quarta-feira, 4 de novembro de 2026

André Singer: A hora da esquerda

Coube ao Brasil, cujo fundo conservador nunca deve ser subestimado, a proeza de frear, no segundo turno da eleição presidencial de 2026, a onda reacionária que se espalhava pela América Latina. Se amanhã (3 de novembro) confirmar as pesquisas, Donald Trump perderá a maioria na Câmara e no Senado. Então, de Sul a Norte, a democracia no continente ganhará um tempo para articular alternativas ao autocratismo.

O busílis será conjugar os difíceis problemas políticos e econômicos, duas faces da mesma moeda, para chegar a um programa que atenda às amplas maiorias, isolando a extrema direita. Aqui, onde a barbárie é sempre um dado para a maioria da população, a tarefa é, necessariamente, dupla: defender a liberdade e conquistar o acesso do povo, no seu conjunto, aos benefícios da modernidade.

Mesmo sendo dispensável repetir, convém frisar que a extrema direita seguirá a sua viagem rumo ao modelo distópico que projeta e que a batalha vencida no dia 25 de outubro será uma de muitas que virão. O resultado do primeiro turno, quando o projeto bolsonarista ficou dois pontos percentuais acima do lulista, mesmo com um candidato fraco, isolado e cheio de acusações bastante plausíveis, mostra que Lula (PT) precisará orientar o quarto mandato no sentido da extensa mobilização que permitiu a sua vitória no final.

Convém, de maneira breve, observar alguns dados. Dos 47% de votos válidos em Flávio Bolsonaro (PL) em 4 de outubro, apenas um núcleo duro disposto a seguir a orientação do seu pai apertou 22 por razões ideológicas. Segundo um cálculo do Datafolha, durante o governo de Jair Bolsonaro, o bolsonarismo raiz equivalia a cerca de 12% do eleitorado. Afastado do poder, condenado e preso por tentativa de golpe, é pouco provável que o ex-capitão tenha aumentado o contingente fiel ao seu clã.

Os demais escolheram a oposição por estarem insatisfeitos com o governo. O Datafolha fechado três dias antes daquele pleito indicava que 41% consideravam o governo ruim ou péssimo, contra 35% que o achavam bom ou ótimo. Eis a explicação, simples, para a diferença resultante no escrutínio inicial, que quase recoloca a democracia no pelourinho.

Estudos de comportamento eleitoral há muito verificam que o cidadão médio avalia um mandato, sobretudo, de acordo com o mercado laboral e os preços. A existência de empregos ou alternativas autônomas de trabalho, bem como a obtenção de renda capaz de suprir as necessidades da sua família, constituem os itens básicos levados em conta na hora de votar.

De acordo com as estatísticas disponíveis, o crescimento do PIB promovido por Lula 3 produziu um número de empregos satisfatório. A renda, contudo, que também aumentou, parece ter sido drenada por dois fatores ausentes nos governos Lula 1 e 2.

Houve, para começar, uma onda inflacionária mundial na saída da pandemia que foi agravada pelas guerras que se sucedem desde então. A inflação causou um persistente aumento do custo de vida, em particular dos alimentos. Sobre ele, no Brasil, houve um pico de endividamento, resultante de dívidas acumuladas a taxas de juros exorbitantes. A necessidade de exercer mais de uma atividade remunerada para pagar as contas se expandiu.

Ao aperto financeiro, se somou uma epidemia de bets que agravou a situação, já bastante difícil. Por isso, havia a sensação de que “estava na hora de mudar”, carreando apoio a Flávio Bolsonaro, que jogou parado até que, nos debates finais, foi obrigado a recuar sob a pressão de Lula. As dificuldades decorrentes do custo de vida têm se constituído em óbice para muitos governos ao redor do planeta, independentemente da cor ideológica. Donald Trump deverá perder na semana que vem pelo mesmo motivo.

Em resumo, o preço da carne, que lembrava a promessa lulista de trazer a picanha com cerveja de volta para a mesa do trabalhador, o pico de inadimplência, que atingiu 84 milhões de pessoas em agosto, e a epidemia das bets – 30 milhões fizeram ao menos uma aposta no primeiro semestre de 2026 – quase levam a democracia de roldão.

Como explicar a incrível virada ocorrida nas três semanas que separam o primeiro do segundo turno? A minha hipótese é que três fatores se interligaram para produzir a mudança que deixou a extrema direita local e internacional boquiaberta. De forma sucinta, aí vão.

Para começar, Lula percebeu, na primeira quinzena de setembro, que havia uma desconexão entre o modo pelo qual tinha estruturado a campanha e a realidade do eleitorado. Antes do primeiro turno, portanto, deu um freio de arrumação. Transformou o que era uma exposição burocrática de realizações em uma série vibrante de decisões.

