André
Singer: A hora da esquerda
Coube
ao Brasil, cujo fundo conservador nunca deve ser subestimado, a proeza de
frear, no segundo turno da eleição presidencial de 2026, a onda reacionária que
se espalhava pela América Latina. Se amanhã (3 de novembro) confirmar as
pesquisas, Donald Trump perderá a maioria na Câmara e no Senado. Então, de Sul
a Norte, a democracia no continente ganhará um tempo para articular
alternativas ao autocratismo.
O
busílis será conjugar os difíceis problemas políticos e econômicos, duas faces
da mesma moeda, para chegar a um programa que atenda às amplas maiorias,
isolando a extrema direita. Aqui, onde a barbárie é sempre um dado para a
maioria da população, a tarefa é, necessariamente, dupla: defender a liberdade
e conquistar o acesso do povo, no seu conjunto, aos benefícios da modernidade.
Mesmo
sendo dispensável repetir, convém frisar que a extrema direita seguirá a sua
viagem rumo ao modelo distópico que projeta e que a batalha vencida no dia 25
de outubro será uma de muitas que virão. O resultado do primeiro turno, quando
o projeto bolsonarista ficou dois pontos percentuais acima do lulista, mesmo
com um candidato fraco, isolado e cheio de acusações bastante plausíveis,
mostra que Lula (PT) precisará orientar o quarto mandato no sentido da extensa
mobilização que permitiu a sua vitória no final.
Convém,
de maneira breve, observar alguns dados. Dos 47% de votos válidos em Flávio
Bolsonaro (PL) em 4 de outubro, apenas um núcleo duro disposto a seguir a
orientação do seu pai apertou 22 por razões ideológicas. Segundo um cálculo do
Datafolha, durante o governo de Jair Bolsonaro, o bolsonarismo raiz equivalia a
cerca de 12% do eleitorado. Afastado do poder, condenado e preso por tentativa
de golpe, é pouco provável que o ex-capitão tenha aumentado o contingente fiel
ao seu clã.
Os
demais escolheram a oposição por estarem insatisfeitos com o governo. O
Datafolha fechado três dias antes daquele pleito indicava que 41% consideravam
o governo ruim ou péssimo, contra 35% que o achavam bom ou ótimo. Eis a
explicação, simples, para a diferença resultante no escrutínio inicial, que
quase recoloca a democracia no pelourinho.
Estudos
de comportamento eleitoral há muito verificam que o cidadão médio avalia um
mandato, sobretudo, de acordo com o mercado laboral e os preços. A existência
de empregos ou alternativas autônomas de trabalho, bem como a obtenção de renda
capaz de suprir as necessidades da sua família, constituem os itens básicos
levados em conta na hora de votar.
De
acordo com as estatísticas disponíveis, o crescimento do PIB promovido por Lula
3 produziu um número de empregos satisfatório. A renda, contudo, que também
aumentou, parece ter sido drenada por dois fatores ausentes nos governos Lula 1
e 2.
Houve,
para começar, uma onda inflacionária mundial na saída da pandemia que foi
agravada pelas guerras que se sucedem desde então. A inflação causou um
persistente aumento do custo de vida, em particular dos alimentos. Sobre ele,
no Brasil, houve um pico de endividamento, resultante de dívidas acumuladas a
taxas de juros exorbitantes. A necessidade de exercer mais de uma atividade
remunerada para pagar as contas se expandiu.
Ao
aperto financeiro, se somou uma epidemia de bets que agravou a situação, já
bastante difícil. Por isso, havia a sensação de que “estava na hora de mudar”,
carreando apoio a Flávio Bolsonaro, que jogou parado até que, nos debates
finais, foi obrigado a recuar sob a pressão de Lula. As dificuldades
decorrentes do custo de vida têm se constituído em óbice para muitos governos
ao redor do planeta, independentemente da cor ideológica. Donald Trump deverá
perder na semana que vem pelo mesmo motivo.
Em
resumo, o preço da carne, que lembrava a promessa lulista de trazer a picanha
com cerveja de volta para a mesa do trabalhador, o pico de inadimplência, que
atingiu 84 milhões de pessoas em agosto, e a epidemia das bets – 30 milhões
fizeram ao menos uma aposta no primeiro semestre de 2026 – quase levam a
democracia de roldão.
Como
explicar a incrível virada ocorrida nas três semanas que separam o primeiro do
segundo turno? A minha hipótese é que três fatores se interligaram para
produzir a mudança que deixou a extrema direita local e internacional
boquiaberta. De forma sucinta, aí vão.
Para
começar, Lula percebeu, na primeira quinzena de setembro, que havia uma
desconexão entre o modo pelo qual tinha estruturado a campanha e a realidade do
eleitorado. Antes do primeiro turno, portanto, deu um freio de arrumação.
Transformou o que era uma exposição burocrática de realizações em uma série
vibrante de decisões.
