quinta-feira, 31 de agosto de 2023

O experimento libertário que terminou em fracasso nos EUA

A pequena cidade de Grafton, no nordeste dos Estados Unidos, na fronteira com o Canadá, foi palco de uma experiência política sem precedentes no início dos anos 2000.

Um grupo de libertários se instalou no povoado e colocou suas ideias em ação, reduzindo regras e impostos para provar o entendimento de que a intervenção governamental é opressiva, desnecessária e produz pobreza — e que, se a sociedade agir por conta própria, ela florescerá e será capaz de se autorregular.

No entanto, depois de alguns anos, o experimento terminou em fracasso: sem estrutura devido à deterioração dos serviços públicos, tomada pela violência e pelo crime, Grafton chegou à gota d’água com uma série de ataques de ursos-negros contra os moradores.

·         Experimento único

“Em 2004, centenas de pessoas se mudaram para Grafton para fundar o que chamaram de Projeto Cidade Livre e demonstrar a viabilidade do libertarianismo, criando uma comunidade utópica”, diz o jornalista americano Matthew Hongoltz-Hetling, que em 2020 escreveu o livro A Libertarian Walks into a Bear ("Um libertário encontra um urso", em tradução livre), no qual conta a história da pequena cidade.

O libertarianismo é uma corrente político-filosófica que coloca a “liberdade individual como o valor político supremo” e considera que cada pessoa tem o direito de viver a sua vida e de fazer com o seu corpo e bens o que julgar apropriado, desde que não interfira nos direitos de outros fazerem o mesmo, explica o cientista político venezuelano Luis Salamanca.

 “Para o liberalismo clássico, o Estado deve ser mínimo. Isto é, aceita-se que o Estado exista, mas apenas como vigilante da atividade produtiva e regulador mínimo. Contudo, para os anarcocapitalistas, que são os libertários mais puros e radicais, isto é opressão. Para os anarcocapitalistas, o Estado é o inimigo e deve ser eliminado”, acrescenta Salamanca, ex-diretor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Central da Venezuela (UCV).

O libertarianismo está profundamente enraizado nos Estados Unidos desde a sua fundação.

“O melhor governo é aquele que menos governa”, disse Thomas Jefferson, um dos signatários da Declaração da Independência e terceiro presidente dos EUA, lembrou o professor de Teoria Política e História Americana Eric-Clifford Graf.

Graf lembra que o Partido Republicano teve — e ainda tem — alas e pessoas que defendem estas ideias.

·         Mas por que Grafton?

“Os libertários pesquisaram dezenas de cidades em New Hampshire antes de se decidirem por Grafton, mas ela atraiu por vários motivos. Lá, vivia um libertário chamado John Babiarz, que estava concorrendo a governador. Também tinha uma pequena população de cerca de mil pessoas, o que significava que um número relativamente pequeno de eleitores libertários poderia exercer enorme influência na aprovação de decretos e impostos municipais”, explica o jornalista.

“E, finalmente, Grafton tinha um profundo histórico de rebelião contra autoridades. No final do século 18, ela votou pela separação do recém-constituído Estados Unidos por razões fiscais. Muitos dos seus habitantes exerceram desobediência fiscal [não pagaram impostos].”

Hongoltz-Hetling conta no livro que, em questão de meses, cerca de 200 libertários — a maior parte dos quais se conheceram na internet — mudaram-se para a cidade para iniciar a experiência.

Os novos moradores eram em sua maioria homens brancos, solteiros e defensores da posse de armas.

Porém, do ponto de vista econômico, o perfil dos recém-chegados era mais variado. Alguns tinham bastante dinheiro, enquanto outros eram pobres e não tinham nada que os ligasse aos seus locais de origem.

Este último fator explica por que o número de pessoas vivendo em casas provisórias ou tendas nas florestas rodeando a cidade aumentou significativamente.

·         Uma invasão não tão silenciosa

Os novos “graftonianos” logo começaram a ter sua presença sentida.

“Eles foram muito ativos e envolvidos no processo político local, o que lhes permitiu impor muitas das suas ideias à comunidade”, lembra Hongoltz-Hetling.

Embora eles tenham fracassado nas tentativas de retirar a cidade do Distrito Escolar, a autoridade responsável pela supervisão das escolas, ou de declarar a cidade uma "zona livre das Nações Unidas", esses moradores vocais convenceram seus vizinhos a cortar 30% do já pequeno orçamento municipal.

Porém, a promessa de que o corte resultaria em menos impostos e mais dinheiro no bolso dos moradores acabou não se cumprindo.

Por exemplo, em Canaan, uma cidade vizinha, os residentes pagaram, em média, apenas 70 centavos a mais em impostos do que os de Grafton e tinham ruas e estradas pavimentadas e iluminadas.

Enquanto isso, em 2011, as estradas de Grafton estavam cheias de buracos, a iluminação pública e a coleta de lixo quase desapareceram, a biblioteca pública teve que reduzir o seu horário para apenas 3 horas por dia e a vigilância policial diminuiu, porque a polícia só tinha recursos para pagar uma agente em tempo integral.

Além de ver um aumento na criminalidade, os habitantes de Grafton tiveram de lidar com um problema que não se via há um século: uma onda de ataques de ursos-negros, a partir de 2012.

Foram os ataques desses animais que fizeram com que Hongoltz-Hetling voltasse sua atenção à cidade, onde constatou que a mistura entre desregulamentação, redução de impostos e ideias libertárias resultava em uma combinação perigosa.

“Muitos dos libertários que viviam na floresta não seguiam as recomendações sobre a eliminação de resíduos, o que criou uma fonte fácil de alimento para os ursos. Em segundo lugar, alguns dos libertários começaram a alimentar ursos, da mesma forma que outros alimentam pássaros ou esquilos no seu quintal. Isso atraiu os animais para áreas residenciais", relata o jornalista.

“Em terceiro lugar, a cidade recusou-se a chamar as autoridades regionais para tentar realocar ou até abater os animais que estavam causando problemas. Em vez disso, as pessoas tentavam afastá-los [os ursos] de formas que não eram eficazes [como fogos de artifício]. Com o tempo, os ursos tornaram-se mais ousados ​​e mais interessados ​​nos seres humanos como fonte de alimento e até pararam de hibernar."

Em 2016, o fracasso da experiência se tornou mais evidente e muitos dos libertários partiram.

No entanto, pouco foi feito para reparar os danos causados, diz Hongoltz-Hetling.

“O orçamento da cidade não aumentou para compensar os anos perdidos e os serviços municipais continuam a ser deficientes em comparação com cidades vizinhas. No entanto, o ambiente está mais calmo do que antes e não houve mais ataques de ursos, então talvez isso seja uma vitória."

Mas como um grupo de recém-chegados conseguiu controlar quase totalmente uma cidade e desmantelá-la sem que ninguém tomasse providências?

“Os libertários agiram dentro do Estado de Direito, portanto não havia razão para as autoridades estaduais ou federais intervirem”, respondeu o jornalista.

“O fiasco de Grafton foi em parte o resultado de um processo democrático justo, no qual outros residentes não se organizaram de forma tão eficaz como os libertários."