A sexta-feira, 11 de setembro, uma noite fria e chuvosa de Porto Alegre, foi o momento em que o presidente, que havia adotado o uso do chapéu como marca registrada, reconheceu, em comício, que o café e a carne estavam caros.  Quarenta e oito horas depois, de volta a Brasília, em uma live com militantes, explicou que, na comparação com os tempos de Jair Bolsonaro, havia diminuído o ritmo em que os alimentos subiam de preço, mas outra coisa era fazê-los cair. “O fato concreto é que a gente não conseguiu reduzir o preço estratosférico que estava no governo passado”, afirmou o chefe de Estado, tirando, simbolicamente, o chapéu para o eleitor.

No mês e meio seguinte, arregaçou as mangas e tomou, em média, uma resolução importante por semana. Evitou mexer diretamente nos preços, mas colocou à disposição da base da pirâmide social e dos chamados “pobres intermediários” uma série de benefícios compensatórios. O símbolo dessa postura foi a difícil decisão de banir as apostas em defesa da economia popular. Para tanto, abriu mão de arrecadação, comprou briga com empresas, clubes de futebol e mesmo apostadores contumazes.

O resultado foi que o choque do primeiro turno encontrou outro mandato em curso. O Bolsa Família havia sido reajustado em 15%. As bets, completamente proibidas. O Estado havia decidido comprar dívidas com dois a quatro anos de atraso, cobrando-as com deságio de até 90% (Desenrola 3), e assinado uma proposta para que as canetas emagrecedoras fossem liberadas para uso no SUS (Sistema Único de Saúde).

O segundo fator foi que o movimento social percebeu a novidade, por vias nem sempre óbvias. Como gostava de dizer um antigo professor meu, correntes livres e subterrâneas do psiquismo coletivo se sintonizaram. Enquanto, em Brasília, os czares da campanha tentavam compreender o ocorrido, jovens estudantes e trabalhadores (desconfio que os dois ao mesmo tempo) começaram, de maneira espontânea, a encher as ruas do país como se tivessem entendido o sentido da mudança operada por Lula.

Salvo melhor juízo, Niterói foi onde tudo começou, nos dias em que Flávio Bolsonaro se sentava em uma cadeira presidencial imaginária e iniciava a montagem do seu ministério. De lá, o movimento cruzou a baía de Guanabara e, em seguida, reapareceu no Rio de Janeiro. São Paulo respondeu, como em 2013, e as manifestações que pareciam dizer “nós não vamos entregar o nosso futuro à família Bolsonaro” pipocaram até culminar na avenida Paulista em 11 de outubro, um domingo, com uma multidão comparável ao 13 de março de 2016.

Uma década depois de a direita fazer o que o Datafolha mediu como a maior manifestação política da cidade de São Paulo (cerca de 500 mil pessoas) para pedir o impeachment de Dilma Rousseff (PT), a esquerda respondia com um ato que poderia ser traduzido como “ditadura nunca mais”. O tamanho pareceu equivalente ao olhar impressionista deste observador. Uma pena que o Datafolha tenha desistido de realizar a mensuração e não tenhamos meios técnicos de comparar.

Seja como for, o presidente jogou uma quinta marcha e, junto com o trunfo decisivo de terminar com a escala 6×1, dialogando diretamente com as ruas, resolveu acrescentar ao rol de decisões que vinha tomando havia um mês a gratuidade da tarifa de transporte nos fins de semana. Veja-se que até o velho MPL (Movimento Passe Livre) foi resgatado nesta jornada democrática.

Muitos têm destacado o caráter eleitoreiro das medidas. É certo que foram tomadas às vésperas das urnas se instalarem com o intuito de influenciá-las. O meu argumento é que dialogavam com as necessidades da população, mudando de maneira concentrada o caráter do mandato na direção de enfrentar a insatisfação realmente existente.

Mesmo as medidas voltadas para os MEIs (microempreendedores individuais), anistiando dívidas, facilitando a sua vida operacional e prometendo um auxílio de R$ 5.000, finalmente vieram desafogar o grupo que tem de 2 a 5 salários mínimos de renda familiar mensal. Em outras palavras, os “swing voters” nacionais.

O terceiro fator foi o exército de André Janones. Por ser jejuno em redes sociais, prefiro deixar o assunto para os especialistas. Observei, porém, o efeito mobilizador dos milhões de internautas atingido pelos comandos emitidos a partir do “general”.

Assim, depois de passar por dezenas de cidades do interior, as manifestações concluíram na mesma avenida Paulista às vésperas do segundo turno. O paulistaço de 24 de outubro repetiu – ou aumentou – o público do 11 de outubro. Por meio daquela conexão, a dobradinha governo popular-ruas mobilizadas chegou até os rincões deste território continental, com Lula crescendo em todos os lugares e obtendo 10 milhões de votos a mais no fim das contas.

