Dobramos
as big techs, e agora?
Nesse
mês de novembro, publicaremos pela Fundação Friedrich Ebert Brasil (FES) e pelo
Instituto Vladimir Herzog o relatório “Impactos estruturais dos algoritmos e da
inteligência artificial na democracia e nos direitos humanos”. As análises que
apresentei ali indicavam uma tendência: uma derrota acachapante do campo
progressista na disputa pelas redes e pelo uso dos algoritmos e das IAs. O
relatório foi finalizado no início do primeiro semestre e – ainda bem! – a
tendência não se confirmou. Contra todos os prognósticos operamos um milagre:
dobramos o algoritmo e vencemos. Isto é, a mobilização política e social foi
capaz de disputar e direcionar o que as plataformas e redes sociais faziam
circular.
Não
pretendo analisar aqui as razões e as ações que levaram a essa vitória.
Precisaremos de muito tempo para sistematizar os dados, avaliar as ações e
compreender de fato o que aconteceu. Tenho, porém, uma hipótese: fomos capazes
de modular – isto é, influenciar e
redirecionar – a ação dos algoritmos das redes sociais por meio da força
informacional que veio da diversidade e pluralidade da mobilização social e
política que ocorreu. Modulamos a instância tecnopolítica que, em nossa era
digital, modula comportamentos, sentimentos, pensamentos e ações.
Fernanda
Bruno descreveu este processo como uma “traquitana” popular e tecnógica.
Segundo ela, “aprendemos a habitar uma nova zona política, ora espontânea, ora
coordenada, ora criativa, ora robótica, ora militante, ora soldado, ora
jornalista, ora influencer, ora intelectual, ora analista político, ora
professor, ora estudante, ora devoto de todos os santos sobretudo Nossa
Senhora, ora direita e esquerda, ora vice-versa. A nossa traquitana jamais
obedeceu ao princípio de não contradição. Acreditou tão intensamente na paixão
quanto na matemática janoniana, sem crer demasiado em nenhuma delas e,
sobretudo, sem fugir do combate.”
Das
diversas ações militantes ao jornalismo investigativo revigorado, o que vimos
foi a disciplina pulverizada e organizada de muita gente que confluiu mais do
que influenciou. Contra a lógica neoliberal, individualista e meritocrática das
redes sociais, nenhum de nós foi um influenciador, mas surgiram muitos
confluenciadores: pessoas imbricadas e distribuídas, que somaram suas ações em
vez de disputar atenção individual.
Mas é
preciso cuidado. Como afirmou Bruno Torturra no episódio “Dito isto… ufa” do
Calma Urgente, não devemos nos inebriar com nossa conquista nem supor que ela
poderá ser replicada daqui a quatro anos, ou mesmo dois. Em outros momentos de
nossa história, em escala bem menor, também conseguimos disputar e modular
minimamente os algoritmos das Big Techs. Mas, sem transparência e,
principalmente, sem poder de definir o
código, as interfaces e as configurações, seguiremos tentando fazer milagres no
campo do adversário. Seguiremos sendo programados e não programadores.
Minha
tese, portanto, é que a estratégia de manter a disputa pela modulação dos
algoritmos não é sustentável. Tanto pelo custo humano (virarmos todos o “tio do
Zap” ou adoecidos que passam a maior parte do dia sugados por telas) quanto, e
principalmente, pelo custo político: se não transformarmos a energia e o
capital político que emergiram nessas eleições em formas de organização e em
infraestrutura e políticas públicas, outros o farão (como já vimos ocorrer com
as manifestações de junho de 2013) — e terão as big techs para ajudá-los.
Dito
isto, à luz do que ocorreu nos últimos dias, retomo aqui alguns dos problemas
apresentados no relatório para propor quatro caminhos de como seguir confluindo
com essa movimentação histórica:
1. Regulação, sim, mas como cavalo de Troia:
tratá-la como meio, não como fim.
2. Sair da modulação: construir canais
próprios, fora das redes privadas.
3. Reconstituir a esfera pública com
tecnologias públicas e voltadas às necessidades dos trabalhadores
4. Usar a IA de modo crítico e lúdico,
estrategicamente direcionando-nos à soberania tecnológica.
