Questão
de saúde e fé: O papel dos influenciadores na onda do consumo de carne crua
As
redes sociais são, atualmente, um grande mercado de certezas. Ao lado de
conhecimentos comprovados, crescem bolhas de "verdades" que desafiam
o consenso científico; nelas, cada um encontra respostas sobre como viver e se
alimentar, escolhendo a quem ouvir e qual bandeira levantar.
Uma
dessas bolhas está transformando o universo do bem-estar. Se, há alguns anos,
os sucos verdes, o tofu e as alternativas de origem vegetal eram tendência,
hoje os bifes, as vísceras e o leite não pasteurizado disputam o protagonismo.
E essa
mudança vai além do Instagram. Segundo a revista de saúde Women's Health, o
consumo de carne nos Estados Unidos atingiu uma mínima histórica em 2014. Por
outro lado, a previsão para 2025 era de um consumo médio por habitante cerca de
dez quilos superior ao daquele ano.
Nesse
novo cenário, ganham espaço propostas como a dieta carnívora – baseada quase
exclusivamente em produtos de origem animal –, a Raw Primal, que defende o
consumo desses alimentos crus; a "dieta do leão", limitada a carne de
ruminantes, água e sal; ou as chamadas dietas com baixo teor de toxinas, que
buscam evitar ingredientes considerados prejudiciais, como certos óleos
vegetais.
Influenciadores
como Bella Ma, conhecida como Steak and Butter Gal ("Garota do bife e
manteiga"), afirmam, entre outras coisas, que se alimentar principalmente
de produtos de origem animal os ajudou a se sentirem melhor, a recuperar a
clareza mental e a aliviar problemas de pele. A desconfiança em relação aos
ultraprocessados ajuda a explicar o apelo dessas dietas, embora a busca pelo
"natural" possa ir muito mais longe, chegando, inclusive, a ponto de
se abrir mão do cozimento dos alimentos.
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Kelly Pi e a dieta de carne crua
Kelly
Pi é um caso notável. A engenheira eletricista de 30 anos apareceu recentemente
em uma reportagem da revista The New York Times Magazine com uma escolha
alimentar pouco habitual: miolos de búfalo que ela carrega na bolsa. Durante o
encontro, ela tirou o recipiente, apontou para o que identificou como um
fragmento de crânio e exclamou, entusiasmada: "Olha, dá para ver um
pedacinho do crânio!". Em seguida, deu uma mordida.
Para se
abastecer, ela viaja várias vezes por mês a uma fazenda da comunidade Amish na
Pensilvânia, nos Estados Unidos, onde compra carne e laticínios não
pasteurizados. Sua dieta inclui vísceras, gemas de ovo e até animais
atropelados – tudo cru –, apesar dos riscos à saúde apontados pela própria
reportagem.
Kelly
sabe que sua alimentação pode parecer extrema, mas considera muito mais
preocupante o consumo de produtos processados e álcool. Sua opção pela carne
crua, no entanto, não surgiu do nada. Por volta dos vinte e poucos anos, ela
sofria de enxaquecas crônicas e convulsões que a medicação não parecia aliviar.
Em busca de uma solução, começou a experimentar diferentes dietas até chegar à
que segue hoje.
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"Nutrição sombria" e desconfiança em relação à medicina
O caso
de Kelly, porém, não é isolado. Sua forma de se alimentar encaixa-se no que a
reportagem do Times chama de dark nutrition ("nutricão sombria"): um
universo de dietas bastante distintas, mas unidas pela desconfiança em relação
à medicina convencional e às autoridades de saúde.
Em
podcasts, fóruns e perfis no Instagram, os conselhos habituais são
questionados. Em alguns desses círculos, a carne vermelha e a manteiga chegam a
adquirir propriedades quase milagrosas, enquanto os vegetais despertam
suspeitas.
Essa
desconfiança também cria uma comunidade própria. Segundo relata a reportagem,
no Meatstock – uma convenção voltada ao consumo de carne realizada no
Tennessee, nos Estados Unidos – o público aplaudia enquanto bifes eram cortados
e cereais feitos de carne eram vendidos. Entre os participantes, não faltavam
histórias de recuperação e mensagens contrárias à medicina convencional. Muitos
sofriam há anos com doenças crônicas, e alguns eram ex-veganos.
Por
exemplo, Max Kane, diagnosticado com a doença de Crohn aos 12 anos, afirmou ao
Times que mudar sua alimentação lhe devolveu a autonomia. Após anos de
tratamentos, ele decidiu buscar respostas por conta própria, sem depender
exclusivamente do que a medicina convencional lhe oferecia.
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Comer, uma questão de pertencimento
Mas
essa busca por controle sobre o próprio corpo também pode se transformar em um
meio de encontrar outras pessoas com preocupações semelhantes. Como aponta a
nutricionista Emma Beckett à reportagem do jornal britânico The Guardian, a
transição de alguns adeptos do veganismo para a dieta carnívora sugere que,
para além da saúde, eles também buscam regras simples e uma comunidade com a
qual possam se identificar.
Parte
dessas ideias também encontra eco no Make America Healthy Again ("Torne a
América saudável Novamente"), ou Maha, movimento impulsionado pelo atual
secretário da Saúde os EUA, Robert F. Kennedy Jr., no qual coexistem críticas à
indústria alimentar e a defesa de uma alimentação "ancestral".
A
ascensão desse movimento coincide, ainda, com a disseminação de teorias da
conspiração durante a pandemia e a desconfiança em relação às vacinas, embora
nem todas as preocupações levantadas sejam marginais. Segundo uma pesquisa do
instituto KFF citada pelo The Guardian, 64% dos adultos americanos consideram
insuficiente a regulamentação dos agrotóxicos, e 75% pensam o mesmo sobre os
aditivos alimentares.
