Daniel
Aarão Reis: O terceiro turno
É…aconteceu.
De onde
estiver, Edgar Morin, com seu olhar brilhante e irônico, verá, uma vez mais,
sua sentença confirmada: “às vezes, é o improvável que acontece”.
A
fantástica virada que assegurou a vitória da democracia não ocorreu por acaso.
Ela foi suscitada pela intervenção de um protagonista esquecido por direitas e
esquerdas institucionais e que parecia ausente da história: os movimentos
sociais populares.
Eles
entraram em cena sem terem sido chamados. Sequer pediram licença. Não houve
nada de espontâneo nisso pois, como se sabe, nem pic-nic se realiza de forma
espontânea (embora os partidos e a polícia tenham por hábito chamar de
espontâneo tudo o que se realiza fora de seu controle).
Quando,
ainda aturdidos e perplexos pela apertada vitória de Flávio Bolsonaro, alguns
estudantes da Universidade Federal Fluminense começaram a se movimentar para
registrar um protesto, uma espécie de baroud d’honneur, contra mais um mandato
da famiglia Bolsonaro, queriam apenas estender uma bandeira diante do prédio da
faculdade de direito na qual estudam.
A
bandeira seria um sinal de alerta, um anúncio de que estavam dispostos a
oferecer resistência a medidas anti-democráticas que, é certo, viriam, caso
Flávio Bolsonaro fosse confirmado no segundo turno como presidente do país.
Prevenidos,
os estudantes foram acorrendo, concentrando-se, organizando-se, até que
resolveram, já noite fechada, sair às ruas. Retomavam, assim, a mais formosa
experiência política dos movimentos populares, sair às ruas de forma autônoma,
expor-se, demonstrar em público ideias e convicções para que outras pessoas
fiquem sabendo e também se manifestem.
A
faísca eletrizou as ruas de Niterói, pois das janelas vinham coros de adesão e
gritos de rebeldia. Estava em andamento a primeira das quinze manifestações que
agitaram, no melhor sentido da palavra, as ruas da cidade durante o segundo
turno.
As
imagens da passeata multiplicaram-se pelo ar, contagiando as pessoas. Como o
farfalhar das asas da borboleta que, em ondas sucessivas, às vezes, suscitam
terremotos no outro lado do mundo.
Aconteceu
então algo inédito nos processos eleitorais desta república e deste país. Em
toda a parte, as gentes organizaram-se para se manifestar em defesa da
democracia e, com alegria, determinação e firmeza, dizer não ao império da
violência sem limites e sem lei do Homo Bolsonarus (Renato Lessa).
Encheram-se
ruas e esquinas, praças e praias. Apareceu a cor vermelha da Justiça e da Luta
que estava meio esquecida no fundo dos armários. A cor preta da Liberdade,
expressão da maioria da nossa população. A amarelinha que o futebol associou às
boas tradições do país, em má hora usurpada pela extrema-direita. E foram se
juntando as demais cores, misturadas, deste país mestiço que tem na mistura uma
de suas qualidades mais bonitas e poderosas.
O
processo alcançou as mídias sociais (a rigor, antissociais, pois apropriadas
por alguns bilionários que delas fazem uso que bem entendem), suscitando apoios
de milhões de cidadãs e cidadãos, impropriamente chamados de soldados, pois a
cidadania, para fundar, conservar e melhorar uma república democrática não
precisa de soldados e de exércitos, nem de generais e de comandantes, mas de
autonomia, justiça social e liberdade de expressão e de manifestação.
Deu-se
então um arrastão democrático. A palavra solta, no ar. Mostrar o que estava em
jogo. Persuadir os indecisos. Demover os descrentes. Atrair os descontentes.
Conversar. Argumentar. Destacaram-se os jovens, as mulheres, os velhos e as
comunidades LGBTQIA+.
Em
ação, redescoberto, o mais precioso tesouro das revoluções (Hanna Arendt): a
experiência concreta do exercício da liberdade política, compreendida como a
participação direta na vida pública, a coletividade deliberando, organizada e
participante, sobre os destinos da sociedade.
