Faixa
de Gaza: campos infestados de ratos e feridas que não cicatrizam
Em uma
ala de isolamento do Hospital Nasser, em Gaza, Raseel, uma menina
de 6 anos com ferimentos graves, chora deitada em uma cama.
Raseel
sente dores constantes. Ela sofreu uma fratura grave na perna direita, tem
feridas infectadas nas pernas e na mão, e está com um estilhaço alojado no
cérebro.
Raseel
precisa urgentemente de um enxerto de pele para ajudar a fechar as feridas.
Antes, é necessário que elas comecem a cicatrizar. Mas as infecções não
respondem aos antibióticos disponíveis em Gaza.
Sem
outra alternativa, os médicos precisam reabrir e limpar as feridas de Raseel
repetidamente. O procedimento já foi realizado mais de 20 vezes.
Ao lado
da cama da filha, o pai, Mahmoud al-Balawi, se inclina para beijá-la.
"Não
chore", diz al-Balawi, com lágrimas nos olhos.
Raseel
dormia com a família em uma tenda no campo de al-Mawasi, que abriga palestinos
deslocados perto de Khan Younis, na Faixa de Gaza, quando um ataque aéreo de um helicóptero
israelense
atingiu o local em 30/7, segundo testemunhas.
Sua
irmã Rateel, de 9 anos, e uma prima de 20 anos morreram. A mãe e o irmão de
Raseel ficaram gravemente feridos. As Forças de Defesa de Israel (FDI) afirmam
não ter registros de um ataque naquele momento ou naquele local.
Raseel
está internada no Hospital Nasser há dois meses. Segundo Awni al-Jaafarawi,
médico da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) que acompanha
seu tratamento, as feridas da menina estão infectadas por bactérias resistentes
a vários medicamentos.
A
resistência aos antimicrobianos (RAM) ocorre quando bactérias, vírus, fungos e
parasitas sofrem alterações ao longo do tempo e deixam de responder aos
medicamentos usados para combatê-los.
A
Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o problema uma das maiores ameaças
à saúde pública mundial.
Infecções
resistentes a antibióticos são mais difíceis e mais caras de tratar e podem
provocar doenças graves, sepse e até a morte.
"A
menina [Raseel] terá que permanecer internada por mais tempo e, por isso,
contrairá outras infecções, o que dificultará ainda mais sua recuperação",
diz al-Jaafarawi.
Mas
Raseel não é a única paciente cujos ferimentos não respondem aos antibióticos.
Segundo
al-Jaafarawi, os hospitais de Gaza registram altas taxas de infecções
resistentes a esses medicamentos.
"Atualmente,
tentamos manter muitos desses pacientes em isolamento porque as bactérias que
eles carregam podem afetar o funcionamento da unidade de saúde a longo prazo, o
que exige medidas especiais", afirma al-Jaafarawi.
O que
al-Jaafarawi observa nos hospitais é reforçado por um novo estudo,
compartilhado com o Serviço Mundial da BBC, que aponta uma resistência
bacteriana generalizada a antibióticos-chave em Gaza.
Segundo
os pesquisadores, o estudo, realizado ao longo de dez anos, entre 2015 e 2025,
analisou quase 80 mil amostras bacterianas coletadas em 11 hospitais, sendo a
maior análise sobre resistência aos antimicrobianos já realizada em Gaza.
A
pesquisa foi conduzida por cientistas de Gaza, com o apoio de uma equipe
multidisciplinar de pesquisadores da Fleming Initiative, do Imperial College
London, no Reino Unido, e da Universidade Americana de Beirute, no Líbano.
O
estudo ainda não passou por revisão por pares, processo em que especialistas
independentes avaliam a qualidade científica de uma pesquisa, e seus resultados
são preliminares.
Os
autores do estudo afirmam que a situação em Gaza criou condições propícias para
a transmissão de infecções.
"Durante
conflitos, é comum que os sistemas de abastecimento de água e saneamento sejam
destruídos. Esses serviços são fundamentais para prevenir infecções e impedir a
disseminação de bactérias resistentes entre a população", diz Aula Abbara,
médica da da Fleming Initiative, do Imperial College London.
"As
consequências para os pacientes são graves. Por exemplo, infecções que
normalmente poderiam ser tratadas podem se agravar e se tornar impossíveis de
combater", afirma Abbara. "Nos casos mais graves, podem provocar
sepse e até a morte."
Para os
feridos em Gaza, uma das consequências é o aumento do número de pessoas que
precisam passar por amputações quando as infecções atingem os ossos.
"Nos
próximos anos, veremos o número de amputações aumentar diariamente, mesmo que a
guerra termine", diz al-Jaafarawi, da MSF.
O
médico afirma que continua atendendo, todas as semanas, pessoas feridas em
ataques israelenses, apesar do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos e
acertado entre Israel e Hamas em outubro de 2025.
Segundo
o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, 1.421 palestinos
morreram desde o início do cessar-fogo, em outubro de 2025.
As FDI
contestam os números divulgados pelo ministério. Em nota à BBC, afirmaram que
"lamentam qualquer dano causado a civis e trabalham para reduzi-lo ao
máximo possível".
A
guerra na Faixa de Gaza começou após o ataque liderado pelo Hamas contra
Israel, em 7 de outubro de 2023, que deixou cerca de 1,2 mil mortos e 251
pessoas feitas reféns.
Desde o
início da guerra, mais de 74 mil palestinos morreram em Gaza, segundo o
Ministério da Saúde local.
Um dos
principais fatores que contribuem para a disseminação de infecções é a falta de
acesso à água potável e a serviços adequados de saneamento.
Segundo
a ONU, Israel destruiu ou danificou quase 90% da infraestrutura de
abastecimento de água e saneamento de Gaza, incluindo usinas de dessalinização,
tubulações e sistemas de esgoto.
De
acordo com um relatório da ONU divulgado em julho, mais de 80% das famílias de
Gaza não têm acesso seguro à água, e até 70% não conseguem obter sequer os seis
litros diários por pessoa que a organização considera o mínimo indispensável
para beber e cozinhar.
A
Coordenação de Atividades Governamentais nos Territórios (Cogat, na sigla em
inglês), órgão israelense responsável pela administração das fronteiras de
Gaza, contesta esses dados. Em resposta à BBC, afirmou que o volume de água
fornecido ao território supera o limite mínimo estabelecido pela ONU para
situações de emergência humanitária.
Embora
algumas torneiras públicas ainda funcionem, a maioria dos moradores de Gaza
precisa buscar água em pontos de distribuição.
Salem
Abu Nahla, de 42 anos, está entre os que enfrentam dificuldades diárias para
conseguir água suficiente.
Antes,
ele era dono de um supermercado e de um açougue, mas sua casa foi bombardeada.
Desde então, Abu Nahla, a mulher e os três filhos tiveram que deixar o local
onde viviam seis vezes. Hoje, a família mora no campo de al-Mawasi.
Para
buscar água, Abu Nahla precisa caminhar cerca de 1 km, um percurso difícil para
ele desde que sofreu uma lesão nas costas em um acidente envolvendo um caminhão
de ajuda humanitária.
Abu
Nahla conta que, às vezes, presencia discussões e brigas nos pontos de
distribuição, onde as pessoas formam filas e aguardam a chegada do
caminhão-pipa.
Em
algumas ocasiões, o veículo nem chega.
De
volta ao campo, Abu Nahla despeja água em um recipiente para que a mulher possa
lavar a louça.
"Já
chega. Não temos muita água. Talvez não consigamos mais água hoje e tenhamos
que ir buscá-la de novo", diz ele à mulher.
Além
dos danos causados ao sistema de saneamento e da falta de água potável, a
coleta de lixo praticamente parou em Gaza.
Com
isso, lixo, dejetos humanos e poças de água contaminada se acumulam perto dos
acampamentos superlotados, onde vivem palestinos que tiveram que deixar suas
casas.
Esses
acampamentos enfrentam uma grave infestação de ratos e doninhas.
Em
alguns momentos, é possível ver grandes quantidades desses animais circulando
entre as tendas e entrando nos abrigos onde as pessoas vivem.
Uma
pesquisa divulgada em abril pelo Site Management Cluster, grupo responsável
pela gestão de muitos dos acampamentos de Gaza, citada por agências da ONU,
apontou que roedores ou outras pragas eram vistos com frequência em 81% dos
locais que abrigam famílias deslocadas, afetando cerca de 1,45 milhão de
pessoas.
Há
numerosos registros de pessoas mordidas por ratos ou doninhas enquanto dormiam.
Além de
provocar infecções, esses ataques podem causar ferimentos graves.
Basel
al-Dahnoun precisou amputar a perna direita abaixo do joelho depois de ser
atacado por doninhas enquanto dormia, segundo sua filha Rana.
Rana,
de 14 anos, conta que acordou certa noite e encontrou as esteiras em que a
família dormia cobertas de sangue. Seu pai estava gravemente ferido.
Ela
levou o pai às pressas para o hospital, mas, devido à falta de materiais
médicos, a equipe não conseguiu tratar o ferimento nem sequer fazer um
curativo.
Organizações
humanitárias e profissionais de saúde de diferentes regiões de Gaza disseram à
BBC que há uma grave escassez de medicamentos básicos e equipamentos médicos.
Por
fim, os médicos tiveram que amputar a perna de al-Dahnoun logo abaixo do
joelho.
Rana
espera que o pai, que tem mais de 60 anos e enfrenta outros problemas de saúde,
consiga seguir com a vida.
"Se
Deus quiser, que ele se recupere", diz Rana.
O Cogat
afirma que permite a entrada de medicamentos em Gaza sem restrições, incluindo
antibióticos.
De
volta ao Hospital Nasser, o estado de saúde de Raseel é grave.
Além da
infecção e da necessidade de um enxerto de pele, a menina enfrenta outros
desafios.
Segundo
os médicos, ainda não é possível retirar com segurança o estilhaço alojado em
seu cérebro. Raseel não consegue andar e começou a sofrer convulsões.
Há
também o desafio de ajudar crianças como ela a se adaptar a uma vida
profundamente transformada por ferimentos graves e pela perda de pessoas
próximas.
Especialistas
da ONU estimam que praticamente todas as crianças de Gaza precisam de apoio
psicológico e psicossocial urgente.
"Não
se trata apenas dos ferimentos sofridos pela criança, mas do fato de que toda a
sua vida mudou", diz al-Jaafarawi, da MSF.
Para
al-Balawi, pai de Raseel, o mais importante é que a filha sobreviva.
"Tenho
medo do que pode acontecer com minha filha se ela continuar aqui em Gaza",
diz al-Balawi. "Se ela ficar aqui, pode morrer."
Segundo
o Ministério da Saúde de Gaza, cerca de 5,6 mil crianças aguardam transferência
para receber tratamento médico fora do território.
Para
conseguir atendimento fora de Gaza é necessário obter um encaminhamento médico
do Ministério da Saúde, a aceitação de um país disposto a receber o paciente e
uma autorização de segurança de Israel.
Mas
houve uma boa notícia para Raseel.
Após
semanas de espera pela autorização das autoridades israelenses, ela e o pai
finalmente conseguiram permissão para viajar ao Egito no fim de setembro, com
apoio da OMS, para buscar tratamento médico urgente.
Seu pai
conta que a filha foi levada a um hospital nos arredores do Cairo, mas ainda
aguarda transferência para uma unidade com melhor estrutura na capital egípcia.
Ele
espera que Raseel finalmente consiga receber o tratamento de que precisa.
Durante
a internação no Hospital Nasser, Raseel ganhou uma boneca de um primo, que deu
o nome de Rateel, em homenagem à irmã.
¨
EUA lançaram ataque contra ilha no Irã na véspera de
eleições
Autoridades
americanas disseram à CBS, parceira da BBC nos Estados Unidos, que lançaram
ataques contra a ilha iraniana de Queixome, no Estreito de Ormuz.
A Irna,
agência estatal de notícias do Irã, informou que várias explosões foram
registradas na ilha na segunda-feira (2/10).
As
autoridades americanas descreveram os ataques como limitados e disseram que
foram uma resposta aos disparos feitos pela Guarda Revolucionária Islâmica do
Irã (IRGC, na sigla em inglês) contra uma aeronave dos EUA.
A BBC
entrou em contato com o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom),
responsável pelas operações militares americanas no Oriente Médio, para pedir um
comentário.
Os
ataques ocorrem às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA,
que vão determinar se republicanos ou democratas terão o controle do Congresso.
Trump
vem enfrentando queda nos índices de aprovação e pressão de integrantes de seu
próprio partido para pôr fim à guerra, iniciada em fevereiro, quando os Estados
Unidos e Israel atacaram o Irã.
Na
segunda-feira, Trump disse a jornalistas que não tinha "nenhuma
pressa" em intensificar os ataques contra o Irã.
"De
um jeito ou de outro, faremos alguma coisa, mas não há pressa. Nós os
enfraquecemos financeiramente", disse ele ao site de notícias Axios.
"Eles não têm dinheiro, não têm gasolina, e a população está ficando muito
cansada."
Em uma
entrevista à Fox News na véspera das eleições de meio de mandato, Trump também
afirmou que os EUA "talvez precisem atacar Pickaxe", um local ligado
ao programa nuclear iraniano.
"Não
seria nada demais", disse Trump, acrescentando que a operação poderia ser
realizada em "uma hora".
Nos
últimos dias, aumentaram as especulações de que os EUA poderiam retomar ataques
de grande escala contra o Irã após as eleições de meio de mandato. Mas, ao ser
questionado por um jornalista na segunda-feira se este era o caso, Trump
respondeu que "não".
O
ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse mais cedo à Irna
que estão em andamento negociações "muito intensas" com os EUA, por
meio de mediadores, na tentativa de pôr fim à guerra.
Ele
também afirmou que Teerã está mais preparada do que nunca para cenários
diplomáticos e militares e que cabe aos EUA escolher entre o "caminho
sábio" das negociações e o "erro da agressão militar".
<><>
Ataque dos EUA à ilha de Qeshm foi resposta a Teerã, diz imprensa
norte-americana
Diversos
veículos da imprensa dos Estados Unidos afirmaram que os militares
norte-americanos realizaram um ataque à ilha de Qeshm, no sul do Irã, em
resposta a um ataque efetuado por Teerã.
Na
segunda-feira (2), a emissora Press TV noticiou que explosões haviam sido
ouvidas na ilha de Qeshm. O The Wall Street Journal afirmou que as Forças
Armadas dos EUA estavam por trás do
incidente,
observando que elas vinham realizando ataques secretos de menor escala contra a
República Islâmica nas últimas semanas.
"Essa
foi uma medida defensiva contra os iranianos que usavam mísseis terra-ar contra
alvos norte-americanos", disse a jornalista Kelli Meyer, da NewsNation,
citando um funcionário dos EUA não identificado no X.
A
jornalista da Fox News Jennifer Griffin também confirmou essa informação. Já o
jornalista Barak Ravid, da Axios, relatou que um caça norte-americano atacou
lançadores de mísseis na ilha em resposta a uma suposta tentativa do Corpo de
Guardiães da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) de disparar contra
uma aeronave norte-americana que sobrevoava o estreito de Ormuz vinda de Qeshm.
Fonte:
BBC News/Sputnik Brasil

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