Os
limites da frente ampla
Para
passarmos da frente ampla a uma unidade política solidária, chamemos de
esquerda ou de progressista, é preciso uma pedagogia política. Essa pedagogia
política foi formulada e organizada na campanha de segundo turno. Nas redes,
por meio do já célebre exército do Lula. Nas ruas, por estudantes e por quem
mais pudesse ocupar esse espaço.
No
cotidiano, pelas conversas que amigos, vizinhos e desconhecidos se dedicaram a
fazer, ouvindo e argumentando. Na nova mídia, seja com materiais impecáveis
como fez o Revelando, seja com reportagens assertivas de meios de comunicação
não-industriais. O sentido profundo da ideia de formação. Uma reorganização da
formação social e política do Brasil. Entendo que essa formação é organizada
por um espírito pedagógico canalizado como entusiasmo por pessoas diversas.
Por
outro lado, o sistema político – em particular, o poder legislativo – tende a
atravessar esse tempo de reorganização política social sem grandes
sobressaltos. Emendas parlamentares, negociações de ocasião, fortalecimento de
forças conservadoras, legislações ambientalmente permissivas, políticas
econômicas neoliberais, fragilização progressiva da educação e da saúde
públicas, pouca proteção aos trabalhadores.
A
cartilha só vai mudar se o efeito da formação política social que começou nessa
campanha eleitoral for a evidência da disputa política que situa a direita
parlamentar do lado de lá. Quero argumentar que essa disputa política precisa
ser formulada como fronteira entre nós e eles porque a frente ampla na
sociedade não tem a mesma natureza da frente ampla no sistema político.
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Dimensões da frente ampla – sociedade e sistema político
André
Singer tem apresentado a ideia de que é preciso apostar na frente ampla, a mais
ampla possível, sem deixar de ser esquerda. Acredito que há uma intenção
honesta e importante da proposta. No limite, algo como aliar o possível e o
desejável. Porém, será mesmo viável conciliar essas duas posições políticas?
Entendo que não, quando consideramos cada uma como posição em disputa, como
perspectivas distintas de democracia, como projetos opostos de país. Entendo
que sim, quando pensamos estritamente na conjuntura urgente de uma eleição.
A
pedagogia política deste outubro de 2026 mostra como uma política aparentemente
racional alcança um estado de coisas catastrófico. Isto, porque o
neoliberalismo é a antessala do neofascismo. O fascismo esteve posto como
perigo e como projeto, não como movimento social. As pessoas que não permitiram
serem chamadas de fascistas por apoiarem o candidato que perdeu e fugiu
contribuíram essencialmente para essa pedagogia política coletiva.
Acredito
que o desafio agora é aprofundar esse mesmo movimento, mostrando que a política
de direita conduz ao perigo fascista porque degrada as condições de vida e faz
da revolta destrutiva uma aparente saída.
Austeridade,
arcabouço fiscal, desvinculação da saúde e da educação, perda de direitos, tudo
isso gera desesperança e abre caminho para a extrema direita. É urgente
explicitar as fronteiras trazendo aos poucos quem defende a vida para o lado de
cá. Afinal, sim, há um “nós contra eles”. A fronteira que situa projetos
políticos em disputa é fluida e plástica na sociedade civil. Isso significa que
há espaço para a disputa política democrática.
Acontece
que a fronteira é – e deve ser – menos plástica quando pensamos na classe
política, nos representantes que ocupam cargos no legislativo. Há espaço aqui
para uma pedagogia política? Devemos continuar a legitimar a desfaçatez com que
a direita muda de lado conforme a música? Penso que não, já que as políticas de
direita levam diretamente à existência e à força da extrema direita.
Aqui
está o limite da frente ampla. Uma coisa é a frente ampla social, permeável à
pedagogia política, outra coisa é a frente ampla no sistema político,
dissimulada e responsável pela ascensão da extrema direita.
A ideia
de que aprendemos a não tratar a direita como inimigo, que não pode haver nós
versus eles, é vaga e perigosa. Aprendemos efetivamente que as pessoas de
direita nem sempre estão convencidas de que os caminhos da classe política de
direita são os melhores. Por isso que ouvir e conversar funcionou. As razões
para se identificarem assim apesar das propostas concretas de seus
representantes são inúmeras, do preconceito antipetista à sensação de
pertencimento em grupos autodeclarados à direita, dentre outros.
O que o
convencimento da campanha de segundo turno mostrou não é que não há nós versus
eles, mas que o “eles” é também o oposto do que essas pessoas esperam. A
direita aliada ao bolsonarismo representa uma ideia de mundo que boa parte dos
eleitores que se identificam como “de direita” tem como negativa. Pessoas se
deslocaram no “nós contra eles” a partir de uma compreensão mais complexa do
que define a fronteira. Não foi a fronteira que mudou.
Que a
lição deste outubro de 2026 tenha sido a de que não existem lados, que basta
conversar, que isto é possível, é uma ilusão no que diz respeito à classe
política. Pensar assim seria a vitória da ideologia centrista. A unidade
política é plástica na disputa social por posição diante de projetos
antagônicos. Porém, a frente ampla parlamentar não é composta pela adesão por
convencimento, mas sobretudo por conjuntura eleitoral.
Parlamentares
não foram convencidos por meio de argumentos a enfrentar esta ou aquela pauta,
compondo o que chamamos frente ampla. Políticos de direita se reposicionaram na
dinâmica eleitoral sem aderir a algo que até então lhe escapava (suspeito que
Otoni de Paula seja mesmo uma exceção aqui), o que é muito diferente da posição
que eleitores de direita se permitiram assumir.
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Na prática, onde se localiza a classe política de direita?
Já há
quem defenda recompor com Alcolumbre e Motta. Seria a maneira viável de evitar
a extrema-direita e, segundo dizem, reconhecer o papel que tiveram na reeleição
de Lula. É verdade que o risco de que componham com a extrema-direita está
posto, já que a característica da direita apelidada de centrão é a volatilidade
de ocasião.
Conseguiram
até vender a votação eleitoralmente conveniente de pautas de apelo social como
apoio ou concessão que valeriam um gesto do novo governo. Esqueçam o “Hugo nem
se importa”, esqueçam o congresso inimigo do povo, esqueçam a recusa de
nomeação do indicado ao STF, esqueçam. Supostamente, é preciso conciliar
novamente para evitar o mal maior. Fiquemos com o mal costumeiro.
Acontece
que é exatamente este entrave estruturado por meio do sistema político que abre
espaço para o primeiro. Sem coragem ancorada na mobilização social, a tendência
é o ciclo se repetir – e nada permite criar a expectativa de um novo milagre
político no futuro, como este que encerra o último ciclo. Que a questão seja
delicada não há a menor dúvida. Mas, é agora ou nunca.
O apoio
social mais amplo vem da percepção do que está realmente em jogo. É nesse
espírito que se pode apostar em uma pedagogia política capaz de explicitar o
vínculo profundo entre políticas de direita e a constituição da
extrema-direita. Não se trata de um vínculo abstrato, mas da consequência
prática de políticas e leis operadas pelo assim chamado “centrão”.
O que
está acontecendo neste momento com comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul
deixa evidente que há sim um nós e um eles. Não existe conversa. Vidas estão
literalmente em jogo. O sentido político dessa oposição não pode ser soterrado
em nome de uma ideia vaga e ampla de conversa. Muitos dirão que essa violência
é da parte dos bolsonaristas, dos radicais. Estamos de acordo nisso. E nas
eleições opôs-se a esses grupos violentos a frente ampla social. Para garantir
estes votos e apoio, parlamentares de direita se apressaram em compor com o
governo depois de anos resistindo.
Acontece
que esta frente ampla parlamentar é composta por aqueles que permitem que os
bolsonaristas e radicais existam e que sejam legitimados no campo político e
social. Aqui é que está o nó do qual depende o avanço estrutural que seremos ou
não capazes de operar. Pois aqui se coloca uma outra relação de oposição. Não
só aos que estão evidentemente do outro lado da trincheira, como grileiros,
milicianos, empresários capazes de demitir em função do voto, etc.
É
preciso notar que deve haver oposição também aos que permitem que eles existam
e tenham força. Neste sentido, a direita de Davi Alcolumbre e Hugo Motta não
cabe no nosso “nós”, na unidade política escolhida por milhões de eleitores.
Quando
o congresso aprova o pacote do agro, passando a boiada em uma semana de maio de
2026, quando derruba as regras para licenciamento ambiental, o que está em jogo
é o fortalecimento de grupos que sustentam o bolsonarismo e que hoje atacam
indígenas. Há um fortalecimento por concordância com suas pautas, ainda que
mostrem surpresa com os efeitos mais radicais.
É o
modo de ação política desses bolsonaristas ditos radicais que é permitido
quando a “apenas direita” legisla nesse sentido. Esta se torna assim,
concretamente, parte do projeto de violência. Não podemos esquecer que Davi
Alcolumbre faz parte disso. Mais uma vez, avança o projeto de país da FPA,
Frente Parlamentar da Agropecuária, no que ela tem de mais nefasto.
A gente
não pode esquecer que “Hugo nem se importa”. A questão da violência contra
indígenas no imediato pós-eleição, as queimadas como espécie de vingança, a
campanha de demissão por parte de empresários, tudo isso reflete uma unidade
política que não é estranha aos presidentes das duas casas legislativas.
No caso
das demissões, pode-se dizer também que elas são prática de grupos
bolsonaristas e radicais. Porém, essa prática é fruto das ações de
flexibilização dos direitos trabalhistas que Davi Alcolumbre e Hugo Motta
asseguram no congresso nacional.
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É preciso escolher um lado
No caso
do sistema político, a frente ampla inevitável tem o tempo de uma coordenação
eleitoral em que o outro é o perigo evidente de fascistização da vida social.
Durante o governo, não podemos conceber que se mantenha tamanha amplitude, uma
vez que já se provou o preço dessa expectativa de governabilidade. As emendas
parlamentares já falseiam a tese de conciliação para governar, mas a questão é
ainda mais profunda. É preciso aprender que uma coisa leva à outra. A
conciliação nos mesmos termos nos levará ao mesmo problema em quatro anos.
É agora
ou nunca. Deixamos passar a força política social de sustentação do governo em
2010 como motor de disputa do legislativo. Não podemos cometer o mesmo erro. Se
houver um acordão para manter Davi Alcolumbre e Hugo Motta onde estão, nada vai
mudar.
Dirão
alguns que eles foram essenciais para aprovar pautas populares do governo como
a reforma tributária e o fim da escala 6 x 1. A primeira tinha apelo eleitoral
evidente e foi possível articular a defesa do andar de cima, esvaziando em
grande medida o sentido político de combate à desigualdade que a proposta
trazia. No caso da escala 6 x 1, esperou-se até o último momento para garantir
o bônus eleitoral de uma medida que se arrastou por mais de um ano no mesmo
congresso.
Não é
preciso premiar um cálculo eleitoral conveniente. O jogo de forças do período
eleitoral não é o mesmo que durante o mandato, sabemos todos. E as ações
“apenas” de direita levarão à mesma armadilha que tem se repetido há 20 anos.
Mesmo nos momentos de maior força política dos governos Lula, o crescimento da
representação legislativa da esquerda foi mínimo ou nulo.
Em
parte por causa de táticas discutíveis, em parte porque esse era o acordo, a
conciliação. E foi exatamente ela que, a cada ciclo, pôde colocar em risco os
governos progressistas, quando não foram atores fundamentais para sua
derrocada, via golpe ou via apoio explícito à extrema direita.
Portanto,
é falso que tenhamos que reconhecer e reconciliar, é falso que não haja um “nós
contra eles”. A violência pós-segundo turno prova isso. São eles, os
parlamentares da direita, que têm que decidir onde querem ficar. Parte dos
eleitores fizeram essa opção. Na classe política, ninguém fez, apostando nessa
plasticidade que o discurso conciliador legitima e, a partir daí, permanecendo
escondidos sob o codinome “centrão”.
Para os
políticos eleitos, os assim chamados representantes, é preciso decidir onde se
quer estar. Conosco ou com eles. Alcolumbre e Motta já se mostraram
suficientemente distantes do que nós mobilizamos como projeto de país, já se
mostraram inimigos do povo. Esta é uma opção política que não deve ser
justificada por opção eleitoral de ocasião. Precisaria ser uma opção política.
E temos
que explicitar essa disputa ao invés de diluir as fronteiras da política
nacional em nome de uma unidade tão falsa quanto perigosa. Se Lula pretende
mudar a maneira de governar o país, a eleição para a presidência de cada uma
das casas legislativas não pode ser mais do mesmo.
Eles
têm maioria parlamentar, nós temos maioria social; enquanto essas forças não
forem contrapostas, pouco avançaremos em direção a mudanças estruturais
urgentes.
Fonte:
Por Monica Loyola Stival, em A Terra é Redonda

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