quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Quem venceu a eleição em Israel e o que acontece agora?

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seus aliados perderam a maioria que tinham no Knesset (Parlamento) após as eleições de terça-feira (27/10).

O resultado final da apuração, divulgado nesta sexta, mostra o bloco de Netanyahu com 53 dos 120 assentos —  abaixo, portanto, do número de 61 cadeiras necessárias para governar —, contra 48 do principal partido de oposição, liderado por Gadi Eisenkot. As 19 vagas restantes foram conquistadas por partidos da minoria árabe-israelense.

Com isso, Israel terá pela frente semanas de difíceis negociações para formar um governo de coalizão, com a possibilidade de novas eleições caso as sondagens fracassem.

Tanto Netanyahu, que serviu como primeiro-ministro por mais de 19 anos em mandatos intercalados e é aliado de partidos de extrema direita e ultraortodoxos, quanto Eisenkot, ex-chefe militar que lidera uma ampla coalizão de oposição, prometeram tentar a formação de um governo.

Um avanço perceptível ocorreu entre os partidos árabes israelenses, que conseguiram eleger quatro deputados a mais que na última eleição, em 2022. Um líder da minoria árabe apelou à oposição para unir forças e pôr fim ao governo de Netanyahu.

<><> Maioria só com os árabes

Esta é a primeira eleição desde o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023, que levou Israel a iniciar uma guerra devastadora na Faixa de Gaza.

Os eleitores da comunidade árabe, descendentes dos palestinos que permaneceram no território após a criação de Israel e que representam cerca de 20% da população, demonstraram forte indignação com a visão ultranacionalista judaica do governo Netanyahu para Israel e para os territórios palestinos.

A escolha é entre "a continuação do racismo, da exclusão e da supremacia ou uma verdadeira parceria judaico-árabe", afirmou Yousef Jabareen, líder da coligação árabe de esquerda Joint List.

Para ele, o público israelense votou por uma nova liderança e "qualquer pessoa que queira oferecer uma alternativa séria e genuína ao governo ensanguentado de Netanyahu terá de conversar conosco".

Netanyahu, que fez campanha com o slogan "ou a direita ou a Palestina", atacou repetidamente a oposição, afirmando que ela colocaria os árabes no poder.

Mas Eisenkot também resiste a se aliar aos partidos árabes. Yair Golan, líder do principal partido de esquerda de Israel e integrante do campo de Eisenkot, tornou-se o primeiro membro da oposição a defender uma aliança com eles. "Netanyahu perdeu. Não devemos mais aceitar a divisão racista de Netanyahu entre votos judeus e votos árabes", declarou.

Centenas de israelenses têm organizado protestos para pressionar a oposição a se aliar com os partidos árabes, algo que só aconteceu em 2021, e apenas por pouco tempo.

Mas o campo de Eisenkot também inclui políticos de direita que compartilham muitas das posições duras de Netanyahu e rejeitam categoricamente trabalhar com parlamentares árabes.

"Talvez todos tenham perdido nestas eleições, exceto os partidos árabes. Mas, para eles, ainda não está claro se conseguirão transformar esse enorme sucesso em influência política", avaliou o cientista político Gideon Rahat, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Os parlamentares árabes também poderiam sustentar um governo minoritário de Eisenkot sem ingressar formalmente em uma coalizão, embora poucos analistas acreditem que tal arranjo sobreviveria por muito tempo.

<><> Aliança entre Eisenkot e Netanyahu

Uma possível saída para Netanyahu se manter no poder seria convencer Eisenkot e seus aliados de centro-direita a apoiá-lo. Essa composição empurraria os partidos liderados por árabes, bem como as siglas judaicas ultranacionalistas e ultraortodoxas, para a oposição. 

No entanto, isso exigiria que muitas promessas fossem quebradas, já que Eisenkot e seus aliados prometeram que não participariam de um governo Netanyahu, a quem acusam de enfraquecer as instituições democráticas e de falhas de segurança que levaram à guerra em Gaza. Além disso, no passado, quando líderes da oposição israelense contrariaram seus eleitores para se unir a Netanyahu, seu apoio político despencou.

Esse arranjo também exigiria que Netanyahu abandonasse seus aliados da extrema direita e dos partidos ultraortodoxos, que permaneceram ao seu lado após o ataque e durante múltiplas guerras e outras crises. Netanyahu provavelmente está em busca de elos fracos dentro do bloco oposicionista, que abrange todo o espectro político de Israel.