A
sexta-feira, 11 de setembro, uma noite fria e chuvosa de Porto Alegre, foi o
momento em que o presidente, que havia adotado o uso do chapéu como marca
registrada, reconheceu, em comício, que o café e a carne estavam caros.
Quarenta e oito horas depois, de volta a Brasília, em uma live com militantes,
explicou que, na comparação com os tempos de Jair Bolsonaro, havia diminuído o
ritmo em que os alimentos subiam de preço, mas outra coisa era fazê-los cair.
“O fato concreto é que a gente não conseguiu reduzir o preço estratosférico que
estava no governo passado”, afirmou o chefe de Estado, tirando, simbolicamente,
o chapéu para o eleitor.
No mês
e meio seguinte, arregaçou as mangas e tomou, em média, uma resolução
importante por semana. Evitou mexer diretamente nos preços, mas colocou à
disposição da base da pirâmide social e dos chamados “pobres intermediários”
uma série de benefícios compensatórios. O símbolo dessa postura foi a difícil
decisão de banir as apostas em defesa da economia popular. Para tanto, abriu
mão de arrecadação, comprou briga com empresas, clubes de futebol e mesmo
apostadores contumazes.
O
resultado foi que o choque do primeiro turno encontrou outro mandato em curso.
O Bolsa Família havia sido reajustado em 15%. As bets, completamente proibidas.
O Estado havia decidido comprar dívidas com dois a quatro anos de atraso,
cobrando-as com deságio de até 90% (Desenrola 3), e assinado uma proposta para
que as canetas emagrecedoras fossem liberadas para uso no SUS (Sistema Único de
Saúde).
O
segundo fator foi que o movimento social percebeu a novidade, por vias nem
sempre óbvias. Como gostava de dizer um antigo professor meu, correntes livres
e subterrâneas do psiquismo coletivo se sintonizaram. Enquanto, em Brasília, os
czares da campanha tentavam compreender o ocorrido, jovens estudantes e
trabalhadores (desconfio que os dois ao mesmo tempo) começaram, de maneira
espontânea, a encher as ruas do país como se tivessem entendido o sentido da
mudança operada por Lula.
Salvo
melhor juízo, Niterói foi onde tudo começou, nos dias em que Flávio Bolsonaro
se sentava em uma cadeira presidencial imaginária e iniciava a montagem do seu
ministério. De lá, o movimento cruzou a baía de Guanabara e, em seguida,
reapareceu no Rio de Janeiro. São Paulo respondeu, como em 2013, e as
manifestações que pareciam dizer “nós não vamos entregar o nosso futuro à
família Bolsonaro” pipocaram até culminar na avenida Paulista em 11 de outubro,
um domingo, com uma multidão comparável ao 13 de março de 2016.
Uma
década depois de a direita fazer o que o Datafolha mediu como a maior
manifestação política da cidade de São Paulo (cerca de 500 mil pessoas) para
pedir o impeachment de Dilma Rousseff (PT), a esquerda respondia com um ato que
poderia ser traduzido como “ditadura nunca mais”. O tamanho pareceu equivalente
ao olhar impressionista deste observador. Uma pena que o Datafolha tenha
desistido de realizar a mensuração e não tenhamos meios técnicos de comparar.
Seja
como for, o presidente jogou uma quinta marcha e, junto com o trunfo decisivo
de terminar com a escala 6×1, dialogando diretamente com as ruas, resolveu
acrescentar ao rol de decisões que vinha tomando havia um mês a gratuidade da
tarifa de transporte nos fins de semana. Veja-se que até o velho MPL (Movimento
Passe Livre) foi resgatado nesta jornada democrática.
Muitos
têm destacado o caráter eleitoreiro das medidas. É certo que foram tomadas às
vésperas das urnas se instalarem com o intuito de influenciá-las. O meu
argumento é que dialogavam com as necessidades da população, mudando de maneira
concentrada o caráter do mandato na direção de enfrentar a insatisfação
realmente existente.
Mesmo
as medidas voltadas para os MEIs (microempreendedores individuais), anistiando
dívidas, facilitando a sua vida operacional e prometendo um auxílio de R$
5.000, finalmente vieram desafogar o grupo que tem de 2 a 5 salários mínimos de
renda familiar mensal. Em outras palavras, os “swing voters” nacionais.
O
terceiro fator foi o exército de André Janones. Por ser jejuno em redes
sociais, prefiro deixar o assunto para os especialistas. Observei, porém, o
efeito mobilizador dos milhões de internautas atingido pelos comandos emitidos
a partir do “general”.
Assim,
depois de passar por dezenas de cidades do interior, as manifestações
concluíram na mesma avenida Paulista às vésperas do segundo turno. O paulistaço
de 24 de outubro repetiu – ou aumentou – o público do 11 de outubro. Por meio
daquela conexão, a dobradinha governo popular-ruas mobilizadas chegou até os
rincões deste território continental, com Lula crescendo em todos os lugares e
obtendo 10 milhões de votos a mais no fim das contas.
