quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

Por que você nunca realmente supera a época de ensino médio

A popularidade, uma das principais obsessões da adolescência, parece ficar gravada em nossa consciência por décadas depois que deixamos a escola.

Antes de virar amiga de Georgia*, eu tinha medo dela.

Um episódio ficou na minha memória. Nós tínhamos 14 anos, e minha melhor amiga na época estava dando uma festa, daquelas que acontecem em um salão de igreja alugado e todos os alunos da série comparecem. Mas havia um grupo de pessoas que minha amiga tinha esquecido de convidar.

Georgia e seu grupo vieram em nossa direção pelo pátio, enquanto as pessoas ao redor se viravam para olhar. Ela era uma assustadora combinação de bronzeamento artificial, extensões de cabelo descolorido e roupas esportivas fluorescentes. O que alguém como ela poderia querer com gente como nós?

"Estamos convidadas para a sua festa, né?", exigiu Georgia à minha amiga. "Sim, claro", minha amiga conseguiu responder, gaguejando. Satisfeita, Georgia deu meia-volta e saiu marchando.

Outra garota que estava por perto murmurou: "Você não precisa convidá-las se não quiser". Mas todas nós sabíamos que sim, ela precisava.

Provavelmente você também tem lembranças parecidas do ensino médio e da parte cruel das disputas políticas da escola. Talvez tenha lembranças de uma Georgia na sua vida, uma garota popular que conseguia provocar medo com um simples olhar. Talvez você mesmo tenha sido uma Georgia.

Seja como for, você provavelmente tem memórias marcantes dessa época. Depois de conversar com centenas de pessoas sobre suas experiências no ensino médio, Mitch Prinstein, professor de psicologia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, nos Estados Unidos, descobriu que as lembranças das pessoas que um dia dominaram os corredores da escola (as garotas populares, os 'príncipes' das festas, os atletas estrelas) eram extraordinariamente fortes.

Mesmo décadas depois de deixar a escola, a maioria das pessoas consegue se lembrar sem esforço do nome do aluno mais popular de seu ano. Com mais facilidade, inclusive, do que dos nomes de professores e de outros colegas de classe, escreveu Prinstein em seu livro de 2017 Popular: The Power of Likability in a Status-Obsessed World (Popular: o poder de ser gostado em um mundo obcecado por status, em tradução livre).

E não são apenas as lembranças que permanecem. Podemos imaginar que a hierarquia do ensino médio se torna irrelevante depois que atravessamos os portões da escola pela última vez. Mas, ao que parece, ela pode continuar exercendo em nós um domínio estranho e persistente.

Pesquisas mostram que o quanto éramos populares e queridos na adolescência pode influenciar nossas vidas por muitos anos, afetando desde a maneira como interpretamos nossas interações sociais até a qualidade de nossos relacionamentos amorosos, nossa satisfação com a vida e até mesmo nossa saúde.

<><> Repensando a popularidade

Foi o psicólogo americano John Coie quem mudou a maneira como os pesquisadores pensavam na popularidade.

Seus estudos, hoje considerados fundamentais, realizados no início dos anos 1980, começaram com duas perguntas simples feitas a crianças em idade escolar sobre seus colegas:

De quem você mais gosta? De quem você menos gosta?

Lendo as respostas de caligrafia infantil em centenas de pedaços de papel, Coie identificou novos insights sobre o comportamento social humano.

Uma possível suposição é que algumas crianças seriam, de modo geral, mais queridas pelos colegas, enquanto outras seriam mais rejeitadas.

Mas Coie e os outros pesquisadores também perceberam algo diferente. Algumas crianças eram ao mesmo tempo queridas e rejeitadas por alunos diferentes; enquanto outras não eram nem queridas nem rejeitadas.

Ou seja, alguns eram mencionados muitas vezes pelos colegas, sendo altamente visíveis, quase como pequenas celebridades. E outros mal apareciam nas respostas.

Coie então usou as respostas das crianças para propor, pela primeira vez, cinco categorias sociais.

"Aceitas" e "rejeitadas" para aquelas que eram amplamente queridas ou rejeitadas, respectivamente.

"Controversas" para aquelas que recebiam um grande número tanto de "curtidas" quanto de "descurtidas".

"Negligenciadas" para aquelas que quase não eram mencionadas de nenhuma das duas formas.

E "medianas" para crianças que não se destacavam demais em nenhuma direção.

Muitos estudos confirmaram a utilidade desses rótulos. Em geral, eles mostram que cerca de 40% das crianças são "médias" e 60% se encaixam em uma das outras quatro categorias.

As crianças mais queridas tendem a ser vistas pelos colegas como gentis, incentivadoras e solidárias, enquanto as "negligenciadas" tendem a ser quietas e retraídas.

As crianças "rejeitadas" tendem a ser agressivas e praticam bullying contra os outros, ou são pouco assertivas, socialmente ansiosas e vítimas de bullying.

As "controversas", o grupo mais raro, dividem as opiniões, geralmente sendo vistas como os palhaços da turma ou os rebeldes.

De maneira surpreendente, Coie descobriu que os rótulos atribuídos às crianças permaneciam, em grande parte, iguais mesmo quando elas eram apresentadas a novos grupos de colegas. E, embora a pesquisa inicial tenha sido feita com crianças do ensino fundamental, muitos estudos reproduziram os resultados com adolescentes. Um deles descobriu que cerca de metade das crianças mantém, cinco anos depois, no ensino médio, o mesmo rótulo que tinha no ensino fundamental.

"Eu tinha tido uma fase muito ruim no ensino fundamental, e sempre me lembro da minha mãe dizendo: 'Vai ser melhor quando você for para o ensino médio'", conta Connie*, outra amiga com quem conversei sobre experiência escolar. "Mas acho que, quando você sofre bullying, ou se tem alguma coisa que faz você parecer visivelmente diferente… É como se virasse um alvo fácil."

Depois de ser alvo de bullying nos primeiros meses do ensino médio, por motivos que incluíam não ser branca em uma instituição predominantemente branca, Connie mudou de escola. Na nova escola, porém, logo encontrou um padrão semelhante.

<<> O 'efeito Regina George'

Embora os rótulos permaneçam os mesmos, a dinâmica social muda drasticamente entre o ensino fundamental e o ensino médio. No ensino fundamental, as crianças "populares" são simplesmente aquelas de quem os outros mais gostam, e muitas vezes as que se comportam bem e se destacam na escola, porque, nessa fase, os valores das crianças normalmente estão alinhados aos dos adultos que as supervisionam.

No ensino médio, isso muda.

Os adultos e tudo o que eles representam se tornam profundamente indesejáveis. Um aluno consciente e extremamente dedicado pode acabar relegado à condição de "nerd", enquanto um aluno mais rebelde e divisivo pode, inesperadamente, ter uma ascensão social.

Conversando no telefone com o terror da minha escola, que agora é minha amiga próxima, Georgia, pergunto se ela se considerava popular no ensino médio. Ela diz que não pensava em si mesma dessa maneira.

"'Popular' dá a impressão de que as pessoas gostam de você, e não acho que necessariamente gostassem da gente", ela responde. "Talvez fosse mais uma coisa de ser… meio infame, sabe? Barulhenta e querendo chamar atenção."

Quando adolescente, Georgia encarnava o arquétipo da "controversa". Ela tinha comportamentos agressivos e perturbava as aulas. Para todos aqueles que a adoravam, provavelmente havia muitos que não gostavam dela. Digo a ela que as pessoas, inclusive eu, tinham bastante medo dela em determinado momento. Mas ela está errada ao achar que isso a desqualificava do rótulo de "popular".

"Nós começamos a prestar atenção em quem está recebendo mais atenção, quem pode ser mais dominante ou 'legal'", diz Prinstein. "Aqueles que começam a se tornar fisicamente mais atraentes, ou que se encaixam nas normas do grupo, [como] os que se vestem bem ou são bons nos esportes."

Adotar comportamentos "pseudomaduros", ações associadas a adolescentes mais velhos ou adultos, é outro caminho rápido para conquistar status. Adolescentes que bebem álcool, usam drogas e se envolvem precocemente em comportamentos românticos têm maior probabilidade de serem considerados populares — pelo menos por algum tempo.

Por volta dos 15 anos, esses comportamentos deixam de conferir status na mesma medida.

À medida que os adolescentes amadurecem, a busca explícita por status se torna menos vantajosa socialmente, e a "simpatia" começa a recuperar seu papel como importante determinante da posição social. Mas os efeitos dessas primeiras experiências de estratificação social extrema podem ser significativos.

"As experiências que temos quando somos crianças — se somos queridos, se somos populares ou temos alto status — parecem ter um efeito duradouro sobre nós mesmo 40 anos depois", diz Prinstein.

"Simpatia e status têm efeitos praticamente opostos. Ser querido é bom. Em geral, isso leva a todo tipo de resultado positivo na saúde, no trabalho, na vida acadêmica e na saúde psicológica.

"Mas ter alto status, na verdade, leva ao oposto."

<><> A cultura das panelinhas

Os pesquisadores costumavam pensar na cultura do ensino médio como uma versão imatura da sociedade adulta.

Mas, na década de 1960, começaram a entender que essa "cultura dos grupinhos" era algo muito mais estranho, um mundo paralelo movido por suas próprias fascinações excêntricas e conjuntos de códigos.

Em vez de uma simples hierarquia, o cenário social do ensino médio apresenta um sistema dinâmico de panelinhas. Os principais arquétipos se repetem na cultura popular, desde filmes como American Pie e Clube dos Cinco a seriados como Malhação: os populares, os desajustados, os rejeitados e os nerds.

Durante os primeiros anos do ensino médio, as fronteiras entre as panelinhas tendem a ser rígidas. "Os jovens podem se tornar extraordinariamente tribais, intolerantes e cruéis ao excluir aqueles que são 'diferentes'", escreveu o psicanalista germano-americano Erik Erikson em seu livro de 1959, Identity and the Life Cycle ("Identidade e o ciclo de vida", em tradução livre).

Essa intolerância, argumentava Erikson, talvez fosse "uma defesa necessária" contra a perda da identidade que se tinha quando criança, combinada a uma desconcertante onda de mudanças hormonais e à natureza avassaladora do futuro, com todas as suas possibilidades e escolhas.

Os adolescentes ajudam uns aos outros a atravessar esse desconforto "formando panelinhas e estereotipando a si mesmos", sugeriu ele. Essa classificação espontânea facilita a navegação dos adolescentes por seus mundos sociais, porque a "categoria" relativa de cada pessoa determina como ela deve ser tratada.

Uma coisa que é ignorada na cultura popular, porém, é a grande parcela de adolescentes que não aderem a nenhuma subcultura específica. Um estudo de 1985 descobriu que cerca de 45% dos alunos do ensino médio se definiam simplesmente como "normais". Enquanto os jovens populares diziam que sua vida girava em torno de estar bem-vestido e ir a festas, os "normais" que se autodefiniam assim diziam coisas como: "Sou apenas um adolescente comum".

Ser "anormal" e se destacar pelos motivos errados pode ser socialmente catastrófico. Connie se lembra de chegar à nova escola aos 13 anos e achar impossível conquistar um espaço naquela estrutura social escorregadia. Ela descreve suas tentativas de enfatizar diferentes aspectos de si mesma em busca da panelinha certa.

"Lembro de tentar fazer amizade com as meninas nerds. Lembro de tentar fazer amizade com as meninas legais", diz ela. "Eu pensava: 'Ah, sou muito estudiosa, faço toda a minha lição de casa'. E aí isso não funcionava, então era tipo: 'Ah, eu uso maquiagem, arrumo o cabelo', esse tipo de coisa. Tentei me encaixar com o pessoal da música. Comecei a tocar trompete."

Mas não adiantou. "Acho que eu sabia, no fundo, que simplesmente não estava funcionando", diz ela. "Não havia lugar para eu me encaixar. No fim, eu era completamente ignorada por todo mundo."

<><> O ensino médio amadurece

Perto do fim do ensino médio, a rígida hierarquia social começa a relaxar um pouco.

No início dos anos 1990, o pesquisador David Kinney realizou um estudo etnográfico no qual se inseriu em uma escola para observar de perto as mudanças nas fronteiras entre as panelinhas. Ele acompanhou antigos "nerds" que conseguiram fazer a transição para o grupo dos "normais".

A rigidez das panelinhas no início do ensino médio pode refletir as capacidades cognitivas limitadas dos adolescentes mais jovens, observou ele.

Embora os adolescentes mais novos estejam cada vez mais capazes de refletir sobre si mesmos, muitos não conseguem diferenciar entre a frequência com que pensam em si mesmos (muito) e a frequência com que os outros pensam neles.

Para muitos dos jovens "nerds" com quem Kinney conversou, isso resultava em uma atenção excessiva a si mesmos, debilitante, e em certa paralisia nas interações sociais.

Com o tempo, o desenvolvimento cognitivo permitiu que os antigos nerds se sentissem menos amedrontados e se cercassem de colegas que lhes ofereciam feedback positivo.

À medida que os adolescentes amadurecem, as barreiras que vêm da vontade de se encaixar começam a diminuir.

Os jovens populares podem até ser desafiados por colegas alternativos e rebeldes. O estudo de Kinney descobriu que, nos últimos anos da escola, os "moderninhos" eram desafiados por estudantes com "aparência extravagante e comportamento turbulento", que "competiam com eles pela popularidade em toda a escola".

Algumas dessas mudanças sutis já deviam estar acontecendo quando, aos 15 anos, Georgia me chamou pela primeira vez para sair com ela, mas ainda me lembro da confusão e da incredulidade que senti.

Naquela época, eu fazia parte de um grupo predominantemente masculino de maconheiros. Georgia estava tentando pregar algum tipo de peça em mim? Eu seria atraída para fora do meu grupo apenas para ser humilhada de alguma maneira?

Quase 20 anos depois, pergunto a Georgia por que ela queria ser minha amiga, algo que nunca havia perguntado antes. Fico pensando quais dos meus atributos extraordinários poderiam ter chamado sua atenção — minha inteligência, meu charme?

"Acho que havia uma estranheza que todos nós compartilhávamos", diz ela, hesitante. "Tipo, nenhum de nós era normal."

<><> Escola, exército e prisão

Dadas todas as suas peculiaridades, é impressionante como usamos com frequência o ensino médio como referência para nossas interações na vida adulta.

Quando Lucy Foulkes, psicóloga da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e autora de Coming of Age: How Adolescence Shapes Us ('Chegando à idade adulta: como a adolescência nos molda', em tradução livre), publicou nas redes sociais um texto sobre o efeito das "garotas maldosas", recebeu uma enxurrada de pessoas dizendo que se identificavam.

"Muita gente dizia: não são apenas os adolescentes, eu vejo isso no ambiente de trabalho… Vejo isso entre as mães no portão da escola", diz Foulkes.

"É um fenômeno humano: algumas pessoas conquistam mais poder social e dominância sobre outras. Há algo particularmente intenso nisso durante a adolescência."

Foulkes observa que os adolescentes estão cercados pelas mesmas pessoas quase todos os dias durante anos, de uma maneira que "simplesmente não acontece na vida adulta, exceto no exército ou na prisão. Existe uma intensidade nesse ambiente que vai além do que está acontecendo dentro do cérebro deles".

É justamente essa intensidade que explica, em parte, por que essas experiências permanecem gravadas dentro de nós, diz Prinstein, moldando a maneira como interpretamos encontros sociais por muitos anos.

"Estamos recorrendo àquelas experiências de quando tínhamos 14 anos para usá-las como uma espécie de modelo através do qual enxergamos o mundo", diz Prinstein.

Ele aponta para estudos que sugerem que o modelo mental que usamos para processar nosso mundo social começa a se formar na infância e que as regiões do cérebro responsáveis pelo processamento da memória ficam ativas quando as pessoas pensam sobre comportamento social.

"Essas lembranças estão sendo trazidas de volta o tempo todo."

<><> Onde estão os jovens populares hoje

Muitos de nós provavelmente já nos perguntamos o que aconteceu com os "jovens legais" que conhecemos na adolescência.

Em um estudo de 2015, Joseph Allen, professor de psicologia da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, tentou descobrir. Suas descobertas não foram muito promissoras para os jovens que um dia foram populares.

Acompanhando 184 adolescentes do sudeste dos Estados Unidos dos 13 aos 23 anos, Allen descobriu que jovens obcecados por status que adotavam comportamentos 'pseudomaduros' no início da adolescência apresentavam maior risco de enfrentar dificuldades de longo prazo em relacionamentos próximos, além de comportamentos criminosos.

A iniciação precoce ao álcool e às drogas estava associada a uma maior vulnerabilidade ao abuso de substâncias e a problemas de dependência mais tarde na vida.

E o foco no status desde cedo levava a vínculos mais superficiais e dificuldades para manter amizades e relacionamentos amorosos.

A experiência da rejeição também pode deixar cicatrizes. A pesquisa de Prinstein descobriu que alunos rejeitados no ensino médio tinham maior probabilidade de se tornarem mais deprimidos com o passar do tempo. Ele levantou a hipótese de que havia um ciclo de feedback negativo em ação, no qual a experiência de rejeição gera mais isolamento, que por sua vez intensifica os sentimentos de rejeição.

Em contraste, a "simpatia" — ser "aceito", tanto no ensino médio como fora dele — é um dos mais fortes indicadores de resultados positivos na vida, como uma carreira bem-sucedida, boa saúde e relacionamentos sólidos, até mesmo quando comparada a fatores como inteligência e origem socioeconômica.

Ainda assim, pessoas que vivenciam a rejeição também podem desenvolver qualidades importantes, como se tornar mais hábeis em identificar o que os outros estão sentindo ou mais conscientes de quando outras pessoas estão sendo maltratadas. Essa inteligência emocional já demonstrou ser útil para lidar com relacionamentos pessoais e com o mundo do trabalho.

E uma criança não precisa ser "aceita" para desfrutar de uma vida social satisfatória na idade adulta. Estudos descobriram que até mesmo ter um ou dois bons amigos na adolescência pode exercer um efeito protetor e fortalecer relacionamentos futuros.

<><> Mudando o roteiro

O mais importante é que podemos manejar a maneira como nossas primeiras experiências nos afetam.

Segundo Prinstein, os roteiros sociais desenvolvidos no ensino médio que usamos para abordar as interações podem se tornar uma profecia autorrealizável.

"Quando entramos em um contexto social, podemos nos concentrar nas informações que confirmam nossas piores expectativas", diz ele. "Então, podemos nos comportar de maneiras que, na verdade, incentivem mais experiências negativas."

Ao escolher atualizar esses modelos (por exemplo: decidir que um comentário ambíguo de um colega provavelmente não tinha a intenção de nos chatear) podemos nos ajudar a ter experiências mais gratificantes, afirma ele.

Como uma adolescente que tinha alto status e que, desde cedo, adotava comportamentos arriscados e pseudomaduros, Georgia diz: "Sinto uma certa tristeza pela minha versão mais jovem, por nunca ter tido a oportunidade de simplesmente ser uma criança normal".

Ela conta que uma experiência precoce em que viu uma amiga ser espancada, combinada ao comportamento abusivo em casa, a convenceu a agir de forma agressiva para transmitir uma imagem de invulnerabilidade.

Ela lamenta não ter recebido mais apoio naquela idade e, em vez disso, ter sido rotulada pelos professores como uma "aluna problemática". "Isso moldou completamente minha trajetória profissional e minha defesa ferrenha das pessoas vulneráveis", diz ela.

Connie, por sua vez, diz que suas primeiras experiências de rejeição acabaram alimentando um padrão de autossabotagem.

"Acho que, de muitas maneiras, eu tinha desistido de mim mesma, e tinha tantos comportamentos autodestrutivos que acabou ficando difícil manter amizades", diz ela.

Isso culminou em um período de crise no fim da adolescência, do qual ela desde então tem trabalhado arduamente para se recuperar. Mais de uma década depois, ela descobriu o que ama, incluindo uma prática criativa e uma carreira gratificante, e diz que raramente pensa em seus dias de escola.

Tanto Connie quanto Georgia são uma prova de que os rótulos que carregávamos no ensino médio não precisam ser uma sentença para a vida toda.

"As pessoas podem absolutamente mudar o rumo das coisas", concorda Prinstein. "O problema é que não passamos muito tempo falando sobre isso... O que significa que temos maior probabilidade de repetir nossos padrões."

* Os nomes foram alterados.

 

Fonte: BBC Future

 

Como proteger as boas bactérias da sua boca

Todos nós sabemos que alimentos ricos em açúcar podem gerar cáries, pois alimentam as bactérias nocivas que residem na nossa boca.

Ocorre que afastar essas bactérias depende tanto do que comemos quanto do que não comemos. E, das frutas até os queijos, alimentos surpreendentes podem ser os mais benéficos.

Pesquisas começam a descobrir atualmente a importância da microbiota oral. Esta comunidade é composta por até 700 espécies diferentes de bactérias, além de vírus, fungos e outros micro-organismos.

Ela pode ter efeitos profundos sobre a nossa saúde. Mas, atualmente, a microbiota oral é frequentemente negligenciada.

Na verdade, é fácil cuidar dos micróbios da nossa boca. E, como acontece com o intestino, nossa alimentação é um fator importante.

Aqui está o que você precisa saber para comer melhor e ter dentes saudáveis.

