terça-feira, 30 de junho de 2026

São João Batista e Xangô: entenda a razão do sincretismo

As festas juninas são uma das manifestações culturais mais populares do Brasil e têm em São João Batista uma de suas principais figuras. No entanto, além da tradição católica, a data também possui um significado especial para adeptos de religiões afro-brasileiras, devido ao sincretismo religioso que associa o santo ao orixá Xangô.

A mistura de elementos religiosos, inclusive, surgiu durante o período da escravidão no Brasil. Diante da proibição do culto aos orixás africanos, pessoas escravizadas passaram a associar suas divindades a santos católicos, preservando suas crenças sob a aparência das práticas religiosas permitidas pelos colonizadores.

<><> Quem foi São João Batista?

Na tradição cristã, São João Batista é conhecido como o profeta que anunciou a chegada de Jesus Cristo e realizou seu batismo nas águas do Rio Jordão. Considerado um símbolo de fé, renovação espiritual e preparação para novos ciclos, ele é celebrado pela Igreja Católica em 24 de junho.

Uma das marcas mais conhecidas das comemorações dedicadas ao santo é a fogueira de São João, elemento que, segundo a tradição popular, teria sido utilizado para anunciar o nascimento de João Batista.

<><> Ligação entre São João e Xangô

Nas religiões afro-brasileiras, Xangô é reconhecido como o orixá da justiça, do equilíbrio e da sabedoria. Também está ligado aos elementos do fogo, dos raios e dos trovões, sendo visto pelos fiéis como uma divindade que promove a ordem, corrige injustiças e restabelece a harmonia.

A associação entre Xangô e São João Batista é explicada por uma série de elementos simbólicos compartilhados. Um dos principais é a relação com o fogo. Enquanto a fogueira ocupa lugar central nas celebrações juninas dedicadas ao santo católico, esse mesmo elemento também está fortemente presente nos atributos de Xangô.

Segundo o sacerdote Diego de Ogum, do Rio de Janeiro, outro ponto de aproximação entre as duas figuras está na ligação com os ciclos agrícolas e as colheitas.

"São João Batista está ligado ao elemento do fogo assim como Xangô aqui nas religiões de matriz africana. Ambos também têm ligação com colheita agrícola: São João com a colheita de milho aqui no Brasil nessa época de junho, e Xangô na Nigéria no mês de agosto com a colheita do inhame novo", explica à CNN Brasil.

Além das conexões com o fogo e a agricultura, tanto São João Batista quanto Xangô são associados à força, à liderança e à transformação. Essas semelhanças simbólicas contribuíram para que, ao longo da história, o santo católico fosse associado ao orixá em diferentes tradições religiosas, especialmente durante o processo de sincretismo desenvolvido no Brasil.

<><> O sincretismo varia conforme a tradição

É importante destacar que não existe uma associação única e universal entre santos e orixás. Dependendo da região do país, da casa religiosa e da tradição seguida, Xangô também pode ser relacionado a outros santos católicos, como São Jerônimo.

Da mesma forma, muitos terreiros, nos dias atuais, têm buscado valorizar cada vez mais as origens africanas dos orixás, reduzindo a necessidade do sincretismo e enfatizando a identidade própria dessas divindades.

"O sincretismo foi uma necessidade dos nossos antepassados. Hoje passamos por um processo de reafricanização que tem justamente como intuito a proximidade com nossas raízes", opina.

<><> Os símbolos e a história de Xangô

Na tradição iorubá, Xangô — ou Sàngó — é uma das divindades mais conhecidas e cultuadas. Sua imagem está associada à força, à liderança, à justiça e ao poder.

Entre seus principais símbolos está o Sèré, um tipo de chocalho utilizado em rituais, e o Oxê, machado de duas lâminas que representa sua autoridade. Outra representação importante é a chamada pedra de raio, conhecida como Edun Ara.

A tradição iorubá também apresenta Xangô como um grande rei do antigo reino de Oyó, lembrado por sua coragem, liderança e capacidade de enfrentar adversidades.

<><> O que oferecer a Xangô?

Para os praticantes que desejam homenagear o orixá, a principal comida votiva é o Amalá. De acordo com o sacerdote, a receita possui algumas diferenças entre o Brasil e a Nigéria.

"A comida votiva preferida de Sàngó é o Amalá, que em terras brasileiras é feito com quiabo e na Nigéria é feito com farinha de inhame seco", explica.