Quando
veio o domingo da votação, apesar da sabotagem dos proprietários de ônibus, das
manhas dos algoritmos, das pesquisas enviesadas e das advertências dos
rentistas, o afluxo maciço das gentes, dos indígenas atravessando os rios com
suas balsas, dos velhos carregados nos ombros por seus descendentes, dos jovens
que ainda não tinham votado, das mulheres, escondendo o voto dos maridos
machões, dos empregados ocultando sua opção dos patrões enfurecidos, a defesa
da democracia venceu.
Quem
viveu, recordará.
Entretanto,
mal acabou o segundo e já começou o terceiro turno.
No
terceiro turno, os sem-voto, mas com-poder e com-dinheiro, gravatas apertadas
nos colarinhos, manobram para emparedar o presidente eleito. Aparecem os
mensageiros da Faria Lima, os “especialistas”, com os habituais conselhos de
prudência, recomendando controle nos gastos sociais, um desperdício. Não
esquecer os equilíbrios! Os déficits e os arcabouços!
No
Congresso Nacional, “os garções de costeletas”, hugo-motas e alcolumbres,
movimentam-se para consolidar privilégios e reformar a seu favor o sistema
político. O reino do toma lá-dá cá. Os amigos dos amigos. Os compadres. As
trocas de princípios por posições.
O
terceiro turno apenas começou. Se o protagonismo dos movimentos populares
arrefecer, a bonita vitória vai virar quadro na parede. Para ela se enraizar
nos costumes e na prática política, será essencial manter a vontade de participação e a
autoorganização.
Este
será o grande desafio. Os céticos metidos a sábios dirão que uma coisa são as
eleições, outra, os desafios da vida. Nesta, prevalecerá a Ordem como condição
para o Progresso. Como está na bandeira.
Esquecem a advertência do antigo filósofo: é provável que muitas coisas
improváveis aconteçam.
• Os “mercados” entre o primero turno e a
virada. Por José Menezes Gomes e Osvaldo Coggiola
Nada
ilustra melhor a orientação política prevalecente na burguesia brasileira
durante as eleições gerais de outubro do que os acontecimentos posteriores à
vitória bolsonarista no primeiro turno, reveladores das expectativas do
conjunto dos rentistas, do setor industrial e do agro, intimamente imbricados.
A 5 de outubro, a queda do dólar para US$ 4,95 sinalizou que haveria um ajuste
fiscal brutal que asseguraria o pagamento de um valor maior do serviço da
dívida pública (juros e amortizações).
Isto se
complementou com a valorização da Bolsa de Valores em 20%, tendo como destaque
as ações do Banco do Brasil e da Petrobras. Na Petrobras, a PETRJ550 avançou
164,04%, enquanto a PETRJ541 ganhou 148,59%. No Banco do Brasil, a BBASJ270
terminou o dia com valorização de 144,29%. As ações da Vale, no entanto,
recuaram entre 22,75% e 46,92%.
O
chamado “mercado” iniciara o processo de compra de ações das duas primeiras
empresas, visando adquirir maior participação acionária na sua futura
privatização, anunciada por Bolsonaro. Entre os interessados se encontravam (e
encontram) as grandes petroleiras mundiais e os grandes bancos estrangeiros,
assim como o dinheiro do crime organizado e o das BETs, que buscam comprar
parte dessas empresas públicas na busca de um novo instrumento de lavagem de
dinheiro.
Tal
processo poderia significar a desnacionalização de grande parte da riqueza
nacional, com consequência direta sobre os preços dos combustíveis, como
ocorreu no governo Jair Bolsonaro, quando várias fábricas de fertilizantes
foram fechadas, sendo reabertas no governo Lula. A guerra da Ucrânia revelou a
vulnerabilidade do setor do agronegócio, devido à sua dependência de
fertilizantes vindos da Rússia, elevando seu custo de produção. A política de
Jair Bolsonaro levou a privatização da BR Distribuidora e das refinarias na
Bahia e no Amazonas, tendo como meta a privatização do Banco do Brasil.
Tão
grave quanto essas privatizações seria o retorno do PPI (Preços de Paridade de
Importação), vinculando os preços dos combustíveis à variação do preço
internacional do petróleo e do dólar. No governo de Jair Bolsonaro, essa
metodologia permitiu que a gasolina atingisse um valor acima de R$ 9,00. No
segundo trimestre de 2022 a Petrobras se tornou a maior pagadora de dividendos
do mundo a frente de empresas como Nestlé, Mercedes-Benz e Microsoft.