“Para mim, os libertários têm responsabilidade moral, mas não legal, pelo que aconteceu às pessoas que foram atacadas por ursos.”

·         Teoria em voga

Na Argentina, o sucesso do economista Javier Milei nas eleições primárias, em 13 de agosto, colocou o libertarianismo em primeiro plano.

“Considero o Estado um inimigo”, declarou o polêmico candidato, que segundo pesquisas tem as maiores chances de vencer as eleições em outubro.

Milei se declarou “libertário” e “anarcocapitalista”. Ele prometeu que, se vencer as eleições, “dinamitará” o Banco Central, reduzirá o número de ministérios e legalizará a posse de armas de fogo.

Para o cientista político Luis Salamanca, a experiência em Grafton deve ser lembrada por novos projetos libertários.

“A experiência permitiu-nos ver os benefícios, mas sobretudo os problemas que a dispensa do Estado gera”, aponta.

“O lixo é o exemplo mais patético e mostra que não se pode deixar tudo por conta do mercado. O mercado pode regular os preços, mas há outros aspectos da vida humana que ele não cobre. É aí que falha o modelo anarcocapitalista."

 “Em Grafton, a liberdade foi privilegiada em detrimento da ordem, mas a liberdade total leva à perda da ordem. E onde não há ordem, prevalece a força e a lei do mais forte”, diz o especialista.

O professor Clifford Graf reconhece que as ideias libertárias são inspiradoras e podem ser muito atraentes para eleitores desencantados com os políticos tradicionais.

Entretanto, o especialista considera que entregar o poder a defensores desta corrente política “é um risco de caos e a anarquia, o que pode nos levar de volta à tirania”.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

DOCUMENTOS REVELAM FAZENDAS DE LIRA NÃO DECLARADAS À JUSTIÇA

A legislação eleitoral exige desde 1997 que todo candidato apresente a declaração de bens e valores que compõem o seu patrimônio para concorrer a um mandato. Em tese, a exigência legal torna o processo mais transparente e coíbe o enriquecimento ilícito. Na prática, porém, a realidade é outra: muitos candidatos omitem da Justiça eleitoral imóveis e outras propriedades, impedindo o eleitor de fiscalizar sua evolução patrimonial e abrindo margem para eventuais questionamentos sobre a origem desses recursos.

Considerado atualmente um dos homens mais poderosos da República, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), era um deputado estadual quando pagou, entre 2004 e 2006, quase R$ 5 milhões (valor da época, ou cerca de R$ 16 milhões, em valor atual, conforme correção pelo IGP-M) por quatro fazendas em Pernambuco. Essas propriedades não constam da declaração de bens entregue por ele à Justiça eleitoral em 2006. Os bens declarados por Lira, na ocasião, somavam R$ 695.901,55 (valor da época).

Documentos obtidos pelo Congresso em Foco em buscas realizadas em Pernambuco e Alagoas revelam que ao menos R$ 3,7 milhões foram pagos em “moeda corrente” – termo utilizado pelos cartórios, segundo a Associação Nacional dos Notários e Registradores do Brasil (Anoreg), para se referir à moeda do país, no caso, o real. Não há especificação, nos papéis, se o montante foi pago em dinheiro vivo, cheque ou transferência bancária.

Questionado sobre o motivo de não ter declarado esses bens à Justiça eleitoral, Arthur Lira não retornou os contatos feitos com sua assessoria, antes da publicação desta reportagem. Publicada a matéria, a assessoria enviou nota na qual afirma que “todo o patrimônio do deputado Arthur Lira encontra-se devidamente declarado à Receita Federal e à Justiça eleitoral, fruto do sucesso na gestão de sua atividade agropecuária”.

Veja, no final do texto, e a íntegra da nota e a resposta do Congresso em Foco.

Este site está impedido desde julho de veicular uma entrevista feita com a ex-esposa do deputado. Jullyene Lins, que foi casada com Lira entre 1996 e 2006, acusou o ex-marido de violência física e sexual. O texto foi retirado do ar por determinação do juiz Jayder Ramos de Araújo, da 10ª Vara Cível de Brasília, a pedido do presidente da Câmara. Lira tentou excluir conteúdo semelhante de outros veículos, mas teve o pedido negado. O parlamentar e Jullyene travam, desde a separação, uma guerra na Justiça.

•        Pantaneiro e Estrela

Comprada por R$ 1.901.554,82, a fazenda Pantaneiro foi quitada em cinco parcelas, segundo documento anexado em um processo em que Lira é réu ao qual a reportagem teve acesso. A primeira parcela foi paga em 19 de julho de 2004, no valor de R$ 679.000,00. A última, em 30 de julho de 2005, foi no valor de R$ 253.333,08, conforme recibo de pagamento em nome de Lira.

Antes mesmo de terminar de pagar pela Pantaneiro, o então deputado estadual fez outra aquisição: a fazenda Estrela. Um recibo registrado em cartório, que integra um dos processos em que Lira é réu – e que tramita em segredo de Justiça – mostra que a propriedade foi comprada por ele em 7 de julho de 2005. Pela fazenda, o parlamentar pagou R$ 1.084.000,00, de acordo com o documento, sendo que R$ 150 mil foram entregues no “ato do contrato”.

Uma das parcelas, no valor de R$ 300.000,00, foi quitada com a entrega de um apartamento. O imóvel foi comprado por Lira por meio de uma negociação feita com uma construtora em 31 de julho de 2003, conforme documentos assinados pelo parlamentar obtidos pela reportagem. Os apartamentos ficam no Edifício Mirai, erguido em área nobre de Maceió.

•        Taquari e Samambaia

O imóvel nunca apareceu nas declarações de bens do deputado à Justiça eleitoral, apesar de seu advogado à época, Fábio Ferrario, ter afirmado em processo que o apartamento fazia parte de um conjunto de oito unidades recebidas pelo então deputado estadual de uma construtora. Em 10 de abril de 2006, Lira adquiriu a Fazenda Taquari, em Pernambuco, por R$ 1.233.000,00. Uma das parcelas, também no valor de R$ 300 mil, foi quitada com a entrega de um dos apartamentos.

Um terceiro apartamento da construtora também foi usado para quitar parte de outra fazenda comprada pelo presidente da Câmara. Localizada em Quipapá (PE), a fazenda Samambaia teve a compra assinada por Lira em 14 de abril de 2006, apenas quatro dias após ele ter adquirido a Taquari no mesmo estado. Lavrado em cartório, o documento afirma que Lira pagou, “em moeda corrente”, R$ 300.000,00 no ato da assinatura do contrato: “Recebe, neste ato, das mãos do prometido comprador, em moeda corrente, a quantia de R$ 300.000,00. Que contou, achou certo e guardou, dando a este comprador (Arthur Lira), quitação irrevogável desse recebimento”.

Em um processo judicial no qual defendia Lira, Ferrario admitiu, em abril de 2007, que a fazenda Taquari pertencia ao deputado desde antes da eleição de 2006. “Esse imóvel, não se nega, foi indiscutivelmente adquirido pelo senhor Arthur Lira em 10 de abril de 2006”, afirmou o advogado na defesa.

Ferrario é, desde julho de 2022, desembargador do Tribunal de Justiça de Alagoas. Ele ingressou no Tribunal de Justiça de Alagoas pelo critério do Quinto Constitucional, em vaga destinada à indicação feita pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AL). Procurado pela reportagem, o desembargador disse que é impedido, legalmente, de se manifestar sobre processo por não exercer mais a advocacia.

Em um dos processos aos quais o Congresso em Foco teve acesso, o advogado também escreveu, em 2007, que a Samambaia pertencia, então, ao pai de Lira, Benedito de Lira. Ex-senador e ex-deputado federal, Benedito é hoje prefeito de Barra de São Miguel, na região metropolitana de Maceió.

•        Omissão da Justiça eleitoral

Embora tenham sido compradas antes da eleição de 2006, nenhuma das fazendas apareceu na declaração de bens entregue pelo então deputado estadual à Justiça eleitoral naquele ano. Delas, apenas a Taquari foi declarada – ainda assim, a partir de 2014, quando Lira se elegeu para o segundo mandato de deputado federal.

De acordo com o advogado e ex-juiz eleitoral Márlon Reis, a não declaração de bens por qualquer candidato poderia ensejar a abertura de processo por falsidade ideológica eleitoral. Mas, na prática, o jurista reconhece que essa não tem sido a postura da Justiça brasileira. A exigência de declaração patrimonial está prevista no artigo 350 do Código Eleitoral. “Ele fala de falsidade ideológica eleitoral, o que atinge todas as declarações falsas prestadas à Justiça eleitoral, o que inclui a intimação relativa aos bens”, explica Márlon. “Esse dispositivo, porém, nunca foi utilizado com essa finalidade, infelizmente”, lamenta.

Para ele, a legislação deveria exigir dos candidatos que declarassem à Justiça eleitoral todos os bens informados à Receita Federal, cujos dados hoje são protegidos por sigilo fiscal. “Não há multa prevista para quem deixa de declarar à Justiça eleitoral. Mas a não declaração desses bens à Receita pode ensejar problemas tributários para o candidato”, destaca o ex-juiz, um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa.

•        Operação Taturana

A passagem de Arthur Lira pela Assembleia Legislativa de Alagoas foi sacudida pela Operação Taturana, da Polícia Federal, em dezembro de 2007. Cerca de 20 deputados estaduais foram investigados, suspeitos de participar de uma quadrilha que se apropriava de recursos da casa através de sua folha de pagamentos, com a inclusão de funcionários fantasmas e laranjas. Os envolvidos também declaravam à Receita Federal retenções de imposto de renda em valores superiores aos efetivamente retidos, além de se beneficiarem das restituições do IR feitas aos falsos funcionários. As fraudes, segundo a PF, chegavam a R$ 300 milhões (valor da época) no período de cinco anos.

Quando a operação foi deflagrada, Lira já havia deixado o cargo de primeiro-secretário da Mesa Diretora. No capítulo dedicado ao deputado no processo, ele é apontado como um dos beneficiários do esquema de manipulação da folha de pagamento com descontos indevidos de cheques e obtenção fraudulenta de empréstimos consignados.

A Taturana rendeu duas condenações na esfera cível por improbidade administrativa a Lira, em primeira e segunda instância, em 2012 e 2016, respectivamente. Em abril deste ano, o ministro Humberto Martins, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), anulou as condenações, determinando que o processo voltasse à fase inicial em Alagoas. Segundo ele, Lira não foi devidamente comunicado no início da ação para que pudesse exercer o direito de defesa.

No último mês de julho, ele foi absolvido no processo criminal após a anulação da investigação sob a justificativa de que deveria ter sido realizada pela Justiça Estadual, e não pela Federal. A decisão foi do Tribunal de Justiça de Alagoas. O Ministério Público de Alagoas anunciou que vai recorrer ao Superior Tribunal de Justiça.

•        De Alagoas para Brasília

Formado em direito pela Universidade Federal de Alagoas, Lira começou sua trajetória política em 1992, quando se elegeu vereador pela primeira vez, no rastro do pai, mais conhecido no estado como Bil de Lira. Em 1998, Arthur Lira se elegeu deputado estadual. Na Assembleia Legislativa foram três mandatos até chegar à Câmara, em fevereiro de 2011.

Na Casa, Lira herdou a vaga do pai, que assumia então um mandato de oito anos no Senado. Articulador habilidoso, chegou à presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a mais importante, e à liderança de seu partido. Com a derrocada do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ), de quem era um dos aliados mais próximos, despontou como líder do Centrão, bloco partidário informal caracterizado por práticas fisiológicas e clientelistas. Nessa condição, virou aliado do então presidente Jair Bolsonaro e chegou à presidência da Câmara.

Com Lira no poder, Bolsonaro conseguiu escapar das denúncias de impeachment e aprovar projetos de interesse do governo, construindo uma base parlamentar. Ganhou um poder poucas vezes visto na República ao controlar o chamado orçamento secreto, direcionando recursos federais entre aliados. Decretada a derrota de Bolsonaro, telefonou no mesmo instante para o presidente eleito Lula, num gesto saudado por muitos como apreço democrático.

Naquele mesmo instante, no entanto, apresentava suas credenciais ao novo chefe do Executivo. Ajudou a aprovar, antes mesmo da posse, a chamada PEC da Transição, que permitiu ao novo presidente começar o mandato cumprindo promessas sociais. No papel de credor do governo, ganhou o apoio do Planalto em sua reeleição à Câmara. E, agora, vive uma queda de braço com o petista em torno da reforma ministerial e da pauta econômica pendente de votação.

Um dos principais críticos do presidente da Câmara, o deputado Glauber Braga (Psol-RJ) vê com preocupação a relação do governo com o presidente da Câmara. “Lira é um chantagista geral da república. A opção do governo foi por um pacto de conciliação com ele. Só que quem inicia a chantagem, no caso o Lira, sempre quer mais espaço e poder. Se não colocam limites, ele nunca vai se sentir satisfeito com aquilo que recebeu de resposta positiva”, observa. “Ele se impõe também pelo medo, mas pelos recursos oriundos do poder que acumula”, acrescenta. Procurado pelo Congresso em Foco para comentar as declarações de Glauber, Lira não quis comentar as declarações do deputado fluminense.

>>> ÍNTEGRA DA NOTA DE ARTHUR LIRA:

“Todo o patrimônio do deputado Arthur Lira encontra-se devidamente declarado à Receita Federal e à Justiça eleitoral, fruto do sucesso na gestão de sua atividade agropecuária.

No mais, alguns questionamentos se mostram improcedentes, requentados, vazados de ações em segredo de justiça, e já foram analisados pela Justiça competente, que deu ganho de causa ao deputado, inclusive determinando não mais sua veiculação em qualquer meio, por se tratar de assunto analisado e comprovadamente inverídico.

Além disso, a exposição de tais fatos só atentam contra a honra do deputado e ferem a decisão já proferida no Judiciário.

Assim, esperamos que mais essa decisão da Justiça seja cumprida.

