quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Carlos A. P. Vasques: Da estetização da política ao desmonte da cultura

O conceito de extrema direita é multifacetado e adquire diferentes significados dependendo do contexto histórico. Nos anos 1920 e 1930, durante os governos de Mussolini e Hitler, os movimentos fascistas usaram os novos meios de comunicação, como o rádio e o cinema, para mobilizar as massas e transformar a política em um espetáculo.

Walter Benjamin chamou esse processo de estetização da política, onde a vida pública passa a ser regulada por imagens, performances e emoções, enquanto os conflitos sociais são reduzidos a uma encenação coletiva. Em oposição a isso, Benjamin propôs a necessidade de politizar a estética, ou seja, reconhecer a importância política da produção cultural e usá-la como ferramenta para a crítica e a emancipação.

No século XXI, a extrema-direita atua em um ambiente de comunicação diferente. As redes sociais, os algoritmos de recomendação e a rápida disseminação de informações mudaram a forma como a opinião pública é formada. Cas Mudde e Cristóbal Rovira Kaltwasser (2017) nos ajudam a entender o populismo como a criação de conflitos entre um povo idealizado e seus supostos inimigos. No Brasil, essa dinâmica foi conectada à chamada guerra cultural, usando estratégias de linguagem, disputas de poder e decisões políticas. A retórica do ódio, estudada por João Cezar de Castro Rocha (2021), é uma das armas usadas nessa batalha.

Neste artigo, vou analisar como a retórica do ódio foi usada pela extrema direita brasileira atual, focando nos seus impactos na cultura e nas suas conexões com as tradições autoritárias brasileiras. Vou comparar o fascismo histórico com suas formas atuais; vou falar sobre como os oponentes são desacreditados; vou discutir a relação entre a Doutrina de Segurança Nacional, o documento ORVIL e a guerra cultural; e vou pensar sobre os efeitos das políticas culturais do governo de Jair Bolsonaro. Não estou dizendo que as coisas se repetem exatamente da mesma maneira, mas estou mostrando como as ideias autoritárias são usadas novamente e atualizadas para novos tempos.

Para comparar a extrema direita dos anos 1920-1930 com a de hoje, é importante não esquecer as diferenças históricas. O fascismo clássico criou movimentos de massas, usou símbolos nacionais e usou os meios de comunicação disponíveis para mostrar a união do povo e a força do líder. Hoje, a comunicação política também acontece através das mídias sociais, onde memes, vídeos curtos e mensagens cheias de emoção são muito compartilhados. A presença física se mistura com a mobilização através das redes e dos algoritmos.

Walter Benjamin (1987) mostrou que a estetização da política é uma forma de fazer com que as pessoas participem de um espetáculo, sem mudar as coisas importantes do poder. No mundo digital, isso acontece através de imagens, xingamentos pessoais e conteúdos que se espalham rapidamente e transformam o ressentimento em participação. As plataformas de mídias sociais gostam de mensagens simples e emocionantes que conseguem fazer as pessoas interagirem e serem vistas.

No livro O fascismo eterno, Umberto Eco (2002) fala sobre as coisas que acontecem sempre: o amor pela tradição, o medo de pensar por si mesmo, o nacionalismo excessivo e a invenção de inimigos internos. No bolsonarismo, a ideia de que os comunistas, os professores, os jornalistas e os artistas são uma ameaça ao país usa essas mesmas ideias. Roger Griffin (1991) acha que o fascismo vem da ideia de palingenesia ultranacionalista, que é o sonho de que o país renasça depois de ter caído em desgraça. No Brasil, palavras como “marxismo cultural” foram usadas para contar essa história de renascimento.

Existem exemplos parecidos em outros países. Viktor Orbán (na Hungria), Donald Trump (nos Estados Unidos) e Marine Le Pen (na França) juntam o nacionalismo, o ódio contra os outros e o desacreditamento de instituições que os criticam. Esses exemplos são diferentes entre si, mas eles mostram que existem coisas que são comuns. O bolsonarismo faz parte desse grupo, mas tem coisas diferentes por causa da presença de militares e da memória da ditadura. Quando as pessoas falam sobre “fascismo algorítmico”, elas estão dizendo que as ideias do fascismo antigo são usadas novamente com a ajuda de tecnologias e formas de comunicação diferentes.

De acordo com João Cezar de Castro Rocha (2021), a retórica do ódio funciona como uma arma política que tenta fazer com que o oponente perca a sua credibilidade, transformando o problema em uma briga sobre o que é certo e errado. Alguns dos conceitos que ele usa são a desqualificação nulificadora e a hipérbole descaracterizadora, que servem para não debater as ideias e transformar o outro em alguém que não merece ser ouvido.

A desqualificação nulificadora é uma forma de atacar o outro para que as pessoas não acreditem no que ele diz antes mesmo de ele falar. Judith Butler (2015), que fala sobre as formas como nós vemos o mundo e como isso faz com que algumas pessoas sejam reconhecidas e outras sejam vistas como frágeis, nos dá uma outra forma de pensar sobre essa exclusão através de símbolos. No Brasil, os ataques contra as pessoas da cultura são um exemplo de como as pessoas tentam tirar a credibilidade do outro e transformar o outro em um monstro moral.

A hipérbole descaracterizadora é uma forma de aumentar ou mudar as coisas até que elas pareçam uma ameaça para a nossa própria existência. As coisas que as pessoas disseram sobre a Lei Paulo Gustavo – que as pessoas achavam que tinham sido ditas pelo Mário Frias – fizeram com que o apoio à cultura parecesse uma ameaça para o país, criando um pânico moral.

Chantal Mouffe (2015) acha que o conflito é parte da política, mas ela diz que a democracia precisa que nós vejamos o oponente como um adversário justo, e não como um inimigo que precisa ser morto. A retórica do ódio torna o conflito ainda pior, tentando fazer com que o outro seja expulso da vida pública.

Essas coisas criam um ambiente onde as pessoas são linchadas através de símbolos. Pierre Bourdieu (2014) diz que o Estado e os políticos brigam para ver quem vai dizer quais são as coisas que são certas e erradas na sociedade; na cultura, as pessoas tentam dizer que os artistas e os pensadores são inimigos do país. Essa forma de agir é encontrada em muitos países – como nos EUA com o Steve Bannon e na Hungria com o Viktor Orbán – e mostra como as pessoas não gostam da diferença e querem que o país seja igual para todos, o que no Brasil está ligado à memória da segurança nacional.

A guerra cultural no Brasil tem a ver com a forma de pensar autoritária da ditadura militar, especialmente com a Doutrina de Segurança Nacional (DSN). A ideia de que existem “inimigos internos” foi usada para dizer que os oponentes eram ameaças, o que justificou a espionagem e a perseguição. O livro do Carlos Fico (2004) sobre 1964 nos ajuda a entender as razões que as pessoas deram para o golpe, mas isso não significa que as coisas aconteceram da mesma maneira que estão acontecendo agora.

O ORVIL (1988), que foi feito pelo CIE, é uma importante fonte de informação para estudar a história que os militares contam sobre a esquerda e deve ser lido com atenção como uma forma de ver o mundo dos próprios autores, e não como uma história verdadeira (BRASIL, 1988).

No bolsonarismo, a cultura foi vista como se ela estivesse nas mãos da esquerda e como se ela fosse contra os valores do país, dizendo que os professores e os artistas eram inimigos do país. É melhor falar sobre como as ideias autoritárias foram mantidas e usadas de uma nova forma do que dizer que as coisas continuaram acontecendo da mesma maneira desde a DSN, o ORVIL e o bolsonarismo. Os exemplos da Hungria e da Polônia mostram que existem problemas parecidos com as instituições de cultura, mas no Brasil isso é feito com a ajuda de uma tradição militar autoritária.

A guerra cultural foi usada para tomar decisões na administração e nas instituições do governo de Jair Bolsonaro. É importante separar as coisas que aconteceram na administração – como as mudanças no dinheiro e na estrutura – das coisas que as pessoas pensam sobre essas coisas. O fim do Ministério da Cultura e a sua entrada no Ministério do Turismo mudaram o lugar onde a cultura ficava na administração. O debate sobre como o dinheiro seria usado e o trabalho da Ancine causaram muitos problemas por causa das ideias políticas, sendo necessário mostrar casos de coisas que foram proibidas, que demoraram para acontecer ou que causaram problemas para provar que houve censura.

Os problemas com o espetáculo Roda Bixa e as coisas que o Mário Frias disse mostram como houve problemas com as instituições, assim como as acusações de que os pensadores foram perseguidos precisam ser provadas com fatos. Outra coisa importante foi a briga para ver como as pessoas iam se lembrar da ditadura, com as pessoas do governo falando bem do regime militar.

Carlos Fico (2017) diz que essa briga é uma briga entre as pessoas que escrevem sobre história. Juntas, o fim do Ministério da Cultura, os problemas com o dinheiro e a briga sobre a memória da ditadura mostram como o governo tentou fazer com que a cultura não fosse tão importante, unindo as coisas que as pessoas do governo disseram e fizeram.

O estudo da guerra cultural no Brasil nos mostra que a retórica do ódio é uma arma política para fazer com que o outro perca a credibilidade e para transformar a diferença em uma ameaça. A estetização da política (Benjamin, 1987) e as mídias sociais mudaram a forma como as pessoas usam os sentimentos e o ressentimento. A guerra cultural usa as ideias autoritárias da ditadura, que são usadas de uma nova forma hoje. O livro do Pierre Bourdieu (2014) e do Antônio Gramsci (1999–2002) nos mostram que a briga pela cultura é uma briga pelo poder e pelo direito de dizer quais são as coisas que são certas e erradas na sociedade.

Enquanto a Judith Butler (2015) nos mostra que as pessoas não são vistas da mesma maneira e não são vistas como frágeis da mesma maneira, a Chantal Mouffe (2015) nos diz que a democracia precisa que nós vejamos o oponente como um adversário justo. Para lutar contra a guerra cultural, nós precisamos criar novamente as políticas que incluem todos, defender a história que é aberta para todos e politizar a estética como um lugar para criticar as coisas. Diante do perigo de que a extrema direita volte, nós precisamos que as pessoas participem, que as pessoas fiquem de olho e que as pessoas defendam sempre os direitos mais importantes e a liberdade.

A história pode se repetir como uma tragédia quando as pessoas acham que o ódio é normal e quando as pessoas confundem o fim da diferença com a salvação do país. Quando as pessoas acham que o autoritarismo é uma escolha, o perigo não está mais no futuro – ele já começou a entrar no presente.

•        O jornalismo e as eleições. Por Eugênio Bucci

E de repente, não menos que de repente, a coisa não coube mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Parecia haver um problema com os eventos da realidade, mas não era isso. O problema não estava nas coisas, nos fatos e nos objetos, mas modo como o jornalismo os nomeava. Recapitulemos.

Enquanto a campanha eleitoral pegava fogo, gente de direita começou a dizer que não estava à vontade na direita. Personagens expressivos do chamado campo conservador, ou seja, personagens notoriamente da direita, passaram a atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que vinha sendo qualificada nos órgãos de imprensa, com poucas exceções, como a chapa de direita.

O general Santos Cruz, a ex-deputada Joice Hasselmann e até João Amoêdo, entre várias outras pessoas, todas de direita, passaram a repudiar a candidatura que representaria a direita no segundo turno. Mas como assim, perguntava o cidadão? Não eram todos igualmente de direita? O público se sentia tragado por uma dissonância cognitiva. Se Flávio Bolsonaro era o representante da direita, como diziam os jornais, o rádio e a TV, por que tanta gente da direita o rejeitava?

A explicação teria sido muito simples, embora até hoje não tenha sido assimilada por uma parcela expressiva das redações. Os personagens de direita não se reconheciam na candidatura da direita não porque tivessem desistido de ser o que eram, ou seja, de direita, mas porque não queriam mais abaixar a cabeça para a extrema direita antidemocrática, que o discurso jornalístico insistia em designar como de “direita”, sem outros qualificativos.

Os personagens lembrados aqui há dois parágrafos, exatamente por se reconhecerem de direita, não se dispunham mais a bater continência para uma coagulação que namorava o golpismo, chafurdava no entreguismo, estreitava laços de camaradagem com gangues armadas e, de resto, sabotava a Justiça (parece que um dos seus se esmerou em escafeder-se, em fugir das autoridades).

Pois bem. Ao dar a essa aberração o rótulo singelo de “direita”, pura e simplesmente, muitas das narrativas da imprensa atrapalharam o discernimento do público. O objeto não coube no conceito e, como resultado, o que seria fácil de explicar assumiu o aspecto de mistério insondável.

O jornalismo deveria ter prestado mais atenção. Nas páginas e nas telas noticiosas, nós não devemos chamar muriçoca de varejeira, arcebispo de cardeal e promotor de magistrado. Não podemos escrever que juiz dá parecer. Pelas mesmas razões, não há como chamar a direita e a extrema direita antidemocrática pelo mesmo nome.

Os dois fenômenos são distintos, jamais poderiam ter se embaralhado no discurso jornalístico. A direita valoriza o respeito às instituições republicanas, enquanto a extrema direita antidemocrática não hesita em conspirar contra a alternância no poder.

A primeira preza a urbanidade e a convivência pacífica; a segunda hostiliza a dissidência e autoriza a violência. Uma coisa não é igual à outra coisa, mas, infelizmente, uma parte considerável do discurso jornalístico as igualou.

A chapa de Flávio Bolsonaro não era, nunca foi e jamais poderia ter sido tratada como se fosse uma composição de direita, pois nunca se pautou pelos princípios liberais ou pela sobriedade conservadora. Longe disso, tinha origem na celebração do golpe de 1964, na idolatria de torturadores, no culto das garruchas (de preferência desviadas das Forças Armadas) e no obscurantismo.

Por definição, era uma anormalidade política – anormalidade que, ao ser chamada candidamente de “direita”, saiu por aí desfilando com uma roupagem semântica de normalidade.

Foi então que, de repente, não menos que de repente, a retórica da normalidade foi varrida pelos ventos factuais. A coisa não cabia mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Com a terminologia que dava ao aberrante um aspecto benigno de eventualidade cotidiana, não havia como demonstrar o que levou tanta gente identificada com a direita a recusar seu voto para Flávio Bolsonaro.

Foi um tropeço, um descuido, uma imprecisão. Se as redações, desde o início, tivessem chamado a extrema direita antidemocrática pelo seu nome devido, seu nome objetivo, a explicação teria sido mais fácil, ou mesmo óbvia.

A designação irrefletida – e incorreta – trouxe um segundo desvio: a tentativa de tratar como simétricas as duas candidaturas que disputavam o segundo turno. Entre ambas, contudo, não havia nenhuma homologia, nenhuma paridade.

Uma, a de Lula, apesar de todos os defeitos, tinha compromisso provado e já testado com as instituições democráticas e com o respeito à Justiça. A outra desdenhava dos ordenamentos do Estado de Direito. As duas eram de naturezas distintas. Por sorte, ou por milagre, o eleitorado, intuitivo, enxergou a distinção de natureza. Uma boa parte do jornalismo, não viu até agora.

Em nota pública, o Instituto Vladimir Herzog, do qual sou conselheiro, alertou sobre tema, sem maiores repercussões. Por dever de ofício, volto ao ponto, sem maiores esperanças.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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