A
nova razão de Estado: quando as plataformas governam
Este
artigo também representa a continuidade de uma linha de investigação que venho
desenvolvendo nos últimos anos sobre guerra híbrida, operações psicológicas,
soberania informacional, plataformas digitais, inteligência artificial e as
transformações do poder na era da infraestrutura computacional. Ao longo desse
percurso, esses temas deram origem a pesquisas que, à primeira vista, pareciam
tratar de objetos distintos. O acontecimento desencadeado pela ameaça tarifária
de Donald Trump permite, pela primeira vez, reuni-los sob uma mesma chave
interpretativa. Mais do que inaugurar uma nova hipótese, este texto procura
demonstrar que esses processos sempre fizeram parte de uma única transformação
histórica: a mudança das condições materiais sobre as quais se exerce a
soberania no século XXI.
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O que Trump revelou?
Em 26
de junho de 2026, Donald Trump anunciou que os Estados Unidos poderão impor
tarifas de até 100% contra países que decidirem tributar ou ampliar a regulação
sobre grandes corporações tecnológicas americanas. À primeira vista, trata-se
de mais um capítulo da guerra comercial iniciada anos atrás entre Washington e
seus principais parceiros econômicos. Essa leitura, porém, perde o elemento
central do episódio. Trump não inaugurou uma nova política externa. Apenas
tornou explícita uma transformação histórica que vinha sendo construída
silenciosamente ao longo de mais de duas décadas. Pela primeira vez, um
presidente norte-americano assumiu de forma aberta que a expansão global de
corporações privadas de infraestrutura digital constitui um interesse estratégico
do Estado americano. A partir daquele momento, regular plataformas digitais
deixou de ser apenas uma questão tributária, concorrencial ou tecnológica.
Passou a significar, também, entrar em rota de colisão com a política externa
da maior potência do sistema internacional.
Essa
mudança altera profundamente a forma como devem ser interpretados
acontecimentos que, até então, pareciam desconectados. A disputa entre o
Supremo Tribunal Federal e as plataformas digitais, a revisão do artigo 19 do
Marco Civil da Internet, o avanço do Digital Services Act europeu, a guerra dos
semicondutores entre Estados Unidos e China, os contratos bilionários firmados
entre o Pentágono e empresas como Amazon, Microsoft, Google, Oracle, OpenAI,
Palantir e Anduril, assim como as pressões americanas contra iniciativas
nacionais de tributação digital, deixam de representar episódios isolados.
Todos passam a integrar um mesmo processo histórico: a disputa pelo controle da
infraestrutura digital sobre a qual se organizam a economia mundial, os
sistemas de inteligência, a capacidade militar, a circulação da informação e,
cada vez mais, o próprio exercício da soberania.
Durante
muito tempo, governos, analistas e boa parte da academia trataram Google,
Amazon, Meta, Microsoft, Nvidia, Apple e OpenAI como gigantes econômicos cuja
influência decorria do tamanho de seus mercados. Essa explicação tornou-se
insuficiente. Essas corporações deixaram de ocupar apenas posições dominantes
na economia digital. Hoje, controlam infraestruturas indispensáveis ao
funcionamento do capitalismo contemporâneo: computação em nuvem, inteligência
artificial, sistemas operacionais, ecossistemas móveis, publicidade digital,
modelos fundacionais de IA, capacidade computacional, chips avançados, redes
globais de dados e plataformas que intermediam parcelas crescentes da vida
econômica, política e social. A novidade histórica não está apenas na concentração
econômica, mas na natureza estratégica dessas infraestruturas.
É
justamente esse deslocamento que a ameaça de Trump ilumina. Ao prometer
retaliar economicamente países que decidam impor limites às grandes corporações
tecnológicas americanas, Washington revela que a proteção dessas empresas já
não responde apenas à lógica do mercado. Responde à lógica da razão de Estado.
Como em outros momentos da história, quando grandes potências mobilizaram sua
política externa para proteger rotas marítimas, reservas de petróleo, cadeias
industriais ou a estabilidade do dólar, os Estados Unidos passam a tratar sua
infraestrutura digital como um ativo estratégico cuja expansão internacional
deve ser garantida pelo poder político, econômico e diplomático do Estado.
Compreender essa transformação é indispensável para entender não apenas a
política externa americana, mas a própria natureza da disputa geopolítica que
definirá a soberania dos Estados no século XXI.
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Quando muda a base material, muda a razão de Estado
Toda
grande transformação da ordem internacional começa muito antes de aparecer nos
discursos dos chefes de Estado. Ela nasce nas mudanças da base material que
sustenta a acumulação de riqueza e, somente depois, reorganiza instituições,
estratégias nacionais e relações de poder. Foi assim com a Revolução
Industrial, quando ferrovias, carvão e siderurgia redefiniram a geopolítica
europeia. O mesmo ocorreu no século XX, quando petróleo, indústria pesada,
sistema financeiro internacional e capacidade militar passaram a estruturar a
hegemonia norte-americana. Nenhuma potência preservou sua posição apenas pela
força das armas. Todas protegeram, antes de tudo, a infraestrutura material que
tornava possível sua superioridade econômica, tecnológica e militar.
O
século XXI inaugura um novo deslocamento histórico. A infraestrutura
estratégica da economia mundial deixa de estar concentrada apenas em portos,
refinarias, fábricas ou bancos centrais. Passa a ser estruturada também por
computação em nuvem, inteligência artificial, semicondutores avançados, cabos
submarinos, data centers, sistemas operacionais, plataformas digitais, modelos
fundacionais e gigantescas capacidades de processamento de dados.
Essa
transformação altera, inevitavelmente, a própria natureza do Estado. A razão de
Estado sempre acompanhou a evolução da base material sobre a qual se organiza o
poder. Quando a riqueza dependia do controle das rotas oceânicas, as marinhas
tornaram-se prioridade nacional. Quando o petróleo passou a mover a indústria e
as guerras, garantir seu abastecimento transformou-se em objetivo permanente da
política externa das grandes potências. Agora, quando cadeias produtivas,
sistemas financeiros, inteligência militar, pesquisa científica, comunicações e
serviços públicos dependem de infraestrutura computacional distribuída
globalmente, proteger essa infraestrutura torna-se uma questão de sobrevivência
estratégica. É nesse ponto que a política externa deixa de enxergar grandes
corporações digitais apenas como empresas privadas e passa a tratá-las como
ativos indispensáveis à reprodução do poder nacional.
É
precisamente aqui que a ameaça tarifária de Donald Trump adquire significado
histórico. Ela não representa uma ruptura com a tradição estratégica dos
Estados Unidos, mas sua atualização diante de uma nova base material da
hegemonia. Ao prometer retaliar países que imponham limites regulatórios ou
tributários às grandes corporações americanas de infraestrutura digital,
Washington sinaliza que cloud, inteligência artificial, chips, plataformas e
capacidade computacional passaram a ocupar o mesmo patamar estratégico que, em
outras épocas, foi reservado ao petróleo, ao complexo industrial-militar, ao
dólar ou às rotas marítimas. A disputa pela soberania digital, portanto, não
nasce de um debate tecnológico. Ela emerge da transformação histórica das
condições materiais que sustentam o exercício do poder no sistema
internacional.
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As corporações deixaram de disputar mercados. Passaram a disputar soberania
Durante
décadas, as grandes empresas de tecnologia foram compreendidas como atores
econômicos extraordinariamente bem-sucedidos. Google dominava o mercado de
buscas; Microsoft, os sistemas operacionais; Amazon, o comércio eletrônico;
Apple, os dispositivos móveis; Meta, as redes sociais. Essa classificação
tornou-se insuficiente. A transformação ocorrida na última década modificou
profundamente a natureza dessas corporações. Elas deixaram de controlar apenas
mercados para controlar infraestruturas indispensáveis ao funcionamento de
Estados, empresas, universidades, sistemas financeiros, hospitais, forças
armadas e serviços públicos.
A
computação em nuvem talvez seja a demonstração mais evidente dessa mudança. Em
dezembro de 2022, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos anunciou o
programa Joint Warfighting Cloud Capability (JWCC), distribuindo contratos
bilionários entre Amazon Web Services, Microsoft Azure, Google Cloud e Oracle.
O objetivo era construir a infraestrutura computacional que sustentará
operações militares em todos os níveis de classificação, do ambiente
administrativo às operações estratégicas e de combate. Não se trata da compra
de softwares. Trata-se da terceirização de uma parcela significativa da
infraestrutura digital sobre a qual passa a operar o maior aparato militar do
planeta. Quando a capacidade de processamento de dados, inteligência e comando
depende de plataformas privadas, essas empresas deixam definitivamente a
condição de fornecedoras convencionais para ocupar posição estratégica na
arquitetura do poder estatal.
O mesmo
movimento ocorre no campo da inteligência artificial. Em 2025, a OpenAI firmou
contrato com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos para desenvolver
aplicações voltadas à segurança nacional. Pouco depois, outras empresas de IA
passaram a integrar programas federais destinados à modernização das
capacidades militares americanas. Paralelamente, companhias como Palantir
consolidaram-se como fornecedoras permanentes de sistemas de análise de dados
para inteligência, defesa e segurança pública, enquanto a Anduril expandiu
rapidamente sua atuação na produção de tecnologias autônomas para uso militar.
O que une essas empresas não é o setor em que atuam, mas a função estratégica
que passaram a desempenhar: fornecer a infraestrutura computacional sobre a
qual o Estado organiza capacidades essenciais de defesa, vigilância, logística,
comando e decisão.
A
transformação não se limita ao campo militar. Google e Microsoft estruturam
serviços utilizados por governos em dezenas de países; Amazon concentra parte
expressiva da infraestrutura mundial de computação em nuvem; Nvidia tornou-se
peça central da cadeia global de inteligência artificial ao controlar a
produção dos chips mais avançados do planeta; Apple e Google administram os
dois principais ecossistemas móveis da economia digital; Meta opera plataformas
que concentram bilhões de usuários e organizam fluxos globais de informação.
Nenhuma dessas empresas atua apenas em seu mercado original. Todas passaram a
ocupar posições estruturais na infraestrutura computacional que sustenta o
capitalismo contemporâneo.
É
justamente essa mudança que explica por que Washington passou a tratá-las de
forma distinta. O Estado americano não protege essas corporações apenas porque
elas geram empregos, impostos ou inovação tecnológica. Protege-as porque sua
capacidade econômica, militar, científica e geopolítica tornou-se
crescentemente dependente das infraestruturas que elas controlam. A ameaça
tarifária de Donald Trump representa, portanto, a expressão política de uma
transformação material muito mais profunda. Quando essas corporações passam a
sustentar o funcionamento da economia, da defesa, da inteligência e da
administração pública, sua expansão internacional deixa de ser apenas um
objetivo empresarial. Torna-se parte da própria estratégia de reprodução da
hegemonia americana.
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Trump apenas disse em voz alta
Durante
anos, a defesa internacional das grandes corporações tecnológicas americanas
ocorreu de forma difusa, quase sempre apresentada como parte da proteção ao
livre comércio, à inovação ou à competitividade internacional. Antes de Donald
Trump, diferentes administrações recorreram a negociações diplomáticas,
disputas na Organização Mundial do Comércio, investigações conduzidas pelo
Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), acordos
bilaterais e pressão econômica para contestar iniciativas nacionais que
buscavam ampliar a tributação ou a regulação das plataformas digitais. A
novidade de 2026 não está, portanto, na existência dessa política. Está na
maneira como ela passou a ser formulada.
Ao
anunciar a possibilidade de impor tarifas de até 100% contra países que
decidissem tributar ou ampliar a regulação sobre grandes corporações
tecnológicas americanas, Trump eliminou a linguagem técnica que até então
envolvia esse conflito. A mensagem tornou-se direta: limitar a expansão dessas
empresas passaria a produzir consequências econômicas para Estados soberanos. O
episódio marcou uma inflexão simbólica importante porque transformou uma
disputa regulatória em uma questão explícita de política externa e de coerção
comercial. O que antes aparecia disperso em documentos técnicos, negociações
multilaterais e procedimentos administrativos passou a ser anunciado como
prioridade estratégica da própria presidência dos Estados Unidos.
Essa
transformação pode ser observada retrospectivamente. Desde 2019, o USTR abriu
investigações com base na Section 301 contra impostos sobre serviços digitais
adotados por países como França, Índia, Itália, Espanha, Turquia, Áustria e
Reino Unido, sob o argumento de que essas medidas discriminavam empresas
americanas. Em paralelo, Washington pressionou sucessivamente as negociações
conduzidas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE), buscando limitar iniciativas nacionais de tributação digital e deslocar
o debate para uma solução multilateral mais favorável aos interesses
americanos. O objetivo permanecia o mesmo: impedir que Estados nacionais
estabelecessem regras capazes de reduzir a capacidade de expansão internacional
das grandes corporações digitais sediadas nos Estados Unidos.
Ao
mesmo tempo, a União Europeia avançava em direção oposta. A aprovação do
Digital Services Act, do Digital Markets Act e, posteriormente, do AI Act
representou a tentativa mais ambiciosa já realizada por um bloco econômico para
recuperar capacidade regulatória sobre plataformas digitais. Pela primeira vez,
grandes corporações passaram a enfrentar obrigações relacionadas à
transparência algorítmica, mitigação de riscos sistêmicos, acesso de
pesquisadores a dados, responsabilidade sobre conteúdos e fiscalização
permanente por autoridades públicas. O conflito deixava de ser tributário.
Tornava-se uma disputa sobre jurisdição, soberania e capacidade dos Estados de
impor limites a infraestruturas privadas transnacionais.
Para
Washington, a defesa internacional das grandes corporações de infraestrutura
digital já não constitui apenas uma agenda comercial. Constitui uma questão
estratégica de Estado. Quando tarifas passam a ser mobilizadas para proteger
plataformas, provedores de computação em nuvem, empresas de inteligência
artificial e fabricantes de semicondutores, a política externa americana revela
uma mudança qualitativa. O conflito deixa de ocorrer apenas entre empresas e
reguladores. Passa a opor projetos distintos de soberania. De um lado, Estados
que buscam recuperar capacidade de governança sobre a infraestrutura digital
presente em seus territórios. De outro, a potência que abriga as principais
corporações responsáveis por essa infraestrutura e que, cada vez mais, utiliza
seu peso econômico, diplomático e comercial para preservar sua expansão global.
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O Brasil tornou-se um laboratório da disputa
Se a
ameaça tarifária de Donald Trump tornou explícita a nova razão de Estado
americana, o Brasil talvez seja um dos países onde essa transformação pode ser
observada com maior nitidez. Nos últimos anos, poucas democracias concentraram,
simultaneamente, disputas tão profundas sobre responsabilidade das plataformas
digitais, inteligência artificial, tributação da economia digital, proteção de
dados, infraestrutura computacional e soberania regulatória. Longe de
constituírem episódios isolados, esses conflitos revelam a emergência de uma
mesma contradição histórica: a tentativa de reconstruir capacidade estatal
sobre infraestruturas privadas que passaram a exercer funções essenciais para a
organização da vida econômica, política e social.
A
decisão do Supremo Tribunal Federal de redefinir a interpretação do artigo 19
do Marco Civil da Internet representa um dos momentos mais importantes desse
processo. Ao reconhecer que grandes plataformas podem responder civilmente em
determinadas circunstâncias mesmo antes de decisão judicial específica, a Corte
deslocou o centro do debate. A questão deixou de ser apenas liberdade de
expressão ou moderação de conteúdo. Passou a envolver o reconhecimento de que
plataformas digitais desempenham funções estruturais na esfera pública e,
justamente por isso, não podem permanecer completamente apartadas das
responsabilidades inerentes à vida democrática. A posterior regulamentação
editada pelo Poder Executivo, fortalecendo o papel da Autoridade Nacional de
Proteção de Dados na fiscalização dessas atividades, reforça a percepção de que
o Estado brasileiro busca reconstruir instrumentos institucionais de governança
sobre uma infraestrutura que já ultrapassa o campo privado.
Essa
tentativa, entretanto, encontra limites que extrapolam a política doméstica. Em
2025, reportagens revelaram que o governo brasileiro adiou propostas de
tributação sobre grandes plataformas digitais em meio às negociações comerciais
com Washington, diante do receio de ampliar tensões com a administração Trump.
O episódio ilustra uma mudança qualitativa da disputa. A capacidade de um
Estado nacional definir regras para empresas que operam em seu território passa
a sofrer influência direta da política externa da potência que abriga essas
corporações. A soberania regulatória deixa de depender apenas do equilíbrio
interno entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Passa também a enfrentar
constrangimentos produzidos pela crescente associação entre interesses
corporativos e interesses estratégicos do Estado americano.
O
Brasil ocupa posição singular nesse processo porque reúne características
raramente presentes em um mesmo país. É uma das maiores democracias do mundo,
possui mercado digital de dimensão continental, concentra centenas de milhões
de usuários das principais plataformas globais, tornou-se protagonista nas
discussões internacionais sobre regulação da economia digital e integra o
BRICS, bloco que busca ampliar a autonomia tecnológica e política do Sul
Global. Ao mesmo tempo, depende fortemente de infraestrutura computacional
controlada por corporações estrangeiras, desde serviços de computação em nuvem
até modelos de inteligência artificial e ecossistemas digitais que estruturam
parte significativa da economia nacional. Essa combinação transforma o país em
um espaço privilegiado para observar a tensão entre soberania jurídica e
dependência material.
É
justamente por isso que o debate brasileiro transcende as fronteiras nacionais.
O que está em disputa não é apenas a redação de uma lei, a competência de uma
agência reguladora ou a responsabilidade civil de uma plataforma específica. O
que se observa é um dos primeiros grandes testes da capacidade de um Estado
periférico reconstruir jurisdição sobre infraestruturas digitais transnacionais
cuja expansão passou a integrar a estratégia geopolítica da principal potência
do sistema internacional. Por isso, o Brasil deixou de ser apenas um observador
dessa transformação histórica. Tornou-se um dos territórios onde se decidirá,
na prática, até onde um Estado nacional ainda é capaz de exercer soberania
sobre infraestruturas digitais controladas por corporações transnacionais.
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A soberania do século XXI
Ao
longo da história, a soberania nunca foi uma categoria abstrata. Ela sempre
dependeu das condições materiais que permitiam aos Estados exercer autoridade
sobre seus territórios, proteger suas economias e projetar poder para além de
suas fronteiras. Em diferentes momentos, essas condições estiveram associadas
ao controle da terra, das rotas marítimas, da capacidade industrial, das
reservas energéticas, da moeda internacional ou da superioridade militar. Cada
transformação da base material da economia reorganizou também a própria ideia
de soberania. O século XXI não rompe com essa lógica histórica. Apenas desloca
seu eixo para uma nova infraestrutura: a capacidade computacional.
Esse
deslocamento produz uma mudança profunda na forma como deve ser compreendida a
autonomia dos Estados. Leis, constituições, tribunais, parlamentos e governos
continuam indispensáveis, mas deixam de ser suficientes quando parcelas
crescentes da economia, da administração pública, da comunicação, da
inteligência, da pesquisa científica e até da capacidade militar passam a
depender de infraestruturas digitais controladas por corporações
transnacionais. A soberania deixa de ser apenas uma questão jurídica. Torna-se,
cada vez mais, uma questão material. Quem não controla capacidade
computacional, infraestrutura em nuvem, sistemas de inteligência artificial,
produção de semicondutores, redes de dados e plataformas estratégicas passa a
exercer sua autoridade dentro de limites definidos por estruturas que escapam
ao seu próprio território.
É
justamente nesse ponto que a ameaça tarifária de Donald Trump adquire
significado histórico. Ao transformar a defesa internacional das grandes
corporações de infraestrutura digital em instrumento explícito de política
externa, Washington sinaliza que essas empresas passaram a ocupar posição
equivalente àquela que, em outros períodos, foi reservada ao petróleo, ao
dólar, à indústria pesada ou ao complexo militar-industrial. Não se trata de
afirmar que o Estado americano tenha sido substituído pelas plataformas ou que
interesses públicos e privados tenham deixado de produzir tensões e disputas. O
que se observa é um processo diferente: à medida que a infraestrutura digital
se converte em condição material da hegemonia, sua proteção passa a integrar os
objetivos estratégicos do próprio Estado.
Essa
transformação impõe um desafio inédito ao Brasil e ao conjunto do Sul Global. A
discussão já não se resume à regulação das plataformas, à tributação da
economia digital ou à responsabilização de empresas por conteúdos publicados em
seus serviços. O problema tornou-se estrutural. A capacidade de formular
políticas públicas, proteger dados estratégicos, desenvolver inteligência
artificial, expandir infraestrutura computacional, formar capacidades
industriais e preservar autonomia decisória passa a integrar o próprio conceito
de desenvolvimento nacional. Em outras palavras, soberania digital deixa de ser
um capítulo das políticas de tecnologia para tornar-se um capítulo das
estratégias nacionais de desenvolvimento.
Pela
primeira vez, a maior potência do sistema internacional afirma de forma aberta
que proteger a expansão global de suas corporações de infraestrutura digital
constitui um interesse estratégico de Estado. É essa explicitação que
transforma um episódio de política comercial em um marco histórico. A disputa
central do século XXI já não ocorre apenas em torno de fronteiras, mercados ou
recursos naturais. Ela passa pelo controle da infraestrutura que organiza a
economia, a informação, a inteligência, a guerra e a própria capacidade dos
Estados de exercer soberania. Para o Brasil e o Sul Global, compreender essa
transformação deixou de ser apenas um exercício analítico. Tornou-se uma
condição para disputar, com autonomia, seu lugar na arquitetura do poder mundial.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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