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Regulação, sim, mas como cavalo de Troia
Não
devemos concentrar todos os nossos esforços na regulação. Ela é necessária, mas
apenas para trazer, minimamente, as big techs para o jogo democrático.
Como
mostramos no relatório, as plataformas já são instituições. E, como qualquer
instituição, não podem apenas determinar as regras do jogo: precisam também ser
determinadas pelas regras que regem a vida pública. Sem responsabilidade,
transparência, governança democrática e outros pilares, elas seguirão seguirão
privatizando o espaço público digital e agindo como um poder moderador privado
(e mesmo usurpador) na esfera pública e nos processos democráticos. Já temos
amplos dados sobre isso no escopo desta eleição, por exemplo, nas pesquisas do
CTRL+Z e no dossiê da Sleeping Giants Brasil!.
Regulação,
porém, significa apenas trazer as Big Techs pro jogo democrático, não vencê-las
em nosso campo. Por isso, proponho uma estratégia de cavalo de Tróia: a
regulação deve ser a roupagem visível da nossa luta, mas não nossa ação
principal. Ela é somente um meio para transpor as muralhas dos feudos digitais
e fazer em campo a disputa por uma internet e por tecnologias livres, populares
e soberanas. A disputa digital deve ser, primeiramente, política e,
complementarmente, institucional. No relatório, apresentamos algumas linhas de
recomendações em cada capítulo como pontapé inicial para novas discussões e
ações coletivas.
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Sair da modulação, construindo canais próprios
Não
acredito que a tática de modular os algoritmos continuará funcionando. Talvez
valha a pena tentá-la em outros países, de acordo com o contexto local, mas, no
Brasil, precisamos avançar na pauta da soberania digital e na criação de canais
próprios de comunicação e ação.
Em
linhas gerais, André Janones e outros influenciadores de esquerda mapearam os
algoritmos de modo cibernético, isto é, observando seus outputs (o que eles
entregavam em resposta a cada ação) e os hackearam a nosso favor. Não tenho
nenhuma crítica à tática adotada: ela foi emergencial e funcionou
brilhantemente. Suspeito, porém, que funcionou mais pela força política e
social que suscitou do que por sua efetividade do ponto de vista tecnológico.
Em outras palavras, foi o apelo da luta contra o fascismo bolsonarista que fez
a tática funcionar e não a tática por si só.
Como
analisei no relatório, os algoritmos não são alheios nem opacos à vida social:
são relações sociais capturadas e traduzidas em uma linguagem que os sistemas
computacionais podem processar. Cabe a nós inventar meios de processar esses
sistemas de modo humano e social. O Exército Democrático do Lula, a rede de
apoiadores que se organizou nas redes em torno da campanha, fez exatamente
isso: tratou os sistemas computacionais como relações sociais em disputa.
Entretanto,
para que o algoritmo funcione como uma relação social, é preciso produzir
tração nas conectividades, isto é, a capacidade de um símbolo mobilizar as
pessoas para além das telas. A genial ideia da camiseta verde e amarela com as
pessoas fazendo o “L” é um exemplo. O próprio Lula, símbolo maior de que o
pobre e o trabalhador podem governar este país, precisa seguir tendo essa
tração. Mas, não é o engajamento que produz tração; como vimos, é a tração que
produz o engajamento. Pense nos milhares de comentários, curtidas, repostagens
e ações digitais que não eram feitos por sujeitos “engajados”, mas por um modo
de funcionamento que permitia que a máquina continuasse rodando. Eu mesmo
deixei a TV ligada, gastando energia, durante as 24 horas da live da virada do
Janones, pós último debate presidencial, para “manter-me” no engajamento.
Como já
afirmei, manter essa dinâmica, no entanto, não é sustentável, por dois custos
implicados. O primeiro é humano: a energia necessária para manter a máquina
funcionando, e para que nós mesmos funcionemos como máquinas nos parâmetros
impostos pelas big techs, recrudesce o adoecimento psíquico que já padecemos
com nossa vida presa às telas e à conectividade ininterrupta. O segundo, mais grave, é político: sem
organização, a energia que acumulamos será capturada por outros – e a extrema
direita é especialista nisto.
O mesmo
vale para o modelo de apostar no engajamento nas redes para eleger
parlamentares, que permitiu votações expressivas de candidatos de esquerda. Ele
também não é sustentável a médio prazo e, mesmo em seu auge, tem limites: os
candidatos progressistas que mais usaram essas estratégias não foram os mais
votados. Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato tiveram mais de 3 milhões de votos
cada, e Eduarda Campopiano, quase 2 milhões, enquanto Erika Hilton teve apenas
1,5 milhão. Não me parece uma boa estratégia disputar com fascistas nos termos
e condições deles.
Há,
porém, uma boa notícia: quando se alcançam quase 11 milhões de seguidores em um
canal de WhatsApp, o WhatsApp se torna dispensável. Podemos, então, apostar na
criação de canais oficiais em aplicativos e redes alternativas e,
principalmente, fora das redes, para engajar, movimentar e fazer avançar as
discussões sobre um possível partido digital de esquerda, como denominou Marcos
Nobre. Isso inclui lives semanais do Lula e mandatos participativos, com
deliberação popular, dos deputados e senadores progressistas, que foram tão
importantes para a reeleição, entre outras ações organizadas e organizantes. O
que conquistamos no WhatsApp e no Instagram precisa ser levado progressivamente
para fora desses espaços, pois o que produziu o engajamento veio de fora deles.
Só assim o engajamento poderá sair das redes e se tornar mais efetivo.
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Reconstituir a esfera pública com tecnologias públicas e voltadas às
necessidades dos trabalhadores
Como
analisamos no relatório, vivemos uma automatização da esfera pública, uma crise
da integridade informacional e uma privatização das coletividades, o que torna
o problema bastante espinhoso. A esfera pública está polarizada, e essas
eleições só agravaram “a perda de realidade socialmente partilhada” que estamos
vivendo. Não houve debate público em torno de propostas, mas uma luta para
convencer as pessoas a rejeitar um fascista miliciano como presidente da
República. Não será nas redes que a esfera pública irá se reconstituir.
A boa
notícia é que não precisamos, e nem conseguiremos, resolver esse problema
amanhã. Temos quatro anos para fazer a esfera pública se reconstituir nos
espaços públicos, nos meios e nas instituições nos quais possamos nos encontrar
e dialogar com o diferente. Precisamos aproveitar a janela de oportunidade para
mudar os próprios termos e condições do jogo. Para isso, seria muito mais
efetivo apostar em dinâmicas de engajamento que confluam progressivamente em
pautas que representam a maioria da população, como o fim da escala 6×1.
Nesse
sentido, o governo federal pode propiciar investimento urgente no
desenvolvimento de aplicações tecnológicas que, ao mesmo tempo, auxiliem a
classe trabalhadora e a ajudem a se organizar. Isso sim é caminhar para dominar
a força transindividual que nos fez ganhar essa eleição. Algumas
possibilidades:
• um aplicativo público de entregas e
transporte para concorrer com Uber e iFood, proposta já aventada por Lula;
• um aplicativo público de organização das
ofertas de lazer e cultura, para o trabalhador aproveitar os dias de descanso
na escala 5×2;
• investimento em propostas como o
Fediverso, em que redes sociais livres cooperam, e não competem, para oferecer
alternativas às redes das big techs (imaginem os milhões do Exército do Lula se
organizando por lá);
• uma secretaria digital do trabalho que
fortaleça ações de soberania digital popular como as do MST e do MTST.
Há
muitas possibilidades tecnológicas, há conhecimento disponível e há tempo para
desenvolvê-las, se o governo começar agora.
A
reconstrução da esfera pública pode vir da força do jornalismo independente,
como vimos nessas eleições, ou de instituições abertas à participação popular.
Mas, em todos os casos, são as tecnologias digitais que funcionam
majoritariamente como o espaço e o meio nos quais a esfera pública acontece.
Hoje, esse espaço e esse meio são privados; portanto, não temos outra opção
senão torná-los públicos. O Pix, por exemplo, revolucionou não apenas a maneira
como as operações financeiras ocorrem, mas também a compreensão dos suportes
que organizam a circulação do dinheiro e a concessão de crédito. Construir
aplicações e ambientes digitais públicos precisa estar na pauta agora, se
quisermos colher, daqui a quatro anos, os frutos de ambientes democráticos e
participativos.