Em
suma, reunidos, os três fatores levaram o segundo colocado no primeiro turno a
vencer um adversário que recebeu o apoio de candidatos derrotados, de direita.
O
jornalista Pedro Doria, do canal Meio, criou uma boa imagem usando dados
agregados. Comparando com 2022, viu que dois municípios seriam reveladores do
que teria ocorrido no segundo turno.
Enquanto
Balsas, no sul do Maranhão, onde o agronegócio cresceu, se afastou de Lula no
primeiro turno e continuou, grosso modo, longe no segundo, Osasco, na Grande
São Paulo, se distanciou no primeiro, mas voltou para o petista no segundo. Faz
sentido, pois na região metropolitana deve haver uma concentração de “swing
voters”.
O
problema agora será dar sequência aos compromissos assumidos perante a avenida
Paulista, mobilizada pela terceira vez na noite do domingo da vitória.
Consciente do ocorrido, o mercado, que não tem voto, mas tem dinheiro, mandou o
seu recado no dia 26 de outubro: se houver aumento dos gastos públicos, como
ficou implícito, iremos embora.
Como
será impossível cumprir as promessas feitas sem aumentar os investimentos
realizados pelo Estado, veremos cenas emocionantes nos próximos capítulos.
¨
É hora de ampliar a democracia participativa. Por Túlio
Batista Franco
O que
vimos acontecer no Brasil no 2º Turno das eleições presidenciais de 2026 não
foi apenas a extraordinária mobilização popular, mas ao tomar as ruas e as
redes de todo país, o que a população demonstrou foi uma enorme energia,
expressa para produzir o que foi o maior resultado eleitoral da história.
Com
mais de 64 milhões de votos, Lula se consagra com a maior votação de um
presidenciável. O povo mostrou ao som das palavras de ordem, das vozes,
músicas, que se misturam a lágrimas, cantos e gritos, a afirmação de que é no
rumo da democracia, e das políticas sociais, que o país deve seguir.
O que
pede caminho é a democracia direta associada ao que há de representação
institucional, e que deve contar com o ativismo decisório de milhões de
pessoas. Se viu com a incorporação das redes às ruas, que isto é possível, e
agora se viu, necessário.
Há uma
experiência de democracia participativa neste governo, através dos conselhos
que acompanham as politicas públicas, como por exemplo na saúde, ou na
elaboração do Plano Plurianual (PPA) participativo, que contou com a
participação virtual e presencial de alguns milhões de pessoas em 2023. Isso
embora muito importante, hoje seria insuficiente para responder à vontade
manifesta de maior expressão popular nos processos decisórios das políticas.
É
preciso avançar com ousadia, a começar por
adotar o orçamento participativo nacional, que já tem uma proposta aprovada no
Conselho de Participação Social da Presidência da República (Recomendação CPS nº 2, de 12 de
fevereiro de 2025),
acompanhar de forma sistemática e ampla a execução do PPA, assim como todas as
políticas, que podem ter ressonância no âmbito da participação comunitária, que
inclusive, é importante lembrar, consta como princípio da Constituição Federal.
Tudo
isto pode servir de dispositivo para a democratização da nossa democracia,
entendendo-a como uma democracia social, que impulsiona a construção
sistemática e robusta das políticas sociais, distribuição de renda,
universalização do acesso a saúde, educação, previdência e outras necessidade
básicas para a vida das pessoas.
A saúde
pode servir de demonstração para a construção de controle social, sistemas de
gestão participativa, participação comunitária. Isso inclui o sistema
conselhos, já consolidado após a Lei 8142 de 1990, as conferências de saúde que
colocam milhões de pessoas em todo país discutindo a política, e conta com o
reforço da introdução das “conferências livres”, como mais um dispositivo que
conecta o povo à decisão da política.
Acrescenta-se
a tradicional prática da Educação Popular, que parte da pedagogia freiriana,
arte e cultura, para se conectar com a realidade do povo, e usa seu contexto de
vida e trabalho como insumos do processo de aprendizagem. Por aí se constrói um
pensamento crítico, voltado à realidade social e comunitária.
A força
propulsora das multidões no período do 2º turno foi mais do que uma reação
eleitoral, foi afirmação de um projeto de país, e protagonismo social, que foi
alimentada por energia vinda do mais profundo sentimento de defesa do país. Os
afetos positivos de liberdade e democracia arraigados em cada pessoa, ganharam
expressão no social e na multidão.
A
população foi imbuída de potência, uma força propulsora que a põe em movimento
em torno de um objetivo. Essa força e energia precisa vir para dentro do
governo, e se vier, não haverá força contrária capaz de segurar as mudanças
necessárias, e possíveis, na fabricação de um governo democrático e popular.
Um novo
tempo se anuncia, é importante que nossa resposta a esta conjuntura seja a de
impulsionar as energias liberadas pelas multidões das ruas e redes, para a
defesa da vida, da democracia e fortalecimento do SUS.
Fonte:
A Terra é Redonda/Outra Saúde

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