Em suma, reunidos, os três fatores levaram o segundo colocado no primeiro turno a vencer um adversário que recebeu o apoio de candidatos derrotados, de direita.

O jornalista Pedro Doria, do canal Meio, criou uma boa imagem usando dados agregados. Comparando com 2022, viu que dois municípios seriam reveladores do que teria ocorrido no segundo turno.

Enquanto Balsas, no sul do Maranhão, onde o agronegócio cresceu, se afastou de Lula no primeiro turno e continuou, grosso modo, longe no segundo, Osasco, na Grande São Paulo, se distanciou no primeiro, mas voltou para o petista no segundo. Faz sentido, pois na região metropolitana deve haver uma concentração de “swing voters”.

O problema agora será dar sequência aos compromissos assumidos perante a avenida Paulista, mobilizada pela terceira vez na noite do domingo da vitória. Consciente do ocorrido, o mercado, que não tem voto, mas tem dinheiro, mandou o seu recado no dia 26 de outubro: se houver aumento dos gastos públicos, como ficou implícito, iremos embora.

Como será impossível cumprir as promessas feitas sem aumentar os investimentos realizados pelo Estado, veremos cenas emocionantes nos próximos capítulos.

¨      É hora de ampliar a democracia participativa. Por Túlio Batista Franco

O que vimos acontecer no Brasil no 2º Turno das eleições presidenciais de 2026 não foi apenas a extraordinária mobilização popular, mas ao tomar as ruas e as redes de todo país, o que a população demonstrou foi uma enorme energia, expressa para produzir o que foi o maior resultado eleitoral da história.

Com mais de 64 milhões de votos, Lula se consagra com a maior votação de um presidenciável. O povo mostrou ao som das palavras de ordem, das vozes, músicas, que se misturam a lágrimas, cantos e gritos, a afirmação de que é no rumo da democracia, e das políticas sociais, que o país deve seguir.

O que pede caminho é a democracia direta associada ao que há de representação institucional, e que deve contar com o ativismo decisório de milhões de pessoas. Se viu com a incorporação das redes às ruas, que isto é possível, e agora se viu, necessário.

Há uma experiência de democracia participativa neste governo, através dos conselhos que acompanham as politicas públicas, como por exemplo na saúde, ou na elaboração do Plano Plurianual (PPA) participativo, que contou com a participação virtual e presencial de alguns milhões de pessoas em 2023. Isso embora muito importante, hoje seria insuficiente para responder à vontade manifesta de maior expressão popular nos processos decisórios das políticas.

É preciso avançar com ousadia, a começar por adotar o orçamento participativo nacional, que já tem uma proposta aprovada no Conselho de Participação Social da Presidência da República (Recomendação CPS nº 2, de 12 de fevereiro de 2025), acompanhar de forma sistemática e ampla a execução do PPA, assim como todas as políticas, que podem ter ressonância no âmbito da participação comunitária, que inclusive, é importante lembrar, consta como princípio da Constituição Federal.

Tudo isto pode servir de dispositivo para a democratização da nossa democracia, entendendo-a como uma democracia social, que impulsiona a construção sistemática e robusta das políticas sociais, distribuição de renda, universalização do acesso a saúde, educação, previdência e outras necessidade básicas para a vida das pessoas.

A saúde pode servir de demonstração para a construção de controle social, sistemas de gestão participativa, participação comunitária. Isso inclui o sistema conselhos, já consolidado após a Lei 8142 de 1990, as conferências de saúde que colocam milhões de pessoas em todo país discutindo a política, e conta com o reforço da introdução das “conferências livres”, como mais um dispositivo que conecta o povo à decisão da política.

Acrescenta-se a tradicional prática da Educação Popular, que parte da pedagogia freiriana, arte e cultura, para se conectar com a realidade do povo, e usa seu contexto de vida e trabalho como insumos do processo de aprendizagem. Por aí se constrói um pensamento crítico, voltado à realidade social e comunitária.

A força propulsora das multidões no período do 2º turno foi mais do que uma reação eleitoral, foi afirmação de um projeto de país, e protagonismo social, que foi alimentada por energia vinda do mais profundo sentimento de defesa do país. Os afetos positivos de liberdade e democracia arraigados em cada pessoa, ganharam expressão no social e na multidão.

A população foi imbuída de potência, uma força propulsora que a põe em movimento em torno de um objetivo. Essa força e energia precisa vir para dentro do governo, e se vier, não haverá força contrária capaz de segurar as mudanças necessárias, e possíveis, na fabricação de um governo democrático e popular.

Um novo tempo se anuncia, é importante que nossa resposta a esta conjuntura seja a de impulsionar as energias liberadas pelas multidões das ruas e redes, para a defesa da vida, da democracia e fortalecimento do SUS.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Outra Saúde

 

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