quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Faixa de Gaza: campos infestados de ratos e feridas que não cicatrizam

Em uma ala de isolamento do Hospital Nasser, em Gaza, Raseel, uma menina de 6 anos com ferimentos graves, chora deitada em uma cama.

Raseel sente dores constantes. Ela sofreu uma fratura grave na perna direita, tem feridas infectadas nas pernas e na mão, e está com um estilhaço alojado no cérebro.

Raseel precisa urgentemente de um enxerto de pele para ajudar a fechar as feridas. Antes, é necessário que elas comecem a cicatrizar. Mas as infecções não respondem aos antibióticos disponíveis em Gaza.

Sem outra alternativa, os médicos precisam reabrir e limpar as feridas de Raseel repetidamente. O procedimento já foi realizado mais de 20 vezes.

Ao lado da cama da filha, o pai, Mahmoud al-Balawi, se inclina para beijá-la.

"Não chore", diz al-Balawi, com lágrimas nos olhos.

Raseel dormia com a família em uma tenda no campo de al-Mawasi, que abriga palestinos deslocados perto de Khan Younis, na Faixa de Gaza, quando um ataque aéreo de um helicóptero israelense atingiu o local em 30/7, segundo testemunhas.

Sua irmã Rateel, de 9 anos, e uma prima de 20 anos morreram. A mãe e o irmão de Raseel ficaram gravemente feridos. As Forças de Defesa de Israel (FDI) afirmam não ter registros de um ataque naquele momento ou naquele local.

Raseel está internada no Hospital Nasser há dois meses. Segundo Awni al-Jaafarawi, médico da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) que acompanha seu tratamento, as feridas da menina estão infectadas por bactérias resistentes a vários medicamentos.

A resistência aos antimicrobianos (RAM) ocorre quando bactérias, vírus, fungos e parasitas sofrem alterações ao longo do tempo e deixam de responder aos medicamentos usados para combatê-los.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o problema uma das maiores ameaças à saúde pública mundial.

Infecções resistentes a antibióticos são mais difíceis e mais caras de tratar e podem provocar doenças graves, sepse e até a morte.

"A menina [Raseel] terá que permanecer internada por mais tempo e, por isso, contrairá outras infecções, o que dificultará ainda mais sua recuperação", diz al-Jaafarawi.

Mas Raseel não é a única paciente cujos ferimentos não respondem aos antibióticos.

Segundo al-Jaafarawi, os hospitais de Gaza registram altas taxas de infecções resistentes a esses medicamentos.

"Atualmente, tentamos manter muitos desses pacientes em isolamento porque as bactérias que eles carregam podem afetar o funcionamento da unidade de saúde a longo prazo, o que exige medidas especiais", afirma al-Jaafarawi.

O que al-Jaafarawi observa nos hospitais é reforçado por um novo estudo, compartilhado com o Serviço Mundial da BBC, que aponta uma resistência bacteriana generalizada a antibióticos-chave em Gaza.

Segundo os pesquisadores, o estudo, realizado ao longo de dez anos, entre 2015 e 2025, analisou quase 80 mil amostras bacterianas coletadas em 11 hospitais, sendo a maior análise sobre resistência aos antimicrobianos já realizada em Gaza.

A pesquisa foi conduzida por cientistas de Gaza, com o apoio de uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Fleming Initiative, do Imperial College London, no Reino Unido, e da Universidade Americana de Beirute, no Líbano.

O estudo ainda não passou por revisão por pares, processo em que especialistas independentes avaliam a qualidade científica de uma pesquisa, e seus resultados são preliminares.

Os autores do estudo afirmam que a situação em Gaza criou condições propícias para a transmissão de infecções.

"Durante conflitos, é comum que os sistemas de abastecimento de água e saneamento sejam destruídos. Esses serviços são fundamentais para prevenir infecções e impedir a disseminação de bactérias resistentes entre a população", diz Aula Abbara, médica da da Fleming Initiative, do Imperial College London.

"As consequências para os pacientes são graves. Por exemplo, infecções que normalmente poderiam ser tratadas podem se agravar e se tornar impossíveis de combater", afirma Abbara. "Nos casos mais graves, podem provocar sepse e até a morte."

Para os feridos em Gaza, uma das consequências é o aumento do número de pessoas que precisam passar por amputações quando as infecções atingem os ossos.

"Nos próximos anos, veremos o número de amputações aumentar diariamente, mesmo que a guerra termine", diz al-Jaafarawi, da MSF.

O médico afirma que continua atendendo, todas as semanas, pessoas feridas em ataques israelenses, apesar do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos e acertado entre Israel e Hamas em outubro de 2025.

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, 1.421 palestinos morreram desde o início do cessar-fogo, em outubro de 2025.

As FDI contestam os números divulgados pelo ministério. Em nota à BBC, afirmaram que "lamentam qualquer dano causado a civis e trabalham para reduzi-lo ao máximo possível".

A guerra na Faixa de Gaza começou após o ataque liderado pelo Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, que deixou cerca de 1,2 mil mortos e 251 pessoas feitas reféns.

Desde o início da guerra, mais de 74 mil palestinos morreram em Gaza, segundo o Ministério da Saúde local.

Um dos principais fatores que contribuem para a disseminação de infecções é a falta de acesso à água potável e a serviços adequados de saneamento.

Segundo a ONU, Israel destruiu ou danificou quase 90% da infraestrutura de abastecimento de água e saneamento de Gaza, incluindo usinas de dessalinização, tubulações e sistemas de esgoto.

De acordo com um relatório da ONU divulgado em julho, mais de 80% das famílias de Gaza não têm acesso seguro à água, e até 70% não conseguem obter sequer os seis litros diários por pessoa que a organização considera o mínimo indispensável para beber e cozinhar.

A Coordenação de Atividades Governamentais nos Territórios (Cogat, na sigla em inglês), órgão israelense responsável pela administração das fronteiras de Gaza, contesta esses dados. Em resposta à BBC, afirmou que o volume de água fornecido ao território supera o limite mínimo estabelecido pela ONU para situações de emergência humanitária.

Embora algumas torneiras públicas ainda funcionem, a maioria dos moradores de Gaza precisa buscar água em pontos de distribuição.

Salem Abu Nahla, de 42 anos, está entre os que enfrentam dificuldades diárias para conseguir água suficiente.

Antes, ele era dono de um supermercado e de um açougue, mas sua casa foi bombardeada. Desde então, Abu Nahla, a mulher e os três filhos tiveram que deixar o local onde viviam seis vezes. Hoje, a família mora no campo de al-Mawasi.

Para buscar água, Abu Nahla precisa caminhar cerca de 1 km, um percurso difícil para ele desde que sofreu uma lesão nas costas em um acidente envolvendo um caminhão de ajuda humanitária.

Abu Nahla conta que, às vezes, presencia discussões e brigas nos pontos de distribuição, onde as pessoas formam filas e aguardam a chegada do caminhão-pipa.

Em algumas ocasiões, o veículo nem chega.

De volta ao campo, Abu Nahla despeja água em um recipiente para que a mulher possa lavar a louça.

"Já chega. Não temos muita água. Talvez não consigamos mais água hoje e tenhamos que ir buscá-la de novo", diz ele à mulher.

Além dos danos causados ao sistema de saneamento e da falta de água potável, a coleta de lixo praticamente parou em Gaza.

Com isso, lixo, dejetos humanos e poças de água contaminada se acumulam perto dos acampamentos superlotados, onde vivem palestinos que tiveram que deixar suas casas.

Esses acampamentos enfrentam uma grave infestação de ratos e doninhas.

Em alguns momentos, é possível ver grandes quantidades desses animais circulando entre as tendas e entrando nos abrigos onde as pessoas vivem.

Uma pesquisa divulgada em abril pelo Site Management Cluster, grupo responsável pela gestão de muitos dos acampamentos de Gaza, citada por agências da ONU, apontou que roedores ou outras pragas eram vistos com frequência em 81% dos locais que abrigam famílias deslocadas, afetando cerca de 1,45 milhão de pessoas.

Há numerosos registros de pessoas mordidas por ratos ou doninhas enquanto dormiam.

Além de provocar infecções, esses ataques podem causar ferimentos graves.

Basel al-Dahnoun precisou amputar a perna direita abaixo do joelho depois de ser atacado por doninhas enquanto dormia, segundo sua filha Rana.

Rana, de 14 anos, conta que acordou certa noite e encontrou as esteiras em que a família dormia cobertas de sangue. Seu pai estava gravemente ferido.

Ela levou o pai às pressas para o hospital, mas, devido à falta de materiais médicos, a equipe não conseguiu tratar o ferimento nem sequer fazer um curativo.

Organizações humanitárias e profissionais de saúde de diferentes regiões de Gaza disseram à BBC que há uma grave escassez de medicamentos básicos e equipamentos médicos.

Por fim, os médicos tiveram que amputar a perna de al-Dahnoun logo abaixo do joelho.

Rana espera que o pai, que tem mais de 60 anos e enfrenta outros problemas de saúde, consiga seguir com a vida.

"Se Deus quiser, que ele se recupere", diz Rana.

O Cogat afirma que permite a entrada de medicamentos em Gaza sem restrições, incluindo antibióticos.

De volta ao Hospital Nasser, o estado de saúde de Raseel é grave.

Além da infecção e da necessidade de um enxerto de pele, a menina enfrenta outros desafios.

Segundo os médicos, ainda não é possível retirar com segurança o estilhaço alojado em seu cérebro. Raseel não consegue andar e começou a sofrer convulsões.

Há também o desafio de ajudar crianças como ela a se adaptar a uma vida profundamente transformada por ferimentos graves e pela perda de pessoas próximas.

Especialistas da ONU estimam que praticamente todas as crianças de Gaza precisam de apoio psicológico e psicossocial urgente.

"Não se trata apenas dos ferimentos sofridos pela criança, mas do fato de que toda a sua vida mudou", diz al-Jaafarawi, da MSF.

Para al-Balawi, pai de Raseel, o mais importante é que a filha sobreviva.

"Tenho medo do que pode acontecer com minha filha se ela continuar aqui em Gaza", diz al-Balawi. "Se ela ficar aqui, pode morrer."

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, cerca de 5,6 mil crianças aguardam transferência para receber tratamento médico fora do território.

Para conseguir atendimento fora de Gaza é necessário obter um encaminhamento médico do Ministério da Saúde, a aceitação de um país disposto a receber o paciente e uma autorização de segurança de Israel.

Mas houve uma boa notícia para Raseel.

Após semanas de espera pela autorização das autoridades israelenses, ela e o pai finalmente conseguiram permissão para viajar ao Egito no fim de setembro, com apoio da OMS, para buscar tratamento médico urgente.

Seu pai conta que a filha foi levada a um hospital nos arredores do Cairo, mas ainda aguarda transferência para uma unidade com melhor estrutura na capital egípcia.

Ele espera que Raseel finalmente consiga receber o tratamento de que precisa.

Durante a internação no Hospital Nasser, Raseel ganhou uma boneca de um primo, que deu o nome de Rateel, em homenagem à irmã.

¨      EUA lançaram ataque contra ilha no Irã na véspera de eleições

Autoridades americanas disseram à CBS, parceira da BBC nos Estados Unidos, que lançaram ataques contra a ilha iraniana de Queixome, no Estreito de Ormuz.

A Irna, agência estatal de notícias do Irã, informou que várias explosões foram registradas na ilha na segunda-feira (2/10).

As autoridades americanas descreveram os ataques como limitados e disseram que foram uma resposta aos disparos feitos pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) contra uma aeronave dos EUA.

A BBC entrou em contato com o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom), responsável pelas operações militares americanas no Oriente Médio, para pedir um comentário.

Os ataques ocorrem às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA, que vão determinar se republicanos ou democratas terão o controle do Congresso.

Trump vem enfrentando queda nos índices de aprovação e pressão de integrantes de seu próprio partido para pôr fim à guerra, iniciada em fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã.

Na segunda-feira, Trump disse a jornalistas que não tinha "nenhuma pressa" em intensificar os ataques contra o Irã.

"De um jeito ou de outro, faremos alguma coisa, mas não há pressa. Nós os enfraquecemos financeiramente", disse ele ao site de notícias Axios. "Eles não têm dinheiro, não têm gasolina, e a população está ficando muito cansada."

Em uma entrevista à Fox News na véspera das eleições de meio de mandato, Trump também afirmou que os EUA "talvez precisem atacar Pickaxe", um local ligado ao programa nuclear iraniano.

"Não seria nada demais", disse Trump, acrescentando que a operação poderia ser realizada em "uma hora".

Nos últimos dias, aumentaram as especulações de que os EUA poderiam retomar ataques de grande escala contra o Irã após as eleições de meio de mandato. Mas, ao ser questionado por um jornalista na segunda-feira se este era o caso, Trump respondeu que "não".

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse mais cedo à Irna que estão em andamento negociações "muito intensas" com os EUA, por meio de mediadores, na tentativa de pôr fim à guerra.

Ele também afirmou que Teerã está mais preparada do que nunca para cenários diplomáticos e militares e que cabe aos EUA escolher entre o "caminho sábio" das negociações e o "erro da agressão militar".

<><> Ataque dos EUA à ilha de Qeshm foi resposta a Teerã, diz imprensa norte-americana

Diversos veículos da imprensa dos Estados Unidos afirmaram que os militares norte-americanos realizaram um ataque à ilha de Qeshm, no sul do Irã, em resposta a um ataque efetuado por Teerã.

Na segunda-feira (2), a emissora Press TV noticiou que explosões haviam sido ouvidas na ilha de Qeshm. O The Wall Street Journal afirmou que as Forças Armadas dos EUA estavam por trás do incidente, observando que elas vinham realizando ataques secretos de menor escala contra a República Islâmica nas últimas semanas.

"Essa foi uma medida defensiva contra os iranianos que usavam mísseis terra-ar contra alvos norte-americanos", disse a jornalista Kelli Meyer, da NewsNation, citando um funcionário dos EUA não identificado no X.

A jornalista da Fox News Jennifer Griffin também confirmou essa informação. Já o jornalista Barak Ravid, da Axios, relatou que um caça norte-americano atacou lançadores de mísseis na ilha em resposta a uma suposta tentativa do Corpo de Guardiães da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) de disparar contra uma aeronave norte-americana que sobrevoava o estreito de Ormuz vinda de Qeshm.

 

Fonte: BBC News/Sputnik Brasil 

 

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