mecanismo, uma governança mais efetiva, mais participativa, com maior representação do Sul Global."

A avaliação de Cardozo sobre esse aspecto é similar:

"A big data é um aspecto de segurança nacional. Quem controla esse segmento do mercado tem informação muito importante nessa competição ou nesse enfrentamento com outros países de similares características."

A China, afirmou ele, representa essa alternativa também por compartilhar novas tecnologias que permitem a muitos países que têm outras características socioeconômicas a incorporar esse know-how.

<><> Brasil como exemplo

Segundo Pautasso, quando a China ainda tinha um Produto Interno Bruto (PIB) abaixo da média mundial e enfrentava sérios problemas sociais e econômicos, na década de 1980, o Brasil era exemplo de país com o maior crescimento industrial no Hemisfério Sul em ritmo acelerado.

"A China extraiu lições da experiência brasileira, que obviamente também estava atravessada por contradições, mas era um processo bastante virtuoso de conversão de um país agrário num país industrializado de nível médio", observou ele.

Agora, cabe ao Brasil extrair as lições do processo de desenvolvimento chinês, defendeu o entrevistado.

"Cabe ao Brasil também se debruçar um pouco sobre a experiência chinesa [...], estudando as melhores práticas para que a gente também possa iluminar um pouco os desafios que temos pela frente."

Ele ressaltou que a cooperação sino-brasileira com transferência de tecnologia avançou em alguns setores importantes, e destacou o da saúde:

"A gente tem o SUS [Sistema Único de Saúde], que garante grande quantidade de compras governamentais. O Brasil se viu fragilizado no seu complexo industrial da saúde. E essa é uma fronteira que a gente pode, a um só tempo, reindustrializar e, ao mesmo tempo, estabelecer cooperação, transferência tecnológica, joint ventures, inclusive aprender com as lições da China".

Ele também citou os setores ferroviário, rodoviário e metroviário, em que a China teria muito a contribuir e fortalecer em parcerias de transferência de tecnologia.

Cardozo corroborou a importância da visão de longo prazo para o sucesso de qualquer desenvolvimento e disse que o Brasil tem neste momento uma oportunidade ímpar, principalmente nas áreas de minerais raros, painéis solares, baterias de hidrogênio verde. Para ele, o Brasil, assim como a China faz, precisa focar em investimento tecnológico e industrial articulado com pesquisa acadêmica de forma coordenada.

"O Brasil tem muitas condições para ser uma potência muito importante a nível global em muitas áreas estratégicas. Acho que é a melhor economia neste momento da América do Sul, muito importante [...] tem todas as condições para poder criar uma situação que torne, digamos, esse processo muito mais positivo quanto à absorção desse know-how proveniente da China. Tem muitos pesquisadores brasileiros que vão para a China e voltam, mas muitas vezes as instituições acadêmicas não estão trabalhando nas universidades, ou em centros de pesquisa, não estão trabalhando conjuntamente com as políticas do governo brasileiro".

¨      China tem um sistema de resistência a Starlink semelhante ao da Rússia, diz especialista

A China tem um sistema para combater Starlink com princípio de funcionamento semelhante ao do complexo russo Volna-Kupol-Garant, disse Dmitry Kuzyakin, construtor-chefe do Centro de Soluções Integradas não Tripuladas, à Sputnik.

Anteriormente, o construtor-chefe contou à agência sobre o complexo russo Volna-Kupol-Garant, cujo princípio se baseia em um impacto eletrônico direcionado nos satélites Starlink localizados sobre determinado território para interferir na sua operação com os terminais na área de funcionamento do complexo.

"A China tem um sistema muito semelhante, exclusivamente para as mesmas tarefas – usar um feixe de rádio para afetar satélites voando sobre o território da China", disse Kuzyakin.

Ele observou que a existência de tais sistemas permite aos países limitar as comunicações por satélite sobre o seu território.

"Neste caso, o Starlink é uma ferramenta de influência externa que deve ser capaz de controlar. Se não chegar ao normal, então limitaremos o trabalho dos satélites sobre o nosso território", concluiu o especialista.

Kuzyakin havia dito anteriormente à agência que a Starlink não era oficialmente destinada a operar em território russo, no entanto, terminais modificados podem obter acesso à comunicação ao fornecer coordenadas incorretas de sua localização ao sistema.

<><> Chanceler chinês diz que avanço nas relações com Arábia Saudita é prioridade da China

Em comunicado, chancelaria chinesa destaca a confiança política mútua entre Pequim e Riad e a interação estratégica entre os países.