Tradicionalmente, o prato é acompanhado pelo Gbegiri, uma sopa preparada com feijão-fradinho sem casca, azeite de dendê e outros ingredientes.

•        De Jorge Ben Jor ao cinema: como Ogum influencia a cultura brasileira

Uma das figuras centrais nas religiões afro-brasileiras, Ogum ultrapassa os terreiros e se firma como uma presença marcante na cultura brasileira. Associado à guerra, ao ferro e à tecnologia, o orixá também simboliza, para os adeptos, caminhos abertos, proteção e resistência — elementos que atravessam a música, o cinema, a literatura e o imaginário popular.

Sincretizado em diversas regiões do Brasil com São Jorge, Ogum compartilha com o santo o dia 23 de abril como data de celebração. A escolha remete à morte de Jorge de Lida, um soldado romano que se recusou a renunciar à fé cristã e acabou condenado à execução pelo imperador Diocleciano, no ano de 303.

Cultuado especialmente no Candomblé e na Umbanda, Ogum é também associado à coragem e à abertura de caminhos, sendo visto como a força que impulsiona o enfrentamento dos desafios. Ligado ao ferro e aos instrumentos de trabalho, o orixá também carrega um simbolismo conectado ao progresso e à transformação, o que ajuda a compreender por que sua imagem atravessa diferentes manifestações culturais no Brasil.

<><> A força de Ogum na música brasileira

Na música, Ogum ganha voz e ritmo. Artistas como Jorge Ben Jor e Zeca Pagodinho ajudaram a popularizar referências ao orixá em canções que misturam samba e espiritualidade. Em suas letras, elementos da cultura afro-brasileira aparecem de forma natural, celebrando identidade, fé e ancestralidade.

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Outro exemplo é Clara Nunes, cuja carreira foi profundamente marcada pela valorização das religiões afro-brasileiras. Seu repertório inclui diversas homenagens aos orixás, contribuindo para levar esses símbolos a um público mais amplo e diverso.

Nomes como Mano Brown e Emicida também incorporam referências a Ogum e à ancestralidade africana em suas composições, conectando tradição e contemporaneidade.

<><> Do terreiro às telas: Ogum no cinema

O cinema brasileiro também dialoga com a simbologia de Ogum, seja de forma direta ou indireta. Produções que abordam a religiosidade afro-brasileira ou a identidade negra frequentemente recorrem à figura do orixá como símbolo de luta, resistência e proteção.

Um dos exemplos mais emblemáticos é "O Amuleto de Ogum" (1974), dirigido por Nelson Pereira dos Santos. O longa acompanha a trajetória de um jovem ligado à espiritualidade e à figura do orixá central, explorando temas como fé, destino e violência. A obra se tornou um marco ao trazer elementos das religiões afro-brasileiras para o centro da narrativa, em um período em que essas representações ainda eram pouco exploradas no audiovisual.

Filmes como "Besouro" (2009) também exploram o universo da capoeira e das tradições afro-brasileiras, onde a espiritualidade desempenha papel fundamental. Já em documentários e produções independentes, Ogum costuma surgir como metáfora para a superação e a força coletiva, reafirmando sua potência simbólica dentro e fora das telas.

<><> Tradição à mesa

Em muitas regiões do Brasil, a feijoada dedicada a Ogum se consolidou como uma tradição que vai além do aspecto religioso e ganha contornos culturais e comunitários. Servida em terreiros, festas e encontros, a chamada “feijoada de Ogum” reúne pessoas em torno da partilha e da celebração.

Essa prática, no entanto, seria uma adaptação brasileira dos rituais de culto ao orixá. No continente africano, as oferendas a Ogum costumam incluir alimentos como o inhame-cará, o que evidencia como as tradições se transformam ao longo do tempo e dos territórios.

Nesse contexto, a escolha da feijoada também dialoga com a própria história do prato no Brasil. Popularmente associada aos povos escravizados, a receita teria surgido a partir do aproveitamento de partes menos valorizadas do porco, combinadas ao feijão — ingredientes acessíveis que, com o tempo, deram origem a um dos símbolos da culinária nacional.

Ainda que historiadores apontem diferentes versões para essa origem, a narrativa permanece como um importante marcador de resistência e criatividade das populações negras durante o período da escravidão.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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