quarta-feira, 4 de novembro de 2026

A máquina da desestabilização

Quem são os atores internacionais que tentam deslegitimar a democracia brasileira? Como governos, bilionários, empresários de tecnologia, organizações conservadoras, plataformas digitais e veículos de comunicação se conectam nessa disputa? O Código Aberto apresenta A máquina da desestabilização, uma investigação jornalística transformada em uma poderosa narrativa visual, com 40 slides ilustrados que ajudam a compreender as estruturas de influência, os interesses estratégicos e os mecanismos de pressão que atravessam as fronteiras nacionais. O estudo está disponível para download e foi produzido para que qualquer cidadão possa compreender, compartilhar e debater o que está acontecendo com o Brasil.

<><> Uma investigação para enxergar as engrenagens do pode

A disputa pela democracia brasileira não acontece apenas nas urnas, nos tribunais ou no Congresso Nacional. Ela também se desenvolve nos centros de decisão de Washington, nos circuitos internacionais do capital financeiro, nas empresas de tecnologia, nas organizações de influência política, nos estúdios de comunicação, nas plataformas digitais e nas redes transnacionais da extrema direita.

Compreender essas conexões tornou-se uma necessidade democrática.

Foi com esse propósito que o Código Aberto, sob pesquisa e autoria de Reynaldo Aragon, desenvolveu A máquina da desestabilização, um dossiê que reúne investigação geopolítica, análise de redes de influência, economia política, tecnologia, guerra informacional e comunicação visual em uma única obra.

O trabalho examina diferentes núcleos internacionais relacionados à pressão política sobre o Brasil. Entre os personagens e organizações analisados estão Donald Trump e integrantes de seu governo, Donald Trump Jr., Peter Thiel, J.D. Vance, a Rockbridge Network, Benjamin Netanyahu, Javier Milei, Steve Bannon, integrantes da família Bolsonaro, empresários, operadores políticos, influenciadores e organizações de mídia conservadora.

A investigação acompanha também o papel das grandes plataformas digitais, os mecanismos de publicidade política, os contratos de lobby, a circulação internacional de narrativas e os interesses estratégicos relacionados à tecnologia, à defesa, aos minerais críticos, à energia e à soberania informacional.

Mais do que apresentar nomes, o estudo procura responder às perguntas fundamentais de qualquer investigação sobre estruturas de poder: quem se relaciona com quem, quais interesses estão em jogo, quais recursos são mobilizados, como as mensagens circulam e o que as evidências permitem concluir?

Nem toda relação representa uma operação coordenada, e nem toda aproximação política comprova irregularidade. Por isso, o dossiê diferencia fatos documentados, investigações jornalísticas, relações institucionais, indícios e hipóteses que ainda exigem comprovação.Essa distinção é parte essencial de sua proposta: oferecer uma leitura crítica da realidade sem substituir a investigação por especulações.

O estudo também apresenta o outro lado dessa disputa: a legitimidade da vitória eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o reconhecimento internacional do resultado, a atuação das instituições brasileiras e a projeção diplomática do país.

A liderança internacional de Lula, sua capacidade de diálogo com diferentes regiões do mundo e sua defesa do multilateralismo ajudam a compreender por que o Brasil ocupa uma posição tão relevante nas disputas políticas contemporâneas.

A questão ultrapassa a sucessão presidencial. Envolve a capacidade de uma das maiores democracias do planeta de decidir seu próprio destino, estabelecer políticas públicas, proteger suas instituições e defender seus interesses diante de pressões externas.

Mas o Código Aberto decidiu ir além do formato tradicional de uma investigação escrita.

A máquina da desestabilização transforma uma pesquisa complexa em uma experiência visual inspirada nos quadrinhos clássicos dos anos 1990 e 2000. A apresentação combina cores intensas, caricaturas satíricas, personagens expressivos, cenários internacionais, representações de estruturas de poder, mapas conceituais e painéis explicativos.

A escolha dessa linguagem tem um objetivo preciso: tornar visíveis relações políticas, econômicas e tecnológicas que normalmente permanecem dispersas em documentos, reportagens e pesquisas especializadas.

Os quadrinhos não substituem os dados. Eles ajudam o leitor a reconhecer os personagens, acompanhar os acontecimentos, visualizar os conflitos e compreender as relações entre diferentes centros de poder.

A sátira também cumpre uma função jornalística. Ao retirar a solenidade artificial que frequentemente cerca os personagens mais poderosos do planeta, a linguagem visual revela contradições, aproxima o público da investigação e transforma um tema complexo em uma narrativa acessível.

Em 40 slides, o público percorre o cenário internacional, conhece os principais atores, acompanha as conexões políticas, compreende o funcionamento da circulação de desinformação, identifica interesses econômicos e chega às conclusões e aos limites documentais da pesquisa.

