quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Raúl Zibechi: Brasil - rejeição popular à ultradireita

Dependendo do lugar de onde se observa a realidade, chega-se a conclusões completamente diferentes. Os grandes meios de comunicação e os intelectuais apontam que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva se deveu à sua genialidade e ao papel desempenhado pelas redes sociais, já que a esquerda eleitoral conseguiu arrastar até 11 milhões de “soldados” em apoio ao presidente.

Do Complexo da Maré, o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, com mais de 130 mil habitantes, na região norte da cidade, as coisas são diferentes de como os meios de comunicação as retratam, habitualmente instalados nas áreas onde vivem as classes média e alta. Os jovens e as mães que frequentam o Museu da Maré, espaço comunitário da memória do bairro, as conversas nas ruas íngremes, nos comércios e refeitórios comunitários, mostram-nos a outra face da realidade.

Nos dias que antecederam o segundo turno, predominava uma tensão evidente na favela, diferente daquela vivida pelos moradores quando a Polícia Militar entra atirando e matando; diferente também do que ocorre em outras ocasiões, quando há tensões com os comandos do narcotráfico. Na favela não se fala abertamente de política; todos se cuidam porque sabem que são vigiados e vulneráveis.

Naquela semana decisiva, explodiram pequenas e breves discussões entre vizinhos, a favor ou contra um dos candidatos. Em todas as atividades de que participei, os jovens e as mães se posicionaram claramente contra Bolsonaro, algo que as pessoas que vivem em bairros marginalizados não costumam fazer com frequência. Não eram lulistas, ou seja, não pertenciam ao Partido dos Trabalhadores (PT) nem defendiam diretamente Lula, mas rejeitavam ativamente o candidato da ultradireita.

Embora sob o governo Lula tenha aumentado a militarização das favelas, a rejeição a Bolsonaro surge da própria experiência, porque sua vitória teria encorajado os paramilitares a ampliar sua presença e agressividade contra jovens pobres, negros e favelados. Por sua vez, as mães temem por suas filhas, frequentemente vítimas de assédio e até de estupros pelos machos armados da ultradireita.

No domingo, as pessoas respiraram alegria, soltaram fogos de artifício e centenas foram às ruas, saindo das favelas em direção à zona costeira, onde se concentraram as comemorações. Houve entusiasmo coletivo, mas também alívio por terem impedido a chegada de um miliciano ao governo.

Pelo que convivi e compreendi durante aqueles dias, ocorreu uma reação ampla e coesa de caráter comunitário, não dirigida por Lula, nem pelo PT, nem pelas redes sociais, como pretendem os analistas dos grandes meios de comunicação e os intelectuais da esquerda eleitoral. Foi uma atitude, como teria dito Immanuel Wallerstein, "espontânea no sentido profundo do termo", que não é espontaneísmo, mas decisão coletiva nos espaços dominados pelos de baixo.

Aqueles que sustentam que os grandes líderes fazem a história e não os povos afirmam que Lula virou o jogo da eleição, como se as pessoas fossem argila nas mãos dos “grandes homens” da história. Inclusive, preferem atribuir às redes sociais um caráter mágico, como se fossem capazes, apenas com um like, de mudar a realidade. O chamado “exército” de Lula, criação do deputado André Janones, teria derrotado a ultradireita, que costumam chamar de fascismo. Alguma vez na história o fascismo foi vencido por meio das urnas?

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Ao contrário, acredito que aqueles que explicam tudo pelos grandes líderes e pelas redes desconfiam profundamente da capacidade dos povos de encontrar seus próprios caminhos. Quem levou os povos a resistir a cinco séculos de colonialismo e extermínio? As revoluções que conhecemos na história nunca foram projetadas pelos meios de comunicação. Os levantes populares do Chile, em 2019, da Colômbia, em 2021, do Brasil, em junho de 2013, e tantos outros foram amplificados pelas redes, não provocados por elas.

Essa simplificação grosseira da luta dos povos supõe um olhar de cima, colonial e patriarcal, que continuará sendo hegemônico durante muito tempo, porque as culturas mudam a passo de tartaruga. Não era que a história é feita pelos povos e que “a história de todas as sociedades até os nossos dias é a história da luta de classes”? É uma pena que pessoas que dizem ser de esquerda repitam análises carregadas de capitalismo.

As redes sociais não podem ser um atalho para compreender e explicar as resistências e as lutas dos povos. É impossível realizar mudanças políticas e sociais profundas por meio delas. Se fosse assim, Lula deveria emprestar seu “exército” de WhatsApp ao povo palestino. Soa como delírio, não é? Alguns de nós seguimos inclinados à luta corpo a corpo, cara a cara. O diálogo com as mães buscadoras, escutar e sentir suas dores, vale muito mais do que os milhões de “soldados” mobilizados por meio da internet.