Assessoria de Imprensa”

>>> Nota da Redação – Esclarecemos que:

(1) A documentação obtida pela reportagem demonstra que Lira declarou à Justiça eleitoral apenas uma das quatro fazendas citadas. Mesmo assim, em 2014. Ou seja, cerca de uma década após sua aquisição.

(2) Até 2022, data em que entregou pela última vez uma declaração de bens à Justiça eleitoral, o deputado não tinha informado a propriedade das outras três fazendas.

(3) Teremos prazer em publicar os devidos documentos comprobatórios caso o parlamentar tenha regularizado tal situação posteriormente.

(4) Não há na matéria, ou nas práticas profissionais deste veículo, qualquer intenção de atentar contra a honra do presidente da Câmara ou de quem quer que seja. Tentamos apenas fazer jornalismo independente e de qualidade.

(5) Ignoramos qualquer ordem de censura prévia relacionada com os temas tratados na reportagem. O que nos chegou ao conhecimento foi uma ordem judicial de remoção de conteúdo, cumprida tão logo dela tomamos conhecimento.

(6) O Congresso em Foco renova, de público, o pedido de entrevista com Arthur Lira para aprofundar a apuração do assunto e prestar informações absolutamente corretas e precisas, como nos empenhamos a fazer há quase 20 anos.

 

Fonte: Congresso em Foco

 


 Por que insetos são cruciais para vida na Terra

Vivemos em um planeta de insetos. Eles representam cerca de 70% de todas as espécies conhecidas na Terra e sua biomassa combinada é 16 vezes maior que a dos humanos.

Há 300 milhões de anos, libélulas gigantes com envergadura de 75 centímetros voavam entre as samambaias arbóreas. Hoje em dia, os insetos são extraordinariamente diversos, com uma enorme variedade de cores, formas e tamanhos.

Eles também desempenham um papel crucial na vida na Terra. Eles servem de alimento para muitos animais, incluindo a maioria dos pássaros, morcegos, lagartos, anfíbios e peixes de água doce.

Cerca de 80% das espécies de plantas selvagens do mundo também dependem de insetos para polinizá-las, assim como três quartos das plantas que cultivamos para alimentação. Não é exagero dizer que, sem os insetos, muitos de nós morreríamos de fome.

Mas muitos tipos de insetos em diferentes partes do mundo estão ameaçados. Embora medir as populações de insetos seja algo complexo, existem sinais preocupantes.

Um importante estudo de 2020 estimou que os insetos que vivem na Terra estão a diminuir em cerca de 9% por década em todo o mundo.

Um estudo alemão descobriu que a biomassa de insetos voadores nas reservas naturais diminuiu alarmantes 76% entre 1989 e 2016. Nos Estados Unidos, as populações de borboleta-monarca diminuíram 80% neste século.

Algumas espécies no Reino Unido, como a borboleta-vírgula e as borboletas-malhadinhas, estão contrariando a tendência. Mas de maneira geral, a distribuição geográfica global das borboletas no Reino Unido diminuiu, em média, 42% desde 1976.

As espécies invasoras também estão sofrendo. Ratos se alimentaram da tesourinha de Santa Helena, um tipo de lacraia, até levar a espécie à extinção e quase exterminaram o weta gigante da Nova Zelândia, um tipo de gafanhoto.

A poluição luminosa também representa um problema, pois atrai as mariposas e as condena à morte e perturba o ciclo de vida dos insetos. Também desorienta alguns besouros que navegam usando a luz da Via Láctea.

        'Guerra contra a natureza'

Além de tudo isso, os insetos têm agora que lidar com as mudanças climáticas. Alguns insetos mais adaptáveis, como os mosquitos, as baratas e as moscas domésticas, se beneficiarão de temperaturas mais altas e de mais chuva. Mas a maioria sofrerá.

Zangões estão desaparecendo de seus habitats mais ao sul, superaquecendo em seus corpos peludos à medida que o clima esquenta. Secas, inundações e incêndios florestais também podem devastar as populações já ameaçadas.

Em 1962, a bióloga americana Rachel Carson publicou o livro Silent Spring (Primavera Silenciosa, em tradução literal para o português), alertando que estávamos causando danos terríveis ao nosso planeta.

Ela escreveu: "O homem é parte da natureza" e a sua guerra contra a natureza "é inevitavelmente uma guerra contra si mesmo".

Mas a previsão de Carson era apenas o começo. Desde então, os habitats de vida selvagem ricos em insetos foram destruídos em grande escala. Os solos foram degradados e os rios obstruídos com lodo, poluídos ou drenados.

A agricultura, tão dependente dos insetos para a polinização, é responsável por grande parte do seu declínio. Estima-se que 4 milhões de toneladas de pesticidas sejam lançadas no meio ambiente todos os anos.

Então, o que podemos fazer se quisermos proteger nossos insetos?

A resposta mais simples está em reestruturar jardins e varandas, plantando flores silvestres e arbustos nativos, reduzindo o corte da relva e encontrando alternativas aos pesticidas.

Mas as ações individuais não serão suficientes. Imagine cidades verdes repletas de árvores, hortas e lagos, todas livres de pesticidas e cheias de vida. O movimento para uma agricultura sustentável para insetos e toda a natureza está crescendo, mas precisa de muito mais apoio, tanto por parte de governos como de consumidores.

Ainda não é tarde demais. A maioria das espécies de insetos ameaçadas ainda não foi extinta e pode se recuperar rapidamente se fo protegida.

O biólogo americano Paul Ehrlich comparou a perda de espécies ao desprendimento aleatório de rebites da asa de um avião. Remova um ou dois e o avião provavelmente ficará bem. Remova dez, 20 ou 50 e, em algum momento, ocorrerá uma falha catastrófica e o avião cairá do céu.

Os insetos são os rebites que mantêm o planeta funcionando. Quantos podem ser removidos com segurança do avião antes que ele caia?

 

Fonte: Por Dave Goulson - Professor de Biologia da Universidade de Sussex, para BBC News

A ordem e combinação dos alimentos podem influenciar a glicemia, saciedade e peso

Sempre fui fiel à ordem e combinação dos alimento, pois, intuitivamente, antes de estudar sobre glicemia, acreditava que “a ordem dos fatores” alterava, e muito, o produto.

E sim, vários estudos mostram que tanto a ordem quanto a combinação dos alimentos que consumimos em nossas refeições são capazes de influenciar na glicemia (glicose no sangue) após uma refeição.

•        Diferença entre índice glicêmico e carga glicêmica

Os carboidratos presentes nos alimentos, após serem digeridos e absorvidos, elevam a glicose no sangue e, consequentemente, estimulam a liberação da insulina. Esse hormônio é responsável por regular vários processos em nosso organismo, como a utilização da glicose como energia ou o seu armazenamento, em forma de glicogênio (hepático e muscular) e gordura corporal. Além disso, picos e quedas na glicemia, podem influenciar na sensação de fome.

Alguns alimentos apresentam a capacidade de elevar a glicemia mais do que outros, e isso ocorre devido à qualidade e a quantidade do carboidrato presente em sua composição.