<><> Comunidade vibrante

Na animada região da nossa boca, os micróbios estabelecem nichos ecológicos, em que cada espécie prefere um habitat diferente.

Algumas bactérias preferem morar na superfície dos dentes, enquanto outras preferem a língua ou se escondem nas minúsculas fissuras entre os dentes e a gengiva.

Mas a presença de alguns desses micróbios é uma má notícia. Um deles é o Streptococcus mutans, que mora na superfície dos dentes e adora se alimentar de açúcar.

Esta bactéria transforma o açúcar em ácidos, que eliminam o esmalte protetor dos dentes. E, em algum momento, este processo pode gerar cáries, que afetam mais de 80% dos americanos quando se aproximam dos 35 anos de idade.

Outros micróbios bucais são ativamente úteis. Bactérias benéficas como Veillonella, Actinomyces, algumas espécies de Streptococcus ou Neisseria, quando presentes na boca, podem evitar que linhagens patogênicas nocivas colonizem a região bucal.

Ter uma boa microbiota oral não é importante apenas para a saúde dental.

Se você não escovar os dentes de forma regular e insistente, podem ser formar pequenos bolsões no espaço entre os dentes e a gengiva. E, neste ambiente pobre em oxigênio, podem surgir criaturas como Porphyromonas gingivalis.

Quando presente, P. gingivalis causa gengivite e também aumenta o risco de problemas de saúde como doenças cardiovasculares, depressão, Alzheimer, diabetes, doença intestinal inflamatória, artrite reumatoide e até parto prematuro.

Nos últimos anos, os cientistas passaram a relacionar cada vez mais a fraca microbiota oral ao câncer do cólon e do pâncreas.

Em um estudo recente, uma equipe de cientistas espalhada pelos Estados Unidos testou a saliva dos participantes e os acompanhou em seguida para identificar seu risco de câncer futuro.

O resultado foi que as pessoas cuja microbiota oral continha certas espécies bacterianas relacionadas à degradação dos dentes ou levedura Candida apresentaram maior risco de câncer do pâncreas.

Surgem também evidências de que, como ocorre com o intestino, é importante ter uma microbiota variada. Um estudo recente associou, por exemplo, a menor diversidade de micróbios na boca à depressão.

Mas, fundamentalmente, apenas escovar os dentes não é suficiente para manter esta comunidade microbiana. Tudo o que você comer, eles também comem, o que traz efeitos diretos sobre quais espécies irão se multiplicar.

<><> O que devemos comer — e o que evitar

Lanches e bebidas a serem evitados são os compostos principalmente de grandes quantidades de açúcar, que alimentam as bactérias causadoras das cáries.

Também é uma boa ideia limitar a ingestão de carboidratos processados, que são facilmente decompostos em açúcares na boca. Lanches ricos em amido que devem ser evitados incluem pão branco, bolachas, biscoitos, bolos e pretzels.

Atrair bactérias "boas" é útil por dois motivos. Elas concorrem por alimento e espaço com aquelas relacionadas às cáries e doenças, reduzindo suas populações. E algumas delas também atacam diretamente as bactérias que não queremos que estejam presentes na nossa boca.

"Dentro da família desses micróbios que adoram açúcar em geral, Streptococcus, existem algumas bactérias que não produzem muito ácido e que, na verdade, irão atacar alguns dos micróbios produtores de ácido", explica a professora de antropologia e bioética Laura Weyrich, da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Weyrich estuda a microbiota oral e como ela se alterou ao longo da história.

"Eles são como combatentes da liberdade", explica ela, "e têm seus próprios antibióticos, que usam como armas. Por isso, se você tiver essas bactérias, estará em boas mãos."

A bactéria benéfica S. salivarius, por exemplo, produz proteínas que podem matar uma ampla variedade de micróbios indesejados. Eles incluem patógenos resistentes aos antibióticos convencionais.

Se você quiser cultivar uma microbiota oral saudável, uma das melhores medidas é comer muitas verduras.

Alimentos como couve kale, espinafre, beterraba e rabanete contêm grandes quantidades de nitrato, que serve de alimento para as bactérias Neisseria que habitam a nossa boca.

Os micróbios transformam o nitrato em nitrito, que também é alterado pelas bactérias do intestino, transformando-se em ácido nítrico. Este ácido circula no sangue e age para reduzir a pressão arterial, beneficiando nossa saúde cardiovascular.

Em um estudo, por exemplo, adultos idosos que tomaram suco de beterraba rico em nitrato duas vezes por dia, por duas semanas, apresentaram queda da pressão arterial.

Por mais estranho que possa parecer, mastigar alho também pode beneficiar a saúde da boca, embora não faça maravilhas para o seu hálito. O alho contém uma substância chamada alicina, que ataca as bactérias causadoras de cáries e gengivite.

Uma alimentação, em grande parte, à base de vegetais também pode beneficiar nossa microbiota oral de outras formas, devido a uma classe de compostos encontrados nas plantas, chamados polifenóis.

Quando fica muito quente, frio ou o sol é muito forte, os animais podem simplesmente se mudar para um ambiente mais hospitaleiro. Mas as plantas não têm este luxo.

Por isso, elas produzem polifenóis, que são antioxidantes especiais que protegem suas células e tecidos contra lesões.

Os polifenóis também podem nos proteger contra bactérias nocivas.

"Os polifenóis inibem uma das enzimas que é responsável pela rigidez da placa bacteriana", explica a professora de odontologia pediátrica Christine Wu, da Faculdade de Odontologia da Universidade de Illinois em Chicago, nos Estados Unidos. Sua pesquisa se concentra em alimentos que podem ajudar a combater os patógenos orais.

Os estudos de Wu e de outros pesquisadores demonstraram, por exemplo, que os polifenóis encontrados no chá podem suprimir as bactérias orais "ruins" que causam cáries e gengivite, evitando que elas se acumulem e se fixem junto à superfície dos dentes.

Este estudo também concluiu que tomar chá aparentemente inibe as bactérias responsáveis pelo mau hálito, que moram na parte de trás da língua.

Outros alimentos ricos em polifenóis incluem muitas frutas, particularmente frutas vermelhas de coloração escura. É por isso que, ao contrário do que se pode esperar, esses alimentos ricos em açúcar e ácidos podem ser benéficos para a saúde da boca.

A pesquisa de Wu demonstrou que o consumo de suco de cranberry pode evitar o crescimento da placa bacteriana e inibir as bactérias associadas às cáries e doenças periodontais.

O mel também é rico em polifenóis. Já se demonstrou que ele evita a formação de placa e combate as bactérias causadoras das cáries.

Acredita-se ainda que mastigar queijo possa trazer benefícios para as nossas comunidades orais.

Em um pequeno estudo realizado por pesquisadores na Itália, solicitou-se a nove participantes que comessem queijo Grana Padano diariamente, por cinco dias. E, ao final do estudo, os cientistas concluíram que as assinaturas genéticas das comunidades bacterianas orais dos participantes haviam sofrido leves alterações.

Foram encontradas menores quantidades da bactéria S. mutans, que adora açúcar, e mais S. sanguinis, mais provável de ser encontrada em ambientes bucais saudáveis.

O queijo também pode combater parte dos danos causados por S. mutans.