A China considera o desenvolvimento das relações com a Arábia Saudita uma prioridade em sua diplomacia no Oriente Médio, afirmou nesta segunda-feira (2) o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, em reunião com o ministro de Estado e conselheiro de Segurança Nacional da Arábia Saudita, Musaed al-Aiban.

"A Arábia Saudita sempre foi um importante parceiro estratégico abrangente da China, e a China considera o desenvolvimento das relações com a Arábia Saudita uma área prioritária de sua diplomacia no Oriente Médio", disse Wang Yi, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores da China .

Ele observou que as relações entre a China e a Arábia Saudita mantêm um ritmo estável. Afirmou que ambos os lados fortaleceram a confiança política mútua, mantiveram a interação estratégica e avançaram na cooperação prática.

¨      Há uma demanda por um novo modelo de ordem mundial, mas muitos não gostam disso, diz Lavrov

A maioria mundial tem demandado um novo modelo de ordem mundial, mas muitos não gostam disso, declarou nesta terça-feira (3) o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.

Discursando na sessão plenária da IV Conferência Internacional de Minsk sobre Segurança Eurasiana, Lavrov afirmou que, em tal modelo, a igualdade real de direitos dos Estados soberanos deve ser assegurada como condição fundamental para o desenvolvimento seguro e sustentável de todos os povos.

"Nem todos gostam disso, e há uma luta séria pelo direito de determinar em que princípios a nova ordem mundial será baseada, e sua manifestação é especialmente perceptível no nosso grande continente comum da Eurásia", disse Lavrov.

Como enfatizou Lavrov, a Rússia defende a formação de uma estrutura mais justa das relações internacionais em uma base multipolar, que deve também refletir a diversidade cultural e civilizacional do mundo moderno e dos povos e reconhecer o direito de cada povo de determinar o seu destino.

A guerra desencadeada pelos países ocidentais contra a Rússia pelas mãos da Ucrânia pôs fim ao euro-atlantismo como uma oportunidade de unir todos, disse. Por enquanto, não há perspectivas de um diálogo realista com a Europa, pois o Ocidente está indo contra uma tendência histórica objetiva para a multipolaridade, acrescentou o ministro.

"Eles [os europeus] queriam e continuam querendo transformar a OSCE em um instrumento de serviço ideológico de seus interesses, os interesses da OTAN, bem como os interesses da União Europeia, que está evoluindo rapidamente de uma unificação socioeconômica integrada para um bloco militarista agressivo de orientação antirussa e antibelarussa", disse Lavrov.

Confira outras declarações do chanceler russo:

Rússia não pretende se envolver em uma nova corrida armamentista na Europa, propõe negociar um novo sistema de garantias mútuas de segurança;

Rússia insiste não em um cessar-fogo temporário, mas em uma solução confiável para as causas da crise ucraniana;

Os apelos para negociar uma trégua destinam-se apenas a dar uma pausa a Kiev;

Londres e Paris, com seus apelos por uma parada na linha de contato, estão tentando estabilizar o regime nazista de Kiev, em vez de acabar com o conflito;

O conflito no Oriente Médio mostrou que a presença militar de atores externos não só não garante a segurança, como também aumenta os riscos.

A IV Conferência Internacional de Minsk sobre Segurança Eurasiana é realizada em Minsk, nos dias 3 e 4 de novembro.

Mais de 600 representantes de 50 países do mundo participam, incluindo o presidente de Belarus, Aleksandr Lukashenko, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, a liderança do Estado da União, da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e de outras organizações internacionais.

<><> Putin determina que data centers privados na Rússia reservem 10% da capacidade para o país

Medida é tomada em resposta a ataques ucranianos a data centers russos realizados nas últimas semanas.

O presidente russo, Vladimir, Putin, assinou nesta segunda-feira (2) um decreto que determina que proprietários russos de data centers não estatais reservem 10% do espaço físico e da capacidade das estruturas para ajudar a manter a infraestrutura digital da Rússia.

Esse mecanismo permitiria que as autoridades russas acessassem rapidamente a capacidade disponível dos centros de dados, caso necessário.

Nas últimas semanas, data centers da Rússia foram alvos de ataques de drones ucranianos, que alvejaram instalações operadas pelas empresas de tecnologia Yandex e Sberbank.

Putin instruiu o Ministério do Desenvolvimento Digital a realizar um inventário da capacidade disponível e do espaço físico em data centers privados em toda a Rússia. Uma comissão governamental especial, a ser criada pelo decreto, terá poderes para ordenar a liberação da capacidade reservada, sendo obrigatório que os operadores disponibilizem o acesso em até 24 horas após a decisão.

O decreto também permite o uso temporário de centros de dados localizados no exterior, sujeito à aprovação do Serviço Federal de Segurança (FSB, na sigla em russo).

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário: