quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Os limites da frente ampla

Para passarmos da frente ampla a uma unidade política solidária, chamemos de esquerda ou de progressista, é preciso uma pedagogia política. Essa pedagogia política foi formulada e organizada na campanha de segundo turno. Nas redes, por meio do já célebre exército do Lula. Nas ruas, por estudantes e por quem mais pudesse ocupar esse espaço.

No cotidiano, pelas conversas que amigos, vizinhos e desconhecidos se dedicaram a fazer, ouvindo e argumentando. Na nova mídia, seja com materiais impecáveis como fez o Revelando, seja com reportagens assertivas de meios de comunicação não-industriais. O sentido profundo da ideia de formação. Uma reorganização da formação social e política do Brasil. Entendo que essa formação é organizada por um espírito pedagógico canalizado como entusiasmo por pessoas diversas.

Por outro lado, o sistema político – em particular, o poder legislativo – tende a atravessar esse tempo de reorganização política social sem grandes sobressaltos. Emendas parlamentares, negociações de ocasião, fortalecimento de forças conservadoras, legislações ambientalmente permissivas, políticas econômicas neoliberais, fragilização progressiva da educação e da saúde públicas, pouca proteção aos trabalhadores.

A cartilha só vai mudar se o efeito da formação política social que começou nessa campanha eleitoral for a evidência da disputa política que situa a direita parlamentar do lado de lá. Quero argumentar que essa disputa política precisa ser formulada como fronteira entre nós e eles porque a frente ampla na sociedade não tem a mesma natureza da frente ampla no sistema político.

<><> Dimensões da frente ampla – sociedade e sistema político

André Singer tem apresentado a ideia de que é preciso apostar na frente ampla, a mais ampla possível, sem deixar de ser esquerda. Acredito que há uma intenção honesta e importante da proposta. No limite, algo como aliar o possível e o desejável. Porém, será mesmo viável conciliar essas duas posições políticas? Entendo que não, quando consideramos cada uma como posição em disputa, como perspectivas distintas de democracia, como projetos opostos de país. Entendo que sim, quando pensamos estritamente na conjuntura urgente de uma eleição.

A pedagogia política deste outubro de 2026 mostra como uma política aparentemente racional alcança um estado de coisas catastrófico. Isto, porque o neoliberalismo é a antessala do neofascismo. O fascismo esteve posto como perigo e como projeto, não como movimento social. As pessoas que não permitiram serem chamadas de fascistas por apoiarem o candidato que perdeu e fugiu contribuíram essencialmente para essa pedagogia política coletiva.

Acredito que o desafio agora é aprofundar esse mesmo movimento, mostrando que a política de direita conduz ao perigo fascista porque degrada as condições de vida e faz da revolta destrutiva uma aparente saída.

Austeridade, arcabouço fiscal, desvinculação da saúde e da educação, perda de direitos, tudo isso gera desesperança e abre caminho para a extrema direita. É urgente explicitar as fronteiras trazendo aos poucos quem defende a vida para o lado de cá. Afinal, sim, há um “nós contra eles”. A fronteira que situa projetos políticos em disputa é fluida e plástica na sociedade civil. Isso significa que há espaço para a disputa política democrática.

Acontece que a fronteira é – e deve ser – menos plástica quando pensamos na classe política, nos representantes que ocupam cargos no legislativo. Há espaço aqui para uma pedagogia política? Devemos continuar a legitimar a desfaçatez com que a direita muda de lado conforme a música? Penso que não, já que as políticas de direita levam diretamente à existência e à força da extrema direita.

Aqui está o limite da frente ampla. Uma coisa é a frente ampla social, permeável à pedagogia política, outra coisa é a frente ampla no sistema político, dissimulada e responsável pela ascensão da extrema direita.

A ideia de que aprendemos a não tratar a direita como inimigo, que não pode haver nós versus eles, é vaga e perigosa. Aprendemos efetivamente que as pessoas de direita nem sempre estão convencidas de que os caminhos da classe política de direita são os melhores. Por isso que ouvir e conversar funcionou. As razões para se identificarem assim apesar das propostas concretas de seus representantes são inúmeras, do preconceito antipetista à sensação de pertencimento em grupos autodeclarados à direita, dentre outros.