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O que a ciência diz sobre a dieta carnívora
O
problema surge quando essas preocupações, amplamente compartilhadas, servem
para justificar práticas alimentares extremas. É o caso das versões mais
radicais da dieta carnívora, às quais alguns atribuem propriedades curativas
sem qualquer embasamento científico sólido.
Segundo
o The Guardian, a dieta carnívora pode oferecer pouquíssima fibra – um
componente fundamental para a saúde intestinal e associado a um menor risco de
doenças cardiovasculares e de certos tipos de câncer. Ela também pode levar a
deficiências de vitamina C e ácido fólico. Soma-se a isso o excesso de gorduras
saturadas, que pode elevar o colesterol LDL, um fator de risco para infartos e
acidentes vasculares cerebrais (AVCs).
A
revista científica Harvard Health alerta para possíveis consequências a longo
prazo, como cálculos renais, gota e osteoporose, além de problemas na função
renal decorrentes do consumo de quantidades muito elevadas de proteínas.
Embora
ainda faltem estudos sobre os efeitos a longo prazo da dieta carnívora, esses
riscos preocupam os especialistas. Isso também não significa que as pessoas que
afirmam se sentir melhor estejam mentindo.
Segundo
a nutricionista Beckett, a dieta carnívora funciona como uma forma extrema de
dieta de eliminação. Ao suprimir tantos alimentos, é possível que uma pessoa
deixe de consumir algo que lhe causava desconforto. A diferença é que, enquanto
na medicina esses alimentos são reintroduzidos gradualmente, aqueles que mantêm
uma dieta carnívora estrita continuam a excluí-los. Além disso, sentir-se bem
também não garante que a pessoa esteja saudável. Como lembra a especialista,
não conseguimos perceber quando nossas artérias estão sendo obstruídas.
Os
riscos se tornam especialmente visíveis com o leite cru, outro símbolo dessa
tendência, cujas vendas aumentaram 17,6% em 2024, segundo dados da empresa de
pesquisas de mercado Circana citados pelo The Guardian. Sem passar por
pasteurização, o leite pode conter microrganismos perigosos, sem que suas
supostas vantagens para a saúde estejam comprovadas.
De
fato, durante o verão de 2026, mais de 100 pessoas adoeceram após consumir
leite cru e 11 acabaram hospitalizadas, segundo a emissora pública americana
NPR. A Academia Americana de Pediatria defendeu a proibição da venda do
produto.
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Depoimentos pessoais e estudos amplos
Apesar
dessas advertências, os depoimentos pessoais continuam a ter uma força difícil
de combater.
A The
New York Times Magazine relata que nos círculos da "nutrição obscura"
popularizou-se a ideia de transformar o próprio corpo em um experimento e
descobrir o que funciona a partir da experiência pessoal. Tratar-se de uma
abordagem atraente em um campo onde pesquisar os efeitos a longo prazo é
complexo. Contudo, uma única experiência, por mais convincente que pareça, não
é suficiente para demonstrar que uma dieta seja eficaz ou segura.
Além
disso, não é fácil saber a que atribuir uma melhora. A própria jornalista do
Times se deparou com essa dúvida ao retornar de férias na Grécia, dizendo se
sentir melhor do que há muito tempo. Isso poderia ter ocorrido por ela ter
evitado evitar certos óleos ou, simplesmente, por ter se desligado da rotina
por alguns dias?
Essa
dificuldade em estabelecer causas é uma das limitações da pesquisa nutricional.
Muitos estudos são observacionais e se baseiam no que os próprios participantes
relatam sobre sua alimentação. Dessa forma, é prudente interpretar os
resultados com cautela: um único estudo não basta para tirar conclusões
definitivas.
No
entanto, as evidências acumuladas permitem identificar padrões consistentes.
Décadas de pesquisa sustentam os benefícios de uma alimentação variada e rica
em alimentos de origem vegetal. Entre os estudos mais recentes, uma pesquisa
publicada na revista científica Nature Medicine em 2025, que analisou mais de
100 mil participantes, associou esse tipo de alimentação a um envelhecimento
mais saudável.
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A ciência e a busca pela dieta perfeita
Talvez
a melhor forma de compreender a diferença entre ciência e crença seja a
explicação de Christopher Gardner, pesquisador da área de nutrição da
Universidade de Stanford. Ele relatou ao Times como um estudo seu sobre o alho
acabou sendo mal interpretado. A pesquisa não constatou a redução do colesterol
LDL. Mesmo assim, alguns veículos de imprensa foram mais longe e concluíram que
o alho não fazia bem à saúde.
Ele
sabia que seu trabalho não permitia realizar uma afirmação dessas dimensões. A
ciência da nutrição raramente oferece respostas absolutas, mas isso não
significa que nada se saiba. Por isso, seu conselho continua sendo simples:
comer mais frutas e vegetais e reduzir o consumo de junk food.
É
justamente essa falta de respostas definitivas que parece alimentar uma busca
constante pela dieta perfeita, na qual sempre há algo a ajustar. Kelly Pi, por
exemplo, aboliu o sal por um tempo, mas, algum tempo depois, já havia voltado a
consumi-lo.
Talvez
esse seja o verdadeiro problema desta nova religião alimentar. Quando a saúde
se torna uma questão de fé, o influenciador que promete certezas pode acabar
tendo mais autoridade do que o cientista que reconhece as dúvidas. Mas entender
por que tantas pessoas preferem acreditar nele – sem ridicularizar suas
experiências nem ignorar suas inquietações – pode ser o primeiro passo para
recuperar a confiança no conhecimento científico.
Fonte:
DW Brasil

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