•        O incrível mundo da extrema direita. Por Edelberto Behs

Nem com o maior esforço cognitivo dá para entender o incrível mundo que a extrema-direita, ou algumas figuras destacadas desse espectro político, constroem e o trazem a público. Puro delírio. E o pior, tem bolha por aí que acredita piamente, como se fosse um dogma religioso, o que essa turma inventa.

Pois não foi o Flavinho chegar – fugido – aos Estados Unidos e lançar uma carta, com brasão e assinatura, autoproclamando-se o verdadeiro presidente eleito do Brasil? Parece que sentiu o tranco de companheiros pelo exagero e passou de presidente eleito para líder da oposição.

Mas que líder, hein? Poucas horas depois do resultado, sorrateiramente o 01 atravessa a fronteira, com mala e mosqueteiro, certamente auxiliado por autoridades do país vizinho sob o comando de Millei, e abandona o barco. Do que ele tem tanto medo? O Júnior foi condenado? Ele é apenas investigado, sem qualquer sentença!

Para fugir de modo tão espetacular, deve ter o rabo preso em maracutaias dos quais é acusado. Ele aceitou o desafio do Lula de abrir seu sigilo bancário, exigiu condições, disse que ia abrir, e o que aconteceu? Nada. Aliás, nenhuma novidade vinda de um mentiroso patológico.

Ele segue para os Estados Unidos e o governo Trump dá-lhe acolhida. Se entrou com passaporte diplomático ou passaporte italiano, pouco importa. O Trump que manda sua polícia (ICE) caçar estrangeiros no país, invadindo até mesmo residências e templos, abre o país a um foragido. Trump já deportou 2.262 brasileiros/as.

Nesse extraordinário mundo da extrema-direita, o capitão mor Donald Trump diz que não vai se manifestar sobre a carta do Júnior, mas considera “estranho” o resultado do pleito brasileiro. Estranho o quê, cara pálida? Sem qualquer dado, prova, indicativo, ele coloca as nossas urnas sob suspeita! Aliás, bem próprio de quem delira.

O alcance da maravilhosa construção dessa turma apareceu nítida no debate da Globo, em que 62% das falas do Júnior foram mentirosas, segundo checagem apartidária. Como são mentirosos argumentos arrolados na tal carta de que ele foi surrupiado na eleição. O PL e outros políticos de direita reconheceram a vitória de Lula nas urnas. Júnior não.

Júnior aponta o ministro Zanin, do Supremo, como responsável por sua derrota por ter prorrogado a eleição por mais duas horas, período em que 35 mil pessoas depositaram seus votos nas urnas. Ora, na fantástica matemática do Júnior, não fosse a prorrogação Lula não teria vencido por uma diferença de 4 milhões de votos! É uma lógica matemática espetacular.

Ele se coloca como o grande líder da oposição, que vai falar com a nação a partir dos States. É um líder que abandona seus seguidores. Será ele o último dos Bolsonaros a pretender a cadeira presidencial? Não, ele já se lançou candidato para a eleição de 2030, atropelando tempo e definições. O PL ganharia com a exclusão desse mentiroso de suas fileiras.

Em conversa reservada, o grande defensor de Bolsonaro, o pastor Silvas Malafaia, criticou a iniciativa do O1. “Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige”... “um bando de amadores babacas”. Pena que parcela do eleitorado não enxerga isso!

•        A ignorância da extrema-direita sobre o Nazismo. Por Eduardo Guimarães

A Alemanha desmente que Hitler era socialista. O governo e a comunidade acadêmica da Alemanha desmentem categoricamente a tese de que Adolf Hitler e o nazismo eram de esquerda.

O nome Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) foi usado principalmente como uma estratégia de marketing político e eleitoral para atrair a classe trabalhadora alemã nas décadas de 1920 e 1930.

Em 1932, o Partido Nazista (NSDAP) cresceu muito e venceu eleições para o Reichstag (como em julho de 1932), mas Hitler perdeu a eleição presidencial para Hindenburg e ainda não havia assumido o governo naquele ano.

Apenas após negociações políticas com as elites conservadoras em janeiro de 1933 é que ele chegou ao cargo, transformando o país em uma ditadura nos anos seguintes.

A maior prova de tudo isso é que, logo após assumir o poder em janeiro de 1933, Hitler usou o Incêndio do Reichstag (o parlamento alemão), em fevereiro daquele ano, como pretexto para banir o Partido Comunista (KPD) e prender seus líderes e militantes.

O primeiro campo de concentração nazista, Dachau, foi aberto em março de 1933, inicialmente para prender prisioneiros políticos, a maioria comunistas e social-democratas.

O principal problema das direitas, sobretudo da extrema-direita que, no Brasil, se traduz pelo bolsonarismo, é a completa ausência de interesse pelo estudo da história e a negação da ciência.

Em resumo: a extrema-direita é uma grande ameaça devido às ideias preconceituosas, excludentes e violentas, mas, sobretudo, porque é composta por gente extremamente ignorante.

•        Como reconhecer o fascismo? Por Emerson Barros de Aguiar

A linguagem humana é uma construção histórica e social, permanentemente modificada pelas experiências, pelos conflitos e pelas necessidades humanas.

Embora a palavra fascismo tenha uma origem histórica determinada, associada ao movimento político de Benito Mussolini, na Itália, no início do século XX, as práticas autoritárias não passaram a existir depois que alguém inventou o substantivo. A erupção pliniana, assim chamada em referência aos relatos de Plínio, o Jovem, sobre a erupção do Vesúvio, não esperou a classificação científica para destruir Pompeia. O fenômeno precedeu o nome. O nome apenas nos permite reconhecê-lo, estudá-lo e estabelecer distinções.

Embora o termo ainda não existisse, eram fascistas em suas práticas e ideias: escravocratas; conquistadores coloniais que desumanizavam povos; supremacistas raciais; inquisidores perseguidores de divergentes; defensores do absolutismo; tiranos da Antiguidade; segregacionistas; nacionalistas expansionistas; governantes repressores; eugenistas; antidemocratas; propagandistas do ódio contra minorias; governantes autoritários que se proclamavam salvadores da pátria; defensores da desigualdade humana como destino natural; e apologistas e defensores da ditadura, da tortura e da violência política.

Machado de Assis compreendeu a dimensão tragicômica dessa lógica autoritária em O Alienista. Simão Bacamarte, investido da autoridade de classificar a loucura, transforma sua teoria em instrumento de poder, até que a própria coerência de seu sistema se volta contra ele. Quando alguém se atribui o direito exclusivo de definir a normalidade, a razão pode tornar-se serva da arbitrariedade. O problema não está apenas em quem é declarado louco, mas em quem detém o poder de declarar.

Não basta procurar camisas de determinada cor, saudações coreografadas ou personagens de bigode ridículo. É preciso observar comportamentos, discursos e práticas políticas: a intolerância ao contraditório, o culto fanático ao líder, a transformação dos adversários em inimigos que precisam ser silenciados, a exaltação da força, a hostilidade às instituições democráticas e a tentativa de submeter a verdade aos interesses do poder. O fascismo não se resume a uma estética; é uma concepção autoritária da vida e da sociedade.

A exclusão pode assumir diferentes justificativas: etnia, religião, origem social, orientação política ou qualquer característica que sirva à fabricação de um inimigo. Primeiro, desumaniza-se o outro e desqualifica-se o outro; depois, apresenta-se sua perseguição como defesa da sociedade. A violência deixa de parecer violência e passa a ser vendida como virtude.

Quando um fascista perde uma eleição, apresentar-se como vítima de uma conspiração; quando é contrariado, denuncia perseguição; quando suas próprias ações ameaçam a democracia, proclama-se seu maior defensor. A democracia é celebrada enquanto produz os resultados desejados e condenada quando permite que a vontade popular contrarie seus interesses. Todos podem escolher, desde que escolham segundo seu critério autoritário.

O que caracteriza o fascista não é o que ele diz ser, mas o que faz: se respeita o direito do outro pensar, opinar e se expressar livremente, mesmo quando discorda; ou se, ao ser contrariado, tenta desqualificar o outro dizendo que ele não tem o direito ou a autoridade para se expressar.

O fascismo se revela na prática, sobretudo na incapacidade de aceitar que o outro tenha os mesmos direitos que ele reivindica para si.

A linguagem desempenha papel decisivo nesse processo. Palavras são escolhidas, significados são distorcidos, mentiras são repetidas até adquirirem a aparência de verdades. A propaganda transforma preconceitos em convicções, agressões em atos de coragem e privilégios em direitos naturais. Ao mesmo tempo, o fascista procura controlar o vocabulário público, desqualificando críticas e reivindicando para si o monopólio da definição do que é legítimo, patriótico ou verdadeiro

O fascista não admite que o outro pense e se manifeste livremente, porque acredita que a autoridade para opinar pertence exclusivamente a ele e aos que pensam como ele. Para os demais, a liberdade de expressão depende de sua autorização.

Para o fascista, até o fascismo só pode ser definido com sua chancela. Quem discorda não compreende; quem lista não tem competência; quem opina é insolente.

Afinal, ele se julga proprietário exclusivo da linguagem, da inteligência e da verdade. O fascista exige o reconhecimento de firma alheia no cartório no próprio ego e alvará para o pensamento dos outros.

O fascismo não se define pelo que o fascista diz ser, mas pelo que ele faz: censura quem discorda, desqualifica quem opina, ataca quem questiona e se declara vítima quando contrariado. É só observar…

 

Fonte: La Jornada/IHU/Brasil 247

 

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