O que o convencimento da campanha de segundo turno mostrou não é que não há nós versus eles, mas que o “eles” é também o oposto do que essas pessoas esperam. A direita aliada ao bolsonarismo representa uma ideia de mundo que boa parte dos eleitores que se identificam como “de direita” tem como negativa. Pessoas se deslocaram no “nós contra eles” a partir de uma compreensão mais complexa do que define a fronteira. Não foi a fronteira que mudou.

Que a lição deste outubro de 2026 tenha sido a de que não existem lados, que basta conversar, que isto é possível, é uma ilusão no que diz respeito à classe política. Pensar assim seria a vitória da ideologia centrista. A unidade política é plástica na disputa social por posição diante de projetos antagônicos. Porém, a frente ampla parlamentar não é composta pela adesão por convencimento, mas sobretudo por conjuntura eleitoral.

Parlamentares não foram convencidos por meio de argumentos a enfrentar esta ou aquela pauta, compondo o que chamamos frente ampla. Políticos de direita se reposicionaram na dinâmica eleitoral sem aderir a algo que até então lhe escapava (suspeito que Otoni de Paula seja mesmo uma exceção aqui), o que é muito diferente da posição que eleitores de direita se permitiram assumir.

<><> Na prática, onde se localiza a classe política de direita?

Já há quem defenda recompor com Alcolumbre e Motta. Seria a maneira viável de evitar a extrema-direita e, segundo dizem, reconhecer o papel que tiveram na reeleição de Lula. É verdade que o risco de que componham com a extrema-direita está posto, já que a característica da direita apelidada de centrão é a volatilidade de ocasião.

Conseguiram até vender a votação eleitoralmente conveniente de pautas de apelo social como apoio ou concessão que valeriam um gesto do novo governo. Esqueçam o “Hugo nem se importa”, esqueçam o congresso inimigo do povo, esqueçam a recusa de nomeação do indicado ao STF, esqueçam. Supostamente, é preciso conciliar novamente para evitar o mal maior. Fiquemos com o mal costumeiro.

Acontece que é exatamente este entrave estruturado por meio do sistema político que abre espaço para o primeiro. Sem coragem ancorada na mobilização social, a tendência é o ciclo se repetir – e nada permite criar a expectativa de um novo milagre político no futuro, como este que encerra o último ciclo. Que a questão seja delicada não há a menor dúvida. Mas, é agora ou nunca.

O apoio social mais amplo vem da percepção do que está realmente em jogo. É nesse espírito que se pode apostar em uma pedagogia política capaz de explicitar o vínculo profundo entre políticas de direita e a constituição da extrema-direita. Não se trata de um vínculo abstrato, mas da consequência prática de políticas e leis operadas pelo assim chamado “centrão”.

O que está acontecendo neste momento com comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul deixa evidente que há sim um nós e um eles. Não existe conversa. Vidas estão literalmente em jogo. O sentido político dessa oposição não pode ser soterrado em nome de uma ideia vaga e ampla de conversa. Muitos dirão que essa violência é da parte dos bolsonaristas, dos radicais. Estamos de acordo nisso. E nas eleições opôs-se a esses grupos violentos a frente ampla social. Para garantir estes votos e apoio, parlamentares de direita se apressaram em compor com o governo depois de anos resistindo.

Acontece que esta frente ampla parlamentar é composta por aqueles que permitem que os bolsonaristas e radicais existam e que sejam legitimados no campo político e social. Aqui é que está o nó do qual depende o avanço estrutural que seremos ou não capazes de operar. Pois aqui se coloca uma outra relação de oposição. Não só aos que estão evidentemente do outro lado da trincheira, como grileiros, milicianos, empresários capazes de demitir em função do voto, etc.

É preciso notar que deve haver oposição também aos que permitem que eles existam e tenham força. Neste sentido, a direita de Davi Alcolumbre e Hugo Motta não cabe no nosso “nós”, na unidade política escolhida por milhões de eleitores.

Quando o congresso aprova o pacote do agro, passando a boiada em uma semana de maio de 2026, quando derruba as regras para licenciamento ambiental, o que está em jogo é o fortalecimento de grupos que sustentam o bolsonarismo e que hoje atacam indígenas. Há um fortalecimento por concordância com suas pautas, ainda que mostrem surpresa com os efeitos mais radicais.