Neste contexto, temos a definição de dois termos que classificam os alimentos de acordo com a sua capacidade em elevar a glicose sanguínea:

•        Índice glicêmico. É a capacidade que uma porção de alimento contendo 50 gramas de carboidratos tem de elevar a glicemia. Portanto, refere-se a um indicador qualitativo do carboidrato dos alimentos, que indica sua capacidade em elevar mais ou menos a glicose no sangue.

•        Carga glicêmica. O termo foi proposto posteriormente, e se refere ao efeito glicêmico do alimento em relação ao carboidrato presente em uma porção de alimento tipicamente consumida. Portanto, é considerado um indicador qualitativo e quantitativo de carboidrato

A diferença básica entre índice e carga glicêmica está na quantidade de carboidrato analisada. Enquanto o índice glicêmico reflete o efeito de 50 gramas de carboidrato de um alimento, a carga glicêmica se refere ao efeito proveniente do conteúdo de carboidrato presente em uma porção ingerida normalmente pela população.

•        E qual a influência da glicemia no peso?

Alguns estudos indicam que, em longo prazo, uma alimentação com elevada carga glicêmica pode levar ao desenvolvimento de diabetes, doenças cardiovasculares e depressão. A insulina é um dos hormônios responsáveis pelo acúmulo de gordura no nosso corpo. Logo, o consumo excessivo de alimentos de alto índice glicêmico, que elevam rapidamente a glicemia e a liberação deste hormônio, pode propiciar o aumento da gordura corporal e exigir um trabalho excessivo do pâncreas (que produz insulina), podendo levar ao seu futuro comprometimento e desenvolvimento de resistência à insulina e diabetes.

Além disso, as concentrações elevadas de insulina reduzem o funcionamento dos mecanismos de queima de gordura do corpo, promovendo o seu acúmulo e dificultando a perda de peso. Estudos reforçam que há uma influência direta da ingestão de alimentos ricos em carboidratos com alto índice glicêmico (IG), produzindo uma resposta glicêmica elevada, promovendo a oxidação pós-prandial de carboidratos em detrimento da oxidação de gordura, alterando assim a partição de combustível de uma forma que pode levar ao ganho de gordura.

Pensando em benefícios de dietas com baixo índice e carga glicêmica, estudos científicos clínicos apontam que ajudam no controle da hemoglobina glicada em pacientes portadores de diabetes do tipo 1 e tipo 2, e na redução na chance de excesso de peso e câncer. Além disso, podem melhorar o controle do peso, porque promovem a saciedade, minimizam a secreção de insulina pós-prandial e mantêm a sensibilidade à insulina.

Quando escolhemos nossos alimento, além da qualidade e quantidade, é importante nos atentarmos em evitar alimentos que façam picos glicêmicos e priorizar alimentos integrais ricos em fibras, micronutrientes, ômega-3 e probióticos. Já os macronutrientes são capazes de prolongar o tempo de esvaziamento gástrico, impedindo picos glicêmicos.

•        E como a ordem e a combinação pode influenciar na glicemia?

Alguns estudos mostram que a glicemia pós-refeição pode melhorar dependendo da ordem dos alimentos ingeridos. Começando com vegetais e alimentos proteicos e depois ingerindo os carboidratos, os participantes dos estudos experimentaram uma melhora significativa na glicemia pós-prandial (aumento do nível de glicose na corrente sanguínea cerca de 10 minutos após uma refeição). Esse simples ajuste da ordem alimentar fornece às pessoas que vivem com diabetes, por exemplo, uma ferramenta fácil para atingir as metas de controle da glicemia.

No estudo publicado no Diabetes Care, os indivíduos foram alimentados com a mesma refeição de frango grelhado, pão ciabatta, suco de laranja, alface e salada de tomate, além de brócolis cozido no vapor com manteiga, em dois dias diferentes. Os pesquisadores mediram os níveis de glicose e insulina antes da ingestão de alimentos e 30, 60 e 120 minutos após o início da refeição.

Quando os vegetais e as proteínas foram consumidos primeiro, antes dos carboidratos, em comparação com a ordem inversa dos alimentos, houve uma diminuição de 28,6% na glicemia média pós-refeição. Os autores concluíram que a sequência temporal da ingestão de carboidratos durante uma refeição tem um impacto significativo no nível pós-prandial de glicose e insulina.

Em outro estudo, os participantes consumiram a mesma refeição durante 3 dias, alterando os três tipos de alimentos separados: carboidratos, proteínas e vegetais (fibras).

Tal como no estudo anterior, os investigadores descobriram que embora todas as concentrações basais de glicose em jejum fossem semelhantes, os níveis de glicose diminuíram 30 e 60 minutos após a primeira ingestão de proteínas e vegetais.

Além disso, a primeira refeição com vegetais resultou em níveis mais baixos de glicose aos 30 e 60 minutos do que a primeira refeição com carboidratos. Os pesquisadores descobriram que o padrão de primeira refeição com vegetais e proteínas o nível de insulina foi 43,8% menor do que para o pedido de primeira refeição com carboidratos.

Um estudo de 2020, descobriu que o sequenciamento das refeições, consumindo especificamente proteínas antes dos carboidratos, promove a secreção precoce do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1). Este hormônio reduz a secreção de insulina e glucagon. A combinação desses fatores demonstrou melhorar as respostas de glicose pós-prandial. O GLP-1 também demonstrou suprimir o apetite, porque retarda o esvaziamento gástrico, mantendo a sensação de saciedade por mais tempo. Por esse motivo, o sequenciamento das refeições pode ajudar a melhorar as oscilações da glicose e a gerenciar valores mais estáveis.

Por isso, quando escolhemos os alimentos e os colocamos na ordem correta, podemos controlar as curvas glicêmicas e desfrutar de diversos benefícios, como maior saciedade, redução do risco de doenças metabólicas, controle do peso, dentre outros.

Outro ponto importante é combinar os alimentos em uma refeição. 

Por exemplo, quando combinamos proteínas e carboidratos elevamos menos a glicemia (do que quando consumimos o carboidrato separado). Esse efeito ocorre, pois as proteínas e gorduras levam ao atraso no esvaziamento do estômago, estimulando a liberação de hormônios que aumentam a liberação de insulina e com isso a absorção da glicose é lentificada. O resultado é a diminuição do pico glicêmico após a refeição.

 

Fonte: Por Dra. Paola Machado, para IstoÉ

 

O crime na tríplice fronteira

É manhã do último domingo de novembro de 2022, na terceira quadra da poeirenta e esburacada Avenida de La Amistad – que liga Tabatinga (Brasil) a Letícia (Colômbia), na tríplice fronteira amazônica que ambos os países compartilham com o Peru. A polícia isolou a área ao redor do bar La Tasca, em Letícia, com fita amarela. Na noite anterior, dois assassinos em uma motocicleta mataram quatro colombianos, um dos quais era menor de idade, nesse bar, que também é frequentado por brasileiros e peruanos. 

O massacre gerou uma atmosfera de medo e incerteza entre os vizinhos. Nem a polícia nem as famílias das vítimas quiseram falar sobre o assunto. Na época, uma equipe do OjoPúblico estava na área investigando o impacto do crime organizado na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. O assassinato múltiplo, no entanto, não foi um ataque isolado. Desde 2020, os homicídios aumentaram nessa área por causa do aumento da produção de cocaína no lado peruano da fronteira e da disputa pelo controle territorial. 

Dos quatro colombianos assassinados, um tinha várias acusações de tráfico de drogas e, no relatório da polícia colombiana – ao qual tivemos acesso para esta investigação – ele foi listado como membro do Comando Vermelho (CV), a mais antiga e uma das mais poderosas organizações criminosas do Brasil, que nos últimos anos fortaleceu sua presença na Amazônia peruana.

Há poucos dias – no início de agosto – um dos ataques mais recentes de membros dessa organização contra um grupo de policiais peruanos foi registrado em Ucayali, a outra região peruana na fronteira com o Brasil onde o Comando Vermelho também impôs sua presença.

Uma equipe da Rede de Investigação Transfronteiriça do OjoPúblico investigou – por meio de viagens pelo território, dezenas de entrevistas com líderes e policiais da Colômbia, do Brasil e Peru, e acesso a documentos oficiais – as atividades criminosas na região da tríplice fronteira. Antes apenas um comprador de cocaína produzida no Peru, o Comando Vermelho agora não apenas afastou as máfias locais, mas também comanda, em aliança com grupos armados colombianos, plantações de folhas de coca em territórios indígenas na margem peruana do rio Yavarí, um afluente do Amazonas. 

A tríplice fronteira amazônica se tornou um território disputado por vários grupos armados do Brasil, que se impuseram violentamente sobre as máfias locais peruanas e colombianas. Mas foi o Comando Vermelho que conseguiu dominar - como fez mais ao sul, na fronteira entre Ucayali (Peru) e Acre (Brasil) - grande parte das rotas desse território amazônico, onde predominam não apenas o tráfico de drogas, mas também a extração ilegal de madeira e a pesca. 

·         Uma escalada de violência

No dia seguinte ao massacre em Leticia, os moradores da tríplice fronteira compartilharam fotos da cena do massacre em seus grupos de WhatsApp e reclamaram da escalada da violência.

As estatísticas oficiais confirmam o aumento da violência, ainda que, como a própria polícia aponta, alguns homicídios não sejam registrados por causa da má interpretação da causa da morte nos hospitais. No caso de Leticia, na Colômbia, passou-se do registro de 6 para 32 homicídios entre 2020 e 2022. Essa escalada também é replicada no lado brasileiro. De acordo com um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em 2020, foram registradas 8.729 homicídios dolosos nos municípios que compõem a Amazônia brasileira. Noventa e um por cento das pessoas mortas eram homens e 50% tinham entre 15 e 29 anos.

Três fatos permitiram o avanço acelerado do Comando Vermelho nas fronteiras amazônicas: o desmonte do controle ambiental e territorial promovido durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) no Brasil, a falta de controle das autoridades peruanas e colombianas e, depois, a pandemia, que limitou os movimentos de policiais e militares.

A influência desse grupo criminoso começou a se consolidar depois que eles mataram uma grande parte dos membros da Família do Norte (FDN) - outra organização criminosa brasileira - no estado do Amazonas em 2019.

No dia seguinte ao massacre em Leticia, um grupo de agentes da Procuradoria Geral da Colômbia viajou para exigir explicações do comandante da Polícia do Departamento do Amazonas, William Javier Lara Avendaño. Após essa reunião a portas fechadas, Avendaño, que estava disposto a conceder uma entrevista ao OjoPúblico, recusou o encontro.

A violência na área da tríplice fronteira aumentou paralelamente ao aumento das plantações ilegais de folha de coca na Amazônia peruana e colombiana. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc) alertou em seu relatório anual de 2023 sobre a "transformação das áreas da tríplice fronteira na bacia amazônica em focos de violência".

Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) argumenta que "o déficit na governança e na estrutura do aparato de segurança pública, especialmente na capacidade de investigar crimes cometidos na região", deixou a região nas mãos da dinâmica do crime organizado e sua influência nos crimes ambientais. Ao manter o controle territorial, esses grupos criminosos também controlam as rotas utilizadas para o tráfico de madeira, peixes e outras espécies.

·         "Ninguém diz nada"

Além de outras atividades criminosas, como a extração ilegal de madeira e a pesca, a área da tríplice fronteira tem sido historicamente ligada à produção e ao comércio de drogas ilegais, especialmente cocaína e seu subproduto, a pasta de cocaína. 

Entre 2020 e 2022, as regiões onde o cultivo da folha de coca mais aumentou foram justamente as regiões da Amazônia peruana que fazem fronteira com o Brasil. Desde 2020, em Ucayali e Loreto, foi registrado um aumento nas áreas de cultivo de 1.966 e 8.722 hectares, representando um crescimento de 65% e 35%, respectivamente. 

Até 2020, de acordo com informações coletadas pelo OjoPúblico em entrevistas com autoridades policiais colombianas e brasileiras, grande parte da pasta de coca e da cocaína nessa parte da fronteira era produzida quase exclusivamente por grupos armados colombianos, que controlavam as plantações de folhas de coca ao longo do trecho peruano-colombiano da fronteira no rio Amazonas. Essa produção era então entregue a compradores no Brasil.

Nos últimos três anos, de acordo com as mesmas fontes policiais, os traficantes do Comando Vermelho começaram a expandir seu controle sobre as plantações e zonas de produção de pasta de coca no lado peruano do rio Yavari, uma área praticamente sem presença do Estado, onde os habitantes ribeirinhos e indígenas brasileiros e peruanos vivem em conflito pelo uso dos recursos.

João é um voluntário ambiental que trabalha há quatro anos com comunidades indígenas ao longo do rio Yavari, que divide o Peru e o Brasil. Seu nome, bem como os de outras fontes entrevistadas pelo OjoPúblico para esta reportagem, foram alterados para garantir sua segurança.

Nessa parte da fronteira, João conta que, antes da pandemia, havia duas comunidades plantando folha de coca no lado peruano do rio, mas, no final de 2022, já eram seis. "No início eles resistiram, mas depois da pandemia já estavam plantando coca. São comunidades muito pobres, e as que entraram nesse negócio estão prosperando. A diferença é clara", diz ele. 

Mas, como em outras áreas dos territórios indígenas, as plantações geram outros conflitos. "As pessoas vêm de fora para trabalhar nas plantações no território da comunidade e acabam se casando com as mulheres. Isso tem destruído os laços comunitários, gerando muita competição entre as famílias", explica.

Para os membros da comunidade que se opõem à expansão do cultivo de coca em seus territórios indígenas, entre o rio Javari e o Amazonas, há apenas silêncio.

"O Peru não tem nada de Estado aqui. Ninguém diz nada, porque não tem a quem recorrer. Não há promotoria pública na região, apenas um juiz de paz. Não há internet, nem agência de impostos, nem polícia, nem direitos humanos. As comunidades não têm como denunciar ou protestar. Não há meios para isso", conclui João.

·         "Hoje são os brasileiros que estão lá"

Sentado em um banco, observando os barcos passarem nas águas marrons do rio Amazonas, Ricardo relembra o argumento de seu ex-chefe quando ele lhe disse, há três anos, que deixaria o tráfico de drogas: "Se você sair, pessoas ruins entrarão no negócio, ele me disse. Mas eu não queria, estava farto do dinheiro e da ambição. Eu não conseguia ver nada mais à frente", diz ele.

Ele nasceu na Amazônia colombiana, mas Ricardo tem parentes no lado peruano e cresceu em comunidades ribeirinhas até começar a trabalhar em uma plantação de folhas de coca perto do rio Yavari, no Peru. Ele passou dois anos sem ver sua família, imerso na plantação e na colheita. Ele se lembra de que foi subindo gradualmente até se tornar o chefe de uma plantação, coordenando tudo, desde o plantio até a colheita, e organizando a segurança da fazenda. 

Depois, afirma ele, continuou a progredir até ser nomeado chefe de uma "cozinha", como é chamada a área onde as folhas de coca são convertidas em pasta de coca.

"Ele tinha uma equipe de assassinos contratados para fornecer segurança. Então vi rifles, metralhadoras. Eles fizeram um campo de tiro de um hectare e me treinaram lá. Você e os outros caras se tornam um grupo, eles lhe dão dinheiro, bebida, mulheres. Uma vez trouxeram um professor de Direito de Bogotá para nos explicar como agir e falar com a polícia. Um narcotraficante sempre tem de ser calmo e controlado, pelo menos foi isso que tive de aprender para transportar quantidades de drogas", diz ele.

As quantidades de drogas a que Ricardo se refere chegam a 100 quilos. À medida que subia na hierarquia do tráfico, ele se especializou em resolver o maior problema dos narcotraficantes: fazer com que as drogas atravessassem a fronteira. Nesse caso, tirá-las do lado peruano e colombiano e levá-las para o Brasil.

"Entre o [rio] Yavarí e Caballococha há muita coca. Em meu grupo havia brasileiros e colombianos, que eram os responsáveis. Eles me pagavam mil reais [aproximadamente 750 soles] por quilo que eu conseguia enviar. O mais comum é colocá-la no fundo falso das canoas; eu fiz um fundo falso em um motor de barco, um daqueles barcos de passageiros, para ir até Manaus.”

Caballococha é a cidade mais importante na fronteira do Peru com a Colômbia e o Brasil. Está localizada às margens do rio Amazonas, na província de Ramón Castilla, na região de Loreto, e é uma das áreas onde o cultivo da folha de coca mais se espalhou nos últimos anos. Ricardo conta que teve sorte de sair vivo do negócio. Seu chefe foi morto seis meses depois que ele se aposentou. "Havia rumores de que eles estavam matando colegas, pessoas de outro grupo. Eu já estava nessa atividade há muito tempo, tinha me tornado uma pessoa diferente", diz.  

O depoimento de Ricardo também confirma os relatórios da polícia colombiana sobre a reconfiguração das gangues criminosas na área da tríplice fronteira. "Hoje são os brasileiros que estão lá. O Comando Vermelho entrou e eles estão fechados com os colombianos. Antes não era assim, eram só colombianos e alguns peruanos". Ricardo enfatiza a aliança que o grupo criminoso brasileiro fez com os grupos armados colombianos.

Anteriormente, de acordo com a experiência de Ricardo, grande parte da produção da área era controlada por gangues criminosas colombianas de fora da Amazônia, que se aliavam a moradores peruanos para plantar e colher folhas de coca. Em alguns distritos, contudo, havia pequenas máfias controladas por peruanos que foram gradualmente "engolidas pelos colombianos".

Outros atores criminosos na área também são os cartéis mexicanos, que chegam à região, mas apenas como compradores. De acordo com informações da polícia, o Cartel de Sinaloa compra drogas em Caballococha, um dos territórios onde as plantações ilegais de folha de coca mais avançaram na fronteira.

·         "As facções criminosas querem se expandir"

Em frente a Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil), do outro lado do rio Amazonas, no lado peruano, fica a ilha de Santa Rosa, um ponto de terra em meio ao vai e vem de canoas, barcos e suas mercadorias. Em 2021, durante um assalto liderado por brasileiros no Banco de la Nación, um policial foi morto. "Descobrimos que policiais daqui estavam envolvidos nisso e que os autores eram Os Crias", disse Edson Larico Roque, da Polícia Nacional do Peru, ao OjoPúblico.

Este ano, uma mensagem circulou nos grupos de Whatsapp de moradores de Leticia, Tabatinga e Santa Rosa. Uma pessoa que se identificava como integrante de Os Crias afirmava que havia uma aliança entre esse grupo e o Primeiro Comando da Capital (PCC) nessa região. 

O PCC, a maior facção do crime organizado no Brasil, juntamente do Comando Vermelho, não tinha uma presença significativa na tríplice fronteira desde 2019, quando foi desalojado pelo CV.

Os Crias, que também se autodenominam Comando da Tríplice Fronteira, são uma gangue local de Tabatinga (AM) que surgiu após o reagrupamento de alguns dos membros sobreviventes da Família do Norte na rota do rio Amazonas.

De acordo com depoimentos, Os Crias, agora aliados ao PCC, contestam o controle territorial do CV, especialmente nas áreas próximas a Caballococha e ao rio Amazonas, no lado peruano da fronteira com a Colômbia. Entretanto, na área correspondente ao rio Yavari, na fronteira com o Brasil, o Comando Vermelho mantém o controle. 

Nesse contexto, as fontes consultadas apontam que, por trás do aumento dos assassinatos na tríplice fronteira, está essa disputa entre máfias pelo controle territorial.

"Dizem que Santa Rosa é um centro de abastecimento e trânsito de drogas para Manaus", diz o policial peruano Larico Roque, quando perguntado sobre o tráfico de drogas em sua área. Ele afirma que está contando os dias até ser transferido para outra parte do Peru.

O policial ressalta que seu trabalho só pode ir até certo ponto para conscientizar os cerca de 3 mil habitantes da ilha a não se envolverem com drogas e tráfico de drogas, e que eles não podem fazer mais nada. 

"Não estamos aqui para matá-los (criminosos). As facções querem se expandir. No ano passado, eles (os membros dos Crias) foram exterminados no Brasil pela polícia de lá. E este ano estamos tranquilos e esperamos que continue assim. Nosso objetivo é que eles (Os Crias) não voltem para cá. Não há solução para isso. Um morre e aparece outro. E continua assim", explica o policial peruano.

Em frente à delegacia de polícia de Santa Rosa, no Peru, dois barcos de alumínio capturados em operações no ano passado permanecem na grama, sem dono. 

Um policial colombiano em Leticia, que planeja se aposentar em breve, afirma que, de Santa Rosa, os traficantes de drogas monitoram o movimento da polícia colombiana e brasileira com drones e esperam o melhor momento para atravessar para a Colômbia, especialmente à noite, quando o tráfico de drogas é mais prevalente na Amazônia. "Nós sabemos, mas nossas mãos estão atadas. Não dá para atirar, essa parte do rio tem três quilômetros de largura", explica o policial ao OjoPublico.

A orientação do lado colombiano, assim como a da polícia de Santa Rosa, é evitar que a violência se espalhe para Letícia. "Nesse massacre em que quatro pessoas foram mortas, o bar ficava perto da fronteira. A polícia não pode proteger tudo isso. Costumávamos ter um controle melhor, mas os brasileiros têm assumido o controle de forma violenta nos últimos anos."

·         Antes que a bala tivesse um nome

Na região da tríplice fronteira, tudo está interligado: tráfico de drogas, tráfico de madeira, contrabando, tráfico e exploração sexual de crianças, tráfico de armas, tráfico de animais e pesca ilegal. A entrada de grupos do crime organizado do Sudeste do Brasil, a região mais rica e populosa do país, reformulou o crime na área da tríplice fronteira, dizem os moradores de Tabatinga.

Depois de assumir o controle da rota do rio Amazonas para Manaus, os grupos criminosos brasileiros (Comando Vermelho, em maior escala, e Os Crias e PCC, em menor escala) começaram a financiar outras atividades ilícitas através da fronteira e aumentaram a vigilância do território e os assassinatos.

O líder comunitário Marcos, que nasceu e cresceu em um bairro remoto de Tabatinga, agora nas mãos do Comando Vermelho, tenta lidar com essa realidade em transformação. "Depois da chegada dos grupos criminosos, tanto o número de assassinatos quanto o nível de violência aumentaram. Eles recrutam crianças na adolescência e, quando crescem, deixam o tráfico de drogas e se tornam mortos-vivos. Muitos se tornam pistoleiros e trabalham para seus antigos chefes", diz ele.

Marcos teve de deixar a área por um tempo depois de uma mudança de comando no bairro onde morava. Vários de seus amigos de infância que entraram para o tráfico de drogas, com a chegada das facções criminosas, foram mortos.

"Antes, os assassinos tinham um código de honra. Dizia-se que em Tabatinga não havia balas perdidas, que todo mundo tinha um nome. Eles só matavam uns aos outros para acertar contas, sem envolver inocentes. Mas, nos últimos anos, as coisas se tornaram mais violentas. Os jovens atiram e morrem pessoas que não têm nada a ver com o motivo do crime. Essa ética do bandido se perdeu com o crescimento do tráfico de drogas", analisa Marcos.

As forças de segurança da cidade de Tabatinga reconhecem, assim como suas contrapartes peruanas e colombianas, que não são fortes o suficiente para enfrentar o crime organizado de frente. 

O comandante da Polícia Militar de Tabatinga, coronel Marcelo Cavalcante, compara o número de forças de segurança brasileiras no local (Polícia Militar, Civil e Federal) - cerca de 150 homens no total - com o da polícia de Letícia, que tem mais de 500. O Estado deveria ser mais atuante", diz ele ao OjoPublico.

Chefe da Polícia Militar de Tabatinga, ele discorda da opinião de seu colega colombiano de que o aumento da violência é culpa dos brasileiros. "Assim como há pistoleiros brasileiros cometendo assassinatos em Letícia, há pistoleiros colombianos cometendo assassinatos aqui. Não há como dizer que isso está vindo de Tabatinga quando a maior produção de drogas vem da Colômbia, incluindo os cartéis internacionais", afirma ele.

OjoPublico entrou em contato com a Polícia Civil do Amazonas e a Polícia Federal do Brasil, mas ambos órgãos não quiseram comentar.

·         O controle do território é o controle das informações

O baixo nível de escolaridade e a falta de empregos formais na região da tríplice fronteira são dois dos fatores que levam os jovens a se juntarem às fileiras dos traficantes de drogas. 

O departamento de inteligência da polícia de Tabatinga estima que um quilo de cocaína pura é vendido por 1.000 dólares na fronteira. Quando chega a Manaus, a capital do Amazonas, no Brasil, custa entre 8 mil e 10 mil dólares. 

Enquanto o Comando Vermelho está mais estabelecido na rota do rio Javari, o PCC é um cliente dos produtores de cocaína em Caballococha, de acordo com informações de inteligência policial às quais o OjoPúblico teve acesso.

Em Lima, a polícia antidrogas (Dirandro) ressalta que nessa parte da fronteira também identificou a existência de pistas clandestinas montadas muito próximas aos rios para promover "uma rota via ponte aérea para o Brasil", a fim de transportar as drogas mais rapidamente para os portos marítimos.

Relatórios policiais aos quais o OjoPúblico teve acesso indicam que, desde 2018, redes criminosas ligadas ao Comando Vermelho e ao PCC construíram pistas clandestinas de mais de 800 metros nas regiões peruanas de Loreto e San Martin, "o que mostra a entrada de aviões bimotores e turbo hélices com maior autonomia e, em sua maioria, com registro brasileiro".

As informações colocam Loreto como a segunda região do Peru com o maior número de armas de fogo apreendidas de traficantes de drogas (17%), atrás apenas de Ayacucho (20%), onde está localizada a principal área de cultivo de folha de coca do país: o Vale dos Rios Apurímac e Ene (Vraem).

O último relatório da ONU classifica a rota do rio Amazonas como a segunda rota mais importante para as drogas traficadas para o Brasil. O país, atualmente o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, também é um corredor internacional, principalmente para países da África e da Europa.

Para o líder comunitário Marcos, a atmosfera em Letícia mudou após o massacre de quatro pessoas em novembro do ano passado. "Há uma rede muito grande de informantes, especialmente do Comando Vermelho. Portanto, é muito perigoso continuar tocando nesse assunto aqui na fronteira. De alguma forma, eles ficam de olho no que acontece no território, quem fala com quem, como e até que ponto. Tenha cuidado.”

A política de "quanto menos repressão, melhor" na Amazônia levada a cabo pelo governo brasileiro durante o governo de Jair Bolsonaro facilitou a expansão e as alianças entre grupos criminosos ao longo dos anos. A chegada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência pode mudar o impacto e o avanço dessas organizações criminosas na Amazônia. Por enquanto, foi anunciado o restabelecimento dos órgãos de fiscalização ambiental. 

Os mesmos grupos que operam na região da tríplice fronteira, como revelaram investigações anteriores do OjoPúblico, também estão presentes em outras áreas fronteiriças da Amazônia, como o rio Putumayo, entre o Peru e a Colômbia, e nos departamentos de Ucayali, no Peru, e Acre, no Brasil. 

Durante a Cúpula da Amazônia, no início de agosto em Belém, o Ministro da Justiça, Flávio Dino, reconheceu o crescimento das organizações criminosas no Brasil e pediu aos países amazônicos que criassem uma espécie de força policial internacional na Amazônia para enfrentar o crescimento do crime organizado.

Nesse evento, os chefes de Estado dos nove países pan-amazônicos concordaram em iniciar o diálogo para a construção de dois centros de inteligência e investigação em Manaus, o principal ponto de venda de drogas ao longo da rota do rio Amazonas, de onde fornecerão informações para a polícia de outros países.

 

Fonte: Ojo Público/Amazônia Real