Ele poderia tentar atrair alguns de seus antigos aliados, como os líderes da direita Naftali Bennett e Avigdor Lieberman. Ambos apoiam firmemente políticas nacionalistas, como a expansão dos assentamentos na Cisjordânia ocupada, e teriam especial dificuldade em formar parceria com partidos árabes.

Mas eles entram em conflito com Netanyahu há anos, muitas vezes por questões pessoais, e prometeram não se aliar a ele. Além disso, se opõem fortemente às isenções do serviço militar para os ultraortodoxos, uma exigência inegociável dos aliados ultraortodoxos de Netanyahu.

<><> O que acontece agora

Após a conclusão da contagem, todas as atenções se voltam para o presidente Isaac Herzog, que normalmente exerce um papel cerimonial discreto, mas que decidirá quem terá a primeira oportunidade de formar governo.

Herzog tem uma semana para consultar os partidos, que lhe recomendarão um candidato a primeiro-ministro, e encarregar da formação do governo quem considerar ter mais chances de sucesso. A partir daí, começa a correr um prazo de 28 dias, prorrogável por mais 14.

A incumbência não precisa ser dada ao líder do partido mais votado. Em 2009, por exemplo, o então presidente, Shimon Peres, designou Netanyahu para formar governo, embora o Likud tivesse conquistado 27 cadeiras, contra 28 do Kadima, de Tzipi Livni, porque Netanyahu dispunha de mais apoio potencial para construir uma coalizão.

Nenhum partido em Israel jamais conquistou maioria absoluta. Por isso, os governos são formados por coalizões partidárias, e as negociações para sua formação frequentemente duram várias semanas. Cada cadeira no Knesset conta, e pequenos partidos podem desempenhar papel decisivo ao se tornarem fiadores da maioria.

Se o primeiro candidato fracassar, o presidente pode encarregar um segundo nome, que terá 28 dias sem possibilidade de prorrogação. Se ele também fracassar, os deputados terão 21 dias para que ao menos 61 deles proponham um candidato. Esse candidato terá então mais 14 dias para formar um governo. Caso não consiga, o Knesset será dissolvido e novas eleições serão convocadas — Herzog já disse que fará de tudo para evitar esse cenário.

<><> Governo interino

Um impasse político poderia beneficiar Netanyahu no curto prazo, já que ele permaneceria como primeiro-ministro interino até que o Knesset conceda voto de confiança a um novo governo.

Essa situação é limitada pela jurisprudência da Suprema Corte e pelas orientações da Procuradoria-Geral, que restringem nomeações importantes e outras decisões não urgentes.

Se as negociações entre os partidos fracassarem e novas eleições forem necessárias, Israel poderá permanecer até meados do primeiro semestre de 2027 com um governo interino.

<><> Fim da era Netanyahu?

Muitos observadores consideram esta eleição um referendo sobre Netanyahu, o primeiro-ministro que governou Israel por mais tempo e que tem dividido profundamente a sociedade israelense.

Diante de acusações criminais por corrupção, que ele nega, Netanyahu procurou reformular o sistema judiciário.

Ele também se aliou a líderes da extrema direita que apoiam colonos radicais acusados de atacar palestinos na Cisjordânia com ampla impunidade.

Netanyahu também é procurado pelo Tribunal Penal Internacional em razão da devastadora guerra de Israel na Faixa de Gaza.

¨      Choro de perdedor: Netanyahu contesta eleições em Israel e acusa fraude

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, intensificou a contestação dos resultados das eleições legislativas realizadas na terça-feira (27), após seu bloco não conquistar as 61 cadeiras necessárias para formar maioria no Parlamento israelense (Knesset). O partido governista Likud acusa as legendas que representam os cidadãos palestinos de Israel de terem fraudado a votação, enquanto lideranças da oposição denunciam uma tentativa de deslegitimar o resultado eleitoral.

Com 90% dos votos apurados, a coalizão de Netanyahu conquistou 53 das 120 cadeiras do Knesset, contra 48 dos partidos de oposição e 19 das legendas árabes. A elevada participação dos eleitores palestinos com cidadania israelense foi decisiva para impedir que o primeiro-ministro alcançasse a maioria parlamentar necessária para permanecer no poder.

Nesta quinta-feira (29), Netanyahu divulgou, em suas redes sociais, um comunicado de seu partido, o Likud, denunciando uma suposta fraude eleitoral envolvendo as legendas árabes. “O caso Ra’amgate é um terremoto. Roubaram as eleições em Israel!”, afirma o texto.

