terça-feira, 30 de junho de 2026

Paulo Nogueira Batista Jr.: A China não improvisa

Tomo a visita de 10 dias que fiz a Shanghai como ponto de partida para este artigo. Acabei de chegar e ainda luto com o fuso horário (a viagem de volta foi de 39 horas porta a porta). Assim, o artigo será talvez ainda mais incoerente do que de costume. Mas, enfim, vamos lá.

A China está em pleno processo de redefinição das suas relações com o resto do mundo, com o Ocidente em particular. Nas primeiras três ou quatro décadas do período de reforma e abertura econômica iniciado por Deng Xiaoping em 1979, a China buscava uma “ascensão pacífica” no interior do quadro internacional estabelecido sob a égide dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. E foi inicialmente muito bem-sucedida nesse propósito. Evitava sistematicamente confrontações com os Estados Unidos e outras nações, posicionando-se com prudência e paciência estratégicas. Deng adotava como lema uma máxima chinesa clássica – “esconda a força, espere a hora”. Como representante do Brasil em reuniões dos BRICS, na fase de formação do grupo de 2008 em diante, posso dar o meu testemunho de que os delegados chineses, sem exceção, obedecendo a um comando superior, evitavam a todo custo qualquer linguagem ou iniciativa que fosse mais agressiva em relação ao Ocidente ou que pudesse ser interpretada como tal. A China se posicionava como uma potência reformista – cautelosamente reformista, tanto na retórica como nas propostas. Às vezes, passava-nos a impressão de que dava precedência a um entendimento estratégico com os Estados Unidos – à formação de um G-2, como se dizia na época – mesmo que isso sacrificasse a articulação entre os BRICS.

O G-2 nunca viria a se constituir. Os Estados Unidos preferiram partir para uma política de contenção e confrontação, começando no primeiro mandato de Donald Trump, de 2017 a 2020, continuando com Joe Biden, de 2021 a 2024, e se intensificando de modo dramático no segundo mandato de Trump desde o ano passado. Formou-se um sólido consenso bipartidário de que a China precisa ser freada. Os Estados Unidos passaram a ver o país como rival e principal ameaça, adotando de caso pensado uma série de medidas desenhadas para solapar a China nas áreas comercial, tecnológica, militar e diplomática,

Desde o primeiro governo Trump pelo menos, e provavelmente antes disso, a China reconheceu que a estratégia de “esconder a força e esperar a hora” não era mais viável. A China tornara-se grande demais, chegando a ultrapassar os Estados Unidos em termos econômicos (quando se comparam os PIBs medidos por paridade de poder de compra) e comerciais (a China virou o principal parceiro comercial para a maioria dos países do mundo). O rápido desenvolvimento despertou invejas e suspeitas. O país passou a ser alvo de intrigas, manobras diplomáticas e agressões.

Mas a China não abandonou a sua cautela estratégica. Continuou evitando conflitos sempre que possível. Prevalece o cuidado com as palavras e ações, mesmo quando o país está sob ataque ou enfrenta hostilidade sistemática. Em meio às turbulências, os chineses mantêm o seu estilo tradicional de lidar com desafios estratégicos que Henry Kissinger, em seu célebre livro Sobre a China, descreveu como uma combinação de análise minuciosa, preparação detalhada e atenção a fatores psicológicos e políticos.

Uma parte da preparação chinesa, que se revelaria decisiva em 2026, foi a formação de reservas estratégicas de petróleo. Graças a isso, a China sofre relativamente pouco com o choque de preços do petróleo desencadeado pela guerra do Irã. Continuam imensas também as reservas monetárias do país, hoje menos expostas a confiscos e sanções. Boa parte dessas reservas internacionais estão ocultas, tendo sido transferidas pelo Banco Central para bancos comerciais e outros bancos públicos. Esses bancos públicos também compram moeda estrangeira no mercado cambial, em coordenação com o Banco Central, para evitar apreciação indesejada da moeda nacional. Além disso, a China começou a construir sistemas de pagamentos transfronteiriços como alternativa aos sistemas controlados pelo Ocidente, que têm sido usado para punir e sancionar países considerados hostis. Cresceu também o uso do renminbi em transações internacionais da China. Quase 100% do comércio Rússia/China, por exemplo, se faz atualmente em rublos e renminbi.

Assim, como logo ficaria evidente, a China estava bem posicionada para enfrentar a tempestade desencadeada pelo governo Trump no seu segundo mandato. Trump veio com tudo, usando de maneira mais radical os instrumentos já usados contra a China no seu primeiro mandato. Encontrou, contudo, um adversário mais disposto a brigar e mais capaz de enfrentar embates internacionais. Sob Xi Jinping, a China aparece como um adversário que sabe se defender com grande eficácia e, mais do que isso, conhece as vulnerabilidades da superpotência e dos seus aliados e satélites. Não só conhece, como está disposta a explorá-las toda vez que sofre alguma investida dos Estados Unidos ou de outros países.

A ninguém escapa que a China vem levando a melhor nessa confrontação com os Estado Unidos. E isso não apenas pelas suas qualidades e pontos fortes, mas também por causa dos erros do adversário. Os EUA, superestimando a própria força, abriram ao mesmo tempo frentes de conflito com a Rússia, a China e o Irã. Promoveram assim o estreitamento da aliança entre os três países. E pior: estão perdendo nas três frentes. A guerra contra o Irã, em especial, parece ser um marco. Em retrospecto, como muitos têm notado, poderá ser vista como o prenúncio do fim do Império Americano.

A China não só segue estratégias consistentes, como também sabe manobrar taticamente. Joga parada, quando conveniente, aproveitando os erros dos adversários. Os chineses seguem a máxima atribuída a Napoleão Bonaparte: “Nunca interrompa um adversário quando ele estiver cometendo um erro.” Não existe, ao que parece, evidência confiável de que Napoleão realmente disse ou escreveu isso, mas esta máxima ocidental apócrifa é inteiramente consistente com o pensamento militar clássico chinês, tal como expresso notadamente por Sun Tzu em A Arte da Guerra, inclusive por exemplo na frase que aparece em epígrafe.

A China muda, evolui, se adapta aos desafios que vão aparecendo, mas preserva ao mesmo tempo as suas tradições filosóficas e a sua cultura milenar. Não descarta Confúcio, nem Mao Tsé-Tung. Não se apega irrefletidamente ao passado, mas também não abandona suas raízes.

A sua ascensão, não mais pacífica, mas crescentemente conflitiva, deve continuar sem interrupção.

¨      Aos olhos dos estrangeiros: o que mobiliza os jovens em uma China em transformação. Por Chen Ziqi

Em todo o mundo, a força de um partido governante costuma ser medida por números: índices de aprovação, indicadores econômicos ou pesquisas de opinião pública.

Na China, outro indicador chama atenção: o número de membros do Partido que cresce a cada ano.

Entre 2020 e 2024, dados oficiais mostram um aumento gradual no número de filiados ao Partido Comunista da China (PCCh), com mais de 80% dos novos membros com menos de 35 anos.

Isso levanta uma questão: como o PCCh continua atraindo a geração mais jovem na sociedade atual, marcada por rápidas transformações?

Uma forma de explorar essa questão não é por meio de políticas abstratas, mas pelas experiências vividas por amigos estrangeiros que foram à China e testemunharam sua transformação diretamente, em diferentes períodos.

Edgar Snow foi o primeiro jornalista internacional a viajar para as bases revolucionárias do Partido Comunista da China no norte de Shaanxi, em 1936. Um ano depois, publicou Red Star over China (Estrela Vermelha sobre a China), um dos primeiros relatos ocidentais de primeira mão sobre a Revolução Chinesa.

Ao buscar compreender o que era o PCCh em uma época em que ainda era pouco conhecido ou frequentemente retratado de forma equivocada como um bando de fora da lei, o livro de Snow alcançou um amplo público internacional e vendeu mais de 100 mil exemplares no Reino Unido após sua publicação.

Àquela altura, o Exército Vermelho havia acabado de concluir sua famosa Longa Marcha, uma retirada de dois anos por alguns dos terrenos mais difíceis do interior da China para escapar das campanhas de cerco das forças do Kuomintang.

Ao longo do caminho, mais da metade dos soldados morreu em batalhas, de fome e em condições extremas, enquanto atravessavam montanhas cobertas de neve, rios caudalosos e vastas extensões de terras acidentadas, com suprimentos limitados.

Ainda assim, o movimento continuou atraindo o apoio fiel de muitos que frequentemente estavam dispostos a perder a própria vida, mesmo com o Exército Vermelho mal equipado e em grande desvantagem numérica.

A chegada de Snow à base revolucionária foi recebida pelos principais líderes do partido, que viram uma oportunidade de apresentar sua perspectiva ao mundo exterior. Ele recebeu acesso e apoio de Zhou Enlai, que mais tarde se tornaria o primeiro primeiro-ministro da República Popular da China, e que o incentivou a relatar abertamente o que via.

Durante sua visita de quatro meses, o jornalista entrevistou altos dirigentes do PCCh e moradores locais. Também visitou acampamentos militares, escolas e fábricas locais, registrando suas observações e conversas em seu livro.

Naquela época, a China ainda era uma sociedade predominantemente rural, na qual a imensa maioria da população era formada por camponeses. Para entender por que muitos deles apoiavam o Exército Vermelho, Snow frequentemente conversava informalmente com moradores locais, jovens e idosos. Os agricultores eram comunicativos e curiosos sobre as práticas agrícolas em seu país, e alguns chegaram a perguntar se esterco de cabra era usado como fertilizante.

À medida que passava mais tempo entre eles, Snow começou a fazer sua pergunta central: por que apoiavam aquele movimento?

Muitos moradores começaram a falar ao mesmo tempo, recordando anos de fome e dificuldades antes de sua chegada. Falaram sobre impostos pesados e aluguéis de terra que, no passado, obrigavam famílias a vender gado, colheitas e, em alguns casos, até suas filhas.

Em contraste, descreveram como o exército ajudou a aliviar esses fardos, ensinou-os a ler e escrever e trabalhou para garantir que as pessoas tivessem alimento suficiente para as necessidades diárias nas comunidades locais.

Da sobrevivência no limite a condições de vida mais estáveis, alguns moradores se referiram a ele como “o exército dos pobres, que luta pelos direitos do povo”, expressão registrada no livro de Edgar Snow. A descrição refletia o vínculo estreito entre soldados e civis.

Esse sentimento de afeto evoluiu para uma forte unidade, à medida que muitos agricultores e até adolescentes se juntaram às fileiras para defender seus próprios direitos. Em suas conversas com comandantes comunistas, Snow observou um senso de disciplina e coesão entre os soldados, além de um alto grau de comprometimento com objetivos coletivos durante as campanhas revolucionárias.

Em seu relato sobre a travessia do rio Dadu, um dos rios mais perigosos e de correnteza mais forte da China, Snow descreveu uma situação em que o Exército Vermelho não podia se dar ao luxo de fracassar, pois a derrota provavelmente significaria sua destruição.

Os comandantes compreenderam a importância da mobilidade rápida, extraindo lições de fracassos históricos anteriores em travessias semelhantes do rio Dadu. Também conseguiram construir cooperação com comunidades étnicas locais ao longo da rota, transformando uma possível hostilidade em aliança. Paralelamente a essas decisões, pequenos grupos de soldados se voluntariaram para executar operações de alto risco em pontos críticos, muitas vezes sob fogo intenso, a fim de garantir a passagem da força maior.

Na descrição de Snow, foi essa combinação de julgamento militar eficaz e disciplina em campo de batalha que permitiu ao Exército Vermelho triunfar no que era amplamente considerado uma travessia quase impossível.

As observações de Snow também apontaram para outra dimensão do movimento: o papel dos jovens. Ao chegar à área da base, algumas das primeiras pessoas que encontrou foram jovens mensageiros que lhe levavam refeições. Logo percebeu que adolescentes desempenhavam um papel ativo nas operações diárias, servindo como mensageiros, batedores, ordenanças e enfermeiros, muitos dos quais mais tarde se tornariam membros efetivos do Exército Vermelho. Ele os descreveu como “alegres, enérgicos e leais — o espírito vivo de uma surpreendente cruzada da juventude”.

Em conjunto, o relato de Snow ofereceu uma rara visão externa de um movimento ainda pouco compreendido naquela época. Dos moradores que explicavam suas razões para aderir ao movimento aos jovens voluntários que se dedicavam às bases, passando pelos comandantes que tomavam decisões rápidas sob extrema pressão de guerra, ele observou uma sociedade moldada pela adversidade, mas unida pela organização e por um propósito compartilhado.

Se Snow tentou compreender um movimento por meio das pessoas que encontrou nos vilarejos, Hansen Nico René se viu, décadas depois, observando por dentro um tipo diferente de transformação.

Em 2018, Hansen, um policial aposentado de Luxemburgo, chegou quase por acaso à aldeia de Zhadong, em Guangxi. Ele havia ido admirar a paisagem dramática da região, com montanhas verdes imponentes, neblina pairando pelos vales e florestas que pareciam se dobrar nas nuvens.

O que ele não esperava era permanecer ali por oito anos.

Um aviso convocando voluntários para ajudar no cultivo de maracujá, em uma iniciativa ligada ao combate à pobreza, chamou sua atenção pela primeira vez. Curioso, ele seguiu por um caminho mais adentro da aldeia e logo conheceu Xie Wanju, o primeiro secretário do Partido no vilarejo.

Desde o primeiro encontro, Hansen percebeu algo que permaneceria com ele: Xie não era um homem que apenas administrava uma aldeia, mas alguém que trabalhava nela, vivia nela e enfrentava seus desafios como se fossem seus.

Hansen disse que esse senso de dedicação o fez perceber o quanto uma aldeia podia ser profundamente transformada quando sua liderança estava plenamente comprometida com seu povo.

Hansen ainda se lembra vividamente de um momento. Um veículo de transporte carregado de fertilizante ficou preso em uma estrada estreita na montanha. Sem máquinas disponíveis, Xie correu até o local e se juntou a mais de uma dúzia de moradores para amarrar cordas ao veículo e puxá-lo manualmente.

Eles passaram as cordas sobre os ombros e inclinaram o corpo contra o peso, movendo o veículo centímetro por centímetro. A cada esforço, as veias saltavam em suas testas enquanto gritavam em uníssono: “Um, dois, três”.

Era um trabalho exaustivo. No entanto, quando o veículo finalmente se soltou, o grupo abriu largos sorrisos.

Hansen afirma que Xie Wanju é dedicado a melhorar o padrão de vida da região. Mas, em Zhadong, melhorar as condições de vida nunca foi simplesmente uma meta política, e sim uma resposta às limitações impostas pela própria terra.

Para Zhadong, a vida por muito tempo esteve condicionada pela geografia. Situada entre montanhas íngremes, com pouca terra arável e acesso difícil aos mercados externos, a aldeia havia enfrentado ampla pobreza, com mais da metade de seus moradores vivendo abaixo da linha da pobreza.

Por necessidade, líderes locais vinham buscando atividades econômicas capazes de se desenvolver naquele tipo de terreno, e o maracujá se tornou uma das principais experiências.

Hansen se juntou a Xie nos campos quase imediatamente. Ao lado dos moradores, eles afofaram a terra, plantaram mudas e construíram treliças sob o calor sufocante do verão. Muitos jovens já haviam partido para as cidades, de modo que boa parte do trabalho recaiu sobre os que permaneceram, trabalhando lado a lado com voluntários como Hansen.

A primeira colheita de maracujá trouxe esperança. A fruta se desenvolveu bem, e as rendas começaram a subir. Animados, mais moradores ampliaram o cultivo. Mas a agricultura raramente segue uma trajetória linear.

Pragas logo se espalharam pelos campos, danificando folhas e ameaçando a colheita. Um especialista agrícola foi chamado e alertou que medidas preventivas deveriam ter sido tomadas mais cedo no ciclo de crescimento. Agora, era uma corrida contra o tempo.

Sob pressão, Xie ficou visivelmente preocupado, não consigo mesmo, observou Hansen, mas com os moradores cujas esperanças estavam depositadas naquela safra.

Sem hesitar, Xie e Hansen trabalharam ao lado do especialista para ajustar a resposta: fortaleceram as plantas com fertilizantes, podaram galhos afetados e reforçaram as rotinas de cuidado para salvar o que fosse possível.

Quando a temporada de colheita voltou, para ajudar a fruta a chegar a mercados mais distantes, Xie, junto com líderes de aldeias vizinhas, ajudou a criar canais de venda online e promoções por transmissão ao vivo para conectar a produção rural aos consumidores.

Além do maracujá, Xie e sua equipe se deslocavam constantemente entre as casas, verificando as condições dos animais, ajudando a construir pocilgas, tratando animais doentes com apoio veterinário e estudando a demanda de mercado pelos porcos pretos locais para garantir melhores vendas. Cada tarefa, grande ou pequena, era encarada com o mesmo compromisso: tornar os meios de vida rurais mais estáveis e sustentáveis.

Com o tempo, os resultados se tornaram visíveis. Em novembro de 2020, a aldeia de Zhadong foi oficialmente retirada da pobreza. Para muitos moradores, isso não representou um ponto final, mas um ponto de virada.

Depois disso, Xie Wanju começou a trabalhar em outra aldeia chamada Lianhua, em Guangxi, e Hansen decidiu segui-lo, continuando a apoiar os esforços de desenvolvimento rural ao seu lado.

Para Hansen, os anos em Guangxi remodelaram sua compreensão sobre como o desenvolvimento pode se manifestar no nível de uma aldeia. O que mais o impressionou não foi um único projeto ou uma colheita, mas o exemplo de um líder local que trabalhava ombro a ombro com os moradores, persistindo diante das incertezas, tratando cada revés como algo a ser resolvido coletivamente e colocando o futuro da aldeia no centro de cada decisão.

Eram tempos e contextos diferentes — as jornadas de Snow pelas bases em tempos de guerra e os anos de Hansen em uma aldeia rural de Guangxi —, mas um padrão semelhante emerge: pessoas que entram em contato próximo com a China frequentemente conhecem sua sociedade por meio de vidas cotidianas marcadas por resiliência, cooperação e mudança.

Vistas por meio dessas experiências individuais, a pergunta levantada no início retorna de forma mais discreta, não como estatística ou slogan, mas nos momentos comuns em que a mudança é sentida, mais do que explicada.

 

Fonte: Brasil 247

 

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