A
comunicação e a universidade
Sobrevivemos
às urnas, ganhamos tempo e algum respiro, mas ainda estamos em alvoroço e
bastante preocupados – em especial, nas universidades públicas. Em primeiro
lugar, reagimos em meio a uma derrota, pois o primeiro turno nos legou um
parlamento mais degradado e, com o segundo turno, o que conseguimos foi evitar
o que seria o completo massacre a um projeto progressista. Que não se diminua a
nossa alegria com a vitória no segundo turno, pois soubemos mostrar nosso
melhor, do qual precisa fazer parte nossa capacidade de criticar os passos
dados e de ler bem os sinais.
Não sem
razões, alguns julgam que corremos o risco de apenas termos adiado uma derrota
e, logo, que há motivos até para um desespero, em meio à euforia. Ganhamos
tempo, insistem, advertindo que, daqui a quatro anos, a destruição pode ser
completa. Não teremos Lula, nem algum líder salvador; e, com o arcabouço
fiscal, a conservar-se o atual cenário de comprometimento de equipamentos
públicos da democracia (como o SUS e as universidades), estarão dadas as
condições objetivas e subjetivas para uma reviravolta nos avanços antes
desenhados em nossa Constituição. A direita e a extrema direita poderão então
nos fazer barba, cabelo e bigode.
Conseguimos,
porém, algum respiro. Nós nos mostramos vivos e presentes, com uma força
política capaz de despertar energias antes esmaecidas. Mostramos, por um lado,
o caminho das ruas e das redes e, por outro, desfraldamos bandeiras de
horizonte mais largo do que um portfólio de entregas. Por um momento mágico,
especialmente com os estudantes, conseguimos unir a dura conquista do pão à
promessa de uma vida digna, o interesse da realização individual ao desenho de
uma sociedade deveras livre.
Entretanto,
o susto foi enorme, a fogueira continua a ameaçar. Nesse cenário, parece
importante pensarmos qual deva ser o papel da comunicação institucional em
nossas universidades, uma vez que elas têm sido o objeto de muitos ataques.
Nesse sentido, têm aparecido algumas falas e sugestões alarmantes.
Algumas
dessas sugestões até foram bem testadas em campanhas políticas, como a sugestão
de se usar uma linguagem mais clara, traduzindo a importância da universidade
em ganhos efetivos para cada setor ou mesmo para os indivíduos. O risco é tais
sugestões, se transformadas em campanha política, terminarem por fazer dos
meios emergenciais de sobrevivência uma finalidade em si e sacrificarem um
caminho virtuoso à necessidade de vitória e à eficácia dos próprios meios de
comunicação.
É óbvio
que as universidades precisam se comunicar melhor e, com isso, sobreviver.
Temos, afinal, que justificar nosso direito à existência, mas também precisamos
saber viver de forma plena, sem comprometer nossa natureza, como lugar que
somos de produção de ciência, cultura e arte. Ou seja, a comunicação precisa
ajudar a revelar a própria natureza da universidade e, com isso, poder
vindicá-la.
Há
muito tempo, porém, uma certa comunicação de resultados tem amesquinhado o
debate de princípios. Com isso, a comunicação de direita e a de esquerda acabam
adotando regras comuns e, por vezes, todas se parecem. Em suma, supõem em suas
estratégias que apenas ofertas e promessas muito diretas podem conquistar
eleitores – no vocabulário atual, temos o culto às entregas, de sorte que
eleitores passam a ser compreendidos como meros clientes.
Ora,
tal rebaixamento, talvez necessário na emergência, faz confundir e nivelar
todos os matizes políticos. Por exemplo, passa-se a discutir quem vai entregar
uma ponte e quando, soterrando-se o debate acerca da pertinência dessa
construção. Discutem-se, em geral, obras e não como serão feitas ou a quem
servirão. Desse modo, uma comunicação de resultados, mais que um meio, torna-se
uma finalidade.
Teríamos
todos, então, que falar uma linguagem acessível, pois não haveria sequer tempo
para qualificar o compartilhamento de vocabulários. Palavras difíceis até podem
servir, mas tão somente caso provoquem deferência e gerem adesões, e não por
enriquecerem um possível diálogo.
Tendo
em conta a defesa da universidade, o caminho agora seria destacar seus
resultados, a exemplo das vacinas produzidas, da contribuição direta à geração
de riquezas e da participação no desenvolvimento econômico. É claro que os
dados dos benefícios da universidade são muitos, verdadeiros e essenciais. Eles
são, decerto, bons trunfos retóricos, mas não devem valer isoladamente.
