quarta-feira, 4 de novembro de 2026

A comunicação e a universidade

Sobrevivemos às urnas, ganhamos tempo e algum respiro, mas ainda estamos em alvoroço e bastante preocupados – em especial, nas universidades públicas. Em primeiro lugar, reagimos em meio a uma derrota, pois o primeiro turno nos legou um parlamento mais degradado e, com o segundo turno, o que conseguimos foi evitar o que seria o completo massacre a um projeto progressista. Que não se diminua a nossa alegria com a vitória no segundo turno, pois soubemos mostrar nosso melhor, do qual precisa fazer parte nossa capacidade de criticar os passos dados e de ler bem os sinais.

Não sem razões, alguns julgam que corremos o risco de apenas termos adiado uma derrota e, logo, que há motivos até para um desespero, em meio à euforia. Ganhamos tempo, insistem, advertindo que, daqui a quatro anos, a destruição pode ser completa. Não teremos Lula, nem algum líder salvador; e, com o arcabouço fiscal, a conservar-se o atual cenário de comprometimento de equipamentos públicos da democracia (como o SUS e as universidades), estarão dadas as condições objetivas e subjetivas para uma reviravolta nos avanços antes desenhados em nossa Constituição. A direita e a extrema direita poderão então nos fazer barba, cabelo e bigode.

Conseguimos, porém, algum respiro. Nós nos mostramos vivos e presentes, com uma força política capaz de despertar energias antes esmaecidas. Mostramos, por um lado, o caminho das ruas e das redes e, por outro, desfraldamos bandeiras de horizonte mais largo do que um portfólio de entregas. Por um momento mágico, especialmente com os estudantes, conseguimos unir a dura conquista do pão à promessa de uma vida digna, o interesse da realização individual ao desenho de uma sociedade deveras livre.

Entretanto, o susto foi enorme, a fogueira continua a ameaçar. Nesse cenário, parece importante pensarmos qual deva ser o papel da comunicação institucional em nossas universidades, uma vez que elas têm sido o objeto de muitos ataques. Nesse sentido, têm aparecido algumas falas e sugestões alarmantes.

Algumas dessas sugestões até foram bem testadas em campanhas políticas, como a sugestão de se usar uma linguagem mais clara, traduzindo a importância da universidade em ganhos efetivos para cada setor ou mesmo para os indivíduos. O risco é tais sugestões, se transformadas em campanha política, terminarem por fazer dos meios emergenciais de sobrevivência uma finalidade em si e sacrificarem um caminho virtuoso à necessidade de vitória e à eficácia dos próprios meios de comunicação.

É óbvio que as universidades precisam se comunicar melhor e, com isso, sobreviver. Temos, afinal, que justificar nosso direito à existência, mas também precisamos saber viver de forma plena, sem comprometer nossa natureza, como lugar que somos de produção de ciência, cultura e arte. Ou seja, a comunicação precisa ajudar a revelar a própria natureza da universidade e, com isso, poder vindicá-la.

Há muito tempo, porém, uma certa comunicação de resultados tem amesquinhado o debate de princípios. Com isso, a comunicação de direita e a de esquerda acabam adotando regras comuns e, por vezes, todas se parecem. Em suma, supõem em suas estratégias que apenas ofertas e promessas muito diretas podem conquistar eleitores – no vocabulário atual, temos o culto às entregas, de sorte que eleitores passam a ser compreendidos como meros clientes.

Ora, tal rebaixamento, talvez necessário na emergência, faz confundir e nivelar todos os matizes políticos. Por exemplo, passa-se a discutir quem vai entregar uma ponte e quando, soterrando-se o debate acerca da pertinência dessa construção. Discutem-se, em geral, obras e não como serão feitas ou a quem servirão. Desse modo, uma comunicação de resultados, mais que um meio, torna-se uma finalidade.

Teríamos todos, então, que falar uma linguagem acessível, pois não haveria sequer tempo para qualificar o compartilhamento de vocabulários. Palavras difíceis até podem servir, mas tão somente caso provoquem deferência e gerem adesões, e não por enriquecerem um possível diálogo.

Tendo em conta a defesa da universidade, o caminho agora seria destacar seus resultados, a exemplo das vacinas produzidas, da contribuição direta à geração de riquezas e da participação no desenvolvimento econômico. É claro que os dados dos benefícios da universidade são muitos, verdadeiros e essenciais. Eles são, decerto, bons trunfos retóricos, mas não devem valer isoladamente.