Naquele
momento a estatal distribuiu um volume histórico em dividendos e juros sobre
capital próprio aos acionistas. A maior parte desses dividendos eram pagos pela
população trabalhadora, que pagava mais pelos preços dos combustíveis,
comprometendo a vida do motoboy, dos motoristas de aplicativos, dos motoristas
de caminhão, do agricultor familiar e mesmo dos grandes produtores que tiveram
uma elevação do custo de produção e transporte, em seguida repassado para os
preços dos demais itens.
Para
combater a inflação, o Banco Central, com o Regime de Metas de Inflação,
elevava os juros, que acabavam por elevar a dívida pública e mesmo a dívida
privada, seja familiar ou dos capitalistas, tendo como correlato a redução da
atividade econômica.
Com
pagamentos bilionários de dividendos a acionistas privados, a Petrobras obteve
em 2022 o maior lucro líquido histórico de
uma empresa brasileira. O lucro recorde foi de R$ 188,3 bilhões, um
crescimento de 77% em relação ao ano anterior. A empresa distribuiu um total de
R$ 215,7 bilhões em dividendos relativos ao ano de 2022, mais do que o dobro do
que foi pago em 2021. Na essência, desde que o PPI foi adotado no país, em
2017, a política da Petrobras passou a impedir investimentos em pesquisa e
desenvolvimento de novas tecnologias, em projetos que promovessem a exploração
de novas reservas de petróleo e gás e no aumento da produção.
Segundo
a Federação Única dos Petroleiros, ao longo de 2022 a Petrobras registrou
tímida política de investimentos, com encolhimento de patrimônio e perda de
capacidade produtiva. A adoção do PPI acabou por permitir uma geração de
receitas que não resultavam da sua estrutura de custo, servindo para que os
acionistas estrangeiros não corressem risco de perdas derivadas de variação do
câmbio.
A
privatização da BR Distribuidora acabou retirando a possibilidade de conter os
preços cartelizados das demais distribuidoras, já que a redução dos preços da
Petrobras não seria revertida nos postos. A privatização abriu espaço para que
dinheiro do crime organizado fosse destinado à aquisição de 1.600 postos de
gasolina, conforme revelado pela Polícia Federal.
A
eleição no primeiro turno confirmou, aparentemente, que teríamos uma
presidência semelhante à de Javier Milei, na Argentina, que encaminhou até à
venda de partes significativas do território argentino para grupos estrangeiros
(“se eles quiserem comprar uma província [um Estado] inteira, que o façam”,
declarou um seu ministro). O resultado do primeiro turno também provocou a
revelação de outros elementos programáticos da extrema direita, como a proposta
de governo de realizar uma nova contrarreforma da previdência social,
trabalhista e administrativa, com graves consequências para o serviço público.
A
acachapante derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro no segundo turno foi, antes
do mais, produto de uma impressionante mobilização popular, iniciada pela
juventude, em especial o movimento estudantil, com importante participação de
jovens trabalhadores, embora não de forma organizada. Salvo exceções, o
movimento sindical esteve praticamente ausente.
A
virada eleitoral de Lula, o isolamento do bolsonarismo dentro da própria
direita (que não encampou sua impugnação judicial do processo) foram
consequência dessa mobilização. Que desmontou o projeto de criação de um regime
ditatorial, com o judiciário e o legislativo reduzidos a marionetes de um
executivo dominado por um clã de chefes milicianos, uma autêntica quadrilha.
O
sentimento anti-imperialista e antifascista de milhões de jovens e
trabalhadores foi o combustível principal de uma mobilização multitudinária,
bem mais inclusive do que as medidas anunciadas por Lula (reajuste do Bolsa
Família, supressão das BETs) no intervalo entre o primeiro e o segundo turno.
Foi o primeiro passo para uma luta mais ampla em que a defesa e ampliação dos
direitos sociais e da soberania nacional sejam a plataforma de uma derrota
definitiva dos exploradores da nação e dos trabalhadores.