Nossa
finalidade não pode ser apenas o impacto da informação, e esse pode se tornar
danoso, caso se traduza em políticas restritivas – a exemplo de quando, com a
melhor das intenções, nos é sugerido o investimento prioritário em ciência,
tecnologia, engenharias e matemática (STEM) e, por conta disso, os editais de
fomento passam a favorecer apenas esses itens, criando um fosso interno na vida
universitária, contra o qual devemos reagir cobrando o acréscimo das artes e
humanidades (STEAM).
Com a
retórica das entregas transformada em política, as universidades deixam de ser
uma finalidade associada à sua condição de experimentos democráticos e de
equipamentos da democracia, e passam a se justificar por certos tipos de
produto, dentre os quais os diplomas.
Se
fosse esse o caminho, deveríamos louvar as instituições privadas (que entregam
mais diplomas e com mais velocidade, mas não da melhor forma) ou talvez
devêssemos preferir centros de pesquisa de interesse mais aplicado e restrito,
cujo compromisso se volta apenas a resultados e ao mercado e não à mais
completa formação universitária.
A
comunicação institucional não se reduz a propaganda. Não é um relato de feitos
e efemérides, mas uma defesa, a longo prazo, da natureza mesma da instituição.
Por isso mesmo, não deixa de ser um tanto estranha a preocupação exagerada com
a divulgação de resultados de posicionamentos em rankings, muitos deles
questionáveis.
Temos,
sim, que ter atenção aos rankings, à medida que importam para imagem da
instituição perante a sociedade, mas é inusitado imaginar que estamos em uma
corrida e não em uma rede colaborativa, ou que essas medidas externas sejam
suficientes ou necessárias para a justificação do nosso trabalho ou para o
destaque autêntico de pesquisadores.
Também,
muitos têm associado o papel central da comunicação acadêmica ao combate a fake
news e ao negacionismo. Certamente, saltam aos olhos razões para tanto e não
podemos descurar dessa tarefa. Ataques à universidade e à imagem de
pesquisadores são frequentes e, além disso, uma defesa da ciência passou a
integrar o repertório da política. Entretanto, combater o negacionismo é pouco.
A
ciência deve orientar políticas públicas e sua negação causa danos evidentes,
mas há outra tarefa ainda mais premente. Além de combater negacionismos, é
fundamental o combate mais amplo ao obscurantismo, traduzindo-se este, por
exemplo, em pautas conservadores em costumes e até, quase paradoxalmente, em
uma defesa irrestrita da técnica.
Não
podemos, afinal, confundir o elogio da ciência com sua mera apologia, sendo uma
lição que a história teima em repetir o óbvio fato de que um significativo
desenvolvimento científico não é incompatível com uma degradação cultural.
As
universidades precisam, pois, urgentemente, cuidar de sua comunicação
institucional. É preciso, sim, cuidar melhor tanto da divulgação científica
quanto da celebração de sua diversidade de composição e de propósitos, tornando
evidente à sociedade quão absurdo seria o mundo sem universidades. Temos a
obrigação de mostrar o que são as universidades e os múltiplos motivos que as
tornam necessárias como uma aposta generosa da sociedade no conhecimento e não
na ignorância.
Nesse
sentido, a comunicação precisa ser criativa, como aliás o são nossos
estudantes. Precisa ser arrojada, pois serve à justificação de um espaço que
pode ser de balbúrdia, porque nunca há de ser de barbárie. A comunicação também
deve ser sofisticada, como é rigoroso e sofisticado o modo próprio da
elaboração acadêmica, em todas as áreas do conhecimento.
Em
outras palavras, a comunicação não pode ser capturada por um imaginário
conservador, que antes preferiria nos apresentar segundo o modelo de escolas
cívico-militares. Dessa maneira, para além da valiosa apresentação dos
resultados científicos, que no Brasil só são pródigos nas universidades
públicas, nossa comunicação deve ajudar a recompor a imagem e a aura do espaço
acadêmico como lugar de diversidade e criação, de confrontação de gerações e
saberes.
Nossa
comunicação, portanto, não pode ser reduzida à retórica mais óbvia das
entregas. Reduzidos a esta, podemos até sobreviver, mas estaremos confirmando a
longo prazo nossa própria irrelevância enquanto universidades públicas, plenas
de produção científica e de diversidade cultural. Sem criatividade, em 2030,
podemos talvez adiar o massacre por mais quatro anos, mas estaremos dando,
então, um passo a mais em nossa destruição por já termos incorporado parte
significativa do ideário perverso do obscurantismo.
Fonte:
Por João Carlos Salles, em A Terra é Redonda

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