Nossa finalidade não pode ser apenas o impacto da informação, e esse pode se tornar danoso, caso se traduza em políticas restritivas – a exemplo de quando, com a melhor das intenções, nos é sugerido o investimento prioritário em ciência, tecnologia, engenharias e matemática (STEM) e, por conta disso, os editais de fomento passam a favorecer apenas esses itens, criando um fosso interno na vida universitária, contra o qual devemos reagir cobrando o acréscimo das artes e humanidades (STEAM).

Com a retórica das entregas transformada em política, as universidades deixam de ser uma finalidade associada à sua condição de experimentos democráticos e de equipamentos da democracia, e passam a se justificar por certos tipos de produto, dentre os quais os diplomas.

Se fosse esse o caminho, deveríamos louvar as instituições privadas (que entregam mais diplomas e com mais velocidade, mas não da melhor forma) ou talvez devêssemos preferir centros de pesquisa de interesse mais aplicado e restrito, cujo compromisso se volta apenas a resultados e ao mercado e não à mais completa formação universitária.

A comunicação institucional não se reduz a propaganda. Não é um relato de feitos e efemérides, mas uma defesa, a longo prazo, da natureza mesma da instituição. Por isso mesmo, não deixa de ser um tanto estranha a preocupação exagerada com a divulgação de resultados de posicionamentos em rankings, muitos deles questionáveis.

Temos, sim, que ter atenção aos rankings, à medida que importam para imagem da instituição perante a sociedade, mas é inusitado imaginar que estamos em uma corrida e não em uma rede colaborativa, ou que essas medidas externas sejam suficientes ou necessárias para a justificação do nosso trabalho ou para o destaque autêntico de pesquisadores.

Também, muitos têm associado o papel central da comunicação acadêmica ao combate a fake news e ao negacionismo. Certamente, saltam aos olhos razões para tanto e não podemos descurar dessa tarefa. Ataques à universidade e à imagem de pesquisadores são frequentes e, além disso, uma defesa da ciência passou a integrar o repertório da política. Entretanto, combater o negacionismo é pouco.

A ciência deve orientar políticas públicas e sua negação causa danos evidentes, mas há outra tarefa ainda mais premente. Além de combater negacionismos, é fundamental o combate mais amplo ao obscurantismo, traduzindo-se este, por exemplo, em pautas conservadores em costumes e até, quase paradoxalmente, em uma defesa irrestrita da técnica.

Não podemos, afinal, confundir o elogio da ciência com sua mera apologia, sendo uma lição que a história teima em repetir o óbvio fato de que um significativo desenvolvimento científico não é incompatível com uma degradação cultural.

As universidades precisam, pois, urgentemente, cuidar de sua comunicação institucional. É preciso, sim, cuidar melhor tanto da divulgação científica quanto da celebração de sua diversidade de composição e de propósitos, tornando evidente à sociedade quão absurdo seria o mundo sem universidades. Temos a obrigação de mostrar o que são as universidades e os múltiplos motivos que as tornam necessárias como uma aposta generosa da sociedade no conhecimento e não na ignorância.

Nesse sentido, a comunicação precisa ser criativa, como aliás o são nossos estudantes. Precisa ser arrojada, pois serve à justificação de um espaço que pode ser de balbúrdia, porque nunca há de ser de barbárie. A comunicação também deve ser sofisticada, como é rigoroso e sofisticado o modo próprio da elaboração acadêmica, em todas as áreas do conhecimento.

Em outras palavras, a comunicação não pode ser capturada por um imaginário conservador, que antes preferiria nos apresentar segundo o modelo de escolas cívico-militares. Dessa maneira, para além da valiosa apresentação dos resultados científicos, que no Brasil só são pródigos nas universidades públicas, nossa comunicação deve ajudar a recompor a imagem e a aura do espaço acadêmico como lugar de diversidade e criação, de confrontação de gerações e saberes.

Nossa comunicação, portanto, não pode ser reduzida à retórica mais óbvia das entregas. Reduzidos a esta, podemos até sobreviver, mas estaremos confirmando a longo prazo nossa própria irrelevância enquanto universidades públicas, plenas de produção científica e de diversidade cultural. Sem criatividade, em 2030, podemos talvez adiar o massacre por mais quatro anos, mas estaremos dando, então, um passo a mais em nossa destruição por já termos incorporado parte significativa do ideário perverso do obscurantismo.

 

Fonte: Por João Carlos Salles, em A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: