quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O caldeirão eleitoral começa a esquentar

Dois fatos novos alteraram o clima morno das eleições. Um deles tem relação direta com o comportamento dos eleitores e ainda tem que ser avaliado nas pesquisas para ser descobrir o seu alcance real. Trata-se do que já é chamado de fenômeno Cury, candidato pra lá de nanico até o debate da Globo.

O outro é o escândalo provocado pela decisão do ministro André Mendonça, revelando as mensagens de Daniel Vorcaro para Alexandre de Morais, abrindo ao público um conflito até então latente no STF e aprofundando uma crise de confiança do público na nossa máxima instituição jurídica. Este último tem um efeito indireto no processo eleitoral, mas suas consequências podem ser muito mais perigosas para as instituições da República.

<><> O “fenômeno Cury”

Na última pesquisa da Quaest, do dia 2/9, Augusto Cury pula de 1% para 10% de intenção de voto, isto depois de ter saltado de alguns milhares para alguns milhões de seguidores nas redes sociais em uma semana. Este movimento excepcional está sendo explicado pela sua performance no debate de presidenciáveis da Band.

É bom lembrar que o debate foi bem esvaziado pela ausência de Lula e Flávio Bolsonaro, tendo sido menos assistido que a entrevista de Lula na Rede Record, e caracterizou-se por ataques ferozes de Renan Santos e Ronaldo Caiado ao presidente e candidato Lula. E o que disse Augusto Cury de tão importante para atrair tão rapidamente este fluxo de eleitores? Se pensarmos em propostas de governo, Cury foi tão ou mais raso e patético do que os outros. A diferença foi a postura, voltada a apelar para o fim da polaridade que divide o país desde 2013 e, sobretudo, desde o golpe contra Dilma Rousseff e a eleição de Bolsonaro pai.

A fala mansa foi um forte contraste com a agressividade dos outros, com Augusto Cury evitando centrar fogo em Lula ou em Flávio Bolsonaro, embora crítico do presidente. Cury cura (as feridas da guerra política) poderia ser o seu slogan de campanha, o seu apelo aos eleitores. Outra frase feita atraente foi “meu cérebro é capitalista e meu coração é social”, visando sensibilizar os eleitores críticos às orientações econômicas do governo e aqueles defensores dos programas sociais deste mesmo governo.

A postura de Augusto Cury foi bem capitalizada por seu forte esquema de divulgação nas redes sociais e atingiu os eleitores que estão cansados da polarização, em primeiro lugar os que se declaram “nem/nem”, nem anti Lula nem anti Flávio, ou ainda, mais amplamente, os que se intitulam independentes. Estes últimos são mais numerosos do que os primeiros, por incluir os que votam contra um ou outro dos pólos, sem maiores simpatias pelas suas preferências.

Embora a avaliação do “efeito Cury” tenha que esperar o desenrolar da campanha, o fato é que Augusto Cury é desconhecido por mais da metade dos eleitores e isto lhe dá margem para crescer nas próximas pesquisas. Se este movimento vai conseguir romper as bolhas que amarram as intenções de voto atuais é algo a se ver.

O voto pró Lula parece consolidado entre 35 e 40%. Já o voto anti Flávio Bolsonaro, que beneficia Lula, é menos significativo entre 5 e 10%, mas menos definitivo. Flávio Bolsonaro tem um voto bolsonarista fidelizado bem menor (entorno dos 20%) e um voto anti lula significativo (entorno dos 10%), mas também menos definitivo. É neste universo de uma polarização cansativa que Augusto Cury pretende crescer.

A maior margem de crescimento está na direita não bolsonarista e nos independentes. Estes últimos se dividem entre anti Lula, anti Flávio Bolsonaro e nem/nem, sendo que até agora predominam os dois últimos. O voto em Romeu Zema e Ronaldo Caiado, já foram canibalizados por Augusto Cury, enquanto o voto em Renan Santos levou um baque menor, mas significativo.

Para Augusto Cury se transformar na sonhada via de uma direita não bolsonarista, ele teria que dobrar as suas intenções de voto e derrubar pelo menos um terço das de Flávio Bolsonaro. Não é pouco, mas dado o claro esgotamento do eleitorado com o bolsonarismo, que vai encolhendo na sua bolha e que só se sustenta pela falta de alternativas à direita, a possiblidade existe. Não seria a primeira vez que um outsider da política se cria nas eleições brasileiras, desde outsiders autênticos como Cacareco e Tiririca até falsos, como Fernando Collor e Jair Bolsonaro.

Lula tem pouco voto a perder com uma eventual ascensão de Augusto Cury, mas esta pequena minoria que vota nele tapando o nariz para barrar o bolsonarismo pode ser decisiva num (por enquanto) improvável segundo turno Lula x Cury. Para quem duvida, é só lembrar que a candidatura Tarcísio de Freitas, abortada por Jair Bolsonaro, tendia a arrastar toda a direita, extrema direita, centro direita e centro em uma frente unificada. Para não perder a hegemonia no pólo de direita Jair Bolsonaro impôs a candidatura de Flávio, frágil até entre os bolsonaristas. Augusto Cury não empolgaria a direita bolsonarista, mas se sua chegada ao segundo turno se concretizar, ela não a sabotaria por ser a única chance da anistia ao patriarca preso.

<><> A crise do STF

Desde que foi revelada a relação mais do que suspeita de Dias Toffoli e Daniel Vorcaro há alguns meses, o STF já patinava no pântano pela sua tentativa de se isolar do desgaste, afastando informalmente o ministro do caso e passando pano no seu comprometimento com o banqueiro. Na mesma época, foi revelado o contrato multimilionário de Daniel Vorcaro com a mulher do ministro Alexandre de Morais e era uma questão de tempo o surgimento de outras revelações a partir da decodificação dos celulares do banqueiro pela Polícia Federal.

Para os que pretendiam “afogar o peixe” do comprometimento de Alexandre de Morais com Daniel Vorcaro, a redistribuição do inquérito para a tutela de André Mendonça foi um golpe mortal. Este ministro bolsonarista tinha todo o interesse em comprometer Alexandre de Morais, o algoz do energúmeno e de todos os golpistas, antigos compas do ministro terrivelmente evangélico.

Desde logo, André Mendonça agiu para blindar os investigadores da PF que tinham chegado até o desafeto do bolsonarista. A intenção era garantir que a direção da PF não interferisse nas investigações e garantisse o acesso de Mendonça aos dados comprometedores. Era óbvio que o caldo ia derramar a qualquer momento, bastando a André Mendonça retirar o sigilo da investigação para estourar a bomba. E ele o fez, não por acaso na mesma toada em que deixava em banho maria a investigação sobre as relações de Flávio com Daniel Vorcaro no caso do financiamento do filme Dark Horse.