"O queijo é fabuloso, pois apresenta todas as boas propriedades do leite, mas é sólido. Por isso, quando você o mastiga, a quantidade de saliva aumenta", explica Wu.

"A saliva irá retirar parte do excesso de açúcar dos dentes ou da boca e, como ela é neutra, irá atenuar os ácidos produzidos na cavidade bucal."

Alimentos fermentados também podem beneficiar a nossa microbiota oral. Eles contêm bactérias benéficas que irão competir com as ruins.

Uma análise recente concluiu, por exemplo, que o consumo de kefir (um produto de leite fermentado) pode inibir certos patógenos orais e impedir que eles produzam seu biofilme pegajoso.

Mas, segundo o professor de periodontologia Gaetano Isola, da Universidade de Catania, na Itália, não existe um único "superalimento" para a saúde oral e que o padrão alimentar em geral é muito mais importante.

"Se consumirmos repetidamente açúcares refinados e carboidratos facilmente fermentáveis, iremos favorecer os micro-organismos que são particularmente eficientes para produzir e tolerar ácidos", segundo ele.

Isola explica que, ao longo do tempo, este processo pode causar desequilíbrio da comunidade microbiana.

"Por outro lado, uma dieta geral mais rica em alimentos vegetais integrais, fibras e carboidratos complexos, com exposição menos frequente ao açúcar refinado, é mais compatível com a manutenção de um ecossistema oral estável."

Uma dica prática simples de Isola é dar preferência a alimentos vegetais integrais, como legumes, verduras, frutas inteiras e grãos integrais, em substituição aos carboidratos refinados.

Um estudo recente que contou com a participação de Isola concluiu que as pessoas que adotam uma dieta mais próxima do estilo mediterrâneo (conhecido pela sua ênfase em frutas, legumes, verduras, grãos integrais e gorduras saudáveis) apresentaram tendência a ter gengivite mais leve.

Já os pacientes que não seguiram a dieta mediterrânea de forma tão restrita tenderam a apresentar gengivite mais grave, especialmente ao consumirem carne vermelha com frequência.

Não se sabe ao certo o que pode causar a associação entre a carne vermelha e a gengivite. Uma ideia é que a proteína possa gerar um ambiente oral que favoreça micróbios prejudiciais, como P. gingivalis.

É claro que permanece sendo essencial escovar os dentes e passar fio dental.

O fio dental foi associado a concentrações mais baixas do patógeno dental S. mutans, enquanto escovar os dentes e a língua reduz significativamente os micróbios associados às doenças dentárias.

Os cientistas ainda não sabem como os enxaguantes bucais comerciais afetam a nossa microbiota oral. Existe a esperança de que, algum dia, eles possam ser empregados para equilibrar as comunidades microbianas, em vez de simplesmente reduzir a quantidade total de bactérias presentes.

Por outro lado, sabe-se que alguns enxaguantes que contêm clorexidina prejudicam o equilíbrio dos micróbios orais. Eles ainda podem ser úteis para o tratamento de gengivite e de outras condições orais específicas a curto prazo.

Mas, para obter uma microbiota bucal saudável, comer os alimentos certos é uma ferramenta poderosa no seu arsenal.

"É o mesmo que todos sempre dizem e é meio maçante", explica Weyrich. "Manter uma alimentação bem equilibrada, com muitos legumes, verduras, proteínas magras e limitar sua ingestão de açúcar, especialmente bebidas doces."

Que tal, agora, preparar uma suntuosa salada ou uma seleção de bons queijos, acompanhada de uma xícara de chá quente?

Você irá beneficiar o seu corpo e também deixar felizes os micróbios benéficos presentes na sua boca.

 

Fonte: BBC Future

 

Clima: Quando a desinformação captura a fé

Em novembro do ano passado, chegando em Belém para a COP 30, fui recebida por um outdoor enorme logo na saída do aeroporto: “Em 100 anos, as mortes decorrentes pelo clima caíram 96%”, acompanhado de um gráfico sem contexto e uma fonte de dados aleatória. Nenhuma explicação, nenhuma interpretação, apenas a mensagem crua, insinuando que a crise climática não é tão grave quanto afirmamos. Naquele instante, antes mesmo de entrar nos debates ou nas atividades da sociedade civil, percebi o tamanho do desafio que tínhamos pela frente. Ficou evidente que o negacionismo, e suas formas mais sofisticadas de desinformação, continua sendo uma das barreiras mais poderosas para qualquer avanço real.

E é dentro desse cenário conflituoso que se desenrola a disputa entre a indústria do petróleo, as comunidades que protegem seus territórios e as pessoas de fé que resistem para manter viva a esperança de um futuro justo. Temos uma indústria global construída sobre a concentração extrema de lucros e poder, mas também temos povos e culturas que há séculos mantêm relações de cuidado e reciprocidade com seus territórios. Entre esses mundos, pessoas de fé e suas comunidades têm se levantado como pontes, lembrando que enfrentar a crise climática não é apenas uma questão técnica, mas também ética, moral e espiritual.

A indústria de óleo e gás e as Big Techs não disputam apenas políticas públicas; disputam também percepções, narrativas e imaginários. Um exemplo disso é que, às vésperas da COP30, anúncios de petroleiras no Google Ads aumentaram 218% em relação ao mês anterior, segundo o Instituto Climainfo. São campanhas que não vendem apenas combustíveis, vendem dúvida, manipulam dados, constroem discursos que relativizam a urgência climática.

Essa é a diferença entre informação falsa e desinformação: a desinformação tem intenção. O conteúdo é criado ou utilizado intencionalmente para manipular opiniões, influenciar interesses e desmobilizar movimentos. E nem sempre é preciso inventar uma informação. Um dado pode ser verdadeiro e ainda assim ser apresentado sem contexto ou de forma manipulada para produzir uma interpretação falsa da realidade. A desinformação climática acontece quando esses conteúdos são utilizados para confundir as pessoas sobre a crise climática e os problemas socioambientais. Combater essa avalanche de narrativas é condição básica para que a justiça climática possa, um dia, deixar de ser promessa e se tornar realidade concreta.

<><> Quando a fé se torna resistência

Foi nesse contexto que planejamos nossas ações em 2026, um ano de eleições que exige um compromisso e uma comunicação ainda mais atenta. Sabemos que períodos eleitorais intensificam a disputa por narrativas e que temas como exploração de petróleo, transição energética, mudanças climáticas e proteção dos territórios também fazem parte dessa disputa. A desinformação não ameaça apenas o avanço das políticas climáticas, mas a própria capacidade das pessoas de tomarem decisões informadas sobre o futuro do país e de seus territórios.

Foi também a partir desse cenário que construímos a cartilha Nossa fé contra a desinformação climática. O material não nasceu apenas de uma pesquisa sobre desinformação, mas principalmente da escuta. Ao longo do primeiro semestre de 2026, o GreenFaith, em parceria com diferentes organizações, realizou quatro encontros com comunidades e lideranças religiosas no Rio de Janeiro, em Pernambuco, no Acre, e no Maranhão ouvindo pessoas de diferentes tradições religiosas e contextos sociais.

Nesses encontros, ouvimos como as mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano das comunidades, mas também como diferentes narrativas chegam até elas. Frases como “Deus está no controle” ou a ideia de que falar sobre crise climática significa falta de fé aparecem em relatos de lideranças que tentam construir outros caminhos dentro de suas próprias comunidades.

O problema aparece quando essas crenças são utilizadas para justificar a inação diante de problemas que são resultado de escolhas humanas, políticas e econômicas. Quando uma narrativa religiosa é utilizada para dizer que não temos responsabilidade sobre a destruição ambiental ou que questionar determinados interesses econômicos seria questionar a própria fé, existe ali uma disputa de narrativa que precisa ser enfrentada.

<><> Quando a linguagem sagrada é sequestrada

A desinformação climática também pode usar símbolos religiosos, valores espirituais e discursos de fé para confundir as pessoas e justificar a destruição ambiental. É o que chamamos na cartilha de “sequestro da linguagem sagrada”.

Isso acontece quando ideias ligadas ao cuidado, à criação, à espiritualidade e à responsabilidade coletiva são distorcidas para defender interesses econômicos e desacreditar a ciência climática. E se a desinformação consegue dialogar com valores religiosos para chegar às pessoas, o enfrentamento a ela também precisa ser capaz de fazer com que dados, ciência e informação dialoguem com os fundamentos da fé.

É justamente nesse ponto que as lideranças religiosas têm um papel fundamental. É preciso reconhecer que as comunidades de fé ocupam espaços onde muitas vezes outros atores não chegam. Lideranças religiosas e comunitárias têm um papel fundamental, pois constroem relações de confiança, conhecem seus territórios, acompanham suas comunidades e conseguem dialogar a partir de valores que fazem parte da vida das pessoas.

Por isso, fortalecer essas lideranças para reconhecer e enfrentar a desinformação significa também fortalecer redes comunitárias inteiras. Em tempos de desinformação, comunidades de fé podem ser guardiãs da verdade, vozes éticas diante do poder econômico e pontes entre mundos que raramente se escutam, podem aproximar ciência e fé sem que uma precise negar a outra.

Em diferentes partes do Brasil, comunidades tradicionais convivem diretamente com as consequências de decisões tomadas em nome do desenvolvimento. No Rio de Janeiro, comunidades da Baía de Guanabara vivem há décadas os impactos da indústria de óleo e gás. Em São Luís, a expansão da logística ligada ao Porto do Itaqui acontece ao mesmo tempo em que populações tradicionais lutam para proteger seus territórios e seus direitos, em um estado diretamente atravessado pelo debate sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial.

Nesses lugares, discutir sobre a expansão da exploração do petróleo, transição energética e crise climática não é uma discussão abstrata, estamos falando sobre modos de vida, sobre quem pode permanecer em seus territórios e sobre quem assume os impactos de um modelo econômico enquanto outros concentram seus benefícios. Se a transição energética ainda não aconteceu, não é por falta de tecnologia, é por falta de interesse coletivo em prol do desenvolvimento e proteção de territórios mais vulneráveis. Enquanto a coragem emerge, forte e diversa, nas comunidades religiosas, dos povos tradicionais, nas juventudes e nos movimentos por justiça climática.

Em 2026, quando o Brasil volta às urnas e decisões fundamentais sobre petróleo, energia, clima e territórios estão em disputa, defender a integridade da informação é também defender a democracia. A luta contra a desinformação climática é uma luta pela verdade, pela justiça e pela vida, e por isso a fé pode trazer tantas contribuições. Se a linguagem sagrada pode ser sequestrada para justificar a inação, ela também pode ser recuperada para lembrar que cuidar da criação, proteger a vida e não aceitar a mentira como instrumento de poder são compromissos profundamente espirituais.

A cartilha Nossa Fé contra a desinformação climática é uma das campanhas do GreenFaith que une fé, informação e defesa do meio ambiente. O documento representa um processo de construção coletiva que fortalece lideranças, amplia capacidades locais e promove uma resposta enraizada na realidade e nos valores das comunidades de fé. Desde 2013, o GreenFaith atua no Brasil por meio de campanhas e treinamentos com comunidades locais que reúnem mulheres, pescadores, educadores, jovens, ativistas e lideranças religiosas, fortalecendo a fé como instrumento de resistência, cuidado e enfrentamento à emergência climática.

        Bancos cortam subsídios ao agro por casos de desmatamento e escravidão

AO MENOS 101 operações de financiamento ao agronegócio perderam subsídios em 2026 após instituições financeiras responsáveis pela liberação dos recursos identificarem passivos socioambientais nos empreendimentos financiados, revelam dados do Banco Central.

Conforme apurou a Repórter Brasil, desmatamento ilegal e uso de mão de obra escrava estão entre as práticas pelas quais os beneficiários foram responsabilizados em fiscalizações do Ibama (Instituto Brasileiro dos Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e do Ministério do Trabalho e Emprego.

Com isso, aproximadamente R$ 50 milhões obtidos por fazendeiros e empresas por meio desses contratos deixam de contar com benefícios como acesso facilitado a recursos públicos, incentivos fiscais e juros menores.

Os dados sobre as operações “desclassificadas” – jargão técnico para os financiamentos desenquadrados das normas do crédito rural, que garantem acesso a políticas federais de incentivo – estão disponíveis no site do Banco Central. Sua divulgação ocorre após a Repórter Brasil solicitar essas informações ao banco, em maio de 2025, via Lei de Acesso à Informação.

Na ocasião, a instituição informou não ter dados segmentados sobre as desclassificações motivadas por restrições socioambientais. Cabe aos bancos privados e estatais que concedem os recursos monitorar práticas ambientais e trabalhistas nas fazendas beneficiadas, assim como catalogar, segundo categorias de motivo definidas pelo Banco Central, os casos de desclassificação.

“Dada a relevância do tema, oportunamente, revisaremos a relação de motivos, para especificar essas ocorrências”, informou o Banco Central na ocasião. Procurado agora, o órgão informou que uma categoria para dar conta desses casos foi efetivamente criada em agosto do ano passado.

Desde janeiro de 2025, as regras do Banco Central determinam que os contratos de crédito rural prevejam a possibilidade de desclassificação do financiamento, caso seja verificado, durante a sua vigência, o descumprimento de obrigações ambientais e trabalhistas no imóvel rural.

Entre esses descumprimentos está a imposição de embargos ambientais nas propriedades, sanção administrativa que interdita atividades produtivas em áreas onde o Ibama flagrou irregularidades como, por exemplo, desmatamento ilegal.

As regras também vedam a manutenção de crédito a empregadores incluídos na Lista Suja, cadastro oficial do governo federal que reúne os nomes de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas administrativamente por submeter trabalhadores em condições análogas à escravidão.

 

Fonte: Por Julia Rossi, em Outras Palavras/Reporter Brasil

 

O árduo processo da busca pela justiça tardia na Síria

A ativista síria pelos direitos das mulheres Huda Khayti retorna repetidamente a um lugar onde perdeu quase tudo. Em 2013, ela sobreviveu a um ataque com armas químicas do regime do ditador Bashar al-Assad na cidade de Duma, em Ghouta Oriental, na Síria.

O irmão dela foi morto por bombardeios do regime e de seus aliados. Os centros femininos que ela havia criado foram destruídos, assim como sua casa na época. Em 2018, ela foi obrigada a deixar Duma e fugir para Idlib.

Hoje, Khayti voltou a frequentar regularmente sua cidade natal, próxima a Damasco. Desde a queda de Assad, ela divide seu tempo entre Idlib e Duma e está reconstruindo nesta um centro para mulheres.

"Ghouta tem um significado emocional muito grande para mim", diz ela. No entanto, o retorno a confronta constantemente com as marcas deixadas pela guerra. "Quando viajo pelo país, vejo em toda parte os sinais da guerra: tanta destruição de casas e infraestrutura, tanto sofrimento, tanto trauma."

A resposta da Justiça aos crimes cometidos pelo regime de Assad também começou na Síria. Em meados de agosto, um tribunal em Damasco condenou à morte, à revelia, o antigo ditador e outros altos representantes do seu regime. Assad foi condenado, entre outras acusações, por homicídio doloso, tortura e privação de liberdade. O tribunal classificou esses atos como crimes contra a humanidade e crimes de guerra.

"A condenação de Assad é, naturalmente, algo positivo, mesmo que exista apenas no papel", afirma Khayti. "Bashar al-Assad foi condenado, mas continua vivendo sua vida normalmente na Rússia, assim como tantos outros criminosos sírios que fugiram para lá."

Ainda assim, a sentença teve grande impacto na Síria. "As pessoas ficaram muito felizes", afirma a especialista síria em mídia Lina Chawaf. Muitos veículos de comunicação sírios noticiaram a decisão como um sucesso e parte da justiça de transição.

<><> Acordo de extradição com a Rússia

Contudo, é incerto se a sentença um dia será cumprida. Embora desde 2023 exista um acordo de extradição entre Síria e Rússia, é improvável que o Kremlin entregue Assad, seu aliado de longa data. Além disso, o acordo diz que a possibilidade de aplicação da pena de morte pode impedir uma extradição.

O vice-ministro da Justiça da Síria, Mustafa al-Qasim, declarou em agosto que o país criou uma comissão para cooperação com a Interpol. Segundo ele, a colaboração de outros países na extradição de acusados foragidos poderia acelerar a responsabilização judicial.

A ativista síria Rana Sheikh-Ali, da iniciativa feminista Peace Circuit Foundation (Darat Salam, em árabe), sediada em Damasco, também considera o processo contra Assad mais simbólico do que prático. Ela diz que, de uma perspectiva de direitos humanos, rejeita a pena de morte, mas que entende que muitas pessoas tenham considerado as condenações de Assad e de outros como uma forma de justiça.

<><> Mais do que condenar Assad

Mas a responsabilização de alguns indivíduos é apenas uma parte do que a Síria precisa enfrentar agora. A justiça de transição abrange não apenas processos judiciais, mas também a busca por desaparecidos, o esclarecimento de crimes, reparações e reformas institucionais.

A dimensão do desafio pode ser vista nos números da ONG Syrian Network for Human Rights. A organização contabilizou mais de 234.805 civis mortos, dos quais pelo menos 202 mil foram mortos pelo regime de Assad e seus aliados. Além disso, houve pelo menos 181.312 casos de prisões arbitrárias e desaparecimentos forçados, bem como 45.339 mortes decorrentes de tortura. É provável que os números reais sejam ainda maiores. A organização também documentou 217 ataques com armas químicas realizados pelo regime de Assad.

Khayti sobreviveu a um deles em 2013. Ela estava a apenas alguns quilômetros do centro do ataque, em Ghouta Oriental. "Eu me lembro como se tivesse sido ontem", diz. "Não consigo esquecer os gritos das vítimas. O tempo todo pensei que seríamos os próximos. Sentia uma irritação na garganta e ardência nos olhos."

<><> Colocar as vítimas no centro

Para que a justiça de transição seja centrada nas vítimas, não basta ouvir os sobreviventes como testemunhas em tribunal. Eles também devem ter influência sobre a forma como os crimes serão investigados e julgados, afirma a especialista Rana Sheikh-Ali.

"Um componente central da justiça de transição é colocar as vítimas, suas famílias e seus entes queridos no centro do processo", explica. "Não se trata apenas de condenar os criminosos."

Segundo ela, os afetados devem participar voluntariamente e de forma protegida, podendo contar suas histórias e sendo ouvidos em questões como indenizações, apoio econômico e reconhecimento público.

Para sobreviventes como Huda Khayti, isso também significa não limitar a responsabilidade a Assad e a alguns dos principais membros do seu regime. "Também quero ver condenadas as pessoas que escreveram relatórios que levaram indivíduos à prisão de tortura de Sednaya. Essa pessoa é tão culpada quanto os próprios torturadores."

Mas não está claro até que ponto a Síria vai realmente enfrentar seu passado de forma abrangente. Para Sophie Bischoff, diretora executiva da organização de direitos humanos teuto-síria Adopt a Revolution, que apoia iniciativas da sociedade civil síria como a de Khayti, as condenações à revelia de Assad e de outros responsáveis são um sinal importante contra décadas de impunidade, mas têm caráter apenas simbólico enquanto os condenados não forem efetivamente responsabilizados.

"Uma apuração abrangente dos crimes contra a humanidade e dos crimes de guerra ainda não ocorreu", observa.

Até agora, foram principalmente organizações da sociedade civil síria e ativistas de direitos humanos que, ao longo dos anos, investigaram e documentaram casos. O registro sistemático, conduzido pelo Estado, dos crimes violentos cometidos durante a era do regime Assad está apenas começando.

As primeiras estruturas estatais estão surgindo. No final de agosto, a Comissão Nacional para Pessoas Desaparecidas lançou o programa nacional Athar, por meio do qual famílias podem enviar dados sobre parentes desaparecidos à força.

Mas a Comissão Nacional para a Justiça de Transição tem se concentrado até agora apenas nos crimes do regime Assad, o que Bischoff critica. "Isso está longe de ser suficiente. Para uma apuração abrangente e um novo começo numa Síria para todos, é necessário incluir os crimes de guerra cometidos por todas as partes envolvidas no conflito."

<><> A dor de relembrar

Para Khayti, a exigência de colocar as vítimas no centro do processo tem um outro aspecto: ser ouvida significa também relembrar constantemente o que aconteceu. "É difícil para mim falar sobre isso, e muitas vezes sinto como se estivesse vivendo tudo novamente", diz. Ainda assim, considera importante falar sobre o tema.

Por isso, uma justiça de transição centrada nas vítimas deve contemplar dois aspectos: a participação dos sobreviventes e a proteção daqueles que participam.

Em Duma, Khayti tenta preservar a memória dos anos passados. "Precisamos informar os mais jovens sobre o que aconteceu para que essa memória não desapareça."

Também se trata de encontrar os desaparecidos, responsabilizar outros culpados, esclarecer plenamente os crimes e dar voz às pessoas que sobreviveram a tudo isso. "Nós continuaremos falando alto", afirma Khayti. "E continuaremos exigindo justiça."

¨      Como lei da era Assad ameaça a sociedade civil na Síria

O ditador Bashar al-Assad pode ter deixado a Síria, mas uma das leis mais prejudiciais que vigoraram durante todo o regime ditatorial de sua família continua em vigor.