É o modo de ação política desses bolsonaristas ditos radicais que é permitido quando a “apenas direita” legisla nesse sentido. Esta se torna assim, concretamente, parte do projeto de violência. Não podemos esquecer que Davi Alcolumbre faz parte disso. Mais uma vez, avança o projeto de país da FPA, Frente Parlamentar da Agropecuária, no que ela tem de mais nefasto.

A gente não pode esquecer que “Hugo nem se importa”. A questão da violência contra indígenas no imediato pós-eleição, as queimadas como espécie de vingança, a campanha de demissão por parte de empresários, tudo isso reflete uma unidade política que não é estranha aos presidentes das duas casas legislativas.

No caso das demissões, pode-se dizer também que elas são prática de grupos bolsonaristas e radicais. Porém, essa prática é fruto das ações de flexibilização dos direitos trabalhistas que Davi Alcolumbre e Hugo Motta asseguram no congresso nacional.

<><> É preciso escolher um lado

No caso do sistema político, a frente ampla inevitável tem o tempo de uma coordenação eleitoral em que o outro é o perigo evidente de fascistização da vida social. Durante o governo, não podemos conceber que se mantenha tamanha amplitude, uma vez que já se provou o preço dessa expectativa de governabilidade. As emendas parlamentares já falseiam a tese de conciliação para governar, mas a questão é ainda mais profunda. É preciso aprender que uma coisa leva à outra. A conciliação nos mesmos termos nos levará ao mesmo problema em quatro anos.

É agora ou nunca. Deixamos passar a força política social de sustentação do governo em 2010 como motor de disputa do legislativo. Não podemos cometer o mesmo erro. Se houver um acordão para manter Davi Alcolumbre e Hugo Motta onde estão, nada vai mudar.

Dirão alguns que eles foram essenciais para aprovar pautas populares do governo como a reforma tributária e o fim da escala 6 x 1. A primeira tinha apelo eleitoral evidente e foi possível articular a defesa do andar de cima, esvaziando em grande medida o sentido político de combate à desigualdade que a proposta trazia. No caso da escala 6 x 1, esperou-se até o último momento para garantir o bônus eleitoral de uma medida que se arrastou por mais de um ano no mesmo congresso.

Não é preciso premiar um cálculo eleitoral conveniente. O jogo de forças do período eleitoral não é o mesmo que durante o mandato, sabemos todos. E as ações “apenas” de direita levarão à mesma armadilha que tem se repetido há 20 anos. Mesmo nos momentos de maior força política dos governos Lula, o crescimento da representação legislativa da esquerda foi mínimo ou nulo.

Em parte por causa de táticas discutíveis, em parte porque esse era o acordo, a conciliação. E foi exatamente ela que, a cada ciclo, pôde colocar em risco os governos progressistas, quando não foram atores fundamentais para sua derrocada, via golpe ou via apoio explícito à extrema direita.

Portanto, é falso que tenhamos que reconhecer e reconciliar, é falso que não haja um “nós contra eles”. A violência pós-segundo turno prova isso. São eles, os parlamentares da direita, que têm que decidir onde querem ficar. Parte dos eleitores fizeram essa opção. Na classe política, ninguém fez, apostando nessa plasticidade que o discurso conciliador legitima e, a partir daí, permanecendo escondidos sob o codinome “centrão”.

Para os políticos eleitos, os assim chamados representantes, é preciso decidir onde se quer estar. Conosco ou com eles. Alcolumbre e Motta já se mostraram suficientemente distantes do que nós mobilizamos como projeto de país, já se mostraram inimigos do povo. Esta é uma opção política que não deve ser justificada por opção eleitoral de ocasião. Precisaria ser uma opção política.

E temos que explicitar essa disputa ao invés de diluir as fronteiras da política nacional em nome de uma unidade tão falsa quanto perigosa. Se Lula pretende mudar a maneira de governar o país, a eleição para a presidência de cada uma das casas legislativas não pode ser mais do mesmo.

Eles têm maioria parlamentar, nós temos maioria social; enquanto essas forças não forem contrapostas, pouco avançaremos em direção a mudanças estruturais urgentes.

 

Fonte: Por Monica Loyola Stival, em A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: