Celso
Pinto de Melo: A reindustrialização não pode ficar com as “sobras”
A
eleição decide quem governará. Não assegura os meios para realizar o programa
escolhido. Na preparação de 2027, o desafio é ampliar o investimento diante de
juros elevados, orçamento comprimido e um Congresso potencialmente refratário a
mudanças estruturais. Mas precisamos também definir aonde queremos chegar.
O
Brasil pode figurar entre as maiores economias e continuar distante dos países
desenvolvidos em produtividade, renda por habitante e condições de vida. O
tamanho da população e do mercado sustenta parte de seu peso econômico. Superar
o desenvolvimento incompleto exige transformar o que produzimos, como
produzimos e quem se beneficia dessa produção.
Convergência
econômica significa reduzir essa distância de uma maneira sustentada. Exige que
a produtividade avance mais rapidamente do que nas economias das quais
pretendemos nos aproximar e que seus ganhos alcancem salários, serviços
públicos e oportunidades. Uma recuperação passageira do crescimento não resolve
esse desafio.
Precisamos
construir uma trajetória em que cada avanço amplie as possibilidades do
seguinte. Esse deveria ser um dos compromissos centrais do governo que começa
em 2027.
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Cada investimento deve preparar o seguinte
A
formação bruta de capital fixo reúne máquinas, equipamentos, infraestrutura,
construções e outros ativos que sustentam a produção futura. Sua expansão é
necessária, mas sua composição importa. Podemos investir mais sem desenvolver
as competências que permitiriam realizar atividades mais sofisticadas.
A
literatura sobre complexidade econômica relaciona o desenvolvimento à
diversidade de capacidades produtivas que uma sociedade consegue combinar. Uma
fábrica depende de engenharia, materiais, software, logística e fornecedores
especializados. A interação dessas competências abre possibilidades para novos
produtos e atividades.
Aumentar
a complexidade exige identificar, em cada cadeia, os degraus tecnológicos que
podemos alcançar e as competências necessárias para avançar. Cada investimento
deveria ampliar a capacidade de projetar, adaptar, operar e desenvolver
soluções, formando pessoas e fornecedores que sustentem o passo seguinte. A
escolha das prioridades precisa combinar ambição, capacidades existentes e
oportunidades de aprendizagem.
Esse
princípio vale para saúde, energia, agropecuária, minerais críticos e
tecnologias digitais. Nos minerais, por exemplo, a trajetória pode passar da
extração à separação e ao refino, dos materiais aos componentes e, onde houver
condições, aos equipamentos e sistemas. As escolhas dependerão de cada cadeia.
Seu êxito deve ser medido também pelo conhecimento que permanece e pelas novas
atividades que se tornam possíveis.
A
continuidade é decisiva. Uma perspectiva estável de demanda permite às empresas
modernizar equipamentos, contratar engenheiros, formar trabalhadores e
desenvolver fornecedores. A experiência de produzir revela problemas que
mobilizam pesquisa e geram soluções. Forma-se um processo cumulativo em que
produção e conhecimento se alimentam.
Por
isso, elevar o investimento durante um ou dois anos é insuficiente. Expansões
interrompidas dispersam equipes, enfraquecem fornecedores e tornam arriscadas
decisões de longo prazo. Precisamos sustentar taxas mais altas de investimento
público e privado por muitos anos, combinando expansão, modernização e
manutenção, com avaliação e correção dos projetos.
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O custo de adiar o futuro
Quando
o investimento se torna a parcela que sobra depois das demais decisões, essa
continuidade se perde. Juros elevados encarecem projetos privados e pressionam
o endividamento público. Bresser-Pereira e Oreiro recolocam esse custo no
debate fiscal: a avaliação das contas públicas precisa alcançar também os
efeitos das decisões monetárias.
O custo
pode sobreviver à própria política que o provocou. Uma empresa que adia
repetidamente a modernização perde mercados; fornecedores podem desaparecer;
equipes se dispersam. Quando os juros finalmente caem, as condições anteriores
de produção talvez já não existam. Recuperar capacidade exige tempo.
Lara
Resende propõe uma faixa para a Selic entre a meta de inflação e essa meta
acrescida do crescimento real potencial. No exemplo apresentado, seria de 3% a
5,5% ao ano, após uma transição até 7,5%. Um Conselho Fiscal e Monetário
Nacional coordenaria metas e autorizaria exceções. A proposta merece exame,
incluindo seus efeitos sobre a inflação, o câmbio e o financiamento público.
Outro
instrumento é o controle dos rendimentos de títulos em determinados
vencimentos, utilizado pelos Estados Unidos entre 1942 e 1951. Esse controle da
curva de juros difere de uma faixa para a Selic. Ambos exigem planejamento e
avaliação do custo conjunto para Tesouro e Banco Central, além de regras de
revisão.