Diante do resultado, o Likud alega que organizações responsáveis pela mobilização do eleitorado árabe teriam recebido recursos estrangeiros, supostamente provenientes do Catar e da Turquia, para influenciar a votação. O partido chegou a afirmar que as eleições haviam sido “roubadas” pelas legendas árabes, embora não tenha apresentado provas públicas que sustentem a acusação.

“Após a revelação de que entidades estrangeiras tentaram assumir o controle do Knesset, fica claro que nenhum partido sionista deve cooperar com Ra’am e a Lista Conjunta, substituir o presidente do Knesset por meio de votos comprados e formar um governo que seja perigoso para Israel”, declarou o partido.

O Likud passou a chamar o episódio de “Ra’amgate” e afirmou que a suposta interferência estrangeira representaria uma tentativa de promover a “islamização de Israel” e derrubar o governo de direita. As acusações não foram acompanhadas de evidências públicas que comprovassem o envolvimento das legendas árabes ou de seus dirigentes.

<><> Serviço de inteligência abre investigação

Nesta quarta-feira (28), o presidente do Comitê Central de Eleições de Israel, juiz da Suprema Corte Noam Sohlberg, determinou que o serviço de inteligência interna Shin Bet investigasse suspeitas de financiamento estrangeiro e compra de votos durante o processo eleitoral.

A decisão ocorreu após uma reunião reservada entre Sohlberg e o diretor do Shin Bet, David Zini, que apresentou informações sobre uma possível interferência externa. Segundo a imprensa israelense, a investigação já estava em andamento antes mesmo da realização das eleições.

“Esta é uma investigação que foi aberta nas últimas duas semanas com base em informações sólidas de inteligência. Entendemos que há algo problemático e estamos investigando seriamente para esgotar as informações. As coisas ficarão mais claras nos próximos dias”, declarou uma fonte de segurança ouvida pela emissora pública Kan.

O Comitê Central de Eleições solicitou a apresentação das conclusões da investigação no prazo de uma semana, antes de 4 de novembro, data limite prevista pela legislação israelense para a certificação dos resultados. Apesar das suspeitas, o próprio diretor do Shin Bet havia declarado, durante a votação, que o processo eleitoral transcorria normalmente. Na ocasião, Zini afirmou que as eleições estavam sendo monitoradas e conduzidas adequadamente.

A polícia israelense também declarou inicialmente que não existiam provas capazes de sustentar as acusações de fraude eleitoral generalizada apresentadas pelo Likud. Posteriormente, o comissário Daniel Levy assegurou que todas as denúncias seriam investigadas: “Qualquer denúncia recebida e qualquer suspeita de prática de delito relacionado à integridade das eleições será examinada e investigada de forma completa e imparcial”. “Não permitiremos que ninguém prejudique a integridade das eleições e o processo democrático”, acrescentou.

<><> ‘Vocês perderam, vão para casa’

Uma eventual aliança com a Lista Conjunta e o Ra’am, ou mesmo a formação de um governo minoritário sustentado pelo apoio parlamentar dessas legendas, poderia permitir a substituição de Netanyahu.

O dirigente do Balad, Sami Abou Shehadeh, partido integrante da Lista Conjunta, acusou Netanyahu de não reconhecer o resultado eleitoral. “Netanyahu e seus parceiros são pessoas perigosas que estão construindo uma narrativa para justificar a recusa em aceitar os resultados de uma das eleições mais decisivas que este país viu em décadas”, declarou.

“Em qualquer democracia funcional, aqueles que perdem uma eleição assumem a responsabilidade e voltam para casa. Em Israel, o lado perdedor fabrica uma calúnia racista e incita as agências de segurança a usar a força para anular os resultados da eleição”, afirmou.

Abou Shehadeh, que foi impedido de disputar as eleições pelo Comitê Central de Eleições, também alertou para o risco de novas eleições serem convocadas com base em acusações infundadas. “Vocês perderam. Vão para casa”, declarou.

Em paralelo, quatro ativistas do Ra’am foram presos sob suspeita de oferecer dinheiro a eleitores em troca de votos para a legenda. O Ra’am confirmou que os detidos eram integrantes do partido e rejeitou as acusações.

¨      Oposição israelense acusa Netanyahu de tentar 'deslegitimar' as eleições com acusações de interferência estrangeira

O principal líder da oposição israelense, Gadi Eisenkot, e líderes de partidos liderados por árabes denunciaram o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por alegar interferência estrangeira após a eleição que resultou na perda da maioria por sua coalizão.

O partido Likud, de Netanyahu, acusou os partidos liderados por árabes em Israel de "roubarem" as eleições. A agência de segurança interna Shin Bet está investigando se eles receberam financiamento ilegal do Catar e da Turquia.

O Ministério das Relações Exteriores do Catar negou as alegações "ridículas e perigosas" e acusou políticos israelenses de conduzirem uma campanha de desinformação contra Doha.

Os resultados finais confirmaram que nem o bloco de Netanyahu nem a oposição conquistaram a maioria no Parlamento.

As duas listas partidárias árabes - a Lista Conjunta e o Ra'am - desafiaram as expectativas e conquistaram um número recorde de 19 cadeiras no Knesset, parlamento composto por 120 membros, após um aumento significativo na participação dos eleitores árabes.

Isso os posiciona como potenciais fiel da balança, com o bloco de Netanyahu conquistando 53 cadeiras e o bloco de seu rival, Gadi Eisenkot, garantindo 48.

Na quinta-feira (29/10), o Likud alegou que os eleitores foram "subornados" para votar em partidos árabes, depois que o chefe do Comitê Central de Eleições (CEC) pediu ao serviço de segurança Shin Bet que investigasse "sérias suspeitas" de interferência estrangeira.

Ambos os partidos árabes rejeitaram veementemente a alegação, tendo a aliança Lista Conjunta, de maioria árabe, afirmado que a acusação era infundada.

A disputa está sendo vista pelos críticos de Netanyahu como uma tentativa de deslegitimar os partidos árabes, tornando assim politicamente impossível para Eisenkot unir forças com eles — o que atualmente é a única via de seu bloco para chegar ao poder.

A mídia israelense noticiou que a Comissão Eleitoral Central (CEC) recebeu uma denúncia de que o Catar teria fornecido financiamento com o objetivo de aumentar a participação eleitoral nas comunidades árabes. O Ministério das Relações Exteriores do Catar negou "categoricamente" as alegações.

Netanyahu e seu partido Likud classificaram as alegações como um "terremoto político" e um "ataque à democracia", com o objetivo de derrubar seu governo de direita.

Mas o Shin Bet esclareceu posteriormente que sua investigação não envolvia toda uma comunidade que havia votado legalmente, enquanto o diretor-geral interino da Comissão Eleitoral Central, Dean Livne, afirmou que "não havia fundamento para alegações de violações sistemáticas da integridade eleitoral".

Eisenkot, que foi informado sobre a investigação, disse que "é muito cedo para determinar o que aconteceu, ou se algo aconteceu", e acusou Netanyahu de conduzir "uma campanha orquestrada e organizada para deslegitimar os resultados das eleições".

O presidente do Balad, Sami Abu Shehadeh, que faz parte da Lista Conjunta, rejeitou a alegação, dizendo: "O lado perdedor está construindo uma calúnia racista e incitando as agências de segurança a usar a força para anular os resultados da eleição."

Os ataques de Netanyahu contra eleitores e partidos árabes têm sido constantes há dias. Ele passou grande parte do dia da eleição publicando nas redes sociais que a alta participação árabe é uma "emergência" e uma "questão de vida ou morte" para a direita israelense.

Ele também compartilhou imagens geradas por inteligência artificial de eleitores árabes em seções eleitorais, numa tentativa de incentivar os direitistas a votarem.

Os árabes israelenses, muitos dos quais se autodenominam cidadãos palestinos de Israel, representam cerca de um quinto da população do país.

Durante anos, muitos boicotaram as eleições israelenses, alegando que votar legitimaria um sistema que, segundo eles, os trata como cidadãos de segunda classe.

Mas a participação deles na eleição de terça-feira (27/10) foi motivada pelo desejo de derrubar a coalizão governista mais à direita da história de Israel, liderada por Netanyahu.

Os resultados finais oferecem apenas três opções plausíveis para a formação de um governo: um governo de unidade nacional envolvendo Netanyahu e Eisenkot, uma coalizão de direita envolvendo Netanyahu e dissidentes do bloco de Eisenkot, ou um governo liderado por Eisenkot e apoiado pelos partidos árabes.

Eisenkot e todos os membros de seu bloco, com exceção de um, recusaram-se anteriormente a entrar em um governo com partidos árabes, mas especula-se nos últimos dias que um acordo ainda possa ser alcançado.

Uma pesquisa relâmpago realizada pela Universidade Hebraica mostrou que a opção mais popular entre os eleitores de todos os partidos do bloco de oposição era a formação de um governo minoritário por Eisenkot com Ra'am, apoiado externamente pela Lista Conjunta.

 

Fonte: Opera Mundi/BBC News

 

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