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Usar a IA de modo crítico e lúdico, estrategicamente direcionando-nos à
soberania tecnológica.
O
modelo de negócios de empresas como OpenAI, Google e Anthropic está pautado em
que deleguemos nossa agência e nossa cognição às suas IAs. Podemos nos
aproveitar disso para hackeá-las, usando-as em atividades para as quais não
estavam previstas ou autorizadas. Por um lado, os memes gerados com IA
insuflaram alegria e vitalidade na campanha e na mobilização. Por outro, a
comoção gerada em torno da impossibilidade de criarmos imagens para a campanha
de Lula com a IA da Meta foi, no fundo, um uso muito perspicaz da IA: fazer
material de campanha a partir do material de campanha que não foi possível
produzir.
Há,
obviamente, a questão da insustentabilidade do consumo energético e
computacional das IAs. Por isso,
proponho esse uso apenas como ação pontual e estratégica:
paradoxalmente, utilizar as IAs para explicitar a atrofia cognitiva e de
agência que as IAs estadunidenses estão colocando em nosso horizonte. Usá-las
para superá-las.
Para
além disso, como mostramos no relatório, os modelos de pesos abertos chineses
(cujos parâmetros são públicos e podem ser adaptados por terceiros) e a
inserção alternativa das IAs no setor produtivo e no desenvolvimento econômico
e tecnológico da China pode nos ajudar a desenvolver nosso próprio caminho de
soberania tecnológica nacional em IA. Quanto mais revelarmos as limitações e
vieses das IAs das Big Techs, mais fácil será convencer a população da
necessidade de desenvolvermos uma IA que não seja inimiga dos trabalhadores,
mas que funcione estritamente na simbiose e integração com a nossa inteligência
e nossa força de trabalho.
Para
tanto, precisamos ser muito consequentes e não aceitar nenhuma ação de governo
que não convirja em direção à nossa soberania tecnológica. Por exemplo, como
muito bem analisou Luís Nassif em relação ao Redata: “Sem política industrial,
acesso nacional à capacidade computacional e repartição dos custos ambientais e
energéticos, o Redata corre o risco de produzir um novo enclave: moderno por
fora, colonial em sua lógica econômica”.
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Além do milagre
Esses
são apenas alguns apontamentos iniciais que convergem para a ideia de que
precisamos enquanto campo democrático e progressista aproveitar a janela de
oportunidade para criar outras formas de engajamento, participação e criação de
mídias e tecnologias digitais que sejam também mais sustentáveis – do ponto de
vista psíquico, econômico, ambiental e, principalmente, político.
E se,
em relação a esses e a outros caminhos possíveis, não der certo? Lembremos algo
que este ano de 2026 nos ensinou: a derrota para o sistema é boa, não
precisamos ter medo dela; se bem escolhidas, as derrotas podem ser futuras
vitórias. Indicar uma mulher negra para o STF e ver o Senado bloquear a
indicação; proibir as Bets; pautar o fim da escala 6 x 1 e agora o passe livre
aos finais de semana… Enfim, perder de modo propositivo mostra que o governo
tem um lado, e que esse lado não é o dos poderosos – como tantas vezes se acusa
o PT -, mas, sim, dos trabalhadores.
O que
não podemos é contar com o milagre. Essa vitória de agora não poderá ser
replicada se não criarmos as condições para tanto.
P.S:
Aliás, o Brasil possui muitos movimentos e pesquisadores que têm produzido um
acúmulo incrível sobre quais são as condições necessárias que menciono acima. O
Movimento pelo Software Livre, a Coalização Direitos na Rede, o Movimento pela
Soberania Digital, e muitos coletivos e organizações tem produzido documentos
norteadores como o Decálogo pela Soberania Digital, a Campanha Internet Legal,
e mesmo institucionalmente com o Comitê Gestor da Internet, as Diretrizes para
Regulação de Plataformas de Redes Sociais. Cabe ao governo colocar esse acúmulo
como prioridade para a luta pela soberania digital; desde já.
Fonte:
Por Lucas Paolo Vilalta, em Outras Palavras

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