A
economia financeira efetivamente obtida poderia contribuir para estabilizar a
dívida e permitir uma expansão gradual do investimento. Sua conversão em novas
despesas dependeria das autorizações orçamentárias e da trajetória fiscal
escolhida. Também seria necessário rever os benefícios tributários sem
resultados e proteger a continuidade dos investimentos prioritários.
Uma
política de estabilidade precisa olhar igualmente para a capacidade de oferta.
Energia, logística e abastecimento mais eficientes podem reduzir gargalos e
vulnerabilidades. Esses efeitos levam tempo: a expansão do investimento aumenta
a demanda antes de ampliar a produção. A sequência e o ritmo das medidas fazem
parte do planejamento.
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Um pacto para viabilizar o investimento
A
preparação de 2027 deveria incluir um pacto federativo pelo investimento e pela
produtividade. A União ofereceria apoio à elaboração de projetos, acesso
articulado a financiamento de longo prazo e cofinanciamento, dentro das
possibilidades legais e orçamentárias. Os estados assumiriam compromissos de
investimento adicional, execução e manutenção.
A
adesão seria voluntária, aberta a governos de qualquer orientação partidária.
Estados com menor capacidade fiscal receberiam assistência técnica e
contrapartidas diferenciadas. O acesso não deveria depender principalmente de
renegociação de dívidas, pois estados pouco endividados também precisam
encontrar vantagens em participar.
O
mecanismo poderia começar por carteiras estaduais de poucas prioridades.
Governos estaduais mobilizariam recursos próprios; bancadas poderiam associar
emendas a etapas dos projetos; a União complementaria o esforço conforme
critérios públicos. Crédito para empresas, apoio à inovação e formação
profissional seriam articulados às necessidades de cada iniciativa.
Seria
preciso demonstrar investimento adicional, evitando apenas substituir despesas
que já ocorreriam. Estados menos preparados deveriam receber apoio antes da
seleção, para que a competição por projetos não reproduzisse continuamente as
desigualdades existentes.
Parte
das emendas já financia investimentos. A legislação das emendas de bancada
determina sua aplicação em projetos estruturantes e veda sua individualização
para atender às indicações de cada parlamentar. Uma carteira tecnicamente
preparada ajudaria a concretizar essa orientação, respeitando as destinações
legais e a autonomia dos participantes.
O
incentivo político seria produzir entregas maiores e mais consistentes.
Governadores precisam de desenvolvimento regional; parlamentares procuram
resultados reconhecíveis; empresas necessitam de infraestrutura e perspectivas
de demanda. Cada participante teria sua contribuição identificada e seus
compromissos publicados.
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Agro e indústria na mesma trajetória
Uma
cadeia regional de alimentos oferece um exemplo. Armazenagem e refrigeração
reduzem perdas; energia confiável e transporte adequado ampliam seu alcance.
Esse investimento cria demanda para equipamentos, sensores, embalagens e
serviços de manutenção.
A
ligação com universidades e institutos tecnológicos permitiria desenvolver
soluções adaptadas às condições locais. Fornecedores que aprendessem a produzir
sistemas de controle e automação poderiam atender outras atividades. O
investimento inicial abriria caminhos para maior complexidade produtiva.
Agropecuária,
indústria e serviços tecnológicos encontram aí interesses compartilhados.
Conflitos sobre preços, tarifas, água e impactos ambientais continuariam
exigindo negociação. A existência desses conflitos não elimina a possibilidade
de uma agenda conjunta de produtividade.
Em Novo
Tempo, defendi conectar as capacidades científicas, industriais e
institucionais em torno de projetos mobilizadores. Agora precisamos estabelecer
seus meios financeiros e compromissos federativos. As prioridades regionais
devem integrar uma direção nacional, criando capacidades adicionais e
complementaridades entre estados.
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Integrar o território, ampliar possibilidades
Essa
transformação teria também alcance geopolítico. A distribuição do poder entre
grandes países ajuda a compreender o cenário internacional, mas é preciso
observar as diferentes redes pelas quais esse poder se exerce: produção,
tecnologia, finanças, energia, logística e informação.
Podemos
pensar essa configuração como um mundo também multimodal. Um país ocupa
posições distintas em cada uma dessas redes. Para o Brasil, ampliar capacidades
produtivas e tecnológicas significa adquirir melhores condições de negociação,
diversificar parcerias e oferecer alternativas de cooperação.
As
rotas bioceânicas e a integração ferroviária dão expressão material a essa
perspectiva. Em diferentes estágios de implantação, essas conexões podem
ampliar o comércio sul-americano e diversificar o acesso a mercados. A
articulação projetada entre as ferrovias de Integração Centro-Oeste,
Oeste-Leste e Norte-Sul oferece oportunidades para conectar regiões produtoras,
centros industriais e portos.