A Lei nº 93 de 1958, ou lei sobre associações e instituições privadas, foi usada por décadas pelo regime Assad – primeiro por Hafez Assad, depois por seu filho Bashar – para controlar organizações da sociedade civil que pudessem criticá-lo, fossem elas de direitos humanos, instituições de caridade ou grupos de defesa dos direitos das mulheres.

A lei permitia que o Estado simplesmente dissolvesse organizações por razões vagamente definidas, como perturbar a "ordem pública ou a moral" ou simplesmente decidir que não havia necessidade de seus serviços, sem qualquer supervisão judicial ou possibilidade de recurso.

A lei também conferia ao governo controle sobre a participação política de uma organização, os eventos que ela desejava realizar, sua adesão a associações internacionais, seu registro, membros do conselho e funcionários, e até mesmo seu financiamento, especialmente dinheiro proveniente do exterior.

Basicamente, o regime de Assad usou a lei de 1958 e suas adições subsequentes "para negar completamente aos cidadãos sírios o direito à liberdade de associação", como afirma um documento de 2016 enviado por ONGs ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

<><> "Projetada para controlar, restringir e securitizar"

O regime foi deposto no final de 2024. Mas, apesar do plano declarado do novo governo interino sírio de revogá-la, a Lei nº 93 ainda está em vigor. No final do ano passado, o Ministério de Assuntos Sociais e Trabalho anunciou que, por enquanto, as organizações da sociedade civil síria deveriam aderir a ela.

Acredita-se que existam mais de 2.000 organizações da sociedade civil atuando na Síria, sendo que muitas delas pediram a revogação da lei e a formulação de novas regras.

"Leis criadas para controlar, restringir e securitizar a sociedade civil não se tornam benignas simplesmente porque a liderança política muda", disse Amna Guellali, diretora de pesquisa do Instituto de Estudos de Direitos Humanos do Cairo (CIHRS), que publicou um estudo sobre a situação da sociedade civil na Síria em outubro do ano passado. "Sua permanência nos códigos cria um conjunto permanente de ferramentas legais que podem ser acionadas a qualquer momento."

O CIHRS entrou em contato com o governo sírio recomendando a revogação da lei, mas disse não ter recebido resposta. Uma consulta da DW sobre quando a lei poderia ser revogada também não foi respondida.

<><> Lei usada aleatoriamente

Até agora, porém, a lei parece ter sido aplicada de forma bastante aleatória, disse à DW Hiba Ezzideen, chefe da organização Equity and Empowerment, com sede na Síria e voltada para os direitos das mulheres.

Isso é confirmado pelas dezenas de entrevistas que o CIHRS fez com atores da sociedade civil para a conclusão de seu relatório. Segundo as informações obtidas pelo instituto, às vezes a lei é usada, outras vezes as decisões são simplesmente tomadas oralmente, geralmente com pouca explicação.

Por exemplo, um grupo relatou ao CIHRS que um evento sobre justiça de transição na capital síria, Damasco, foi cancelado inesperadamente, enquanto outros eventos semelhantes foram autorizados e puderam ocorrer mais tarde.

A Syria Campaign, uma organização de direitos humanos sediada no Reino Unido, ouviu relatos semelhantes – por exemplo, de autoridades locais que exigiram sua participação na seleção de pessoas contratadas por organizações da sociedade civil.

"Também recebemos relatos sobre restrições a reuniões, especialmente por parte de movimentos políticos", disse a diretora executiva da organização, Razan Rashidi, "embora não possamos afirmar que isso tenha sido um padrão para todas as reuniões dessa natureza."

<><> Sinal de autoritarismo?

Como resultado de toda a confusão, uma pergunta permanece: seriam essas obstruções uma política deliberada do governo interino da Síria, um possível sinal de que o país estaria caminhando de volta para o autoritarismo?

"Queremos ter esperança, queremos acreditar que isso não é proposital", disse o fundador de um observatório de direitos humanos sírio, falando à DW em condição de anonimato porque ainda tenta se registrar no país.

"Sabemos que o Estado não tem controle total sobre tudo. Mas parece desnecessariamente complicado e, com o que vimos acontecer no ano passado, é muito difícil saber", explicou, se referindo à recente violência intercomunitária na qual as forças governamentais tiveram alguma participação.

"É verdade que há complexidade e burocracia. Eles [o governo] deveriam ser mais transparentes e essa lei precisa ser mudada", disse Fadel Abdul Ghany, chefe da Rede Síria para os Direitos Humanos (SNHR), que vem documentando de forma confiável os abusos de todos os lados desde o início da guerra civil na Síria. "Mas isso acontece em todo lugar. Nós também enfrentamos dificuldades para registrar nossa organização e não conseguimos abrir uma conta bancária na França", explicou.

Agora registrada na Síria, a SNHR trabalha livremente e pode criticar o Estado, disse Abdul Ghany. Ele ressaltou que é importante considerar o contexto.

"A Síria ainda está devastada pelo conflito e veja o que herdamos do regime de Assad: corrupção, falta de financiamento, falta de experiência, instituições destruídas", afirmou à DW. "Eu me reuni com ministros, visitei os ministérios e todos dizem que querem reformas. Mas não é fácil."

<><> Muitos desafios à frente

Guellali, do CIHRS, acredita que os problemas atuais se devem a uma combinação de fatores.

"Por um lado, as limitações de capacidade são reais", observou. "O governo interino enfrenta desafios [...] Mas os fatores estruturais e políticos não podem ser ignorados. A manutenção deliberada de legislação restritiva da era Assad – incluindo a Lei nº 93 – levanta preocupações legítimas sobre a vontade política. As autoridades de transição comprometidas com a inclusão democrática normalmente priorizam reformas legais precoces que permitam a participação cívica e protejam as liberdades de associação."

A ativista pelos direitos das mulheres, Ezzideen, concordou. "O que provavelmente estamos vendo é o resultado de múltiplos fatores e é importante não tirar conclusões precipitadas sobre as intenções", disse ela à DW. "Mas isso não anula a necessidade de abordar esses desafios de forma clara e sistemática."

<><> Papel fundamental da sociedade civil

Observadores costumam dizer que as organizações da sociedade civil da Síria são parte essencial da transição do país após a autocracia.

"A sociedade civil, seja no exílio ou no próprio país, desempenha um papel fundamental em manter viva a luta pela liberdade, justiça e inclusão na Síria", disse Rashidi, da The Syria Campaign.

Apesar das críticas sobre as leis e a falta de reformas, ela observou que "desde a queda do regime de Assad, muitos atores da sociedade civil, incluindo grupos de vítimas, conseguiram abrir escritórios oficialmente na Síria. Isso é como um sonho realizado".

Tendo adquirido experiência ao longo de 14 anos de guerra civil, esses grupos são capazes de fornecer ajuda e serviços, contribuir para o fortalecimento da coesão social e, devido aos fortes laços comunitários, devem ser chamados a ajudar a formular as políticas públicas sírias, argumentou a ativista.

"O verdadeiro desafio hoje", concluiu Ezzideen, "é garantir que essa situação atual e temporária não se torne um padrão permanente. A demora contínua [na reforma] pode, mesmo que involuntariamente, nos fazer retroceder."

 

 

Fonte: DW Brasil