Por
que a reunificação das Coreias parece mais distante do que nunca
A
história da Coreia do Sul e da Coreia do Norte, duas nações que compartilham
história, idioma e grande parte de sua herança cultural, soa familiar para os
alemães.
O país
europeu passou décadas dividido por regimes opostos até que mudanças
geopolíticas permitiram a reunificação pacífica da Alemanha Oriental e da
Alemanha Ocidental, em 1990.
Apenas
dois anos depois, o então chanceler federal alemão Helmut Kohl visitou a Zona
Desmilitarizada (DMZ, na sigla em inglês) da Península Coreana e manifestou a
esperança de que as duas Coreias também estivessem reunificadas até o fim da
década.
Isso
nunca aconteceu. Cerca de 35 anos após a Alemanha realizar o sonho da
reunificação, Seul e Pyongyang continuam profundamente divididas por seus
sistemas políticos, suas economias e alianças geopolíticas.
Em
viagem para a Coreia do Sul, na sexta-feira passada, o atual chanceler alemão,
Friedrich Merz, ecoou o desejo expresso por Kohl em 1993, enquanto observava a
DMZ.
"Nós,
alemães, sabemos o quanto a divisão de um país é dolorosa", afirmou Merz
em mensagem publicada nas redes sociais. "Também sabemos que aqueles que
permanecem firmes em seus valores e têm coragem para o diálogo podem derrubar
muros."
"Desejamos
ao povo coreano a unidade na liberdade", disse Merz.
Para
analistas que acompanham o dia a dia da política intercoreana, no entanto, isso
soa como um sonho distante.
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Jovens sul-coreanos questionam reunificação
Enquanto
as duas Coreias continuam observando uma à outra com desconfiança através da
DMZ, suas diferenças profundas em riqueza e liberdade política ficam evidentes.
Mas
talvez o principal problema seja que nenhum dos dois lados parece desejar a
reunificação.
"O
sentimento mudou nas últimas duas décadas", afirmou Choo Jae-woo,
professor de política externa da Universidade Kyung Hee, à DW. "Os
sul-coreanos mais jovens veem a Coreia do Norte apenas como outro país que por
acaso fica ao nosso lado, é pobre e representa uma ameaça, sem qualquer vínculo
sentimental com ele, ao contrário das gerações mais velhas."
"Cada
vez mais pessoas perguntam por que deveriam se preocupar com a
reunificação", afirmou.
Um
estudo do Instituto de Estudos para a Paz e a Unificação da Universidade
Nacional de Seul, divulgado em setembro, indicou que 39,1% dos sul-coreanos
acreditam que a reunificação é impossível, a maior proporção desde o início da
pesquisa, há cerca de duas décadas.
Muitos
entrevistados demonstraram preocupação com os enormes recursos necessários para
reconstruir a infraestrutura da Coreia do Norte, incluindo estradas, hospitais,
escolas e todos os demais elementos exigidos por uma sociedade moderna em
funcionamento.
Oficialmente,
o governo sul-coreano não abandonou a reunificação como objetivo nacional. A
Constituição do país continua prevendo uma união pacífica baseada em liberdade
e democracia. Choo observa, porém, que os governos recentes promovem essa ideia
com muito menos frequência do que no passado.
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Coreia do Norte rejeita abertamente ideia de unidade
A
Coreia do Norte tem sido muito menos discreta sobre sua posição.
"Em
dezembro de 2023, o líder norte-coreano Kim Jong-un anunciou mudanças na
Constituição, deixando de lado a possibilidade de uma reunificação
pacífica", observa Choo. "A Coreia do Sul passou então a ser vista
como uma rival hostil, e ele deixava claro não ter mais a menor intenção de
unir os dois países."
A
Constituição revisada da Coreia do Norte foi aprovada em março de 2026, e o
regime de Kim passou a eliminar de forma agressiva todas as referências à
reconciliação e à unidade nacional.
"A
Coreia do Norte não poderia deixar mais claro que não tem intenção alguma de se
aproximar da Coreia do Sul", afirmou Mason Richey, professor de ciência
política e relações internacionais da Universidade Hankuk de Estudos
Estrangeiros, em Seul. Na Coreia do Sul, analistas, autoridades e boa parte da
população "reviram os olhos" sempre que a questão da reunificação
volta ao debate, observa.
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Obstáculos políticos e econômicos
Além da
falta de interesse dos dois lados, há uma série de desafios adicionais que
precisariam ser superados, disse Richey.
O
regime norte-coreano deseja preservar seu próprio poder e prestígio, o que
inevitavelmente estaria ameaçado caso um sistema democrático fosse adotado em
um país reunificado.
Reduzir
a enorme diferença de desenvolvimento econômico entre Norte e Sul seria uma
tarefa gigantesca que colocaria enorme pressão sobre a Coreia do Sul, mesmo com
apoio externo, afirmou o pesquisador.
Ele
observa ainda que, embora a Alemanha reunificada tenha conseguido aproximar os
níveis de desenvolvimento de suas regiões, a Alemanha Oriental de 1990 ainda
era substancialmente mais desenvolvida do que a Coreia do Norte é hoje.
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Quem se opõe a uma Coreia unificada?
Segundo
estatísticas de 2024 do Banco da Coreia, o Produto Interno Bruto (PIB) nominal
da Coreia do Norte foi de 31,7 bilhões de dólares (cerca de R$ 179 bilhões,
pela cotação atual). Já o da Coreia do Sul alcançou 1,85 trilhão de dólares
(cerca de R$ 10,4 trilhões), valor 58 vezes maior.
Como a
população norte-coreana equivale aproximadamente à metade da população
sul-coreana, o PIB per capita do Norte é de apenas 1.230 dólares (cerca de R$
6.950), ante quase 36 mil dólares (cerca de R$ 203 mil) no Sul.
Segundo
Choo, a reunificação não seria apenas uma questão doméstica. Os dois países
estão vinculados a alianças estratégicas e de segurança opostas: a Coreia do
Sul é aliada dos Estados Unidos, enquanto a Coreia do Norte mantém laços
estreitos com a China e, cada vez mais, com a Rússia.
"Essas
superpotências não gostariam de abrir mão de seus aliados em nome da
reunificação, porque isso também seria uma questão estratégica muito importante
para elas", afirmou Choo.
"Os
Estados Unidos não desejariam uma Coreia unificada alinhada à China, e Pequim
resistiria à reunificação se isso significasse permitir a presença militar
americana na fronteira chinesa, no território que hoje corresponde à Coreia do
Norte. É simplesmente impossível imaginar qualquer um dos lados aceitando
isso."
No fim
das contas, disse o professor, o atual status quo na península pode ser uma
solução imperfeita, mas continua sendo a melhor forma de preservar a
estabilidade regional.
Daqui a
dez anos, porém, as condições econômicas, sociais e de segurança poderão ter
mudado radicalmente.
"É
por isso que nunca podemos dizer nunca."
Fonte:
DW Brasil

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