Nísia
Trindade será a ciência no Congresso; negacionismo de Nise Yamaguchi foi
barrado
O Rio
de Janeiro elegeu Nísia Trindade (PT) deputada federal, a bem da saúde, da
ciência, da pesquisa. A bem do SUS. A sanitarista da Fiocruz incorporou a
defesa das evidências científicas durante a pandemia contra o negacionismo
bolsonarista. Com a eleição de Lula em 2022, foi convidada para comandar o
Ministério da Saúde, tornando-se a primeira mulher a assumir a pasta na
História do Brasil. Sua gestão priorizou a reconstrução do Programa Nacional de
Imunizações, parcialmente destruído por Jair Bolsonaro, o fortalecimento da
atenção básica e a recuperação da estrutura do Sistema Único de Saúde. Foi
defenestrada por ser osso duro de roer na liberação de emendas parlamentares. É
uma grande brasileira.
Sim, a
composição do Congresso Nacional a partir de janeiro de 2027 é perturbadora. Lá
predominará, ao menos numericamente, a face reacionária da sociedade
brasileira. A eleição de Nísia Trindade constitui uma lufada de bom senso,
assim como a não eleição de Nise Yamaguchi (PL) por São Paulo. São antípodas.
O Pai
da Medicina ficaria estarrecido com o comportamento de Yamaguchi, que, em vez
de proferir o Juramento de Hipócrates, deveria jurar-se hipócrita. Bolsonarista
empedernida e negacionista de evidências sanitárias, atuou para dar um falso
lustro científico às mentiras criminosas do presidente da República durante a
pandemia. A CPI da Covid, cujo relatório foi engavetado pelo pusilânime
procurador-geral Augusto Aras, indiciou-a por epidemia com resultado de morte,
infrações contra medidas sanitárias preventivas e participação na disseminação
de tratamento precoce sem comprovação científica.
Nise
Yamaguchi foi uma das vozes mais estridentes a defender o uso de
hidroxicloroquina e outros medicamentos sem eficácia comprovada contra a
Covid-19, posição que sustentou mesmo após estudos internacionais descartarem o
benefício clínico dos mesmos. A médica, que posteriormente seria demitida do
Hospital Albert Einstein, também questionou a necessidade de vacinação em massa
e medidas rígidas de distanciamento social. Integrou o chamado “gabinete
paralelo” de aconselhamento do Ministério da Saúde, suprassumo da negação da
ciência.
Embora
tenha sido amplamente criticada por entidades de especialidades médicas, como
as Sociedades de Infectologia e Imunologia, e por universidades públicas por
disseminar desinformação, ela não teve o seu registro profissional cassado. O
Conselho Federal de Medicina manteve, na época, uma postura de defesa da
“autonomia do médico” para prescrever tratamentos.
Nise
Yamaguchi manteve o apoio de um nicho específico de profissionais de saúde e de
grupos políticos conservadores ligados ao bolsonarismo. Contudo, nos ambientes
de produção científica formal, congressos médicos de grande porte e
instituições acadêmicas de ponta, suas teses sobre a pandemia foram
completamente descartadas, e sua reputação como pesquisadora foi soterrada pela
verdade. Sua ausência no Parlamento deve ser comemorada.
A
ciência que ganha com a presença de Nísia Trindade e a ausência de Nise
Yamaguchi no Parlamento perde com a ausência de Ricardo Galvão (Rede), que não
se elegeu deputado federal. O cientista engrandeceria a Câmara, como o fez
quando cumpriu mandato, alçado da suplência, em 2025 e 2026.
Galvão
personificou a abnegação e a coragem da ciência brasileira ao confrontar o
então presidente Jair Bolsonaro, quando estava à frente do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais, o Inpe. Bolsonaro contestou publicamente os dados
oficiais do sistema Deter, que apontavam um crescimento alarmante no
desmatamento da Amazônia. Em resposta, Galvão defendeu vigorosamente o rigor
científico e a integridade da instituição, rebatendo as acusações de que os
números seriam “mentirosos” ou estariam a serviço de ONGs estrangeiras.
Por
manter postura firme e se recusar a adulterar ou omitir os dados, Galvão foi
exonerado do cargo por Bolsonaro. O episódio o transformou globalmente em um
símbolo da resistência científica contra o negacionismo climático. No mesmo
ano, a prestigiada revista científica britânica Nature o elegeu como uma das
dez pessoas mais importantes do mundo para a ciência. Faria uma boa dobradinha
com Nísia Trindade no Parlamento.
Fonte:
Por Paulo Henrique Arantes, em Brasil 247

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