As revelações sobre a relação de Alexandre de Morais com Daniel Vorcaro são suficientemente claras, mesmo sem o acesso aos celulares do ministro, para deixar Alexandre de Morais totalmente sem defesa, a não ser a tentativa de anular o relatório da PF por questões processuais. Mesmo que o STF vote por esta anulação o estrago está feito e não há como segurar a onda de pressões que a direita já está fazendo pedindo a renúncia de Morais ou mesmo o seu impeachment pelo Senado.

Desmoralizar o STF é tudo o que o bolsonarismo quer para voltar a levantar a suspeição de imparcialidade do Supremo no julgamento dos golpistas. Se o STF não afastar Alexandre de Morais e mesmo se o fizer, a campanha eleitoral vai ganhar um tema de fôlego: a necessidade de uma “limpeza” no Supremo com o impeachment de, pelo menos, Alexandre de Morais e Dias Toffoli.

E como fica a esquerda e a candidatura Lula neste imbróglio? Mal, muito mal. Primeiro porque o STF foi um esteio do governo para impedir várias tentativas de decisões legislativas desastrosas da maioria de direita no Congresso, desde os projetos de anistia até a legislação ambiental (em parte), entre outras.

Por isso mesmo, o STF é visto pelo público como um aliado do governo e da esquerda. Se a esquerda adotar a posição republicana de apoiar a necessidade de investigar Alexandre de Morais, isto não será suficiente para neutralizar o desgaste, mas se não o fizer o desgaste será ainda maior.

Do ponto de vista eleitoral, a campanha anti STF vai conclamar os votantes a elegerem deputados e senadores alinhados com a proposta de “limpeza”. E, obviamente, a direita vai tentar colocar Lula no mesmo balaio de Alexandre de Morais. Some-se a isto a moleza de André Mendonça na investigação de Flávio e seu açodamento na investigação de Lulinha, Jacques Wagner e Marcola (e outros que possam aparecer no caso Vorcaro) para a campanha da direita virar algo do tipo “vamos tirar todos os corruptos do poder, no executivo e no Supremo”.

Há muito tempo que eu constato que a esquerda lida muito mal com o tema da corrupção, desde o caso da prefeitura de Campinas até o mensalão, o petrolão e os casos do INSS e Master. Noves fora o lawfare da Lava Jato, que permitiu a anulação de todos os condenados através de tecnicalidades, ninguém que não seja ofuscado pela ideologia deixa de entender que houve corrupção em grande escala nos governos do PT, não esquecendo que os anteriores (FHC, José Sarney e os militares) e posteriores (Michel Temer, Jair Bolsonaro) também tenham se lambuzado fartamente.

O que a esquerda não percebeu, ao “fazer o que todo mundo sempre fez”, é que ela sempre esteve mais vulnerável do que a direita e o Centrão, que contavam com a cumplicidade das elites, dos tribunais e da mídia. Na lógica da esquerda, a sua corrupção era justificada por permitir atingir objetivos mais nobres e não para encher o bolso de uns e outros. A corrupção patrocinada pela esquerda era para comprar votos em um Congresso fisiológico e de direita e impulsionar os projetos estratégicos para o bem-estar do povo e a felicidade geral da nação.

Mas para o público, não há uma dupla moralidade, com bons e maus corruptos. E é por isso que a esquerda ficou acuada por sua impossibilidade de defender a diferença entre uma e outra corrupção, justificando a sua. Ela passa a negar as óbvias evidências de seus atos e a acusar todos os críticos de fascistas. Esta é uma das causas da formação das bolhas pró e contra a esquerda e sua dificuldade de atrair um eleitorado “moralista”.

Isto ficou ainda mais difícil pelo fato de que o PT se marcou, até chegar aos governos, pela defesa da “ética na política”. Hoje em dia os quadros do PT classificam esta posição como “udenista” e entregam a bandeira para a direita.

A direita nada de braçada no pântano da corrupção, inerente ao seu modo de vida e de governo, mas cinicamente acusa a esquerda de malfeitos, aproveitando o fato de que o mais que direitoso judiciário brasileiro marca de perto os erros da esquerda e passa o pano para os da direita.

A mídia convencional segue o mesmo princípio de usar dois pesos e duas medidas nos casos de corrupção, aliviando os escândalos de FHC, Michel Temer e Jair Bolsonaro e militando contra Lula e Dilma Rousseff. Basta comparar a inacreditável inquisição dos entrevistadores de Lula na TV Globo, usando dois terços do tempo para apertá-lo com perguntas sobre as suspeitas sobre Lulinha, Jacques Wagner e Marcola e pegando leve com Flávio Bolsonaro. O objetivo apregoado das entrevistas era discutir as propostas de governo dos candidatos, mas não foi isso que se viu na entrevista com Lula.

Mas toda esta marcação cerrada sobre Lula não deve esconder o fato de que este governo e os anteriores se lambuzaram em processos de corrupção. Dada a correlação de forças na sociedade e nas instituições a esquerda teria que ter sido mais pura do que “a mulher de César, que tinha que ser não só honesta como parecer honesta”.

Mesmo que esta pureza não fosse adotada por razões éticas, deveria tê-la sido por razões políticas, para não dar espaço para as campanhas da direita. E, não podemos esquecer, a ideia de que a esquerda pode fazer o que “os outros sempre fizeram” é um contrassenso. Em uma sociedade capitalista o corruptor (empresários) sempre vai dar mais dinheiro para a direita do que para a esquerda, mantendo o desequilíbrio financeiro nos embates eleitorais.

Neste caso Master, o mais espetacular da nossa história, havia a possiblidade da esquerda retomar a bandeira da anticorrupção, já que a direita foi a primeira a ser apontada pelas revelações iniciais da PF, comprometendo Flávio Bolsonaro. No entanto, o PT se juntou ao centrão e à direita no Congresso para sufocar no nascedouro uma CPI que poderia ter tido um papel importante, podendo até levar o candidato do bolsonarismo ao banco dos réus.

Naquele momento fiquei intrigado por esta aparente perda de oportunidade e a atribui a uma síndrome do telhado de vidro do PT, mas novas revelações foram mostrando (e pode haver outras) que os tentáculos de Daniel Vorcaro tinham enrolado gente do partido.

No fim das contas, o distinto público entendeu que todo mundo da política estava afundado na vala comum da corrupção. Isto pode anular este tema como divisor de águas na disputa eleitoral, mas deixa um gosto amargo no eleitor que vai ter que assumir o voto em “seu” corrupto ou rejeitar o processo eleitoral como um todo, ampliando o crescente volume dos não votantes.

Para terminar, o campo de batalha em que se transformou o STF tem um risco maior do que o resultado das eleições. A desmoralização de uma instituição fundamental no equilíbrio dos poderes da República leva água para o moinho dos eternos golpistas que buscam convencer o público que a democracia brasileira não tem salvação e que o país necessita de uma “limpeza” radical e de um “regime forte” como saída para nossas crises. As “vivandeiras alvoroçadas” voltaram a se animar para ressuscitar a ditadura.

¨      Democratizar o Brasil realmente existente. Por Emir Sader

Avançamos na democratização do Brasil. A ponto que um operário, de esquerda, foi eleito e reeleito presidente do Brasil. Significa que já existe um grau de democratização politica ou institucional no Brasil. A ponto que um líder operário, de esquerda, foi eleito e reeleito presidente do Brasil.

Mas daí a dizer que vivemos numa democracia plena, vai uma distancia enorme. Poucos operários conseguem se eleger, nem sequer como deputados. Poucos operários podem expressar o que pensam e ver o seu pensamento chegar aos outros operários e ao conjunto da sociedade.

Mas não apenas por isso. Pelas imensas desigualdades sociais que segue caracterizando a sociedade brasileira cabe não subestimá-las. Basta ir a um bairro dos Jardins ou do Morumbi e depois ir a um bairro das periferias de São Paulo, para nos darmos conta das verdadeiras dimensões dessas desigualdades.

Um bairro com ruas asfaltadas, com policiais para garantir a segurança das pessoas. Com shopping centers luxuosos. Com casas com automóveis. Com as pessoas circulando em carros ou em Uber. Enquanto, no outro polo, as casas estão descuidadas, sem pintura, Se sabe que as casas não tem agua quente, que abrigam uma grande quantidade de pessoas.

Pessoas que dormem poucas horas, que saem muito cedo, para enfrentar os transportes e chegar algumas horas depois ao trabalho. O que faz com que a jornada de trabalho não seja de 8 horas, mas de 12, se contamos todo o tempo que os trabalhadores têm que dispor para poderem trabalhar.

Uns tem sofisticados planos de saúde. Outros tem a felicidade de poderem dispor do SUS. Esperar o transporte, às vezes algumas horas até que passe um que pare, que não esteja superlotado. E quando pegam um ônibus ou um trem, ir apertados, varias horas, com um ou dois transportes.

Enquanto uns dormem quanto querem, outros não tem esse privilegio. Enquanto alguns convivem com sua família e seus filhos, outros dispõem de pouco tempo para isso, de um dia apenas, enquanto não se aprova a nova lei.

Enquanto uns tomam banho quente cedo, outros não tem o tempo ou não tem água quente. Uns tomam lautos cafés da manha, enquanto outros saem correndo, sem tomar café, nem comer nada de manhã.

Enquanto uns dispõem de tempo durante o dia, outros passam o tempo todo em função do seu emprego. Se sabe que a maior parte dos acidentes de trabalho se dão na primeira hora da jornada, quanto os trabalhadores chegam cansados, com sono.

São duas vidas muito distintas, quase como se fossem seres humanos de natureza distinta. Uns vivem mais tempo, vivem vidas muito melhores que as dos outros. Uns tem café da manha, almoço e jantar. Outros comem o que conseguem. Levam marmita para o trabalho, quando conseguem.

Uns tem férias, viajam nas férias. Outros usam a férias para descansar um pouco, conviver com a família e os filhos.

Uns dispõem de tempo, para descansar, passear, ler, ir ao cinema, ver televisão, praticar esportes, se encontrar com os amigos, se informar, responder mensagens, Dispõem de celulares ultra modernos e outros instrumentos modernos. Enquanto os outros, no máximo chegam a ter um celular, já velho, nem tem tempo para ler e responder as mensagens. Além de serem mais vitimas do roubo dos celulares e mais vitimas da violência.

Uns vivem uma vida temerosos da violência e dos roubos. Os outros vivem a violência e os roubos cotidianamente.

Uns colocam seus filhos nas escolas em que encontram vagas. Outros escolhem as escolas que acreditam que podem preparar melhor seus filhos para profissões mais valorizadas.

Uns viajam, conhecem o mundo. Outros mal e mal conhecem sua cidade, seu pais. Uns tem residências confortáveis. Outros vivem mal, com muitas pessoas numa casa só.

Uns expressam suas opiniões, escrever e publicam suas opiniões. Outros mal e mal conseguem dizer o que pensam a seus colegas de trabalho.

Uns se organizam, tem partidos, influenciam nos meios de comunicação. Outros no máximo são filiados aos sindicatos, podendo só às vezes participar das suas reuniões. Uns tem tempo para pensar, para refletir, para trocar opiniões, para ter acesso a meios de informação de vários países. Outros mal e mal tem tempo para garantir seus empregos, quando os tem.

Uns vãos aos cinemas, aos restaurantes, às livrarias, compram as coisas que lhes interessam. Outros mal e mal sobrevivem e descansam no tempo que lhes sobra.

Uns tem máquinas de lavar roupa e de lavar louça. Outros tem que fazer tudo à mão. Uns frequentam os shopping centers. Outros mal e mal podem ir a algum comercio ou farmácia, fazer alguma compra indispensável, quando tem dinheiro para isso.

Uns tem acesso a políticos, que podem lhes facilitar vantagens. Outros vivem isolados desse mundo.

Em suma, apesar dos avanços que os governos do PT têm conseguido, seguimos vivendo em sociedades capitalistas, com a exploração da força de trabalho, com a apropriação da riqueza por parte das classes dominantes.

Sociedades fundadas nas divisões e contradições de classe, que reproduzem as imensas desigualdades sociais e de toda ordem. Uns elegem seus representantes e se valem de tê-los em postos de governo. Outros se informam mal sobre os candidatos e não tem acesso aos que são eleitos.

Uns são seres humanos que vivem vidas longas e cheias de alternativas. Outros mal sobrevivem.

Em suma, as desigualdades sociais e de toda ordem ainda caracterizam as nossas sociedades. Basta ver quantas pessoas ainda vivem nas ruas, às vezes famílias inteiras. Alguns deles já vivem há muito tempo nas ruas, transformadas em suas casas, quando não são pessoas isoladas, das quais não sabemos nada, de onde vieram, se tem famílias, onde trabalharam a ultima vez?

Vivemos em sociedades profundamente desiguais ainda. Com diferenças sociais e de toda ordem profundas. Com classes sociais que vivem mundos totalmente diferentes.

Até que superarmos essas imensas diferenças, não podemos dizer que vivemos realmente em uma sociedade democrática, na sociedade realmente existente.

 

Fonte: Jean Marc von der Weid, em A Terra é Redonda

 

'Ninguém está preparado para as consequências da inteligência artificial', adverte cientista-chefe da OpenAI

O cientista-chefe da OpenAI, Jakub Pachocki, pediu "extrema cautela" em relação ao progresso desenfreado da inteligência artificial e alertou que pode ser necessário aumentar as intervenções para garantir que "os seres humanos permaneçam no controle do futuro".