O material foi concebido para circular amplamente: pode ser utilizado em debates públicos, atividades educativas, universidades, sindicatos, movimentos sociais, coletivos de comunicação, grupos de estudo e encontros dedicados à defesa da democracia e da soberania nacional.

Não é necessário ser especialista em geopolítica, inteligência ou tecnologia para acompanhar a apresentação. A proposta é justamente democratizar o acesso a conhecimentos que frequentemente ficam restritos a especialistas e instituições.

<><> Informação qualificada também é uma forma de defesa da democracia.

Em um ambiente no qual a desinformação circula rapidamente, compreender os mecanismos de produção e amplificação de narrativas é fundamental para que a sociedade desenvolva sua própria capacidade de análise.

O Código Aberto acredita que o conhecimento não deve ficar aprisionado em círculos restritos. Uma investigação só alcança plenamente sua função pública quando pode ser compreendida, questionada, debatida e utilizada pela sociedade.

Por isso, convidamos jornalistas, pesquisadores, estudantes, professores, trabalhadores, comunicadores populares e todos os cidadãos interessados no futuro do Brasil a conhecerem o estudo.

O Brasil precisa conhecer as forças que influenciam seu destino. E conhecer essas forças é o primeiro passo para enfrentá-las democraticamente.

•        O que a vitória nas urnas nos ensina sobre a democracia. Por Ivo Herzog e Marco Aurélio de Carvalho

O dia 25 de outubro foi instituído como Dia da Democracia em homenagem a Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar em 25 de outubro de 1975. Cinquenta e um anos depois, esta mesma data marca uma nova vitória da democracia brasileira. Uma vitória que precisa ser celebrada, mas também compreendida: o que esteve em jogo não era apenas quem ocuparia a Presidência da República, mas que país construiríamos nas próximas décadas.

Vencemos novamente. Mas é inevitável perguntar o que poderia ter acontecido se Flávio Bolsonaro tivesse vencido esta eleição. Uma Presidência identificada com a direita radical, apoiada por um Congresso majoritariamente à direita, poderia ter produzido uma profunda transformação no equilíbrio entre os Poderes. A possibilidade de processos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, de alterações nas competências da Corte e, sobretudo, a nomeação de vários de seus integrantes teria consequências que ultrapassariam em muito os quatro anos de um mandato.

Ministros do Supremo podem permanecer na Corte por vinte ou trinta anos. Suas decisões ajudariam a definir, por uma geração, a interpretação da Constituição, os direitos fundamentais, a liberdade de expressão e os próprios limites do poder do Estado.

O Supremo precisa ser protegido de qualquer tentativa de captura política, mas não pode estar acima da crítica, da investigação ou da prestação de contas. As denúncias e conflitos envolvendo integrantes da Corte precisam ser apurados com rigor e transparência. Instituições fortes não são instituições intocáveis, mas aquelas capazes de responder à sociedade, corrigir seus erros e manter sua autoridade.

O perigo para a democracia não está apenas na possibilidade de um Poder destruir outro. Está também na fragilização gradual de todos eles. Quando tribunais perdem credibilidade, quando o Congresso perde legitimidade ou quando a sociedade deixa de confiar nas instituições, abre-se espaço para aqueles que apresentam soluções autoritárias como resposta à crise. O autoritarismo se alimenta da descrença na democracia.

A mobilização popular desta eleição ganha um significado especial. Milhares de pessoas ocuparam as ruas para defender a democracia, entre elas muitos jovens que não viveram a ditadura. Uma nova geração começa a compreender que a democracia não é uma herança automática. Ela foi conquistada com sofrimento, resistência, perseguições, prisões, torturas e mortes.

A luta da família de Vladimir Herzog por verdade e justiça nunca foi apenas pelo reconhecimento da violência cometida contra um homem. Foi também uma luta para afirmar que o Estado não pode torturar, matar, ocultar a verdade e exigir silêncio. Que o dia de sua morte tenha se transformado no Dia da Democracia é uma das mais poderosas respostas que a história brasileira poderia dar à ditadura.

É preciso rejeitar o autoritarismo em todas as suas dimensões: aquele que nasce dentro do Brasil e aquele que pode vir de fora. Nenhum país estrangeiro pode pretender determinar quem deve governar o Brasil. Cooperação internacional não pode significar submissão.

A democracia brasileira foi duramente atacada em 2018 e voltou a ser colocada à prova nesta eleição. Esta é uma vitória importante, mas não é uma vitória definitiva. O autoritarismo não desaparece quando perde uma eleição. Ele permanece como projeto político, como cultura e como tentação de poder, na sociedade, no Congresso e nas próximas eleições.

Aqueles que lutaram pela democracia no passado lutaram também por aqueles que ainda não haviam nascido. Agora cabe às novas gerações fazer o mesmo. A melhor maneira de honrar Vladimir Herzog é compreender que a democracia não é um ponto de chegada, mas uma construção permanente. E que sua liberdade tem um preço: o compromisso permanente de defendê-la.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em <código aberto>/Le Monde

 

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