Seu
alcance dependerá das atividades que ajudarem a desenvolver. Terminais,
acessos, serviços tecnológicos e fornecedores precisam integrar o planejamento.
Corredores que atravessam territórios devem contribuir para sua transformação
produtiva e para os benefícios compartilhados entre os países participantes.
A
energia oferece outra oportunidade. O potencial eólico e solar do Nordeste
precisa encontrar transmissão, armazenamento e demanda capazes de aproveitá-lo.
O bipolo Graça Aranha–Silvânia, em implantação entre Maranhão e Goiás, ampliará
a capacidade de transportar energia renovável pelo Sistema Interligado
Nacional. Políticas complementares poderiam favorecer também atividades
industriais nos próprios territórios produtores.
Essa
base permitiria ao Brasil contribuir para a autonomia da América do Sul e
aprofundar parcerias com países africanos e outros integrantes do Sul Global.
Soberania digital, transição energética, adaptação climática e cadeias de
minerais críticos oferecem possibilidades. Um papel estabilizador dependeria de
cooperação que ampliasse também as competências dos parceiros, com benefícios
recíprocos e respeito à sua autonomia.
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Coordenação com responsabilidade
Articular
instituições é um instrumento. O objetivo permanece sendo a convergência
econômica. Para que essa articulação produza resultados, parece importante
combinar capacidade de resolver impasses com responsabilidades claras, evitando
tanto a dispersão das decisões quanto sua concentração excessiva.
Uma
possibilidade seria atribuir à Casa Civil a articulação política dos
compromissos federais, aproveitando sua posição na Presidência. Planejamento e
Fazenda poderiam contribuir para compatibilizar projetos, orçamento,
financiamento e riscos. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e
Serviços e os ministérios setoriais ajudariam a conectar as prioridades
produtivas às políticas de suas áreas. Esse desenho precisaria ser discutido
com os estados e ajustado às características de cada iniciativa.
Também
haveria espaço para mobilizar instrumentos do BNDES na estruturação e no
financiamento dos investimentos, assim como da Finep e da Embrapii nos
componentes de inovação. Universidades, institutos federais, Embrapa, agências
reguladoras e instituições estaduais poderiam participar conforme as
competências necessárias. Nos projetos de integração sul-americana, o Itamaraty
contribuiria para a negociação com os países envolvidos. O ponto decisivo seria
estabelecer como essas capacidades se complementariam, sem criar estruturas
paralelas às que já funcionam.
Para
evitar que a responsabilidade se dilua entre tantos participantes, seria
recomendável pactuar uma instituição de referência e um responsável pela
articulação executiva de cada projeto. Recursos, cronogramas e compromissos
poderiam ser definidos conjuntamente, com procedimentos para encaminhar
dificuldades às instâncias capazes de resolvê-las. A coordenação ganharia
legitimidade se suas atribuições fossem conhecidas e aceitas pelos
participantes.
Um
acompanhamento público periódico também parece desejável. Um painel trimestral,
por exemplo, poderia dar visibilidade à execução física e financeira, aos
atrasos e às providências propostas. Sua utilidade estaria em permitir
correções durante o percurso e facilitar o controle social. Diante de
dificuldades, caberia distinguir obstáculos externos, limitações de capacidade
e descumprimentos dos compromissos, buscando respostas proporcionais a cada
situação.
Avaliações
independentes poderiam ajudar a verificar se houve investimento adicional,
desenvolvimento de fornecedores e aquisição de competências. Produtividade e
aprendizagem tecnológica exigiriam prazos mais longos do que a execução de uma
obra. Por isso, seria importante combinar indicadores de entrega com avaliações
dos efeitos duradouros. No conjunto, a referência continuaria sendo a
capacidade de sustentar o investimento, diversificar a produção e reduzir a
distância em relação às economias desenvolvidas.
Talvez
o caminho mais prudente fosse começar com poucas experiências, selecionadas por
critérios públicos e com diversidade regional. Isso permitiria testar formas de
cooperação, aprender com as dificuldades e aperfeiçoar os incentivos antes de
ampliar o pacto. Sua implantação poderia avançar junto com a construção de
condições macroeconômicas mais favoráveis, mantendo custos transparentes e
abertura à revisão.
A
eleição escolheu quem governará a partir de 2027. A preparação do governo
precisa criar condições para uma transformação que atravesse mandatos. O Brasil
já possui tamanho para figurar entre as grandes economias. Precisa transformar
esse peso em melhores condições de vida e em capacidade de cooperar para um
mundo mais estável.
Enquanto
o investimento for o que resta do orçamento, o futuro continuará sendo a
promessa que sobra dos discursos.
Fonte:
Outras Palavras

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