A
decisão de alguns sindicatos (como o Andes-SN), de apoiar e se engajar na
campanha eleitoral de Lula, derrotando Flávio Bolsonaro nas ruas e nas urnas,
revelou-se inteiramente justa, pois não era possível manter uma posição de
isenção em condições de uma encruzilhada nacional que afetava toda a população
e todas as instituições do país. A direita (“centrão” incluído) não abandonou
Flávio Bolsonaro no segundo turno. Seus representantes parlamentares votaram
pelo fim da escala 6×1 para não ficarem em uma situação politicamente ruim
perante a opinião pública e seus eleitores, já que era uma pauta imensamente
popular.
A
derrota da extrema direita no Brasil deu início à reversão do avanço
reacionário na América Latina, em condições em que o mundo inteiro passa por
uma situação de convulsão. Os múltiplos cenários bélicos internacionais têm
como pano econômico de fundo o confronto entre as potências (EUA vs. China,
principalmente, com a União Europeia e o Japão buscando seu lugar próprio
dentro da crise geral), no quadro de um declínio irreversível do imperialismo
norte-americano.
O
Brasil e a América Latina fazem parte desse marco, de modo cada vez mais
acentuado. Valha como exemplo o fato de que as tendências do comércio do Brasil
com os EUA e a China seguiram trajetórias divergentes e opostas ao longo do
primeiro quarto deste século: enquanto a participação de Washington no total
das exportações brasileiras caiu pela metade — passando de 24,4% em 2001 para
12,2% em 2024 —, a participação de Pequim aumentou dez vezes, passando de 3% em
2001 para 30% em 2025.
Após a
posse de Donald Trump, a pressão dos EUA sobre a América Latina começou a se
fazer sentir quando Panamá foi compelido a retirar-se da vertente
latino-americana da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês) –
apesar de ter sido a primeira nação latino-americana a aderir a ela, em 2017.
Donald Trump levantou a questão do controle sobre os dois portos situados nas
extremidades do canal – Balboa, no lado do Pacífico, e Colón, no lado do Caribe
–, ambos operados, desde 1997, pela empresa chinesa Panama Ports Company.
O
impacto das políticas de Donald Trump – exercidas por meio de uma ampla gama de
interferências, ameaças e chantagens – desencadeou uma guinada rumo à
extrema-direita em todo o espectro político latino-americano. Em maio de 2025,
Daniel Noboa foi reeleito no Equador, enquanto, na Bolívia, a vitória de
Rodrigo Paz em novembro pôs fim a quase duas décadas de hegemonia do Movimento
ao Socialismo.
Em
janeiro de 2026, Nasry “Tito” Asfura trouxe Honduras de volta à órbita de
Washington; em março, no Chile, o apoiador de Pinochet, José Kast – após a
presidência de Gabriel Boric –, sepultou de vez as esperanças de mudança que
haviam surgido durante o levante social de 2019. Em maio, Laura Fernández
manteve a Costa Rica firmemente no campo conservador.
Em
julho, Keiko Fujimori – filha de Alberto, o ditador que governou o país com mão
de ferro na década de 1990 – obteve sucesso em sua quarta tentativa de chegar à
presidência do Peru. Por fim, na Colômbia, o empresário de extrema-direita
Abelardo de la Espriella derrotou, por uma margem estreita, Iván Cepeda,
encerrando o primeiro período de um governo de esquerda no país. Em 2026, a
intervenção militar ianque na Venezuela, a primeira direta dos EUA na América
do Sul, com um saldo de mais de cem mortos e o sequestro do presidente Nicolás
Maduro e de sua esposa, e o bloqueio criminal de Cuba, deixada sem alimentos,
medicamentos e energia, evidenciaram a marcha acelerada e agressiva do
imperialismo norte-americano na direção da transformação da América Latina num
protetorado explícito dos EUA.
A
derrota de Flávio Bolsonaro marcou também um início de reversão dessa
tendência, fato que foi imediatamente registrado pelo capital financeiro
internacional. A reação dos mercados brasileiros à vitória de Lula no segundo
turno não se fez esperar. “Cerca de 1 trilhão de reais foi embora (da Bolsa) e
não voltou”, resumiu o economista Gustavo Franco. Logo depois do segundo turno
das eleições, os dez brasileiros entre as 500 pessoas mais ricas do mundo
perderam, juntos, cerca de US$ 15 bilhões na segunda-feira 26 de outubro, após
a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.
Tal
fato determinou uma queda acentuada na Bolsa de São Paulo, que levou à
interrupção temporária das negociações no chamado Circuit Break (norma criada
em 1987, que interrompe o pregão da Bolsa por 30 minutos para que retorne a
“racionalidade no mercado”). A perda foi a maior acumulada pela Bolsa desde a
criação do índice Ibovespa. As quedas foram registradas até o meio-dia em Nova
York, em meio à reação dos investidores à reeleição de Lula.
O
fundador do banco BTG Pactual, André Esteves, registrou a maior perda
individual entre os empresários citados. Segundo o índice da Bloomberg, sua
fortuna diminuiu em cerca de 30%, US$ 4,4 bilhões, passando a ser de US$ 11,3
bilhões. Vale lembrar que esse banqueiro foi preso na Operação Lava Jato em
novembro de 2015, ficando quase um mês em Bangu por decisão do STF. Entre os
especuladores que perderam está também David Vélez, empresário colombiano do
Nubank, banco digital, que perdeu US$ 2,6 bilhões.
Enquanto
isso, a moeda americana teve a maior alta diária desde 1999, com avanço de
8,21%, até R$ 5,4027. O Ibovespa caiu 13,88%, aos 176.608 pontos, no pior
resultado desde março de 2020, durante a pandemia de Covid-19. A queda indicou
a frustração dos parasitas da nação que ganham muito dinheiro comprando títulos
da dívida a taxa de 13,75% a.a. numa inflação de 4% ou seja, com ganho
automático real de quase 10% anual) que queriam participar de uma futura
privatização da Petrobras e Banco do Brasil. Todavia, as perdas na Bolsa e a
especulação com o dólar configuram tentativa de chantagem para pressionarem o
novo governo para adoção de medidas de austeridade fiscal, implicando no corte
de políticas sociais.
A
derrota de Flávio Bolsonaro representou um golpe político para Donald Trump,
para Javier Milei e para toda a facção do capital que apoiou o defensor das
milícias brasileiras. Donald Trump comentou que, com a vitória de Lula, “os
comunistas se perpetuam no poder”, deu margem e espaço para o argumento
golpista de um suposto fraude eleitoral e recebeu o fugitivo da justiça
brasileira no seu próprio país, acumulando elementos que, eventualmente,
justifiquem e pavimentem uma intervenção (militar inclusive) direta dos EUA no
Brasil.
Qualquer
tentativa de conciliação com essa política, buscando transformar o país numa
“exceção sul-americana”, só enfraqueceria a posição da nação e dos
trabalhadores, um enfraquecimento apoiado no reforço da posição parlamentar da
direita. Os que esperam uma anistia geral pelo golpe de janeiro de 2023 devem
agora buscar um acordo no novo Congresso, muito mais à direita do que o
anterior. Lula, por outro lado, já anunciou a intenção de instalar a exploração
do petróleo da Amazônia, de olho na exportação de combustíveis para a China.
O
“golpe dos mercados” do segundo turno visa extrair de Lula 4 um pronunciamento
sobre os rumos do futuro governo. O PT já anunciou “um governo que buscará o
superávit e o equilíbrio fiscal”, um Estado com capacidade de investimento
baseada em “gastar menos do que se arrecada”. É um ajuste cujo objetivo
principal é o pagamento de uma dívida pública que representa 80% do PIB.
O
orçamento brasileiro praticamente não apresenta déficit corrente, mas sim um
déficit financeiro que chega a 9% do PIB. O banco JP Morgan já estimou que a
anunciada restrição de gastos “não será suficiente”, sendo necessárias mudanças
no que tange à “seguridade social e aos salários”, um acordo legislativo para
alterar o regime previdenciário no Congresso, que conta com maioria dos
partidos de direita.
Isto se
choca diretamente com as expectativas suscitadas pela enorme mobilização
popular que permitiu a virada eleitoral do segundo turno. Na crise nacional que
se avizinha, o movimento operário carece de uma fisionomia política própria e
independente, encontrando-se dividido e a reboque das opções visíveis na praça
política. Este é o principal obstáculo a ser superado para que o sedimento
deixado pela enorme mobilização popular de outubro passado não seja só o
prolegômeno de uma nova “pizza” e de uma renovada frustração popular.
Fonte:
A Terra é Redonda

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