"Receio que ninguém esteja preparado para as consequências de um aumento rápido e contínuo da inteligência das máquinas", escreveu ele em uma postagem intitulada An Alien Mind ("Uma mente alienígena", em tradução livre), publicada no blog da empresa.

A postagem surgiu poucos dias depois que o fabricante do ChatGPT publicou seu último modelo, o GPT-6 Astra, considerado o produto mais poderoso da empresa até aqui.

A OpenAI e outras empresas de IA, como a Anthropic, relataram que seus agentes de IA já agiram de forma autônoma, realizando ciberataques reais contra outras empresas.

Em julho, a OpenAI divulgou um incidente "sem precedentes", no qual seus agentes de IA (sistemas de IA que podem operar isoladamente, com base em instruções humanas) hackearam a plataforma de tecnologia Hugging Face.

Paralelamente, um relatório publicado em setembro afirmou que, meses atrás, agentes de IA da empresa também sequestraram um website alemão.

"Estamos enfrentando uma transição para um mundo com máquinas incrivelmente inteligentes e precisamos garantir que a transição funcione bem para a humanidade", escreveu Pachocki na sua postagem.

Ele afirma que a OpenAI continuará a "construir sistemas defensivos" e buscar soluções técnicas para alinhamento, um termo usado para descrever formas de garantir que as ações e os objetivos da máquina coincidam com os limites de segurança e intenção humanas.

Pachocki destacou que uma das principais prioridades da empresa para o futuro seria construir um "pesquisador automático por IA" para acompanhar o progresso da inteligência artificial, garantindo, ao mesmo tempo, formas para que os pesquisadores humanos permaneçam sendo parte do processo.

"Em vez de melhores limites para a IA, regulamentações ou formas de garantir a segurança das pessoas, eles propõem o desenvolvimento de agentes de IA internos para pesquisar esses problemas", afirma a professora Gina Neff, diretora do Centro Minderoo de Tecnologia e Democracia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Para ela, "essas respostas a preocupações cada vez maiores sobre os problemas causados pelos modelos da OpenAI para a cibersegurança, perda de empregos, erros e fraudes simplesmente não são suficientes".

Nathan Calvin, consultor geral do grupo ativista Encode AI, concorda com Pachocki sobre os riscos existentes no desenvolvimento avançado de modelos de IA. Mas ele afirma que a OpenAI não está disposta a ser transparente.

Com isso, os alertas correm o risco de serem minimizados como "simples exageros por interesse próprio".

"Se Jakub e outros da OpenAI querem que pessoas relevantes do setor de IA ajam em conjunto com eles para fazer com que tudo saia bem, uma das ações mais importantes que eles podem tomar é divulgar muito mais informações sobre as causas que os levaram a pedir cautela", escreveu ele no X.

<><> Quais são os limites vigentes para a IA?

As regulamentações globais enfrentam dificuldade para acompanhar a velocidade do desenvolvimento da inteligência artificial.

No dia 2 de agosto, entrou em vigor a Lei de IA da União Europeia. Ela exige que as gigantes da IA, como a OpenAI, comprovem que seus modelos mais poderosos não podem lançar ciberataques autônomos, nem fugir do controle humano, para que sua venda na Europa seja permitida.

Mas, como a jurisdição da lei é restrita à Europa, ela não pode impedir que uma IA mal intencionada desenvolvida em outra parte do mundo ameace o continente.

Na sua postagem, Pachocki pede limites mínimos de segurança exigidos por lei ou internacionalmente, que possam ser implementados por uma "rede de auditores terceirizados" ou "agências governamentais".

Todos os laboratórios precisariam respeitar estes limites, segundo eles, antes de serem autorizados a continuar desenvolvendo ou ampliando seus modelos avançados.

Ele destaca esperar que "reduções voluntárias da velocidade" (pausas no desenvolvimento da IA autoimpostas pelas próprias empresas) se tornem normais até que sejam estabelecidos limites comuns.

Em agosto, a OpenAI declarou ter reduzido o treinamento de alguns dos seus modelos mais avançados de IA para aumentar a segurança.

¨      A inteligência artificial segundo Renato Dagnino. Por João dos Reis da Silva Júnior

A discussão pública sobre a inteligência artificial costuma começar tarde demais. Em geral, parte-se da velocidade dos sistemas, da precisão de suas respostas, dos riscos de substituição do trabalho humano ou das possibilidades de aumento da produtividade. Pergunta-se o que a inteligência artificial fará conosco, como se ela tivesse chegado à sociedade vinda de fora da história, dotada de uma direção própria e irresistível.

O núcleo do pensamento de Renato Dagnino obriga a recuar um passo. Antes de indagar o que a inteligência artificial pode fazer, é necessário perguntar quem definiu os problemas que ela deve resolver, quais relações sociais orientaram seu desenvolvimento, quem controla sua infraestrutura, quem se apropria dos resultados e que formas de vida são descartadas durante esse processo. A técnica, nessa perspectiva, não é um conjunto neutro de instrumentos à espera de uma utilização boa ou má. Ela materializa escolhas, valores, interesses e relações de poder.

 <><> A crítica da neutralidade

O primeiro eixo do pensamento de Renato Dagnino é a crítica à neutralidade da ciência e da tecnologia. A concepção convencional sustenta que o conhecimento científico seria universal e que a tecnologia constituiria sua aplicação prática. Nessa imagem, os problemas sociais decorreriam do uso inadequado de instrumentos que, em si mesmos, permaneceriam neutros. Bastaria, então, educar usuários, criar códigos de ética e impedir abusos.

Renato Dagnino desmonta esse raciocínio ao mostrar que valores e interesses participam da própria construção do conhecimento. Eles influenciam a escolha dos problemas, os critérios de eficiência, as formas de financiamento, os métodos de pesquisa e o desenho dos artefatos. A política não aparece apenas depois que a tecnologia está pronta; ela já está dentro de sua concepção.

Aplicada à inteligência artificial, essa crítica revela a insuficiência das discussões limitadas à ética do uso. Evidentemente, são necessárias regras contra discriminação algorítmica, vigilância abusiva, falsificação e opacidade. Mas a regulação dos efeitos não alcança, sozinha, o núcleo do problema. Se os modelos são construídos por corporações cuja rentabilidade depende da extração de dados, da concentração de infraestrutura e da substituição de trabalho vivo, a racionalidade empresarial estará inscrita na definição de seus objetivos.

Um sistema pode obedecer a normas de segurança e continuar reforçando a mercantilização da educação, da saúde, da cultura e das relações pessoais. A pergunta crítica não é apenas se a máquina funciona corretamente, mas para quem e para qual projeto de sociedade ela funciona.

