A
máquina da desestabilização
Quem
são os atores internacionais que tentam deslegitimar a democracia brasileira?
Como governos, bilionários, empresários de tecnologia, organizações
conservadoras, plataformas digitais e veículos de comunicação se conectam nessa
disputa? O Código Aberto apresenta A máquina da desestabilização, uma
investigação jornalística transformada em uma poderosa narrativa visual, com 40
slides ilustrados que ajudam a compreender as estruturas de influência, os
interesses estratégicos e os mecanismos de pressão que atravessam as fronteiras
nacionais. O estudo está disponível para download e foi produzido para que
qualquer cidadão possa compreender, compartilhar e debater o que está
acontecendo com o Brasil.
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Uma investigação para enxergar as engrenagens do pode
A
disputa pela democracia brasileira não acontece apenas nas urnas, nos tribunais
ou no Congresso Nacional. Ela também se desenvolve nos centros de decisão de
Washington, nos circuitos internacionais do capital financeiro, nas empresas de
tecnologia, nas organizações de influência política, nos estúdios de
comunicação, nas plataformas digitais e nas redes transnacionais da extrema
direita.
Compreender
essas conexões tornou-se uma necessidade democrática.
Foi com
esse propósito que o Código Aberto, sob pesquisa e autoria de Reynaldo Aragon,
desenvolveu A máquina da desestabilização, um dossiê que reúne investigação
geopolítica, análise de redes de influência, economia política, tecnologia,
guerra informacional e comunicação visual em uma única obra.
O
trabalho examina diferentes núcleos internacionais relacionados à pressão
política sobre o Brasil. Entre os personagens e organizações analisados estão
Donald Trump e integrantes de seu governo, Donald Trump Jr., Peter Thiel, J.D.
Vance, a Rockbridge Network, Benjamin Netanyahu, Javier Milei, Steve Bannon,
integrantes da família Bolsonaro, empresários, operadores políticos,
influenciadores e organizações de mídia conservadora.
A
investigação acompanha também o papel das grandes plataformas digitais, os
mecanismos de publicidade política, os contratos de lobby, a circulação
internacional de narrativas e os interesses estratégicos relacionados à
tecnologia, à defesa, aos minerais críticos, à energia e à soberania
informacional.
Mais do
que apresentar nomes, o estudo procura responder às perguntas fundamentais de
qualquer investigação sobre estruturas de poder: quem se relaciona com quem,
quais interesses estão em jogo, quais recursos são mobilizados, como as
mensagens circulam e o que as evidências permitem concluir?
Nem
toda relação representa uma operação coordenada, e nem toda aproximação
política comprova irregularidade. Por isso, o dossiê diferencia fatos
documentados, investigações jornalísticas, relações institucionais, indícios e
hipóteses que ainda exigem comprovação.Essa distinção é parte essencial de sua
proposta: oferecer uma leitura crítica da realidade sem substituir a
investigação por especulações.
O
estudo também apresenta o outro lado dessa disputa: a legitimidade da vitória
eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o reconhecimento
internacional do resultado, a atuação das instituições brasileiras e a projeção
diplomática do país.
A
liderança internacional de Lula, sua capacidade de diálogo com diferentes
regiões do mundo e sua defesa do multilateralismo ajudam a compreender por que
o Brasil ocupa uma posição tão relevante nas disputas políticas contemporâneas.
A
questão ultrapassa a sucessão presidencial. Envolve a capacidade de uma das
maiores democracias do planeta de decidir seu próprio destino, estabelecer
políticas públicas, proteger suas instituições e defender seus interesses
diante de pressões externas.
Mas o
Código Aberto decidiu ir além do formato tradicional de uma investigação
escrita.
A
máquina da desestabilização transforma uma pesquisa complexa em uma experiência
visual inspirada nos quadrinhos clássicos dos anos 1990 e 2000. A apresentação
combina cores intensas, caricaturas satíricas, personagens expressivos,
cenários internacionais, representações de estruturas de poder, mapas
conceituais e painéis explicativos.
A
escolha dessa linguagem tem um objetivo preciso: tornar visíveis relações
políticas, econômicas e tecnológicas que normalmente permanecem dispersas em
documentos, reportagens e pesquisas especializadas.
Os
quadrinhos não substituem os dados. Eles ajudam o leitor a reconhecer os
personagens, acompanhar os acontecimentos, visualizar os conflitos e
compreender as relações entre diferentes centros de poder.
A
sátira também cumpre uma função jornalística. Ao retirar a solenidade
artificial que frequentemente cerca os personagens mais poderosos do planeta, a
linguagem visual revela contradições, aproxima o público da investigação e
transforma um tema complexo em uma narrativa acessível.
Em 40
slides, o público percorre o cenário internacional, conhece os principais
atores, acompanha as conexões políticas, compreende o funcionamento da
circulação de desinformação, identifica interesses econômicos e chega às
conclusões e aos limites documentais da pesquisa.
O
material foi concebido para circular amplamente: pode ser utilizado em debates
públicos, atividades educativas, universidades, sindicatos, movimentos sociais,
coletivos de comunicação, grupos de estudo e encontros dedicados à defesa da
democracia e da soberania nacional.
Não é
necessário ser especialista em geopolítica, inteligência ou tecnologia para
acompanhar a apresentação. A proposta é justamente democratizar o acesso a
conhecimentos que frequentemente ficam restritos a especialistas e
instituições.
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Informação qualificada também é uma forma de defesa da democracia.
Em um
ambiente no qual a desinformação circula rapidamente, compreender os mecanismos
de produção e amplificação de narrativas é fundamental para que a sociedade
desenvolva sua própria capacidade de análise.
O
Código Aberto acredita que o conhecimento não deve ficar aprisionado em
círculos restritos. Uma investigação só alcança plenamente sua função pública
quando pode ser compreendida, questionada, debatida e utilizada pela sociedade.
Por
isso, convidamos jornalistas, pesquisadores, estudantes, professores,
trabalhadores, comunicadores populares e todos os cidadãos interessados no
futuro do Brasil a conhecerem o estudo.
O
Brasil precisa conhecer as forças que influenciam seu destino. E conhecer essas
forças é o primeiro passo para enfrentá-las democraticamente.
• O que a vitória nas urnas nos ensina
sobre a democracia. Por Ivo Herzog e Marco Aurélio de Carvalho
O dia
25 de outubro foi instituído como Dia da Democracia em homenagem a Vladimir
Herzog, assassinado pela ditadura militar em 25 de outubro de 1975. Cinquenta e
um anos depois, esta mesma data marca uma nova vitória da democracia
brasileira. Uma vitória que precisa ser celebrada, mas também compreendida: o
que esteve em jogo não era apenas quem ocuparia a Presidência da República, mas
que país construiríamos nas próximas décadas.
Vencemos
novamente. Mas é inevitável perguntar o que poderia ter acontecido se Flávio
Bolsonaro tivesse vencido esta eleição. Uma Presidência identificada com a
direita radical, apoiada por um Congresso majoritariamente à direita, poderia
ter produzido uma profunda transformação no equilíbrio entre os Poderes. A
possibilidade de processos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal
Federal, de alterações nas competências da Corte e, sobretudo, a nomeação de
vários de seus integrantes teria consequências que ultrapassariam em muito os
quatro anos de um mandato.
Ministros
do Supremo podem permanecer na Corte por vinte ou trinta anos. Suas decisões
ajudariam a definir, por uma geração, a interpretação da Constituição, os
direitos fundamentais, a liberdade de expressão e os próprios limites do poder
do Estado.
O
Supremo precisa ser protegido de qualquer tentativa de captura política, mas
não pode estar acima da crítica, da investigação ou da prestação de contas. As
denúncias e conflitos envolvendo integrantes da Corte precisam ser apurados com
rigor e transparência. Instituições fortes não são instituições intocáveis, mas
aquelas capazes de responder à sociedade, corrigir seus erros e manter sua
autoridade.
O
perigo para a democracia não está apenas na possibilidade de um Poder destruir
outro. Está também na fragilização gradual de todos eles. Quando tribunais
perdem credibilidade, quando o Congresso perde legitimidade ou quando a
sociedade deixa de confiar nas instituições, abre-se espaço para aqueles que
apresentam soluções autoritárias como resposta à crise. O autoritarismo se
alimenta da descrença na democracia.
A
mobilização popular desta eleição ganha um significado especial. Milhares de
pessoas ocuparam as ruas para defender a democracia, entre elas muitos jovens
que não viveram a ditadura. Uma nova geração começa a compreender que a
democracia não é uma herança automática. Ela foi conquistada com sofrimento,
resistência, perseguições, prisões, torturas e mortes.
A luta
da família de Vladimir Herzog por verdade e justiça nunca foi apenas pelo
reconhecimento da violência cometida contra um homem. Foi também uma luta para
afirmar que o Estado não pode torturar, matar, ocultar a verdade e exigir
silêncio. Que o dia de sua morte tenha se transformado no Dia da Democracia é
uma das mais poderosas respostas que a história brasileira poderia dar à
ditadura.
É
preciso rejeitar o autoritarismo em todas as suas dimensões: aquele que nasce
dentro do Brasil e aquele que pode vir de fora. Nenhum país estrangeiro pode
pretender determinar quem deve governar o Brasil. Cooperação internacional não
pode significar submissão.
A
democracia brasileira foi duramente atacada em 2018 e voltou a ser colocada à
prova nesta eleição. Esta é uma vitória importante, mas não é uma vitória
definitiva. O autoritarismo não desaparece quando perde uma eleição. Ele
permanece como projeto político, como cultura e como tentação de poder, na
sociedade, no Congresso e nas próximas eleições.
Aqueles
que lutaram pela democracia no passado lutaram também por aqueles que ainda não
haviam nascido. Agora cabe às novas gerações fazer o mesmo. A melhor maneira de
honrar Vladimir Herzog é compreender que a democracia não é um ponto de
chegada, mas uma construção permanente. E que sua liberdade tem um preço: o
compromisso permanente de defendê-la.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em <código aberto>/Le Monde

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