O segundo alvo de Renato Dagnino é o determinismo tecnológico: a crença de que o desenvolvimento técnico percorre uma trajetória inevitável e que a sociedade deve apenas adaptar-se. Esse determinismo costuma apresentar a inteligência artificial como uma etapa natural do progresso. Governos, empresas e universidades seriam compelidos a adotá-la sob pena de ficarem para trás.

A aparência de inevitabilidade despolitiza decisões que poderiam ser disputadas. Quando alguém afirma que não há alternativa à automação, oculta quem decidiu automatizar, que custos sociais foram considerados aceitáveis e quais outras trajetórias tecnológicas deixaram de receber recursos. O futuro aparece como uma consequência da máquina, quando é, na realidade, o resultado de uma correlação de forças.

 <>< Da ciência e tecnologia à tecnociência

Por essa razão, Renato Dagnino prefere falar em tecnociência. O termo denuncia a separação ideológica entre uma ciência supostamente pura e uma tecnologia entendida como aplicação posterior. Nas sociedades contemporâneas, a produção científica, o desenvolvimento técnico, o financiamento e a apropriação econômica formam um processo integrado.

A inteligência artificial evidencia essa unidade. Avanços matemáticos dependem de capacidade computacional; a capacidade computacional depende de investimentos bilionários; os modelos dependem de bases de dados produzidas socialmente; sua difusão depende das plataformas que controlam o acesso aos usuários. Pesquisa fundamental e negócio não são momentos isolados. Formam um mesmo circuito de poder e valorização.

O conceito permite compreender por que não basta reivindicar mais ciência, mais inovação ou mais investimento. Essas demandas dizem pouco enquanto não se esclarece a orientação social do conhecimento produzido. Uma política pode aumentar laboratórios, bolsas e patentes e, ao mesmo tempo, aprofundar a dependência. Pode formar pesquisadores qualificados para resolver problemas definidos no exterior, socializar os custos da pesquisa e privatizar seus benefícios.

Pode celebrar a inovação enquanto reduz a maioria da população à condição de consumidora de soluções importadas. Para Renato Dagnino, a questão decisiva não é a quantidade abstrata de tecnociência, mas sua direção: quais atores participam da definição da agenda e quais necessidades são reconhecidas como dignas de mobilizar o potencial cognitivo da sociedade.

Outro conceito central de Renato Dagnino é o de política cognitiva, que reúne aquilo que costuma ser separado como política de ciência, tecnologia e inovação e política de educação. A aproximação é fecunda porque a capacidade tecnocientífica de um país não nasce apenas em laboratórios ou empresas. Ela se forma nas escolas, universidades, instituições públicas, movimentos sociais e experiências de trabalho.

Separar educação de ciência e tecnologia impede perceber como se organiza o conjunto das capacidades de conhecer e transformar a realidade. Também esconde que a universidade ocupa uma posição estratégica: ela forma trabalhadores do conhecimento, legitima critérios de excelência, distribui prestígio e participa da definição dos problemas considerados científicos.

Renato Dagnino dirige uma crítica firme à elite científica quando ela reivindica autonomia para decidir a agenda, mas aceita como universais os critérios produzidos nos centros hegemônicos. A defesa abstrata da ciência pode converter-se em defesa corporativa de instituições, disciplinas e mecanismos de avaliação que reproduzem prioridades externas.

Publicar nos periódicos de maior impacto, inserir-se em redes internacionais e transferir tecnologia para empresas são apresentados como sinais indiscutíveis de qualidade. Entretanto, em uma sociedade dependente e profundamente desigual, esses critérios podem distanciar a universidade das necessidades da maioria. A excelência medida pelo reconhecimento dos pares não coincide necessariamente com relevância social.

É nesse ponto que sua análise da inteligência artificial atinge a universidade. Enquanto a instituição permanecer subordinada à crença na neutralidade e à ideia de que a empresa é o destino natural do conhecimento, terá dificuldades para questionar a direção da inteligência artificial. Poderá ensinar programação, comprar licenças, criar centros de inovação e celebrar parcerias, mas continuará operando dentro de uma agenda definida por grandes corporações.

A crítica não é um chamado ao isolamento. É uma exigência de autonomia substantiva: capacidade coletiva de escolher problemas, desenvolver soluções e avaliar resultados a partir das necessidades sociais, não apenas das demandas do mercado e das métricas internacionais.

 <><> Dependência e inteligência artificial

Aqui se abre o diálogo entre Renato Dagnino e a episteme da modernidade dependente. A dependência não deve ser reduzida ao atraso que uma política de inovação bem executada poderia superar. Ela é uma forma histórica de integração subordinada. Os países periféricos participam da modernidade, mas o fazem sob o controle de atores capazes de concentrar capital, tecnologia, informação e poder normativo. Na inteligência artificial, essa assimetria assume forma extrema.

Poucas corporações controlam os modelos de fronteira, a computação em nuvem, os chips avançados, os sistemas operacionais, as plataformas de distribuição e parte considerável dos dados. Os países dependentes entram nesse circuito como fornecedores de informação, energia, minerais e trabalho barato, além de consumidores de serviços cujo funcionamento não dominam.

Minha hipótese acrescenta a esse diagnóstico a dimensão do tempo histórico. A dependência contemporânea é também o controle, por outros, da capacidade de decidir o ritmo e a direção da mudança. Quem controla a infraestrutura de inteligência artificial não controla somente uma mercadoria presente; controla possibilidades futuras.

Define padrões, cria dependências técnicas, antecipa mercados e obriga instituições periféricas a reorganizarem suas atividades segundo calendários externos. A cada nova geração de modelos, universidades e governos são pressionados a correr para alcançar uma fronteira que não ajudaram a estabelecer. O atraso deixa de ser uma distância a vencer e torna-se um mecanismo permanentemente reproduzido.

O problema não reside em uma suposta aversão à empresa ou ao desenvolvimento tecnológico. Trata-se de reconhecer que a racionalidade empresarial seleciona problemas conforme a possibilidade de lucro. Necessidades coletivas de enorme importância podem permanecer sem solução porque seus beneficiários não formam um mercado solvente.

Saneamento, atenção básica à saúde, habitação popular, educação pública, agricultura familiar e prevenção de desastres exigem conhecimento sofisticado, mas não oferecem necessariamente a rentabilidade buscada pelo capital. Uma política de inteligência artificial guiada apenas pela demanda empresarial ampliará as capacidades daqueles que já possuem poder econômico e converterá carências sociais em invisibilidade técnica.

A universidade pública não pode substituir sozinha a estrutura produtiva, nem lhe cabe assumir a responsabilidade integral pela soberania tecnológica. Sua função, contudo, é maior do que fornecer mão de obra qualificada e protótipos para o mercado. Ela pode tornar visíveis necessidades excluídas, organizar cooperação entre saberes, formar quadros públicos e participar do desenho de alternativas.

Para isso, precisa abandonar tanto a fantasia de neutralidade quanto a expectativa de que a inovação empresarial resolverá, por encadeamentos espontâneos, os problemas nacionais. A autonomia universitária ganha conteúdo quando se vincula à capacidade de deliberar democraticamente sobre a produção e o destino do conhecimento.

 <><> Tecnociência solidária como mudança de direção

A resposta propositiva de Renato Dagnino aparece no conceito de “tecnociência solidária”. Não se trata simplesmente de aplicar tecnologias existentes em comunidades pobres, nem de reduzir padrões de qualidade para oferecer soluções baratas. Trata-se de construir outra plataforma cognitiva, orientada por relações de produção baseadas na cooperação, na propriedade coletiva e no trabalho associado. A diferença é profunda. Na tecnociência capitalista, a concepção do processo produtivo tende a separar quem decide de quem executa e a subordinar eficiência à acumulação. Na tecnociência solidária, os produtores devem participar da definição do problema, do desenho da solução e da apropriação de seus resultados.

Essa formulação impede que a crítica à inteligência artificial termine em recusa romântica da técnica. A questão não é voltar a um mundo anterior aos algoritmos, mas reprojetar capacidades tecnocientíficas segundo outros valores. Sistemas de inteligência artificial poderiam apoiar cooperativas, redes públicas de saúde, escolas, agricultura familiar e gestão democrática de territórios.

Poderiam reduzir trabalhos penosos sem produzir desemprego, desde que os ganhos de produtividade fossem socializados. Poderiam ampliar o acesso ao conhecimento sem transformar estudantes e professores em fontes gratuitas de dados. Nada disso decorrerá automaticamente da tecnologia. Exige instituições, financiamento, propriedade adequada da infraestrutura e participação efetiva dos grupos sociais envolvidos.

O conceito de “adequação sociotécnica” é especialmente importante. Tecnologias criadas sob a lógica capitalista não são peças neutras que podem ser transferidas intactas para outro projeto. Muitas precisam ser modificadas porque sua arquitetura incorpora controle, hierarquia, vigilância e dependência. Na inteligência artificial, adequar sociotecnicamente significa examinar dados, objetivos, modelos, interfaces, condições de trabalho e formas de propriedade.

Um sistema voltado à educação pública não pode ser apenas a versão gratuita de um produto comercial. Deve ser construído com professores e estudantes, proteger os dados, permitir auditoria, respeitar o tempo pedagógico e fortalecer, em vez de esvaziar, a autonomia do trabalho docente.

Na educação superior, o debate tem sido empobrecido pela oposição entre proibir e liberar ferramentas generativas. Essa alternativa ignora a transformação mais profunda. A escrita acadêmica não é apenas produção de frases; é um processo de elaboração do objeto, confronto com evidências e construção de autoria. Quando a inteligência artificial entrega uma resposta antes que o estudante tenha formulado adequadamente a pergunta, pode interromper a experiência formativa. Mas a simples proibição também falha, porque preserva práticas pedagógicas rotineiras e avaliações baseadas na repetição. O problema central é reconstruir as condições do trabalho intelectual.

Uma universidade orientada pela soberania cognitiva deve ensinar os estudantes a interrogar a infraestrutura, os dados e os interesses presentes nos sistemas. Deve utilizar a inteligência artificial como objeto de crítica e, quando adequado, como instrumento subordinado a propósitos explicitamente educativos. Isso requer tempo para ler, discutir, errar, revisar e escrever. Requer também condições de trabalho que permitam ao professor acompanhar processos, em vez de apenas verificar produtos finais. Se a instituição responde à inteligência artificial aumentando vigilância e padronização, reforça a mesma racionalidade que deveria questionar.

A autoria, nesse quadro, não se confunde com a ausência de ferramentas. Todo trabalho intelectual se apoia em linguagem, tradição e cooperação. Autoria é a responsabilidade pela escolha do problema, pelo caminho argumentativo, pelas evidências mobilizadas e pelas consequências do que se afirma. Um pesquisador pode usar recursos computacionais e permanecer autor, desde que não terceirize o juízo. A fronteira ética decisiva passa pela possibilidade de explicar, revisar e responder pelo texto. A inteligência artificial deve permanecer subordinada ao processo de pensamento, e não ocupar silenciosamente o lugar no qual se constitui a posição do sujeito.

 <><> Um diálogo necessário

O encontro entre Renato Dagnino e a episteme da modernidade dependente produz uma conclusão exigente. Dagnino oferece os instrumentos para demonstrar que a inteligência artificial é tecnociência socialmente construída, que a política cognitiva brasileira reproduz interesses e critérios inadequados e que outra trajetória depende da tecnociência solidária.

A teoria da dependência, atualizada pela categoria do controle do tempo histórico, mostra por que a subordinação se recompõe mesmo quando aumentam a escolarização, a produção científica e o acesso a artefatos avançados. Pode haver modernização tecnológica sem soberania; aceleração sem direção própria; inovação sem desenvolvimento social.

O mérito maior do pensamento de Renato Dagnino está em impedir que a esquerda seja apenas consumidora crítica de um futuro produzido pelo capital. Denunciar os riscos da inteligência artificial é insuficiente se continuamos aceitando como dada a trajetória que os produz. A política começa antes do uso, no momento em que se decide o que pesquisar, financiar e construir. Começa também quando se reconhece que trabalhadores e comunidades não são beneficiários passivos, mas portadores de conhecimento e participantes do projeto tecnocientífico.

A inteligência artificial concentra uma disputa sobre o conhecimento, o trabalho e o futuro. Sua potência não deve ser negada, mas tampouco confundida com destino. Ela pode aprofundar a vigilância, a desigualdade e a dependência; pode também integrar uma reorganização democrática das capacidades sociais. Entre essas possibilidades não existe uma ponte puramente técnica. Existe luta política, construção institucional e escolha coletiva.

O núcleo do pensamento de Renato Dagnino pode ser condensado numa proposição: toda tecnociência contém um projeto de sociedade. A inteligência artificial hoje dominante contém o projeto das grandes corporações, da propriedade privada dos dados, da concentração da infraestrutura e da aceleração competitiva. Enfrentá-la não significa apenas estabelecer limites éticos ao seu funcionamento. Significa criar condições materiais para outra tecnociência, vinculada à economia solidária, aos serviços públicos, aos direitos e à soberania popular.

Nos países dependentes, a tarefa inclui recuperar o direito de governar o próprio tempo. Isso significa não aceitar que a agenda universitária seja continuamente redefinida por lançamentos empresariais, que o fundo público financie adaptações tardias ou que as novas gerações sejam preparadas apenas para operar sistemas concebidos em outro lugar. Soberania temporal é poder sustentar projetos longos, formar capacidades, preservar memória institucional e decidir quais futuros merecem ser construídos.

A universidade pública tem responsabilidade decisiva nessa disputa, mas não poderá vencê-la sozinha. Precisa reconhecer seus limites, romper a autorreferência e construir alianças com trabalhadores, movimentos, instituições públicas e experiências solidárias. Sua contribuição não está em prometer que produzirá, isoladamente, a próxima plataforma global. Está em mobilizar o conhecimento para tornar possíveis outras formas de vida, outros critérios de eficiência e outras relações entre técnica e sociedade.

Lido a partir da inteligência artificial, Renato Dagnino nos devolve uma pergunta que o discurso da inovação procura silenciar: quem tem o poder de projetar? A resposta atual é inquietante, porque esse poder se encontra extraordinariamente concentrado. Mas a pergunta também abre um campo de ação. Se a tecnologia é socialmente construída, sua direção pode ser disputada. Se a dependência controla o tempo histórico, a emancipação começa pela recuperação coletiva da capacidade de decidir o que fazer com o tempo que ainda não vivemos.

 

Fonte: BBC News/Programa More or Less, BBC Radio 4/A Terra é Redonda

 

Os alertas vermelhos na campanha de Lula e as armas que ele quer usar

A primeira metade da campanha eleitoral quase acabou e, até o momento, o saldo parece ser negativo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No primeiro dia da campanha, quando Lula realizou um ato em São Bernardo do Campo (SP) tentando resgatar a sua história de líder metalúrgico no ABC, a estratégia era conquistar apoio, avançar com pautas positivas para o governo e, assim, navegar com uma certa distância de seu principal rival para chegar ao segundo turno com fôlego.

Naquele dia, 16 de agosto, Lula estava numericamente a frente de seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, no cenário para segundo turno.

Ele aparecia com 45% e Flávio com 43%. Agora, os dois aparecem empatados numericamente com 44%.

A campanha de Lula via nesta semana a possibilidade de um alívio após dias de pressão pela divulgação de trechos de investigações sobre o filho mais velho do presidente, Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha.

A aposta era de que a semana pudesse entregar algum alívio no noticiário com a aprovação de pautas positivas para o governo como o fim da taxa das blusinhas e a aprovação do projeto do fim da escala 6x1.

Mas a crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF), que tem como pano de fundo o escândalo do Banco Master, atrapalhou, para dizer o mínimo, os planos para que a campanha do petista decolasse.

<><> Crise no Supremo

A avaliação de uma fonte próxima à campanha consultada pela BBC News Brasil é que a crise na qual o Supremo mergulhou pode respingar em Lula, devido ao sentimento antisistema que pode ficar ainda mais latente agora.

Às vésperas da eleição, o efeito "contra tudo isso que está aí" pode contaminar a candidatura do petista, afirmou a fonte, que pediu para não ter o nome divulgado.

Além disso, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, é visto pela opinião pública como alguém próximo a Lula. Seu suposto envolvimento e proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, segundo apontaram as investigações da Polícia Federal tornadas públicas nesta semana, podem causar impacto na imagem de Lula.

Na visão do interlocutor, desgastar Moraes pode respingar no presidente pelo simples fato de o ministro ser visto como alguém alinhado ao petista.

De olho nos possíveis desdobramentos, Lula foi às redes sociais, na quinta-feira (3/9), dizer que "diante da gravidade do momento, o povo brasileiro espera que o presidente da Suprema Corte e a Procuradoria-Geral da República liderem um processo que garanta a integridade e a confiança nas investigações."

Sem mencionar nomes, disse que "nossa democracia não pode ficar refém de vazamentos seletivos."

"Fica claro que nossos sistemas político e judiciário precisam de reformas profundas. É fundamental que se investigue todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer", disse Lula.

O estopim da crise foi a retirada de sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que aponta que o banqueiro Daniel Vorcaro, preso desde março, trocava mensagens com um contato atribuído a Alexandre de Moraes. A decisão por tornar público o inquérito foi do relator do caso, o ministro André Mendonça.

A BBC News Brasil mostrou que o número de telefone atribuído pela PF a Alexandre de Moraes também está associado a contas digitais identificadas com o nome do ministro.

Nas conversas, o banqueiro pede conselhos a Moraes e até a intervenção do ministro a seu favor junto ao diretor da PF, Andrei Neto, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Os diálogos também mostram que o banqueiro cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

O escritório nega irregularidades no contrato. Moraes ainda não se manifestou sobre o caso, mas reagiu na Corte: enviou um despacho no âmbito do Inquérito das Fake News acusando Mendonça de, "em tese", ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade judicial" e "favorecimento a determinados grupos políticos".

Segundo Moraes, que usou relatórios da inteligência da PF para as acusações, Mendonça teria cometido tais crimes ao atuar como relator dos casos do escândalo do INSS (Operações Sem Desconto) e do Banco Master (Operação Compliance Zero).

O despacho e os documentos citados foram enviados ao presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, pedindo que ele tome "as providências que entender necessárias".

Em meio ao fogo cruzado, Fachin precisou se posicionar. Na sexta-feira (4/9), o ministro fez um pronunciamento ao lado de Lula, durante uma cerimônia no Palácio do Planalto relacionada a fundos de financiamento do sistema de Justiça.

No discurso, Fachin afirmou que a crise atual no tribunal reforça a necessidade de encerrar o Inquérito das Fake News. Criado em 2019, o inquérito é de relatoria de Moraes e é renovado desde então, sob críticas de especialistas.

O inquérito se tornou uma das principais frentes de investigação do STF contra ataques às instituições e a disseminação de desinformação, atingindo políticos e ativistas ligados ao bolsonarismo.

"Os acontecimentos recentes demonstram o acerto e a urgência de três metas da nossa gestão: a adoção de um Código de Ética, o fim do Inquérito das Fake News, e a modernização do sistema de Justiça."

Fachin também disse que "nenhuma autoridade está acima da Constituição, nenhuma autoridade está acima da lei". E prometeu resposta rigorosa para a crise, mas sem precipitação.

A crise, segundo fonte consultada pela BBC, também leva para longe uma munição valiosa para a campanha de Lula: o caso Dark Horse, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As investigações sobre Vorcaro mostraram que o banqueiro deu dinheiro, a pedido de Flávio, para, supostamente, financiar o longa.

O senador nega ter praticado qualquer irregularidade e disse que a relação com o dono do Banco Master era meramente comercial. Segundo o parlamentar, ele estaria apenas cobrando parcelas atrasadas de um pagamento prometido pelo banqueiro ao filme.

Para o interlocutor petista, os holofotes sobre os ministros do Supremo afastam o debate sobre uma suposta relação de Flávio com o banqueiro.

Além disso, segundo ele, a situação coloca Lula em uma posição politicamente difícil. Embora, internamente, Moraes não seja tratado como um aliado, há um entendimento de que Lula deverá calcular com cuidado o quanto se distancia de um ministro até então bastante poderoso no STF.

A ideia é que esse distanciamento sirva para "blindar" Lula por um lado, mas não cause ruídos na relação do presidente com o ministro.

<><> Dependência do Congresso

A crise instalada no Supremo "sequestrou o debate público", avalia o interlocutor, e pode ainda atrapalhar o avanço ou o impacto de projetos que o Planalto previa aprovar no Congresso na reta final de campanha, como o fm da escala 6x1.

Desde o início do ano, o governo vem tentando atrair novos eleitores lançando mão de políticas para estimular a economia. Na cesta de Lula, entraram em vigor a redução do imposto de renda para a classe média, a linha de crédito para entregadores e a nova versão do Desenrola para a negociação de dívidas.

Além disso, programas sociais, como o Gás do Povo e Luz do Povo, foram turbinados.

Nada disso, no entanto, deu fôlego para levantar significativamente a avaliação positiva do presidente. Do início do ano para cá, a aprovação de seu governo passou de 45% no início de fevereiro para os atuais 47%, segundo o Datafolha. Metade (50%) dos entrevistados desaprova a gestão do petista.

Segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, essa letargia também se reflete nas intenções de voto. Embora tenham mudado um pouco ao longo do caminho, os números de janeiro são praticamente os mesmos de agora, tanto no primeiro quanto no segundo turno.

Em janeiro, Lula tinha 39% das intenções de voto no primeiro turno e 46% no segundo. Hoje tem 38% e 45%, respectivamente.

Para Luciana Santana, cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), os números refletem a cristalização do eleitorado. "Não é nem polarização, é cristalização, porque um terço dos eleitores votam em Lula de qualquer jeito e rejeitam qualquer coisa vinda do bolsonarismo, e um terço vota em Flávio e rejeita qualquer coisa da esquerda", afirma.

"Lula não tem conseguido nenhum projeto, programa ou proposta até agora que mude esse cenário", afirma . "Pode ser que, com a aprovação do fim da escala 6x1, isso mude um pouco o curso."

Nesta semana, a PEC que acaba com a jornada 6x1 foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, depois de passar meses travada na Casa. O projeto andou depois que Lula conseguiu se reaproximar do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), após um período de estremecimento.

Alcolumbre destravou também a MP da taxa das blusinhas e a política nacional para minerais críticos e estratégicos, ambos aprovados na quinta-feira.

No entanto, o fim da escala 6x1, considerado a maior vitrine para a campanha petista, ainda precisa passar em dois turnos no plenário do Senado. A expectativa era que a primeira votação ocorresse já na quinta, após apovada na Comissão, em caráter de urgência, mas isso não aconteceu.

<><> Eleitor de São Paulo

A campanha do presidente também deve intensificar as agendas de rua em São Paulo, no interior e na capital. É sabido que o petista precisa ter melhor aceitação no Sudeste, região onde, juntamente com o Sul, ele encontra maior rejeição, segundo as pesquisas.

Rio de Janeiro e Minas Gerais também estão no alvo da agenda petista, segundo a reportagem apurou. Juntos, esses três estados respondem por mais de 40% do eleitorado.

Segundo pesquisa Datafolha divulgada na semana passada, Flávio Bolsonaro tem ligeira vantagem sobre Lula tanto no primeiro quanto no segundo turno entre os paulistas. Por isso, a campanha terá "foco total" em São Paulo, segundo a reportagem apurou.

A agenda da campanha confirma essa informação: neste sábado (5/9), o PT realiza ato em São José do Rio Preto (SP), com Lula, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, e o candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad.

<><> Efeito Lulinha

Nas últimas semanas, trechos dos três inquéritos que investigam Fábio Luís Lula da Silva, um dos filhos do presidente, foram publicados pela imprensa. Dentre eles, mensagens trocadas entre ele e a lobista Roberta Luchsinger.

Lulinha é alvo de três inquéritos abertos em menos de uma semana, todos entre 30 de julho e 4 de agosto. As investigações apuram um suposto tráfico de influência em favor de empresas interessadas em obter contratos com o governo federal.

A PF quer saber, por exemplo, se Lulinha se associou à lobista e usou o fato de ser filho do presidente para ajudar, indevidamente, empresas privadas a obterem contratos públicos.

Em entrevista à TV Globo na semana passada, Lula classificou as acusações como "ilações".

"Ali não tem nenhuma acusação. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso", afirmou o presidente, referindo-se à Operação Lava Jato, que o levou à prisão.

Lula tem dito que não vai impedir as investigações da PF contra Lulinha.

"Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro. Eu não vou afastar o delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado", afirmou.

As investigações também vêm sendo mencionadas constantemente pelos principais adversários de Lula à reeleição, como Flávio Bolsonaro.

Mas na avaliação de Luciana Santana, o eleitor "cristalizado" não se abala nem mesmo com repercussões negativas dos candidatos. E isso vale tanto para Lula, quanto para Flávio.

Passado quase um mês desde que os inquéritos vazaram, o agregador de pesquisas da BBC News Brasil mostra uma ligeira queda de Lula e um pequeno aumento de Flávio nas intenções de voto, tanto no primeiro quanto no segundo turno.

Não é possível cravar, no entanto, os fatores exatos que levaram a essas oscilações.

"O caso do Lulinha, eu não sei se está mexendo com o eleitorado. Eu acho que não", diz Santos. Não é um tema novo. Desde 2006 ele é utilizado em campanhas. Tira algum voto, mas acho que não é expressivo."

Ao mesmo tempo, segundo a especialista, o caso Dark Horse também parou de ter o efeito que teve num primeiro momento. "Lula vai ter que trazer algo novo para a propaganda de rádio e TV, conectado às expectativas das pessoas. Não dá só para requentar programas, a marca, a música… algo que justifique um 4º mandato", afirma ela.

E, embora a campanha já esteja quase na metade, Luciana Santos acredita que será a partir da semana que vem que as peças vão se mover com mais clareza no xadrez eleitoral.

"Eu acho que a campanha em que a gente vai conseguir ver alguma mudança vai ser a partir de 7 de setembro. O termômetro começa no dia 7 de setembro, que é quando as situações locais já estão acomodadas, as primeiras pesquisas já saíram e as pessoas passam a iniciar efetivamente o conhecimento e notam que estão numa eleição. Olhando as pesquisas espontâneas hoje, uma parcela muito grande do eleitorado ainda está alheia."

 

Fonte: BBC News Brasil